Em tempo, imaginar, espectar…

29 de outubro de 2021 Críticas

Sentada na plateia da sala Garrett, do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, na penúltima fileira do lado direito da plateia, com duas cadeiras ao meu lado, demarcadas com cintas de isolamento, minha bolsa, pesada, sob uma delas, eu aguardo o início da apresentação da nova Coleção de Raquel André, de Espectador_s.

Enquanto aguardo, me pergunto se fiz bem em sair de casa nesses tempos pandêmicos, eu que tenho ânsias de esganar as pessoas que estão pelas ruas desavergonhadamente aglomeradas e sem máscaras, como se nunca tivessem ouvido a palavra pandemia na vida. Me sinto irresponsável por estar ali, descompromissada com a atitude ética que, acredito, devemos ter com as mais de 600 mil vidas ceifadas pelo genocida do meu país, com a não menos pior condição dos indianos, dos africanos (em todo o continente), das pessoas nos países onde a vacina ainda demora, ainda tarda, ainda não chega, com os 48 concelhos portugueses em risco muito alto (naquele momento eram 48; hoje, quando escrevo, já são mais de 115, e a contagem só sobe; tomara que até a publicação ela diminua). 

Hoje, eu coleciono medos. E imaginações. Imagino cenários. Imagino futuros. Imagino pessoas. Imagino situações. Imagino presenças. Imagino possibilidades de relação. Imaginar tem ganhado mais força, mais significados e mais desdobramentos. Imagino o que seguiremos colecionando sob a “égide pós-pandêmica”. Sim, porque nós não passaremos incólumes a ela, penso eu.

Imagino, por exemplo, que muitas pessoas ao se referirem ao projeto das Coleções criado pela Raquel André começariam seus textos tratando do significado da palavra Coleção. Reunião de objetos da mesma natureza. Reunião das criações e dos modelos feitos por um estilista ou costureiro para uma temporada: coleção outono/inverno. Quantidade excessiva. Compilação. Coletânea. Acúmulo.

Imagino que, deste modo, tais pessoas, ao escreverem, dariam de cara com a origem etimológica da palavra coleção / do verbo colecionar, e que por esse caminho elas chegariam ao que o dicionário diz: Do lat. collectì o, o nis, pelo fr. collection. Colecionar – ato ou efeito de Coligir. Coligir – Do lat. colligere.

E neste movimento de imaginar, imagino (e me pergunto) o que é que a Raquel coleciona…

Me pego, então, com uma resposta aligeirada: coleciona Amantes, Colecionadores, Artistas e, agora, tem uma Coleção de Espectador_s. Imagino que ao colecionar pessoas o que a Raquel quer são os afetos, histórias, imagens, imaginações, possibilidades, memórias de pessoas e das pessoas. O que ela busca é corporificar o ser/estar que guarda em si o inefável. Por isso ela procura meios de guardar as pessoas, e não algo que lhes sirva de símbolo… ao colocar num mesmo lugar o objeto, a história e o contador dela, ela está elegendo a pessoa como ícone evocativo, como cinzel que esculpe a lembrança.

Imagino quantas pessoas ela já tem em suas coleções, imagino o espaço que elas ocupam em metros, em terabytes e em linhas neurais. Imagino as modificações que aquelas pessoas/lembranças colecionadas imprimiram/imprimem/imprimirão sobre a pessoa Raquel. Mudanças físicas, inclusive (quer sejam perceptíveis, simbólicas ou operacionais).

Grosso modo, o modus operandi das Coleções parte do encontro entre Raquel André e a figura a ser colecionada. Em geral, ela faz um convite direto ou lança uma chamada aberta e as pessoas se inscrevem. A partir daí todo o processo se desenvolve. Cada processo é particular e se desenrola de acordo com as características de cada Coleção (não vou aqui descrevê-las, mas prometo deixar, no final, links para que cada um, que deseje imaginar estas coleções, possa acessá-las). A Coleção de Espectador_s a que assisti é fruto de 3 oficinas ministradas pela Raquel, mais especificamente da última delas (objeto de um chamamento feito pelo TNDM II em suas redes sociais e mailing, que teve a duração de 2 dias, com uma turma de 20 pessoas, das quais 11 foram convidadas para o espetáculo apresentado dias 16, 17 e 18 de julho, na sala Garrett).

