Um trabalho fundamentado no ator, nos espaços e nas relações
Conversa com Isabel Penoni, diretora da Cia Marginal
DINAH CESARE: O trabalho da Cia Marginal se diferencia de algumas outras experiências de teatro em projetos sociais. Qual seria o elemento diferenciador neste caso?
ISABEL PENONI: Eu acho que tem uma coisa que é definidora no caso da Cia Marginal desde o início, ainda quando a gente trabalhava dentro de uma estrutura de financiamento social, nós já tínhamos a pretensão da realizar um trabalho de criação. Eu digo nós, por que éramos eu e a Joana Levi. Um projeto de criação, de experimentação, de pesquisa, de criar em um contexto diferente daquele que a gente vinha criando. Eu trabalhava como atriz, então experimentar era levar à frente um trabalho de criação dentro de um contexto bastante diferente do nosso. Já existia esta pretensão desde o inicio, mesmo dentro dos projetos sociais e mesmo tendo uma perspectiva um pouco mais pedagógica. Porque nós estávamos dentro do universo da arte educação, mas naquele espaço importava a ideia de criação. O trabalho chegou num ponto em que ele não aprofundava mais porque existia uma estrutura de oficina, de entra e sai de gente. Porém, existia um grupo que era constante e uma qualidade de trabalho com aquele grupo. Mas ele não avançava porque tinha sempre gente entrando e saindo e a “coisa” tinha sempre que começar do zero com novas pessoas. Então a partir de um momento nós resolvemos fechar o grupo. Na verdade eu acho que a transição foi de estrutura, de formato e não do que se fazia ali dentro. Superamos um formato de oficina, de projeto social para grupo de teatro. Essa é a mudança maior, definidora e divisora de águas ali. Continuação »
A radicalidade do processo coletivo
Conversa com Adriana Schneider sobre a formação do Grupo Pedras e seus processos de criação
DINAH CESARE: Quais são as particularidades que envolveram a formação do Pedras?
ADRIANA SCHNEIDER: O Pedras se formou em 2001 a partir de um encontro de atores. Boa parte deles era da Companhia Atores de Laura, eu, o Luiz André, a Georgiana, a Ana Paula e a Helena. A Marina e o Diogo Magalhães trabalhavam com a Christiane Jatahy no Grupo Tal. Nossa intenção era a de dar conta da pesquisa do trabalho do ator, investigar perspectivas distintas. Nós tínhamos muito interesse em oficinas de técnicas do ator. Então, desde sempre, o grupo fez muitas oficinas com outros grupos, como o Moitará para estudar máscaras, com o Enrico Bonavera do Piccolo Teatro de Milão, com o Sotigui Kouyaté, com o Anônimo e as técnicas de palhaçaria, com a Juliana Jardim que tinha uma oficina excelente sobre o bufão e várias oficinas com o Lume. Nós sempre fomos inquietos e queríamos ter estes trabalhos nos Atores de Laura, mas não conseguíamos fazer isto lá por que éramos muito jovens e a criação se pautava por uma estética mais determinada. Mas existia cada vez mais o desejo de, ao invés de estar sempre envolvidos com montagem de espetáculos, poder ir para a sala de ensaio e investigar, experimentar as técnicas e desenvolver alguma coisa a partir destes materiais
DINAH CESARE: Como você entende a relação entre a formação do Pedras e o trabalho desenvolvido nestes dez anos?
ADRIANA SCHNEIDER: Nossa intenção era formar um grupo radicalmente coletivo, que é o que o Pedras é hoje. Radicalmente coletivo no sentido de que não há um centro, não há uma direção geral e as decisões surgem pelos debates e pelas harmonias do convívio em grupo, o que se constitui como o nosso grande aprendizado ao longo de dez anos. O aprendizado de como construir um trabalho radicalmente coletivo, não no sentido dos anos 60 ou 70, mas no sentido de enfrentar que todas as funções no teatro não são hierárquicas, mas são funções respeitadas no processo de construção do espetáculo. A direção é um lugar de função específica na sala, mas não um lugar de hierarquia autoral. Essa ideia levou nossos espetáculos a ter uma cara completamente diferente um do outro, nós não temos propriamente uma linguagem, nós não somos palhaços, não trabalhamos com máscara, não montamos clássicos, mas ao mesmo tempo essas técnicas estão dentro do trabalho. Então são quatro espetáculos muito diferentes, a maneira com a qual cada espetáculo é construído é o que nos dá a identidade.
