Críticas

A dúvida é razoável

10 de junho de 2020 Críticas

12 pessoas com raiva é o título da peça de teatro dirigida por Juracy de Oliveira para fazer apresentações pelo Zoom neste primeiro semestre de 2020. No elenco, estão Nely Coelho, Ralph Duccini, Gilson de Barros, Giovanna Araújo, Maurício Lima, Gabrielly Arcas, José Henrique Ligabue, Tatiana Henrique, Múcia Teixeira, Leandro Vieira, Ênio Cavalcante e Mariana Queiroz. O texto é uma adaptação do roteiro de um filme, escrito pelo estado-unidense Reginald Rose nos anos 1950. O filme 12 Angry Men é um clássico de 1957 protagonizado por Henry Fonda, e que depois ganhou um remake em 1992. Há poucos anos o grupo TAPA realizou uma adaptação para o teatro, com a tradução 12 homens e uma sentença, a mesma usada para lançar ambos os filmes no Brasil, que carrega a infeliz escolha de suprimir a raiva do título.

O paradoxo da existência virtual (do teatro)

9 de junho de 2020 Críticas

O fechamento dos teatros, para nós que frequentávamos o teatro três ou quatro vezes por semana (e não me refiro apenas aos críticos e jurados de prêmios, como é o meu caso, mas às atrizes, atores, faxineirxs, diretorxs, iluminadorxs, cenógrafxs, porteirxs, bilheteirxs, seguranças, aficcionadxs de todos os tipos, etc) faz lembrar aquela história da pessoa que teve uma perna amputada, mas que todas as noites sente uma coceira insuportável no membro perdido. Não são poucas as coisas nesta vida que se tornam mais reais e imprescindíveis quando as perdemos. Ou estamos na iminência de perder. (E não me refiro apenas à liberdade em tempos de quarentena e desgoverno…).

Três palavras, três maneiras

17 de maio de 2020 Críticas

Garotos

Uma das minhas primeiras experiências de ataque homofóbico foi na rua, sozinho, pego de surpresa. O tapa foi na base da cabeça, um pouco acima da nuca. Logo em seguida, um soco no ombro direito. E um empurrão que me fez dar um passo forçado adiante, para não cair no chão. O ataque físico não foi grave, ficou só o tal do “susto” – sensação que está na minha cabeça até hoje. Coração aos pulos, eu tentava simular algum tipo de valentia, enquanto analisava em poucos segundos se deveria correr ou não. Os três garotos passaram por mim e foram embora, rindo, enquanto olhavam para trás.

Independente da gravidade, acho que qualquer experiência desse tipo mostra como o mundo pode ser perigoso para a população LGBTQI. Mas não só isso: o perigo existe e é acompanhado de crueldade. Trata-se não só do desejo de eliminação do diferente, mas de fazê-lo com sadismo e, de preferência, na frente de outros. Não só o exercício da força, mas o exibicionismo público dela.

Da (minha) impossibilidade em escrever sobre espectáculos: do quotidiano, da memória e do amor

16 de abril de 2020 Críticas

Não é de agora, mas tenho cada vez mais dificuldade em escrever sobre espectáculos. Tenho cada vez mais dificuldade em traduzir para palavras a experiência de vida que um espectáculo inspira. Dou por mim sem capacidade (vontade? generosidade?) para articular raciocínio sobre o que acabou de me acontecer. Penso: o espectáculo já me aconteceu. Tudo o resto é memória e cemitério. Tudo o resto é já parte de mim. Não há exercício analítico de memória, seja ela episódica ou semântica, feliz ou infeliz, perene ou transiente, que me consiga resgatar as horas de tráfego autopoiético entre o meu corpo e a cena. É coisa acabada. E bem. É assim que deve ser. Penso.

Dito isto, não vem desta (minha) impossibilidade grande mal ao mundo. São coisas cá minhas – que nem sequer vêm ao caso.

Confessava esta minha inaptidão porque o espectáculo Osmarina Pernambuco não consegue esquecer, de Keli Freitas, estreado no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, em Novembro de 2019, agudiza ainda mais esta minha disfunção. Nunca, como espectador, vivi um espectáculo desta forma.

Sobre narrativas e martelos

2 de abril de 2020 Críticas

Festa de inauguração, espetáculo do Teatro do Concreto, foi apresentado no CET no dia 1º de setembro de 2019, ainda na primeira metade do 34º Festivale, que em poucos dias já colocou em cena uma grande diversidade de linguagens, apontando noções diversas de teatro para diferentes públicos.

O grupo de Brasília apresenta uma série de provocações que convidam os espectadores e espectadoras a pensar sobre as construções narrativas que formam nossas visões de mundo. O principal aspecto desse processo abordado pelo grupo é a dinâmica de construção e desconstrução que constitui as grandes narrativas. O foco crítico da dramaturgia está, a meu ver, nas construções da coisa pública (a história, a cultura, a arte, os costumes) nas materialidades dos espaços públicos (os museus, os monumentos, as cidades), em contraste com os pequenos gestos dos indivíduos – e as dimensões possíveis da repercussão desses gestos.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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