E lá estava eu sentada na plateia do TNDM II, olhando para o palco, no centro do qual se via uma arquibancada, “olhando pra mim”. E aí imagino que muitas pessoas, ao se referirem ao espetáculo Coleção de Espectador_s, começariam seus textos tratando do significado clássico da palavra teatro:

Imagino que, deste modo, tais pessoas, ao escreverem, dariam de cara com a origem etimológica da palavra Teatro, e que por esse caminho elas chegariam ao que o dicionário diz:

Teatro: Do grego θέατρον (théatron), lugar físico do espectador, lugar aonde se vai para ver e onde, simultaneamente, acontece o seu complemento visto, real e imaginário.

Derivado do vocábulo theaomai (θεάομαι) – olhar com atenção, perceber, contemplar (Enciclopédia Britânica.1990, vol. 28:515). Theaomai não significa ver no sentido comum, mas sim ter uma experiência intensa, envolvente, meditativa, inquiridora, a fim de descobrir o significado mais profundo; é uma cuidadosa e deliberada visão que interpreta seu objeto. E essa visão não está diretamente relacionada ao órgão, ao sentido, ao ato de enxergar, é percepcionar de modo mais amplo.

Mas, então, eis que, quando mil digressões povoavam minha imaginação, a apresentação se inicia. O espetáculo se desenvolve dentro de uma caixa cênica completamente nua (despida de toda a vestimenta, de bambolinas, pernas, cicloramas e cortinas), com varas rebaixadas e iluminação que privilegia contras e laterais direcionadas para a arquibancada posicionada no centro do palco, e luz de sala (com direito a visão do lustre) em muitos momentos aberta, em penumbra, como uma consciência tácita de nós. Espectador_s da Coleção entram em cena, apresentam-se, ocupam seu lugar na arquibancada, assistindo-nos (como um espelho de nós, que estamos na outra plateia). O teatro D. Maria II, em sua estrutura, arquitetura, história e pessoas (aparentes e não vistas) é apresentado pela Raquel como sendo o que ela vê a partir de onde está. Imagens de obras e passagens significativas para que aquelas pessoas se tornassem espectador_s são projetadas em diversos momentos, ao longo do espetáculo, num telão de fundo, em alternância e simbiose com falas deflagradas pela Raquel André que tratam sobre os papéis e os lugares de fala, sobre quem está nos lugares a quem é permitido falar, sobre o que se vê e o que não se vê no discurso arquitetônico e decorativo de um edifício teatral.

Foto: Tiago Jesus Brás.
Foto: Tiago Jesus Brás.

A Raquel nos apresenta todo o organismo que precisa ser acionado para que um teatro abra as portas, toda a engrenagem necessária para fazer existir um espetáculo. E por fim (à medida que esta fatia de espectado_es, que compõe a Coleção, rememora e apresenta vivências significativas do seu ato de espectar) nos coloca diante de um impasse, sobre quais são as narrativas que “importam”, quais as narrativas que hoje na nossa sociedade têm força para acionar esta imensa rede neural e quais as que permanecem à margem, silenciadas.

No dia que vi, onze histórias, ao todo, povoavam as quase duas horas (nada custosas) de encenação. Contadas por Ana Ribeiro, André de Jesus Conceição, David Gorjão, Fátima Barreto, João Limão, Júlia Catita, Luís do Paço, Marina Preguiça, Patrícia Santos, Raquel Pedro, Tânia Martins Ramos (a amiga a quem devo o presente de me fazer sair de casa), elas tratam das memórias de vivências com objetos artísticos de toda ordem, espalhados e espelhados em gráficos, em festivais, em salas de espetáculo, em telenovelas, em salas de cinemas, em filmes, em concertos, em histórias familiares, em viagens, em pessoas.