DINAH CESARE: Uma identidade que não se fixa em um território, mas que percorre lugares.
ADRIANA SCHNEIDER: Perfeito! Não tem um território técnico, uma identidade técnica. Quando olhamos para os quatro espetáculos, pensamos: o Pedras tem dez anos e tem quatro espetáculos. A princípio isso seria pouco para um processo de dez anos, mas é fundamental. Uma coisa importante é que os espetáculos não saem de repertório e o Pedras tem uma grande capacidade de circulação, então o espetáculo estreia e de fato a gente circula muito, já fizemos o Palco Giratório do SESC duas vezes, já fizemos mostras no Estado do Rio, sempre com a inquietude de multiplicar o público que nos assiste. Isso faz o espetáculo ganhar em potência na medida em que está sempre se trabalhando. É um pensamento de muitos diretores, o Meyerhold disse que o espetáculo começa quando estreia.
DINAH CESARE: Esta estrutura de outros palcos, outras plateias, parece ter a ver com o que você falou da configuração e do entendimento do Pedras sobre as funções não hierarquizadas.
ADRIANA SCHNEIDER: Uma estrutura que não provoca fechamentos. E essa coisa de quatro espetáculos em dez anos se relaciona também com o fato de serem resultados de processos longos de ensaios, de pelo menos mais de seis meses. E isso tem a ver com o tipo de construção que a gente estabelece na sala de trabalho que é a ideia de uma criação coletiva, com todo o cuidado que o termo deve ter por que ele está carregado de coisas, mas não vale chegar com uma ideia, nem o ator nem o diretor que está ali à frente daquela função. A coisa é construída mesmo numa investigação contínua de experimentação e de improviso, claro que tem uma quantidade absurda de referências em cada um dos trabalhos, de materiais de filmes, de materiais fotográficos, de materiais textuais.
DINAH CESARE: Como a pluralidade das experiências dos integrantes …
ADRIANA SCHNEIDER: Completamente… O espetáculo é alimentado por todas as pessoas que estão fazendo parte dele. É claro que o diretor tem uma função muito importante e eu sempre tenho isso quando dirijo dentro do Pedras, eu percebo que é como se fosse um barco a vela, tem que ser a vela, e o diretor é a figura que está segurando o leme e que percebe para onde o vento está indo e para onde ele tem que colocar as velas. É preciso ir sabendo se este vento vai levar para algum lugar. Então é um trabalho muito concreto.
DINAH CESARE: Como se dá a escolha da pessoa que vai exercer a função de diretor em cada espetáculo? Eu vi que no Mangiare, por exemplo, tem uma diretora convidada, a Fabianna de Mello e Sousa.
ADRIANA SCHNEIDER: A escolha se dá de algumas maneiras. Pode ser que tenha uma pessoa que esteja a fim de dirigir aquele projeto por que tem uma afinidade com aquilo e acha que pode cumprir um papel interessante nesta função, como foi o meu caso em O muro em que existia uma questão espacial, e o Pedras aprimorou a ideia. Então eu percebo que tenho a condição de enxergar direções em que o vento está soprando. No Reino do mar sem fim isto era óbvio por que surgiu de um projeto de um tempo longo de pesquisa. Em Mangiare o Pedras estava desenvolvendo uma ideia com a comida, uma questão que sempre fez parte do ethos do grupo. Então a gente ficou pensando em quem poderia dirigir o espetáculo. Nós temos vontade de trabalhar com outras pessoas que não pertencem ao coletivo e também de experimentar outros processos. Um dia a Fabianna falou que estava com a ideia de fazer um espetáculo sobre comida e fechamos com ela. No espetáculo tem um namoro do Pedras com as máscaras balinesas, que é algo que a gente desenvolve no grupo. A primeira matriz deste espetáculo foi o resultado da formatura da Helena Stewart na UFRJ.
DINAH CESARE: Com esta multiplicidade é possível pensar em algumas características que sejam mais marcantes?
