Tag: Vol. XIII nº 72

A liberdade é o único caminho

8 de novembro de 2021 Críticas

 “Por isto o quilombo desfila/
Devolvendo em seu estandarte/
As histórias de suas origens/
Ao povo em forma de arte”.

Ao Povo Em Forma de Arte
(LOPES, MOREIRA, 1980)

 

O espetáculo infanto-juvenil Nuang – Caminhos da Liberdade, com direção e dramaturgia de Tatiana Henrique, é baseado no livro homônimo de Janine Rodrigues. Criado para ser apresentado em plataformas virtuais, Nuang clama pela presença dos espectadores devido à circularidade proposta no espaço cênico e aos inúmeros apelos sensoriais que conferem movimentação à cena. Trata-se de um grande desafio inadiável de contar uma difícil história sobre uma criança negra para crianças negras e de conscientizar as crianças não negras. Embora seja voltado para o público infanto-juvenil, o discurso do espetáculo é pertinente para todas as idades por abordar as graves consequências da falta de liberdade para as populações negras desde a escravização até os dias de hoje. Num país como o Brasil, que mais escravizou corpos negros e foi o último a abolir a escravidão, o mito da democracia racial muito tem a ver com o fato de não terem sido formuladas perguntas fundamentais sobre a colonização ao longo da História. Então é necessário recontar essa história, expor as perguntas e elaborar as respostas.

QSL, Câmbio… ou O dia em que estabelecemos contato

3 de novembro de 2021 Críticas

Início

Personagens ou Figuras ou Personas ou Avatares ou … :

Flash 

Conexão 

Frequência 

GO

 

Conexão 

(…) Compreendi tudo no instante, mas, pela multiplicidade das circunstâncias, durou pouco tal clareza, cedendo lugar à completa confusão que ora me ocupa a mente (…) Enquanto observava aquele mapa, esperando que o rapazinho acrescentasse ainda alguma explicação, agitado que estava pela surpresa de tudo quanto vira, pareceu-me que soassem as Ave-Marias, ao alvorecer. Despertando, percebi que eram os sinos da paróquia de São Benigno. O sonho durara a noite inteira.

Em tempo, imaginar, espectar…

29 de outubro de 2021 Críticas

Sentada na plateia da sala Garrett, do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, na penúltima fileira do lado direito da plateia, com duas cadeiras ao meu lado, demarcadas com cintas de isolamento, minha bolsa, pesada, sob uma delas, eu aguardo o início da apresentação da nova Coleção de Raquel André, de Espectador_s.

Enquanto aguardo, me pergunto se fiz bem em sair de casa nesses tempos pandêmicos, eu que tenho ânsias de esganar as pessoas que estão pelas ruas desavergonhadamente aglomeradas e sem máscaras, como se nunca tivessem ouvido a palavra pandemia na vida. Me sinto irresponsável por estar ali, descompromissada com a atitude ética que, acredito, devemos ter com as mais de 600 mil vidas ceifadas pelo genocida do meu país, com a não menos pior condição dos indianos, dos africanos (em todo o continente), das pessoas nos países onde a vacina ainda demora, ainda tarda, ainda não chega, com os 48 concelhos portugueses em risco muito alto (naquele momento eram 48; hoje, quando escrevo, já são mais de 115, e a contagem só sobe; tomara que até a publicação ela diminua). 

Arquivo inventado e a cena como máquina do tempo em Cancioneiro Terminal

18 de outubro de 2021 Estudos

Olhando agora essas imagens pensamos que elas, assim como as legendas,
serão sempre insuficientes. Esse é o filme que conseguimos fazer.

(créditos de abertura da performance-filme Cancioneiro Terminal)

 Praça da República, São Paulo. Sexta-feira, 13 de março de 2020. Caminhava sozinho em direção à Biblioteca Mário de Andrade, para assistir à apresentação de Cancioneiro Terminal, quando as mensagens de fechamento dos equipamentos culturais por motivos de segurança sanitária começaram a chegar pelo telefone. Pairava entre nós certa aflição e desconfiança diante dos noticiários que ao longo de todo o verão atualizavam a elevada taxa de mortalidade na Europa. Àquela altura ainda não havia sido notificada nenhuma morte por COVID-19 no Brasil e constavam apenas 107 casos confirmados de infecção pela doença. Esse percurso a pé até o teatro estabelecia na vida daquele coletivo artístico e daqueles espectadores (eu incluso), sem que soubessem, o início exato do primeiro confinamento no país e da modulação de diversas práticas de convivência, dentre elas, as artes da cena.

Por novos finais felizes

18 de outubro de 2021 Críticas

Em 2017, a exposição Queermuseu foi censurada em Porto Alegre por denúncias de “pedofilia” e “uso inapropriado de imagens de menores”. Dentre as obras acusadas de conteúdo impróprio estavam as telas de Bia Leite da série Criança Viada. As pinturas foram inspiradas no Tumblr de mesmo nome que reunia, desde 2014, fotos enviadas por pessoas LGBTQIA+ quando crianças e que continham indícios de “viadagem”. No centro de toda a discussão que culminou na censura à mostra estava o pensamento de que não se deve associar crianças a discussões de gênero e sexualidade. Mas como provam as fotos do Tumblr em questão (enviadas pelos próprios fotografados, já adultos), todo LGBTQIA+ foi criança um dia, e parte deste grupo se reconhece como o que se convencionou chamar popularmente de criança viada.

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A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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