O público da sala Garret pôde testemunhar a corporificação do poder transformador da arte, por meio daqueles depoimentos que falavam do encontro daquelas pessoas com o Grândola Vila Morena (e sua “tiocidade” que retumba aos ouvidos e à curiosidade da criança eterna); com o trapézio e o circo, com a gestação e com a audição experienciada em muitos termos; com o balé dançado lindamente (com direito a pas de deux com a bengala) e com a memória de como era aquele teatro e do incêndio que o consumiu quase que por completo. Do encontro com os crachás de festivais colecionados; com o parto embalado a Ciranda de Pedras;  com os objetos de arte sem título,  com os poemas icônicos da literatura lusa recitados por atores também icônicos da cultura local e com a amiga Capitolina; com os muitos avós (sejam eles comunistas ou não); com os pés de Alcacena, com os desenhos animados das manhãs de final de semana  (especialmente Conan, o rapaz do futuro, que logo a seguir seria tomaria forma 3D na brincadeira com os amigos); com as muitas urgências que rugem em imagens e frases estampadas na tela; com a luta por liberdade e contra o fascismo de ontem e de hoje; com o 25 de abril; com os cravos; com a viagem a Paris como grande experiência estética do mundo; com o derretimento repleto de lixo nos cabelos; em cabelos que podem ser obsessivamente traduzidos em uma peruca cor de rosa, símbolo do nossos corpos/corpas violentados e silenciados milenarmente; com a Artemisia Gentileschi; com a Silvia Calderoni e seu um minuto de silêncio por causa de um assassinato ocorrido do outro lado do atlântico e com a sua memória transformada em placa de rua que virou, por um dia, placa de teatro “Marielle Franco”. E assim as histórias, referências e experiências das pessoas no palco se combinam com as da plateia, afinal, penso eu, cada um de nós tem uma música, um filme, uma… pra chamar de seu.

Raquel André. Foto: Tiago Jesus Brás.
Foto: Tiago Jesus Brás.

O espetáculo termina com uma foto da plateia, feita pela Raquel, lá do palco. Ela também nos mostra a foto feita daquela mesma sala no dia anterior e nos convida a ligar os telefones, a entrar no aplicativo do espetáculo a partir de um QR Code e a encontrar alguém entre os que estão ali na sala Garrett para conversar/colecionar. Não consegui fazer, infelizmente, meu telefone estava sem bateria… Mas adorei a iniciativa de estimular a curiosidade pelo outro. Um outro que está do seu lado, mas ao mesmo tempo tão distante, pois você não sabe quem é.

Me emocionei, em diversos momentos, vendo a Coleção de Espectador_s. Chorei, mesmo, desavergonhadamente, em muitas partes. Em outros momentos aplaudi sozinha, imaginando se aqueles ao meu redor não sentiam vontade de chorar e aplaudir também. E, se sentiam, porque não faziam, e esta pergunta foi um dos vetores para a relação simbólica entre mim e o espetáculo.

E aqui preciso dizer que essa relação não aconteceu no campo do êxtase (como a menos de duas semanas havia acontecido com um espetáculo grego que assisti no Porto). Não foi esse o lugar, nem era pra ser porque não se vai encontrar na Coleção de Espectador_s virtuosismos de interpretação, arroubos tecnológicos ou gritos de inovação estética. Não parece, nem mesmo, que haja qualquer interesse nisso. O que há no palco é o humano efêmero, imperfeito e incompleto. E isso se traduz a todo momento na cena. O que cria empatia é constatarmos que temos diante de nós um espelho que nos reflete como aquilo que “desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão”, tal qual diz Clarice Lispector. E é exatamente isso o que comove, o que nos conduz para o mundo das lágrimas. E aqui faço um parêntese (mais um): não se trata de catarse. Tem-se, de um modo geral, a tendência de se associar lágrimas, empatia e comoção diretamente à catarse. E catarse não é isso. É outra coisa. Eu não faço uma catarse porque choro. A catarse é fruto de um conjunto de relações entre artista-obra-público, que tem como prerrogativa básica, e um dos seus objetivos principais, promover o apaziguamento coletivo a partir de um processo de sublimação pela piedade. O trabalho do qual participei em momento algum tem em seu discurso estético pretensões apaziguadoras, muito antes, pelo contrário.