ADRIANA SCHNEIDER: Sim eu vejo, por exemplo, o trabalho com dramaturgias inéditas que se desenvolvem no trabalho de sala, seja partindo de uma ideia, ou de materiais de pesquisa, como no caso do Reino do mar sem fim, ou de uma imagem, como no caso do Muro, do mote com a comida no Mangiare ou da relação entre poesia e cena, como em Restin que tenta provocar outras formas de escuta poética que sejam diferentes do recital ou do sarau. A dramaturgia sendo criada nos ensaios coloca o diretor em uma função muito interessante de perceber que dramaturgia é cena e poder lidar com essas duas coisas que estão sendo criadas ao mesmo tempo. Outra característica é a investigação do uso do espaço. No Restin a Casa da Rua do Mercado era o espaço que a gente tinha e de fato nós usamos todo o prédio histórico. No Muro tem uma investigação clara, a dramaturgia parte da questão espacial que divide a plateia em dois. No Mangiare se estabelece uma relação de cantina com as mesas compridas e os espectadores que se sentam e jantam durante o espetáculo, é quase como uma dramaturgia-menu e cada cena tem a ver com o jantar. O que é servido também fez parte do processo de criação como uma dramaturgia de cena. O Mar sem fim é o primeiro espetáculo em que se estabelece uma relação de palco italiano, mas que faz o maior sentido por que tem um trabalho com imagem, em que a ideia de espaço vazio se torna fundamental. Então tem a parte frontal que é como a casa do Severino da Cocada, um primeiro momento bem etnográfico e que depois se abre no espaço do mar entendido como pertencimento livre, um espaço não identitário, mas pensando na fantasia.
DINAH CESARE: Aparece um sentido de profundidade.
ADRIANA SCHNEIDER: É, e tem um desenho do chão em degradê muito sutil.
DINAH CESARE: O fato de o iluminador ser integrante do grupo facilita o trabalho?
ADRIANA SCHNEIDER: Sem dúvida, o Luís André é ator e iluminador e isso é incrível, não é alguém que acompanha o trabalho, ele é o trabalho também. Eu vejo uma coisa radical. Se você olhar a ficha técnica dos espetáculos, na maioria das vezes é isso. No Mar sem fim é diferente, é o primeiro em que chamamos uma galera. O que acontece é que nos processos dos espetáculos que nós fizemos até agora, uma ficha técnica com perfil de mercado teria dificuldade de entrar por que existe um tempo de produção viciado na cena do Rio de Janeiro, então o cenógrafo, por exemplo, sobrevive fazendo vários trabalhos ao mesmo tempo e ele assiste um primeiro ensaio lá atrás, depois assiste no meio para fechar a ideia e vem com a coisa pronta. Em geral é isso. Mas nos nossos processos é um problema, por que o que ele viu lá atrás não é o que ele vai encontrar no meio e assim por diante. Continuação »
A gênese da Vertigem
Conversa com Antonio Araújo, do Teatro da Vertigem
Conversa com Antonio Araujo, diretor do Teatro da Vertigem, sobre a trajetória do grupo e o livro A gênese da Vertigem – O processo de criação de O paraíso perdido.
LUCIANA ROMAGNOLLI: Que efeito esse olhar em retrospecto para a gênese do Vertigem surtiu no seu entendimento do teatro que vocês fazem?
ANTONIO ARAÚJO: Esse trabalho do livro veio do meu mestrado, portanto, tem um pouco mais de dez anos. Então ele revela o olhar que eu lançava naquele momento para a trajetória aí feita – e tem umas sobreposições de tempo aí. Um dado curioso foi a escolha de O paraíso perdido, e não da trilogia inteira, como era projeto original, à medida em que eu estava recuperando os documentros de O paraíso, voltando para o caderno de direção e as anotações. Identifico em O paraíso, ainda que de uma forma pouco consciente, alguns dos elementos centrais que vão atravessar todos os outros trabalhos do grupo, o processo colaborativo e a própria questão do espaço, que vai ficando mais forte. São elementos que aparecem em decorrência do trabalho, não por uma deliberação. Não havia um conjunto de princípios previamente estabelecidos. Continuação »
Dood Paard: O Judeu
Conversa com o ator e encenador Gonçalo Waddington sobre o espetáculo O Judeu do grupo Dood Paard
Nota: Foi mantida a grafia do português de Portugal.
