traducoes

O conteúdo da forma

Tradução da crítica de Manifesto Ciborgue, publicada por ocasião do Four Days Festival, em Praga

Foto: Divulgação.

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Tradução de Denisa Václavová e Joelson Gusson para o texto de Marcela Magdová, publicado originalmente na revista Divadelní Noviny em 19 de outubro de 2011.

Grotesco e elegante, com ritmo modernista tipicamente brasileiro, Manifesto Ciborgue, apresentado no Archa Theatre, junta português, inglês e tcheco. Especial diversão – na noite de quarta-feira no Four Days Festival – misturada com gotas de uma reflexão profunda.

Joelson Gusson, um dos diretores proeminentes no atual cenário do teatro experimental do Brasil, diz ter sido inspirado pelo ensaio homônimo, escrito pela bióloga e filósofa norte-americana Donna Haraway durante os anos 80 do século passado, em que a identidade do “ciborgue” é descrita como uma ligação entre o humano e a tecnologia. Ciborgue como uma espécie de estágio intermediário, de transição, entre o homem e a mulher, ou entre o artificial e o natural. A transformação do corpo humano, seja pela mudança de gênero ou através de intervenções na matéria, é o tema principal desta peça criada para dois performers e um esqueleto. Continuação »


Água-viva

Peça curta de Carolina Balbi, traduzida por Paulo Aureliano da Mata

Tradução de Paulo Aureliano da Mata
Revisão de Tales Frey

“Ensinar a alma a viver sua vida, não a salvá-la… converter-se em filho de seus próprios acontecimentos… Ser digno do que se sucede… Extrair de um acontecimento, por menor que seja, algo alegre, amoroso, um fulgor, um encontro, uma velocidade, um devir, justamente o contrário de se fazer um drama ou uma história… Atravessar o horizonte, entrar em outra vida… compreender que os que haviam sobrevivido eram os que haviam realizado uma verdadeira ruptura… a experimentação, por si só, é a nossa única identidade, a única possibilidade para todas as combinações que nos habitam… há que se perder a própria identidade, o rosto… ser capaz de amar sem recordação e sem interpretar… experimentação-vida… experimentar, jamais interpretar… desaparecer, devir desconhecido…”
Gilles Deleuze

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Actos físicos de la memoria, reinscripciones en la historia

Tradução para o espanhol, por Carolina Virgüez, da crítica da peça Mi vida después

Crítica de Mi Vida después, de Lola Arias. Traducción de Carolina Virgüez (carolinavirguez@gmail.com)


“Cuando tenía siete años me ponía la ropa de mi madre y andaba por mi casa pisándome el vestido como una reina en miniatura. Veinte años después encuentro un pantalón Lee de los setentas de mi madre que es exactamente de mi medida. Me pongo el pantalón y empiezo a caminar hacia el pasado.”

Intervención de Liza Casullo en Mi Vida después.

La obra Mi Vida después, con dramaturgia y puesta en escena de Lola Arias, tuvo su estreno en marzo de 2009 dentro del Proyecto Biodrama, ciclo desarrollado por la directora Vivi Telas en la sala Sarmiento del Complejo Teatral de Buenos Aires, cuya propuesta plantea la creación teatral a partir de narrativas de la vida real. Después de más de un año de su estreno y de haberse presentado en diferentes ciudades, se realizaron dos funciones de la obra, que integraron la participación del festival de teatro ArtCena. Festival em criação, con dirección de Fabio Ferreira. Continuação »


Ao telefone

Tradução de Raphael Cassou da peça de André de Lorde, dramaturgo da Escola do Grand Guignol

Introdução

O público se prepara para mais uma sessão no instigante Teatro do Grand Guignol. A tensão e a expectativa tomam conta do lugar. O local? Rua Chaptal, Paris. A época? Final do século XIX. O Grand Guignol é o nome de um teatro parisiense inaugurado em 1897 e que funcionou até o ano de 1963. Sua especialidade eram os espetáculos que se caracterizavam pelo tom macabro e pela violência. O sucesso alcançado foi tanto que se espalhou por vários países da Europa e foi uma das grandes inspirações do cinema de horror britânico, americano e do cinema expressionista alemão. O nome “Guignol” é oriundo de um boneco criado na França no final do século XIII e que se popularizou por fazer sátiras políticas.

