Críticas

Ensaio de descolonização do pensamento

3 de setembro de 2018 Críticas

“Bem te conheço, voz dispersa
nas quebradas,
manténs vivas as coisas
nomeadas.
Que seria delas sem o apêlo
à existência,
e quantas feneceram em sigilo
se a essência
é o nome, segredo que recolho
para gerir o mundo no meu verso?
para viver eu mesmo de palavra?
para vos ressuscitar a todos, mortos
esvaídos no espaço, nos compêndios?”

Carlos Drummond de Andrade,
“As palavras e a terra”

Renato Livera em Colônia. Foto: renatolivera.com/colonia
Renato Livera em Colônia. Foto: renatolivera.com/colonia
  1. A mesura e o infamiliar

Ao entrar em sala de aula, o professor faz uma mesura exagerada. Dobra o corpo e leva o peito quase até o chão, como um bailarino. Ou uma garça. Já vi esse gesto em algum lugar, mas ele parece totalmente deslocado naquela situação prosaica. Eu próprio sou professor. Em vinte anos de profissão, não me lembro de alguma vez ter feito uma mesura dessas diante dos meus alunos. Tampouco me lembro de qualquer professor, dentre as dezenas ou centenas que já tive, fazendo uma mesura dessas. Se o cenário – uma sala de aula com um quadro negro ao fundo, uma cadeira e uma pequena mesa em primeiro plano – era a princípio de todos o mais familiar (Freud diria: heimlich), com uma leve torção (do corpo!) ele se torna imediatamente estranho, infamiliar (unheimlich). Lembra daquele travelling penetrando na grama perfeitamente verde de uma pequena e organizada cidade do interior no início de Veludo azul, do David Lynch? Lembra que ele termina com a imagem de uma orelha humana decepada? Lembra dessa orelha sendo invadida por uma gigantesca e a princípio invisível colônia de insetos?

A busca do presente

6 de agosto de 2018 Críticas

(O texto a seguir contém spoilers!)

Foto: Nityama Macrini.
Foto: Nityama Macrini.

Rio de Janeiro, 05 de agosto de 2018

Querida Daní, não sei se te contei, mas enquanto eu caminhava de mãos dadas com o Bê (meu filho Bernardo, de 11 anos) ali pela calçada da Domingos Ferreira, depois que vimos o teu Há mais futuro que passado na sala Multiuso do SESC Copacabana, ele me disse: “Pai, fiquei triste de a Ana não existir.” Na hora, fiquei desconcertado, e ao mesmo tempo louco para encontrar uma resposta que fizesse sentido para ele.

Nós que aqui estamos por “voz” esperamos

20 de fevereiro de 2018 Críticas

 

Hilton Cobra. Foto: Divulgação.
Hilton Cobra. Foto: Divulgação.

Sim! “Voz”. Não é um erro! É proposital. Tomo aqui a liberdade poética para fazer menção ao título do filme de Marcelo Masagão, Nós que aqui estamos por vós esperamos de 1999. Lembro-me claramente daquela noite, sentada na areia da praia de Ipanema, com o dinheiro contado da passagem no bolso, de ter sido arrebatada em minhas verdades diante de um imenso telão montado pelo Festival de Cinema do Rio; sozinha depois de um dia inteiro de maratona cinematográfica passando por Rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, Infidelidade, Castelo Ratimbum. Vendo-as cair por terra e meus parâmetros se resignificarem diante de um arrebatamento culminado em lágrimas de libertação e alegria. Me senti renascida porque vi que não estava só em meus devaneios éticos. Eles não eram devaneios…! Os vi ter “voz” naquele momento. E me senti forte e corajosa o suficiente para seguir nessa caminhada chamada vida.

O embranquecimento da pretura

10 de fevereiro de 2018 Críticas
Cássia Damasceno e Grace Passô. Foto: Nana Moraes.
Cássia Damasceno e Grace Passô. Foto: Nana Moraes.

 

Escrevo esse texto a convite da revista Questão de Crítica.
Esse texto não é uma crítica sobre preto.
Preto merece uma crítica detalhada sobre o que preto mostra em cena.

Eu esperei muito tempo para ver preto no palco.
Estava muito ansiosa e cheia de expectativas.
É muita coisa pra se esperar de um espetáculo trazido pela companhia brasileira de teatro chamado preto.
Das dezessete montagens da companhia BRASILEIRA de teatro, apenas três tiveram atores pretos no elenco.
Somente uma dessas três montagens aconteceu antes da chegada de Grace Passô. Nessa primeira montagem, a atriz preta em cena era Cássia Damasceno, também produtora da companhia há anos. Essa primeira peça da companhia BRASILEIRA de teatro com uma atriz preta, só teve apresentações no exterior. No Brasil foram só ensaios abertos.
Significa.
Só agora, em preto, Cássia volta ao palco pela segunda vez com a companhia BRASILEIRA de teatro. Pela primeira vez no Brasil.

Dobradinha

4 de fevereiro de 2018 Críticas

 

Foto: Bidi Bujnowsky.
Foto: Bidi Bujnowsky.

Ricardo Kosovski entra em cena vestido num paletó largo demais. E descalço. Depois de algum tempo em silêncio, com seu corpo tomado por pequenos movimentos físicos que remetem a certos espasmos involuntários do corpo, provavelmente causados por um grande desconforto, começa a falar:

“Puxo um fio. E depois outro. E mais outro. Desenrolo e chego no ponto onde quase acaba. É o que parece: vai acabar. – A – CA – BA . Você não pode falar. Os fios estão vivos e embolados dentro da sua barriga. Quanto mais eu puxo, sinto que também são meus. Estão embolados na minha barriga também. Eu sei que dói. Está doendo em você também? Você não responde. Você não consegue falar. Quem acredita nisso que estou falando chama esses fios de história. Mas agora esses fios são as suas tripas. E as minhas também. Eu estou falando de tripas. Tripas de todos aqueles que chegaram até essa fronteira, onde tudo acaba. Eu posso falar por você. É o que faço agora.”

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A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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