“Dood Paard é um coletivo experimental de vanguarda. O grupo trabalha sem diretor. As produções se dão em um processo coletivo, durante o qual os atores trabalham juntos com técnicos permanentes e – dependendo do projeto – com um DJ, escritores, músicos e, muitas vezes, atores convidados.” in: http://www.nl-berkshires.org/art/doodpaard.html
O judeu integrou a programação do Festival de Almada 2011, no Teatro Maria Matos, em Lisboa.
ANA: Na ficha técnica de O Judeu aparece escrito “um espectáculo pelos actores e pelos técnicos”. Como é trabalhar num grupo que se define como um colectivo experimental, a trabalhar sem encenador (1)? Continuação »
Formação
Conversa com Fernando Mencarelli, coordenador artístico do ECUM Encontro Mundial de Artes Cênicas
LUCIANA ROMAGNOLLI: Qual a situação geral da formação de ator no Brasil hoje, numa perspectiva panorâmica?
FERNANDO MENCARELLI: A estrutura da formação de ator, de um ponto de vista panorâmico, passou muito pela formação direta, na prática, que foi tradicional no Brasil por décadas. Primeiro o ingresso no amadorismo e a profissionalização depois. Isso continua a existir, mas já não é predominante. Outra forma de formação está vinculada aos grupos de teatro. A partir dos anos 1970 e nos anos 1980, época de estruturação dos grupos, eles tiveram a preocupação de atuar na formação de atores por um princípio de lógica interna do teatro de grupo, mas também pela necessidade de contribuir com ações para profissionalizar os seus membros. E muitos grupos expandem sua atuação para além desses membros. Outro meio ainda é a formação nas escolas ou centros. Esse é um histórico longo que remete a mais de um século. Foi um projeto do fim do século XIX expandido no século XX. Tanto os centros de formação independentes, quanto aqueles no âmbito de um sistema mais formal de ensino técnico ou universitário (que ainda vem se desenvolvendo). Vivemos um momento especial. Os últimos vinte anos foram multiplicadores de cursos. Continuação »
Dramaturgia da alteridade
Conversa com o grupo Foguetes Maravilha
HUMBERTO GIANCRISTOFARO – Para a gente esquentar, queria perguntar como se deu a parceria entre vocês e como isso chegou à ocupação de agora, do Foguetes Maravilha no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto. O primeiro trabalho de vocês juntos foi o Ele precisa começar?
FELIPE ROCHA – Vou contar a minha parte da história. Eu há muito tempo tinha vontade de escrever um texto. Eu estava numa turnê, tinha tempo, daí eu escrevia. Tinha vontade de montar e chamei o Kike [Enrique Dias], com quem eu trabalhava há muito tempo, pra dirigir, mas ele estava muito ocupado. Como eu tinha muita clareza do que eu queria falar, eu achei que seria complicado, estando em cena, dar para um outro diretor que de repente me propusesse uma coisa muito diferente daquilo. Então, achei que talvez o mais legal naquele momento fosse que eu mesmo dirigisse e chamasse alguém para colaborar. Eu e o Alex, a gente já se conhece há muito tempo. Na época que ele chegou ao Rio, ele foi fazer aula com a Dani Lima, que é minha mulher, e trabalhou muito tempo com ela. A gente fez um trabalho com um inglês, o Roberto Pacitti, que esteve aqui, acho que no Panorama… Continuação »
O espectador como cúmplice
Conversa com o dramaturgo e diretor espanhol José Sanchis Sinisterra
José Sanchis Sinisterra é, com certeza, um dos responsáveis pela ampliação do conceito de dramaturgia. Autor teatral, vem formulando em seus textos uma reflexão sobre o que talvez se possa chamar de escrita do ator. A difusão de seu trabalho no Brasil deve ser, em boa parte, creditada ao contato com encenadores como Aderbal Freire-Filho e Christiane Jatahy. Em uma conversa com Daniel Schenker, Sinisterra fala sobre o desejo de ativar o espectador, de elevá-lo ao posto de coautor da cena, do intercâmbio entre teatro e literatura (e outros campos, como a ciência) e da conexão com o Stanislavski do Método das Ações Físicas. Continuação »
Autoral e polifônico
Conversa com o Grupo XIX de Teatro e o Espanca! sobre a peça Marcha para Zenturo
Por acasião da temporada do espetáculo Marcha para Zenturo, criado pelo Grupo XIX de Teatro e pelo Espanca!, Felipe Vidal conversa com os integrantes de ambos os grupos. A conversa foi realizada em setembro de 2010 no Espaço SESC. Participaram da conversa: Luiz Fernando Marques, Janaina Leite, Juliana Sanches, Ronaldo Serruya e Paulo Celestino (do Grupo XIX); e Marcelo Castro, Gustavo Bones e Grace Passô (do Espanca!).