O teatro da Rua Chaptal era o local das experimentações do seu primeiro diretor, Oscar Métenier. Métenier defendia a abolição dos limites impostos pelas convenções cênicas da época, em que a frontalidade para com o público estava em voga. Ele buscava uma maior autenticidade na ficção. Seu principal objetivo era a concepção de um espaço teatral baseado na reorganização da realidade das cenas. Os atores poderiam então se desvincular da imposição de se postar ”teatralmente” e agir como se estivessem em suas próprias casas (entrar e sair de cena queria dizer entrar e sair de um quarto ou sala, e não mais de uma cenografia que ”representava” o lugar). Paralelamente às inovações estruturais da direção recém-surgida, mudavam também os próprios conteúdos das representações, influenciados pela poética do teatro e da literatura realistas, de autores como Edgar Alan Poe e André de Lorde. Continuação »


A luz interior

Tradução de Miguel Ambrizzi e Paulo da Mata da peça de Carolina Balbi

La luz interior, de Carolina Balbi

Não quero que sofras minha paixão

nem por uma só noite.


Em um espaço enorme. Uma adolescente. Passos de meninas no apartamento. Não há azulejos nas paredes; são somente paredes. Prateleiras com mercadorias. Em um canto, o banheiro, com privada e uma corrente de descarga. No extremo do fundo há um chuveiro. Acoplado ao cano do chuveiro, um aparelho, com resistência, ligado a uma tomada. É um aquecedor de água elétrico. Do teto pende uma lâmpada. Seu cabo se perde nas alturas por uma fenda da porta que dá ao pátio. Debaixo do chuveiro, há uma bacia laranja, cheia de água com sabão. Há uma pia gigante, com um pé voluptuoso que assenta sobre o piso em forma de garra. A única torneira é de bronze e goteja. Do chuveiro, também caem gotas, que vão transbordando da bacia e formam um fio de água que escorre lentamente para um grande ralo que há no centro do espaço. Continuação »


Shocktoberfest: Thrillpeddlers apresentam sangue, luxúria e gargalhadas.

Tradução de Paulo Biscaia Filho para a crítica do espetáculo da Vigor Mortis

Autor: Keith Bowers

Publicado originalmente em 15 de outubro de 2010 no link: http://blogs.sfweekly.com/shookdown/2010/10/shocktoberfest_delivers_blood.php

Os Thrillpeddlers(1)  fizeram jus a seu nome entregando uma mistura sanguinolenta de luxúria, terror e comédia em três peças de um ato e mais uma quarta peça em colaboração com uma companhia visitante de brasileiros sedentos por sangue.

O evento anual promovido pela companhia de San Francisco chama-se Shocktoberfest 2010: Kiss of Blood. Desta vez ele traz antigos instrumentos de tortura, drag queens vingativas, mutilações, roupas reveladoras, uma canção cômica, um machado, uma furadeira, diversas facas, e sangue… muito sangue. Continuação »


Striptease

Peça de Lola Arias traduzida por Paulo da Mata

Autor: Lola Arias

Foto: Lorena Fernandez

Striptease, que faz parte da trilogia sobre o amor de Lola Arias, estreou no dia 3 de maio de 2007 no Teatro Callejón em Buenos Aires pela Compañía Postnuclear com a seguinte ficha técnica:

Texto e Encenação: Lola Arias
Assistência de direção: Eugenia Schor e Alfredo Staffolani
Elenco: Umaia Kanoore Edul, Gonzalo Martínez e Natalia Miranda
Cenografia: Leandro Tartaglia
Iluminação: Matías Sendón
Sonoplastia: Ulises Conti
Assessoria de imprensa: Daniel Franco e Paula Simkin Continuação »


Otro [ou] Weknowitsallornothing [ou] Ready To

Tradução de Daniele Avila da crítica do espetáculo do Coletivo Improviso

Foto: divulgação

O trabalho experimental do Coletivo Improviso é tão profusamente multifacetado que desafia sua própria definição, até mesmo num mundo de performances interdisciplinares. Fundado por Enrique Diaz em 1998, o coletivo de nove dançarinos, atores, músicos e um videoartist, existe para facilitar encontros criativos entre artistas de tão variadas disciplinas e formações, para providenciar um espaço comum de oficinas, aprender uns com os outros, pesquisar potenciais novas formas de codificar material e engajar os espectadores. O resultado é uma cornucópia vibrante de movimento, imagem, som e texto, cintilante de sensualidade, riso, ironia e compaixão. Confesso que eu fiquei tão encantada, que fui ver duas vezes. O espetáculo acolhe o espectador com calor e generosidade, faz com que ele vá de encontro a uma exposição enérgica e ricamente texturada da fragmentação e da confusão humanas, para deixar a todos com uma profunda sensação de que tudo está conectado. Cada indivíduo também é uma molécula numa entidade vasta, orgânica e cósmica. Continuação »


A reprise (resposta ao pós-dramático)

Tradução de Humberto Giancristofaro do artigo La reprise

O artigo aqui traduzido foi publicado como introdução ao livro Études Théâtrales 38-39/2007 – La Réinvention du drame (sous l’influence de la scène).