Para mim, a ação mais forte do trabalho é a da escuta, a da cessão do espaço da fala em favor do outro, é a emancipação da voz e da curiosidade do público (ainda que mediados pela artista). Por isso, pra mim, a Coleção de Espectador_s é, antes de qualquer coisa, uma ação de arte-educação, um ato de insubordinação, e exatamente por isso, uma investida pedagógica contundente, que deveria fazer parte do currículo escolar em Portugal (e dizer que deveria estar dentro das escolas é a coisa mais forte que eu, Andrezza, posso dizer sobre um trabalho). Para mim, a Coleção de Espectador_s é uma ação que pode ser entendida como um elaborado plano diretor, como uma proposta político pedagógica para um ano letivo, como conteúdo programático transdisciplinar, para ser feita em escolas, com estudantes. Basta que tais estudantes sejam postos na condição de “espectador_s da Coleção” e, pronto, torna-se possível trabalhar os conteúdos de qualquer disciplina segundo aquele modelo. Isso porque a relação com o trabalho gera um conhecimento incorporado e promove inter-relações entre o saber que está sendo compartilhado diretamente e outros mais distantes (a quantidade de correlações aventadas, aqui, nessa escrita aligeirada, é um exemplo disso).

Saí extremamente contente do teatro nesse dia, quase como se tivesse feito as pazes com o teatro português, uma cena com a qual tenho tantas questões, das mais diversas ordens (mas isso é uma conversa para um outro pôr do sol). O fato é que vinha comigo uma sensação não usual de “como queríamos demonstrar”, muito prazerosa. No entanto, a felicidade trazia a reboque dois grandes incômodos. Coisas que pra mim não batiam com aquele discurso, com aquelas escolhas e com aquela abordagem: era como se houvesse ali algo que me causava um ruído, que impedia de juntar “lé com cré” no conjunto do que eu tinha acabado de vivenciar.

Uma foi a condição extremamente apolínea que a encenação escolhe ter. Sinto falta de desbunde. Não estou aqui dizendo que tenho a fórmula de como a Raquel deve conduzir a encenação, absolutamente não é isso, porque aí seria a minha, e não a dela. Mas digo isso, da falta que o desbunde me faz, porque penso que a experiência estética à qual ela (e todo o conjunto criativo que faz parte da encenação) se refere é aquele tipo de experiência transformadora, a partir da qual não somos mais os mesmos. Aquelas experiências que nos fazem desejar mais “daquilo”. E acredito que é o desejo de repetir aquela experiência de múltiplas maneiras que estimula a criatividade, a curiosidade que “cria” espectador_s. Este tipo de vivência não se dá “do lado de fora”, do ponto de vista do observador, apartada de uma relação estreita com os sentidos, não se estabelece fora do corpo ou da festa. Ela é dionisíaca, em primeira instância, creio. São os humores os primeiros a serem movimentados nesta empreitada; algo se passa no corpo das pessoas (mesmo que sentadas em cadeiras), algo caminha por dentro delas energeticamente e movimenta seus afetos e desejos fazendo-as querer repetir o ato de espectar.

Falo da falta que senti do desbunde porque acredito que tais elaborações têm como ponto de partida estas tensões que, por sua vez, provocam novas elaborações as quais produzirão outras tensões… Então, por perceber este conjunto de coisas desta maneira, tenho a sensação de que o trabalho começa a ser apresentado a partir do passo 2. E que o passo 1 ficou de fora, não me foi mostrado. Mas, digo novamente, tenho sentido muita falta de desbunde nos últimos tempos, parece que as coisas andam carregando muito o “trauma da mulher séria” e… Bom, não sei… Mas, também percebo que essa é uma questão minha e não do espetáculo.  As questões do espetáculo estão lá postas e são muitas…

O outro ponto foi o fato de a Coleção da Raquel ser em certo sentido “monocromática”. E sobre isso, sim, gostaria de falar um pouco, pois acho que podemos chegar a outros círculos, nós também. Raquel coleciona espectador_s, a partir dos espaços que essas figuras ocupam. Deste modo, a Coleção muda, cresce (e, por consequência, as histórias e experiências que ela conta) a cada espaço no qual a artista consegue chegar com o trabalho. Característica que, acredito, vai alterar substancialmente a experiência de quem se sentar nas cadeiras da plateia em cada um dos lugares por onde ela passar.