Felipe Vidal – Acho que a gente pode começar falando de uma coisa mais objetiva sobre os grupos para depois entrar na história do espetáculo. Queria saber como é a sobrevivência dos grupos, como se dá o dia a dia, como acontece isso para vocês – individualmente e coletivamente?
Janaina Leite – No Grupo XIX a gente tem um contexto bastante específico que é o movimento teatral em São Paulo, que nos anos 90 abriu uma porta enorme de possibilidades pro teatro de grupo. Ainda com todas as restrições, dentro do cenário do país, acho que São Paulo tem uma realidade pra realização do teatro de grupo que é bastante singular. São 10 anos de trajetória e a gente se cola totalmente às conquistas do movimento em São Paulo. Tem a ver com a Lei de Fomento, com todos os editais que vieram depois; com a Lei de Fomento, sobretudo, que foi o que estruturou o grupo. Estruturou, criou um espaço, a gente se entendeu como grupo a partir da Lei de Fomento. O que significa esse entendimento sobre o que é ser grupo, o que é fazer um trabalho continuado, o que é ter uma pesquisa. Então, a gente hoje em dia tem essa força muito grande que é estar ligado a um espaço – o que potencializa muito nossas atividades não só internas, como possibilidade de interação, de receber outros grupos e atividades no espaço – e essa manutenção que vai se dando por esses editais públicos. Continuação »
Máscara transparente
Conversa com Christianne Jatahy e Cristina Amadeo sobre a peça Corte seco
A conversa foi realizada em março de 2010.
DANIELE AVILA – Seria interessante se você pudesse começar falando um pouco sobre a peça e sobre o que é importante pra você como artista nessa peça.
CHRISTIANNE JATAHY – Pra mim, o Corte seco se instaura como uma parte importante de uma pesquisa que, como vocês sabem, não começa com Corte seco. De alguma forma, o que está ali, sendo visto pelo público, no momento em que a peça está sendo feita – porque a peça tem essa característica de estar sendo feita em parte na hora – é muito do que a gente viveu, muito do que eu aplico, em todos os meus processos. De fato, o Corte Seco é uma tentativa, um desejo de abrir o processo, ou seja, colocar em cena de alguma forma a maneira como eu trabalho, tanto para a construção de uma peça quanto para o treinamento. Isso está tão ligado à questão dos sistemas, ao uso dos sistemas como material provocativo pra construção da dramaturgia, um estímulo para os atores construírem a cena, como também a essas interferências, que têm o objetivo de tornar vivo o que está acontecendo na cena, o que vai gerar uma dramaturgia que se transformará numa coisa que, apesar de parecer aberto, não está aberto. Está aberto como qualquer outra peça. Continuação »
Sobre In on it e outras coisas
Conversa com Enrique Diaz
A conversa com Enrique Diaz foi realizada em 21 de maio de 2009
DANIELA AMORIM – Quando a gente se encontrou, pouco antes do último ensaio aberto da peça In On It, você falou alguma coisa sobre a peça ser “diferente”; você parecia estar fazendo uma distinção entre o que eu veria, ali naquela montagem, e alguma coisa que eu esperaria ver numa peça sua. Isso tem a ver com alguma noção de identidade que você atribui ao seu trabalho, à sua intervenção como diretor numa montagem, e que não estaria tão presente nesta montagem? O que seria isto? Continuação »
Cenografia
Conversa com Aurora dos Campos
A conversa com Aurora dos Campos foi realizada em fevereiro de 2009 por Daniel Schenker, Daniele Avila e Dinah Cesare.
DANIELE AVILA – Eu não sei se vi todos os trabalhos que você fez. Eu vi Quartos de Tennesse , A forma das coisas, Ele precisa começar e O estrangeiro.
DANIEL SCHENKER – Foram os que eu vi também.
AURORA DOS CAMPOS – Eu não fiz muito mais do que isso. Eu fiz também Contando Machado de Assis do Antônio Gilberto. Nem tem tanto trabalho, eu tô começando mesmo.