“Reprise: I. [...] 2º Ação de fazer de novo depois de uma interrupção [...]. 4º (1611, “reparação”) Técnico. Reparação de uma parede, de um pilar [...]. 5º Remendar um tecido para reconstituir sua tecelagem [...] II. 1º O fato de voltar a vida, vigor (planta). O fato de dar um novo impulso após um momento de parada, de crise [...] 2º O fato de recomeçar, de voltar.” (Petit Robert)

A obra de Hans-Thies Lehmann recentemente publicada na França (1) e, mais largamente, a moda do nome “teatro pós-dramático” têm ao menos a vantagem de lembrar-nos da dissociação entre teatro e drama: o drama – entendamos a forma dramática – não está mais necessariamente no fundamento do teatro; há todo um teatro que não consiste mais na encenação de um drama anteriormente escrito, um teatro que às vezes vira as costas para o drama. Continuação »


Francisque Sarcey

Tradução de Helena Mello do texto sobre o crítico francês Francisque Sarcey

Os textos de Gustave Larroumet (1852-1903) – professor na Sorbonne, membro do Instituto, diretor das Belas Artes depois Secretário perpétuo da Academia de Belas artes e Jules Lemaître (1853-1914) – escritor, critico, acadêmico que foi uma das grandes vozes do anti-dreyfusismo à frente da Liga da Pátria Francesa, são homenagens póstumas a Francisque Sarcey. Estes artigos, paradoxalmente, parecem justificar todas as críticas formuladas enquanto vivo.

[...] Como todos os escritores originais, Sarcey representou duas coisas : ele mesmo e seu tempo, quer dizer, um caráter original e a vida intelectual de uma geração. Francês de origem, ele trouxe do nascimento um conjunto de qualidades essenciais e atávicas : a necessidade de compreender e de julgar por ele mesmo, que é a razão e o senso do justo e da prática, que é o bom senso, o dom de destacar razão e bom senso pela notação rápida, viva e engraçada, dos relatos e dos contrastes, que é o espírito. [...] Continuação »


Sobre Saxo, Hamlet e a performance

Tradução de Humberto Giancristofaro do texto sobre Ur-Hamlet, do Odin Teatret

Autor: Eugenio Barba

Hamlet, Don Juan, Doutor Fausto e Arlequim são arquétipos bastardos que não conhecem suas mães e seus vários pais. Eles adentraram em nossa cultura moderna através das primeiras companhias profissionais especializadas em vender entretenimento no nascimento do teatro Europeu, na ‘Era de Ouro’ entre os séculos XVI e XVII.

Estes foram anos de pragas, suspeitas, massacres, intolerância e guerras religiosas. Hamlet, Don Juan, Doutor Fausto e Arlequim chegaram ao palco escondendo sua natureza bárbara e feroz sob um arco-íris de comentários bem-humorados e pensamentos profundos. Todos os quatro eram peritos na arte de se livrar de seus adversários com armas, sagacidade e feitiços. O cheiro de uma cultura refinada dissimulou seus odores acres de sangue, sexo e violência, transformando-os em jóias da arte. Assim, eles não são mais capazes de nos assustar. Nesse traje fantasioso, poético, filosófico e melancólico, eles vivem nos livros escolares e perfumam a nossa vida intelectual adulta. Mas a sua substância original, crua e sem ilusões, faz deles nossos irmãos zombeteiros e repugnantes, bem ajustados ao nosso século XXI.  Continuação »


Marianne Lamms

Tradução de Wilson Coelho da entrevista realizada por Alain et Odette Virmaux com Marinanne Lamms, amiga de Artaud

Autor: Wilson Coelho

Diversas testemunhas disseram tê-la visto em companhia de Artaud. Ela fora membro do “Grand Jeu” (Grande Jogo), onde Roger Vailland a teria introduzido. Depois disso, ela faria do jornalismo tudo para prosseguir obstinadamente em suas pesquisas em astrologia, geomancia e numerologia. Paixão dos números a qual Daumal e Gilbert-Lecomte a tinham encorajado. Ele não estava surpreso que isso a conduziria a cruzar um dia a rota de Artaud. Ela não o tinha encontrado muitas vezes, mas algumas trocas seriam suficientes para que ela ficasse impressionada com a vida. Ainda hoje, ela o confunde numa lembrança um pouco fascinada com seus amigos do Grande Jogo.