E com esta mudança de sujeitos, acredito, o trabalho também tornará possível traçar uma história do teatro português, feita a partir deste conhecimento corporificado em espectador_s (suas memórias e afetos). Mas, para além disso, será possível colocar tais espectador_s da Coleção na condição de índice, capazes de apontar para os percursos de uma construção de subjetividades, de uma delimitação de gosto, de um tipo de alfabetização estética, de uma política pública de acesso à cultura. E, por fim, daqui a algum tempo será possível, olhando para a Coleção, identificar o papel da cultura na sociedade da qual tais espectador_s fazem parte.

Por exemplo (e aqui chegamos ao que chamei de “monocromática”), eu estive na estreia da Coleção de Espectador_s na sala Garret do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Para mim, a Coleção que foi apresentada tem um recorte social, de normatividade dos corpos, de branquitude e de cisgenia muito definidos.

Foto: Tiago Jesus Brás.
Foto: Tiago Jesus Brás.

Para mim (e me pergunto se todos os que viram o trabalho nas três récitas do D. Maria II, em Lisboa, tiveram esta mesma percepção), a Coleção de Espectador_s da Raquel é uma Coleção de pessoas brancas, cis e de classe média. E por mais que seja uma coleção de pessoas que parecem interessadas em questionar o status quo, interessadas em refletir sobre a sociedade, sobre os lugares ocupados (ocupáveis), interessadas em pensar sobre quem ocupa tais lugares e por que, ela ainda é, efetivamente, formada por corpos aceitos, assimilados ou assimiláveis. Por quê?

Por que a Coleção de Espectador_s de Raquel André tem esta aparência? Essa pergunta, realmente, se encasquetou no meu juízo.

E aqui vejamos. Quando eu me pergunto por que a Coleção de Espectador_s de Raquel André é assim, eu, na verdade, estou perguntando:

Porque é que entre espectador_s do TNDM II não é possível notar a existência de corpos dissidentes?

Porque é que dentro do universo de espectador_s do TNDM II, o recorte de pessoas que respondeu ao chamado para a oficina não apresenta, em sua contagem, PcDs de modo expressivo? Por que é que a rede de contatos, parcerias e afins do TNDM II não tem uma capilaridade que alcance uma maior diversidade de espectador_s? Por que é que o fato de ter um público que, em sua maioria, está dentro dos padrões normativos não parece ser uma questão, um ponto de pensamento e uma necessidade de mudança para o TNDM II? Onde estão as pessoas cegas, as surdas, as com déficit cognitivo, transtornos e limitação de movimento na sala Garret do TNDM II e consequentemente na Coleção?

A equação espetáculo, lugar de fala, teatro, política cultural, tal como está posta, hoje naquele teatro, não lhes comporta; estas pessoas não são cogitadas, como regra, naquele espaço. É isso o que a Coleção de Espectador_s me diz. Mas porque é que isso é assim?

Diante desse mundo de perguntas, e imaginando a resposta, me lembro do censo de 2021 em Portugal. Com o qual, confesso, fiquei bastante “passada”. Porque no recenseamento português não há qualquer questão relacionada à etnia, à identidade e ao gênero. Entretanto, ainda se pergunta sobre religião. É mais importante saber sobre a religião do indivíduo do que a respeito da identidade étnica e de gênero? Como é possível que este seja o pensamento que rege o censo, em pleno 2021? Querem saber quantos carros eu tenho, qual o tipo de aquecimento ou ar-condicionado que eu uso, mas não se interessam pela minha identidade? Como assim?