DINAH CESARE – Uma das coisas que a gente tinha pensado em falar é sobre você – saber um pouco da sua formação de cenógrafa. Continuação »
Do Teatro de Arena à estética do Oprimido
Conversa com Augusto Boal
Em lembrança viva ao teatrólogo Augusto Boal, falecido no dia 02 de maio de 2009, publica-se a entrevista realizada no Centro de Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro em 15 de outubro de 2007 por Douglas Tavares Borges Leal e Clóvis de Lima Gomes sob orientação do professor Sérgio de Carvalho da Universidade de São Paulo e diretor da Cia. do Latão. A entrevista, sem cortes de edição, aborda em especial a fase dos musicais do Teatro de Arena de São Paulo passando por questões da dramaturgia, da crítica, do sistema curinga e do tema do herói e da empatia. Trata também das novas pesquisas do Boal, sobretudo da Estética do Oprimido, projeto teórico e programa político no qual se concentrou nos últimos anos e que teve como propósito o estímulo ao pensamento estético humano por meio do acesso à produção artística. A entrevista contribui para a compreensão de elementos comuns e críticos da trajetória entre o Teatro de Arena e o Teatro do Oprimido e ajuda a refletir sobre as características do teatro brasileiro cuja versão engajada de Boal ganhou proporções mundiais, sendo praticado por milhares de atores, diretores e educadores de todos os continentes. Em 2008, Augusto Boal foi pré-indicado ao Prêmio Nobel da Paz e em 2009 foi nomeado Embaixador Mundial do Teatro pela UNESCO. Continuação »
A arte de escutar
Conversa com Carla Faour
“(…) Escutar é mais que ouvir. É mais do que estar parada em frente a alguém dividindo o mesmo metro quadrado. Escuta-se por todas as células do corpo. Escuta-se com as mãos, com os olhos, com a respiração, escuta-se inclusive com os ouvidos… Uma postura escuta, um gesto escuta, a boca escuta. Há que se deixar apagar e se concentrar no outro para vivenciar a plenitude da experiência auditiva, há também que se eliminar quaisquer ruídos de interferência como pensamentos que voam, telefones que tocam, vaidades que afloram, vontades de ir ao banheiro… Muitos dizem que a fala distingue o ser humano dos outros animais. Discordo. Saber escutar é o que nos dá humanidade (…).” (Carla Faour, A Arte de escutar). Continuação »
Atuação crítica
Conversa com Sérgio de Carvalho
A conversa com Sérgio de Carvalho foi realizada no dia 5 de fevereiro por Daniel Schenker, Daniele Avila, Isabel Pacheco e Michelle Nicié. Sérgio de Carvalho é diretor da Cia do Latão, de São Paulo, e esteve no Rio de Janeiro por ocasião do lançamento dos livros Introdução ao teatro dialético e Atuação crítica. Continuação »
O humano entre os extremos
Conversa com Gilberto Gawronski
Alguns autores vêm sendo determinantes na carreira de Gilberto Gawronski, como Bernard-Marie Koltès (Roberto Zucco, Na Solidão dos Campos de Algodão), Caio Fernando Abreu (Uma História de Borboletas, A Dama da Noite, Do Outro Lado da Tarde) e Hans Christian Andersen (O Soldadinho de Chumbo, A Nova Roupa do Imperador e O Patinho Feio). William Shakespeare, também. Depois de participar como ator de montagens de Sonho de uma Noite de Verão e Rei Lear, Gawronski, que se formou pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e passou um ano e meio nos Estados Unidos, apresenta agora a sua versão de Medida por Medida em espetáculo em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Continuação »
O desafio da ausência de conflito
conversa com Daniel Herz
Com a carreira estabelecida à frente da bem-sucedida Cia. Atores de Laura, que conduz ao lado de Susanna Kruger, Daniel Herz começou a se exercitar no musical – primeiro em Geraldo Pereira, um Escurinho Brasileiro e depois em Otelo da Mangueira. Diante da boa receptividade de público e crítica alcançada com os dois trabalhos, aceitou o convite do ator Marcelo Serrado para dirigir Tom & Vinicius, atualmente em cartaz no Teatro João Caetano depois de cumprir temporada de quatro meses em São Paulo. Com texto de Daniela Pereira de Carvalho, dramaturga que vem realizando vôos solos após anos de parceria com a Cia. Os Dezequilibrados, o musical valoriza a dimensão poética do encontro entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
DANIEL SCHENKER – Por que você decidiu enveredar pelo ramo dos musicais?