Pergunta: O que você fez para conhecer Artaud em sua época?

Resposta: Isso se passou em 1933, no momento, eu creio, quando ele preparava Heliogábalo. Roger Gilbert-Lecomte é que me tinha sugerido a encontrá-lo. Ele me dizia mais ou menos: “É pena que não o conheça, com as pesquisas que você faz!” Eu compreendi mais tarde que ele tinha, ao mesmo tempo, falado de mim a Artaud. Ele o amava muito. Daumal também, mas um pouco menos. Sim, o pintor era mais reservado: quando soube que eu tinha visto Artaud, me disse para ficar atenta. Continuação »


Uma amiga anônima de Artaud

Tradução de Wilson Coelho da conversa de Alain e Odette Virmaux com uma amiga de Antonin Artaud que não quis que seu nome fosse revelado.

Autor: Wilson Coelho

Conversa de Alain e Odette Virmaux, realizada em 1978, com uma mulher que foi muito amiga de Antonin Artaud e que não quis que seu nome fosse revelado. Este texto foi traduzido em 1996 por ocasião do centenário de nascimento de Artaud.

Pergunta: Você foi amiga de Antonin Artaud, e uma amiga fiel, pois você pertence ao pequeno número daqueles que não o abandonaram na época dos internamentos. Você foi vê-lo no manicômio de Ville-Évrard e lhe escreveu quando estava internado em Rodez. Quinze anos antes, você esteve brevemente colaborando com ele para o Teatro Alfred-Jarry. Adivinha-se a riqueza dessa longa amizade e pressente-se que você seja talvez uma das pessoas mais indicadas para falar dele sem deformá-lo. Ora, você tem se abstido de se juntar ao coro inumerável de todos esses que o tem evocado frequentemente, mesmo o tendo conhecido muito menos que você. Por que esse silêncio? Continuação »


Uma visita a Sarcey

Tradução de Helena Mello do texto publicado no livro Um século de crítica dramática

Autor: Octave Mirbau

Uma visita a Sarcey é uma tradução de Helena Mello do livro Um século de crítica dramática, organizado por Chantal Meyer-Plantureux. Francisque Sarcey (1827-1899) é considerado a figura mais célebre da crítica francesa que nasce no fim do século XIX. Durante 32 anos, o “tio”, como era chamado, teve suas críticas publicadas todas as segundas-feiras até maio de 1899, ano de sua morte.

Aconselhado por alguns amigos, fui fazer uma visita a Francisque Sarcey. Eu devia agradecer o comentário que ele havia consagrado ao Mauvais Berger e também lhe levar os votos de ano novo. No momento em que eu entrei, o velho crítico saía da mesa. Ele estava sentado, ou melhor, esprimido em uma poltrona, rosto muito vermelho e congestionado, o olhar sonolento, a boca caída. Porém, ao me ver, apesar de sua prostração, ele exclamou no  tom de falsa e trivial bonomia que lhe é particular:

- Ah! Ah! …. É você? …Então, eu fiz um artigo para você, meu rapaz! Continuação »


Crítica do espetáculo Fragments

Tradução de Marcio Freitas da crítica de Jacqueline Fletcher sobre o espetáculo Fragments

Este artigo foi publicado originalmente em inglês, na revista eletrônica The British Theatre Guide

O Théâtre des Bouffes du Nord de Peter Brook está localizado numa vizinhança parisiense geralmente chamada de ‘o gueto’ ou ‘local para não-ir’. Os trens do metrô chocalham ao longo dos trilhos suspensos, passando acima de clamorosos engarrafamentos e ruas transbordando de aglomerações multiculturais. Os gentis aromas dos restaurantes indianos e das mercearias africanas podem ser sentidos na brisa. Dentro do edifício, o auditório não-reformado da companhia, com paredes marcadas e uma cúpula esplêndida e despida de ornamentos, se parece mais com uma catedral devastada pela guerra do que com o teatro burguês coberto de ouro e veludo que foi no século XIX. Há algo de majestoso nos restos desfarelados do procênio feito de pedra e nas paredes descobertas. O espaço tem o ar de uma Hécuba envelhecida após o saqueio de Tróia, a cabeça ainda erguida, e o que se perdeu em ouro e veludo foi ganho em calma, em dignidade sem adornos. Continuação »


Fragments no Bouffes du Nord: um Beckett longe dos clichês

Tradução de Felipe Vidal da crítica de Jean-Pierre Thibaudat sobre o espetáculo Fragments

A crítica de Jean-Pierre Thibaudat foi publicada originalmente no blog Balagan, no site Rue 89, em março de 2008.

