Críticas

O feminino independente do corpo & a performance independente da plataforma

24 de dezembro de 2020 Críticas

Uma confluência de idiomas: português e espanhol. Como numa viajem de avião, somos convidades a navegar pelo continente intitulado América Latina. Imagens e sons desconexos revelam na tela corpos não desvelados, assim como as vozes. Os performers que constroem e materializam imagem-som em suas corpas e na tela são Nina da Costa Reis e Eduardo Ibraim; uma mulher cisgênera e um homem cis, ou melhor, uma bicha. Essa interação entre bicha-mulher-tela, multilíngue e performática, é chamada de Gaia, uma experiência promovida através do YouTube em cartaz na parceria com o Pandêmica Coletivo Temporário de Criação.

Um deslocamento do comum para o incomum

3 de dezembro de 2020 Críticas

No Brasil foram destruídos os documentos da época da escravidão, impossibilitando que as pessoas negras identificassem a sua origem. Desde a escravização, os negros e negras têm sido contados (as) ao invés de contarem a sua própria história. O protagonismo negro na sua própria narrativa é uma possibilidade recente, fruto dos movimentos negros que se reorganizaram na década de 1970 no Brasil, repercutindo artística e culturalmente quando poéticas e estéticas negras foram reconstruídas. Era preciso entender a história para resistir a ela e construir o novo, algo fundamental para a população negra. Contar a versão de si mesmos, que remete ao lema popular negro “nós por nós”, é uma forma de escurecer o futuro. Contar a sua própria história é tornar-se sujeito, fazer jus a um locus social, além de ser uma poderosa maneira de decolonizar os corpos imagética e ideologicamente. “É por aí que o discurso ideológico se faz presente. Já a memória a gente considera como o não saber que conhece, esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita, o lugar da emergência da verdade, dessa verdade que se estrutura como ficção” (RATTS, RIOS, 2010. p.74). Ou então precisa tornar a ficção mais real.

Marcha a ré

6 de outubro de 2020 Críticas

Cortejo-Teatro da Vertigem. Guiar de marcha a ré da Paulista até o cemitério da Consolação. O que as centenas de carros estacionados em fila dupla na contramão teriam conseguido perfazer exatamente?

Cumpriram um programa, bem devagar, com muitas paradas inesperadas, que evocavam às vezes habituais congestionamentos, mas também com alguns momentos alucinantes, em que guiar na ré extensivamente disparava uma atenção radical, um foco excedente na própria presença e no presente em torno.

Não raspar no meio fio, ou no carro ao lado, e seguir o de trás sempre se afastando, ainda cuidando de não se aproximar demais e bater, ou ser batido por quem está na frente, mas anda pra trás e vem pra cima.

A dúvida é razoável

10 de junho de 2020 Críticas

12 pessoas com raiva é o título da peça de teatro dirigida por Juracy de Oliveira para fazer apresentações pelo Zoom neste primeiro semestre de 2020. No elenco, estão Ênio Cavalcante, Gabrielly Arcas, Gilson de Barros, Giovanna Araújo, José Henrique Ligabue, Leandro Vieira, Mariana Queiroz, Maurício Lima, Múcia Teixeira, Nely Coelho, Ralph Duccini e Tatiana Henrique. O texto é uma adaptação de Juracy do texto escrito pelo estado-unidense Reginald Rose nos anos 1950. O filme 12 Angry Men é um clássico de 1957 protagonizado por Henry Fonda, e que depois ganhou um remake em 1992. Há poucos anos o grupo TAPA realizou uma adaptação para o teatro, com a tradução 12 homens e uma sentença, a mesma usada para lançar ambos os filmes no Brasil, que carrega a infeliz escolha de suprimir a raiva do título.

O paradoxo da existência virtual (do teatro)

9 de junho de 2020 Críticas

O fechamento dos teatros, para nós que frequentávamos o teatro três ou quatro vezes por semana (e não me refiro apenas aos críticos e jurados de prêmios, como é o meu caso, mas às atrizes, atores, faxineirxs, diretorxs, iluminadorxs, cenógrafxs, porteirxs, bilheteirxs, seguranças, aficcionadxs de todos os tipos, etc) faz lembrar aquela história da pessoa que teve uma perna amputada, mas que todas as noites sente uma coceira insuportável no membro perdido. Não são poucas as coisas nesta vida que se tornam mais reais e imprescindíveis quando as perdemos. Ou estamos na iminência de perder. (E não me refiro apenas à liberdade em tempos de quarentena e desgoverno…).

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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