DANIEL HERZ – Considero como a dimensão do acaso. Quando fui convidado por Cristina Lara Resende para fazer Geraldo Pereira, um Escurinho Brasileiro, nunca tinha passado pela minha cabeça entrar no campo dos musicais. Logo, desenvolvi parceria com Josimar Carneiro, na direção musical. Na verdade, eu, Josimar e Márcia Rubin formamos uma pequena equipe. Já estamos pensando no próximo trabalho juntos. Continuação »
Conversa com Gerald Thomas
Conversa com Gerald Thomas
A conversa foi realizada no dia 9 de dezembro de 2008, por Joelson Gusson e Felipe Vidal. O vídeo da conversa está disponível na TV Questão de Crítica, nosso canal no You Tube.
GERALD THOMAS – Eu tô numa posição muito diferente. Enquanto a maior parte das pessoas cavam entrevistas, eu me vejo numa posição de não querer dar entrevistas.
JOELSON GUSSON – Você quer dar essa entrevista?
GERALD THOMAS – Pra vocês é diferente. Porque uma coisa mais underground, uma coisa mais pra estudantes, é muito legal.
JOELSON GUSSON – Como é pra você a questão da crítica agora? Com esses novos veículos que existem, e você também fazendo o seu trabalho utilizando esses novos veículos, como é que fica essa coisa de ter um monólito como a Bárbara Heliodora, por exemplo? Continuação »
A cena da cidade
Conversa com Natasha Corbelino
Natasha Corbelino é responsável pela iniciativa de intercâmbio entre grupos de teatro no Rio de Janeiro A cena da cidade.
DANIELE AVILA – Como se constituiu A cena da cidade, quais são seus os objetivos e pressupostos?
NATASHA CORBELINO – A Cena da Cidade começou como um movimento despretensioso gerado pela necessidade de aproximação entre os profissionais de teatro do Rio, pela carência de diálogo e cumprimentos entre nós e pela curiosidade para mapear os trabalhos/propostas. A partir de uma necessidade de abrir espaço na cidade para encontros que me permitissem saber os nomes e rostos de quem está a meu lado fazendo o mesmo trabalho, dei origem aos primeiros contatos em 2007. A resposta ao meu primeiro email foi tão grande e ativa que confirmei o óbvio: o desejo do encontro era dominante. Continuação »
Conversa com Lourenço Mutarelli
Conversa com o autor de O Natimorto
Conversa com Lourenço Mutarelli, concedida em 07 de Julho de 2006, na residência particular do autor e desenhista, em Vila Mariana, São Paulo. Versão editada.
Nos desenhos e álbuns de Lourenço Mutarelli destacam-se especialmente o traço marcante e as histórias que evidenciam um caráter visivelmente autobiográfico. Reconhecido inicialmente no universo dos quadrinhos por meio de uma obra extremamente singular e autoral, Mutarelli menciona entre os autores que o influenciam, Kafka, Ionesco e Beckett. Em nossa conversa, o autor discute alguns pontos em comum e as principais diferenças entre o desenho, o romance e o teatro. Mutarelli fala do seu encontro com a Cia da Mentira[i] e do processo de criação da peça O que você foi quando era criança?[ii]. O autor comenta ainda o seu último álbum A Caixa de Areia, e fala sobre o desejo de transportar o espectador de teatro com o mínimo. Continuação »
Uma companhia com escrita personalizada
Conversa com Paulo de Moraes
Inveja dos Anjos remete a um passado distante, anterior ao surgimento da Armazém Companhia de Teatro, em 1987, em Londrina, com a encenação de Aniversário de Vida, Aniversário de Morte. A estrada de ferro que corta a cidade interiorana, contexto deste novo espetáculo, traz à tona imagens de Cornélio Procópio, onde nasceu o diretor Paulo de Moraes.