Penso que perguntas mais verticais sobre PcDs e sobre identidade étnica e de gênero são essenciais para perceber qual o real quadro de uma sociedade. Pois, se, num censo, a maioria das pessoas que respondem se autodefinem como negras, isso identifica por qual grupo étnico é formada a maioria da população daquele lugar. Se, num censo, a maioria das pessoas responde que é transgênero, isso identifica qual é o número majoritário, no que concerne à identidade de gênero daquele lugar. Se, num censo, a maioria das pessoas responde não só que tem alguma deficiência, mas a descreve em detalhes, isso identifica qual é o conjunto de variabilidades de corpos, apreensões de mundo e necessidades daquele lugar (e paremos por aqui, pois, se entrarmos nas questões migratórias, nos jogaremos num vespeiro muito maior). Então, se, num censo, a maioria das pessoas que respondem não saber ler, ou não ter grau avançado de formação, ou não ter trabalho, ou morar em um apartamento de 30 metros quadrados são as trans, as pretas e as PcDs, isso identifica como aquele lugar trata a maioria da sua população. E se assim o é, porque é que, num momento como o que estamos vivendo, não perguntar foi a opção escolhida pelo censo 2021 em Portugal?

Sei que isso tudo pode se chover no molhado em muitos lugares e não passar do óbvio ululante para um par de gentes. Porém, a nossa bolha não resume o mundo inteiro, esta é uma das lições que o censo português 2021 deixa pra mim, porque precisei defender esse “óbvio/molhado” em muitas conversas e não apenas para uma ou duas pessoas.

E diante disso, imagino, e me pergunto. Será que se já existissem mais olhos para ver, ouvidos para ouvir e pele para sentir estas questões em toda a trama social portuguesa, xenofobia, misoginia e racismo já seriam temas de discussão, e não mais, tabu, em Portugal? Será que isso se refletiria no público do TNDM II? Será que o recorte social e da normatividade dos corpos ainda estaria tão fortemente marcado lá?

Como seria a Coleção de Espectador_s da Raquel, se esta pauta, que está no discurso do espetáculo, estivesse também na ordem do dia da sociedade lusa? Imagino (e desejo), a Coleção seria/será, quando nada, um pouco mais “multicolor”. A mim, me parece, que esta é uma questão/necessidade importante para a Raquel André também (bem como para o conjunto de pessoas que subiram ao palco com ela e para as outras todas que, fora da cena, deram corpo e estrutura ao espetáculo). Uma questão para a qual a artista está atenta e afirma, categoricamente, que deseja trazer para a roda de debates. E estas suas afirmações veementes me fazem imaginar que as suas Coleções são veredas abertas na busca por modos e meios de trazer essas questões à baila.

Imagino e reimagino a Coleção de Espectador_s vezes e vezes. Este escrito é apenas uma parte desse movimento, efêmero, talvez… Oxalá, seu percurso seja longo. Oxalá, muitos veios ramifiquem destas veredas, frutifiquem, iluminem-se, transbordem. Oxalá, desbumdem um dia.

Este trabalho faz parte do projeto Coleção de Pessoas: Coleção de Amantes, Coleção de Colecionadr_s, Coleção de Artistas e Coleção de Espectador_s https://www.collectionofspectators.com/pt/collections/ https://www.tndm.pt/fotos/editor2/Ficheiros%202/colecao_de_espectadores.pdf

Andrezza Alves é Doutoranda em Artes Performativas e da Imagem em Movimento na Universidade de Lisboa, Mestra em Criação Artística Contemporânea pela Universidade de Aveiro e Licenciada em Educação Artística com Habilitação em Artes Cênicas pela UFPE. Artista, pesquisadora e produtora com atividade ininterrupta em criação, ensino, produção e pesquisa nas artes performativas desde 1996. Na pedagogia do teatro desenvolve trabalhos com artistas, educadores e não artistas (especialmente jovens e crianças em situação de risco social, cegas, com limitações de movimento e déficit cognitivo). Pesquisa técnicas de direção de atores, interpretação e o trabalho corpovocal do performer. Atualmente participa da pesquisa Práticas Desejantes e investiga o conceito de Ciência de Artista.

 

Vol. XIII nº 72, setembro a dezembro de 2021

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