Críticas

Três palavras, três maneiras

17 de maio de 2020 Críticas

Garotos

Uma das minhas primeiras experiências de ataque homofóbico foi na rua, sozinho, pego de surpresa. O tapa foi na base da cabeça, um pouco acima da nuca. Logo em seguida, um soco no ombro direito. E um empurrão que me fez dar um passo forçado adiante, para não cair no chão. O ataque físico não foi grave, ficou só o tal do “susto” – sensação que está na minha cabeça até hoje. Coração aos pulos, eu tentava simular algum tipo de valentia, enquanto analisava em poucos segundos se deveria correr ou não. Os três garotos passaram por mim e foram embora, rindo, enquanto olhavam para trás.

Independente da gravidade, acho que qualquer experiência desse tipo mostra como o mundo pode ser perigoso para a população LGBTQI. Mas não só isso: o perigo existe e é acompanhado de crueldade. Trata-se não só do desejo de eliminação do diferente, mas de fazê-lo com sadismo e, de preferência, na frente de outros. Não só o exercício da força, mas o exibicionismo público dela.

Da (minha) impossibilidade em escrever sobre espectáculos: do quotidiano, da memória e do amor

16 de abril de 2020 Críticas

Não é de agora, mas tenho cada vez mais dificuldade em escrever sobre espectáculos. Tenho cada vez mais dificuldade em traduzir para palavras a experiência de vida que um espectáculo inspira. Dou por mim sem capacidade (vontade? generosidade?) para articular raciocínio sobre o que acabou de me acontecer. Penso: o espectáculo já me aconteceu. Tudo o resto é memória e cemitério. Tudo o resto é já parte de mim. Não há exercício analítico de memória, seja ela episódica ou semântica, feliz ou infeliz, perene ou transiente, que me consiga resgatar as horas de tráfego autopoiético entre o meu corpo e a cena. É coisa acabada. E bem. É assim que deve ser. Penso.

Dito isto, não vem desta (minha) impossibilidade grande mal ao mundo. São coisas cá minhas – que nem sequer vêm ao caso.

Confessava esta minha inaptidão porque o espectáculo Osmarina Pernambuco não consegue esquecer, de Keli Freitas, estreado no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, em Novembro de 2019, agudiza ainda mais esta minha disfunção. Nunca, como espectador, vivi um espectáculo desta forma.

Sobre narrativas e martelos

2 de abril de 2020 Críticas

Festa de inauguração, espetáculo do Teatro do Concreto, foi apresentado no CET no dia 1º de setembro de 2019, ainda na primeira metade do 34º Festivale, que em poucos dias já colocou em cena uma grande diversidade de linguagens, apontando noções diversas de teatro para diferentes públicos.

O grupo de Brasília apresenta uma série de provocações que convidam os espectadores e espectadoras a pensar sobre as construções narrativas que formam nossas visões de mundo. O principal aspecto desse processo abordado pelo grupo é a dinâmica de construção e desconstrução que constitui as grandes narrativas. O foco crítico da dramaturgia está, a meu ver, nas construções da coisa pública (a história, a cultura, a arte, os costumes) nas materialidades dos espaços públicos (os museus, os monumentos, as cidades), em contraste com os pequenos gestos dos indivíduos – e as dimensões possíveis da repercussão desses gestos.

A loucura como projeto em Hysteria

2 de abril de 2020 Críticas

Quase 20 anos depois da sua estreia, Hysteria, do Grupo XIX de Teatro, de São Paulo, se apresentou pela primeira vez em São José dos Campos no último dia do 34º Festivale, em setembro de 2019. O espetáculo foi realizado em um galpão abandonado nas imediações da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, cuja arquitetura serviu como o próprio cenário da peça.

Cinco mulheres estão na Sala de Asseios de um hospício feminino do século XIX – uma espécie de cárcere. Quatro delas estão internadas e sob os “cuidados” da quinta personagem, uma enfermeira com ares de governanta que recebe o público feminino com certa agressividade. As narrativas que cada personagem traz foram inspiradas em registros históricos pesquisados pelo grupo. Suas falas trazem citações de documentos e de obras literárias, mas a dramaturgia também conta com a interação com as espectadoras no momento presente.

“Estou sentida não é por menos”

1 de março de 2020 Críticas

“Não poderia a biografia produzir algo com a intensidade da poesia,
algo com a emoção do drama, retendo, contudo,
a peculiar virtude que há nos fatos – sua realidade sugestiva,
sua própria criatividade?”
Virginia Woolf

Osmarina Pernambuco não consegue esquecer é uma peça escrita por Keli Freitas a partir dos diários de Maria Leopoldina Félix Pinheiro da Silva (1919-2014), a Osmarina Pernambuco do título. Foi o neto dela, o ator Alex Pinheiro, quem apresentou os diários da avó para a dramaturga. Em 2016, Keli e Alex apresentaram parte do processo criativo na Mostra Hífen de Pesquisa-Cena, no Rio de Janeiro. Em 2018, o texto foi selecionado na 6ª Janela de Dramaturgia, projeto que proporciona leituras encenadas de textos inéditos da dramaturgia contemporânea brasileira, realizado em Belo Horizonte. Foi quando conheci o texto, pois fiz parte da curadoria desta edição. Na ocasião, houve uma leitura feita por Bárbara Amaral com direção de Raquel Pedras em outubro daquele ano no CCBB-BH, a que não pude assistir. Também não tive oportunidade de estar na estreia da peça, encenada pela própria Keli Freitas, que também atua no espetáculo, em novembro de 2019 no Teatro D. Maria II em Lisboa. No entanto, tive a sorte de assistir à leitura realizada por Alex Pinheiro no Tempo Festival no mesmo mês, dirigida por Inez Viana.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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