De lá para cá, muito tempo passou. Fundada com o inusitado nome de Companhia Dramática Bombom pra que se Pirulito tem Pauzinho pra se Chupar, rebatizada de Bombom e depois de Armazém, a companhia desembarcou no Rio de Janeiro na primeira metade da década de 90 com A Ratoeira é o Gato, encenação que logo conquistou elogios e curiosidade de público e crítica. Não demorou muito para se mudar definitivamente para o Rio, durante a temporada de Sob o Sol, em meu Leito, após a Água. Continuação »
Tempo de resistir
Conversa com Silvia Pasello
Silvia Pasello é atriz da Fondazione Pontedera Teatro desde o início dos anos 80. Um dos nomes importantes na sua formação teatral foi o ator polonês Richard Cieslak, ator do Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski. Silvia trabalhou em parceria com Carmelo Bene, com quem apresentou no Théatre Odéon, em Paris, Macbeth Horror Suite. Trabalha como atriz convidada da companhia italiana Raffaello Sanzio. Silvia esteve no Brasil para dirigir uma montagem de O castelo de Franz Kafka com uma turma de formandos da CAL. Henrique Gusmão, que também participou da conversa, é assistente de direção desta montagem.
SILVIA PASELLO – Kafka faz uma operação muito estranha com a escrita. A língua dele como escrita parece pouco significativa do ponto de vista da literatura porque lendo você tem a impressão de ler sempre a mesma coisa, a mesma palavra. Isto faz com que a língua desapareça e apareça outra coisa, como quando a criança pega uma palavra e repete, repete e essa palavra desaparece. Então, para mim, O castelo tem a ver com tudo isto, com o visível e o invisível, neste sentido do aparente, daquilo que aparece e desaparece, desta reciprocidade de planos. Não sei se está claro, mas é o que surge no meu imaginário. Mas isto é uma premissa. Continuação »
Cidadão de Beirute
Conversa com Rabih Mroué
Rabih Mroué é diretor da peça Yesterday’s Man, que faz parte da programação de inauguração do Teatro Tom Jobim.
PEDRO MANUEL – O título who’s afraid of representation? pretende estabelecer uma relação com as restrições à produção de imagens pela religião islâmica, como no caso da representação de Maomé?
RABIH MROUÉ – Eu não faço essa relação de forma directa. Faço antes uma relação com o momento presente, há um problema sobre como fazer teatro, como pode um actor representar uma personagem como Hamlet?
PEDRO MANUEL – E porque é um problema?
RABIH MROUÉ – Já não consigo acreditar. E, ao mesmo tempo, é também porque estou a lidar com assuntos políticos e religiosos da minha região. Quando sou bombardeado com milhares de imagens por dia pelos media, pergunto-me: estou nesta parte do mundo, posso produzir mais imagens? é-me permitido produzir imagens? Parece-me que há uma espécie de impossibilidade, até porque estamos numa região onde já temos a nossa imagem feita, nós não estamos a produzir as nossas imagens, elas são produzidas por outros. Continuação »
O palco como travessia
Conversa com Antunes Filho
Conversa publicada no jornal Tribuna da Imprensa no dia 24 de maio de 2008.
Apesar de considerar concluída a sua pesquisa sobre o trabalho vocal do ator, Antunes Filho continua um encenador inquieto. Em determinado momento da sua carreira, Antunes Filho deu uma guinada – mais exatamente quando dirigiu “Macunaíma”, a partir da obra de Mario de Andrade, com o Grupo Pau-Brasil.A partir daí, Antunes se afastou do chamado teatro de mercado para se dedicar ao aperfeiçoamento de um método de trabalho para o ator, que vem sendo desenvolvido ao longo dos anos no Centro de Pesquisa Teatral (CPT). Continuação »
Conversa com José Celso Martinez Corrêa e Marcelo Drummond
Conversa realizada em São Paulo, por ocasião da estreia de “Vento forte para papagaio subir”, com a colaboração de Rafaela Wrigg.
A conversa foi realizada no dia 05 de maio de 2008, em São Paulo, com Zé Celso e Marcelo Drummond, com a colaboração de Rafaela Wrigg.
FELIPE VIDAL – Bom, como o assunto central da revista é a crítica, eu queria saber: como vocês enxergam o papel da crítica hoje em dia? Há algum diálogo efetivo? O Nelson de Sá, por exemplo, participou com vocês dois na dramaturgia/tradução do Ham-Let e na época escrevia críticas. Como funciona esse tripé: artista – público – crítica? Continuação »