Brook monta quatro pequenos sopros de Beckett e faz uma boa ação para a humanidade. Eles estão lá como dois amigos que se reencontram, bebendo alguma coisa, falando de tudo e de nada, da vida que passa, rindo de tudo e de nada e, em primeiro lugar, da condição humana. Oferecendo aos espectadores a passagem de um pouco de alegria por seus caminhos durante uma hora.  É também simples, é também belo, porque é o reencontro do velho Peter e do velho Sam, dois moleques que constroem sua cabaninha, que se divertem e cochicham um segredo. Continuação »


No Rio, o Teatro da Vertigem leva o espectador de barco

Tradução de Felipe Vidal da crítica de Jean-Pierre Thibaudat sobre o espetáculo BR-3

Blog Balagan, do site Rue 89.

Tradução de Felipe Vidal

Jean-Pierre Thibaudat é escritor e jornalista. Publicou recentemente uma biografia do dramaturgo Jean-Luc Lagarce, Le Roman de Jean-Luc Lagarce, pela editora Les Solitaires Intempestifs, e um ensaio sobre a sua obra intitulado Jean-Luc Lagarce, pela editora Cultures France. É conselheiro artístico do festival Passages à Nancy e escreve regularmente para o blog Balagan, no site Rue 89, onde a crítica do espetáculo BR-3 foi publcada originalmente. Continuação »


O espectador emancipado

Tradução de Daniele Avila do artigo de Jacques Rancière sobre a condição do espectador no teatro

Artigo publicado originalmente em inglês na revista ArtForum de março de 2007.

Eu chamei esta conversa de O espectador emancipado. A meu ver, um título é sempre um desafio. Ele apresenta o pressuposto de que uma expressão faz sentido, de que há uma conexão entre termos separados, o que também significa entre conceitos, problemas e teorias que à primeira vista não parecem ter qualquer relação direta entre si. De um modo, este título expressa o quanto fiquei perplexo quando Mårten Spångberg me convidou para dar a palestra que deve ser a “linha diretriz” desta escola. Ele disse que queria que eu iniciasse esta reflexão coletiva sobre “a condição do espectador” porque ele ficara impressionado com o meu livro O mestre ignorante [(Le Mâitre ignorant (1987)]. Eu comecei a me perguntar que conexão poderia haver entre a causa e o efeito. Esta é uma escola que reúne pessoas envolvidas no mundo da arte, do teatro e da performance para pensar a questão da condição do espectador hoje em dia. O mestre ignorante foi uma reflexão sobre a teoria excêntrica e o destino estranho de Joseph Jacotot, um professor francês que, no início do século XIX, agitou o mundo acadêmico ao afirmar que uma pessoa ignorante poderia ensinar a outra pessoa ignorante o que ela mesma não conhecia, proclamando a igualdade de inteligências e exigindo a emancipação intelectual no lugar da sabedoria recebida no que diz respeito à educação das classes mais baixas. Sua teoria caiu no esquecimento em meados do século XIX. Achei necessário reavivá-la nos anos 1980 para instigar o debate sobre a educação e suas balizas políticas. Mas que uso pode ser feito, no diálogo artístico contemporâneo, de um homem cujo universo artístico poderia ser resumido a nomes como Demóstenes, Racine e Poussin?  Continuação »


A obra de arte julga: o crítico no cambiante cenário teatral

Tradução de Daniele Avila do artigo de Josette Féral sobre crítica de teatro

Este artigo foi publicado originalmente em inglês, em novembro de 2000, na revista New Theatre Quarterly (NTQ 64, VOL XVI, PART 4). Josette Féral é crítica, teórica e professora na École Supérieure de Théâtre de l’UQAM, em Montréal, no Canadá, desde 1981. 

“Os críticos julgam a obra de arte e não se dão conta de que a obra de arte julga os críticos.”
Jean Cocteau 

O exemplo do esporte: A Copa do Mundo de julho de 98 

Domingo, 12 de julho de 1998. A final da Copa do Mundo traz a França contra o Brasil. A França está ganhando de 3 a 0. Em poucos minutos, o jogo vai acabar. Pela primeira vez na História, contra todas as previsões dos críticos de esporte, a França está quase ganhando o jogo e, assim, entrando para o clube muito seleto de vencedores da Copa do Mundo. A exaltação do povo francês é sem precedentes: com um milhão e duzentas mil pessoas no Champs Elisées, a França se identifica totalmente com este time a que chamam “Les Bleus” e que reúne jogadores brancos, marrons e negros.  Continuação »