Críticas

Nós que aqui estamos por “voz” esperamos

20 de fevereiro de 2018 Críticas

 

Hilton Cobra. Foto: Divulgação.
Hilton Cobra. Foto: Divulgação.

Sim! “Voz”. Não é um erro! É proposital. Tomo aqui a liberdade poética para fazer menção ao título do filme de Marcelo Masagão, Nós que aqui estamos por vós esperamos de 1999. Lembro-me claramente daquela noite, sentada na areia da praia de Ipanema, com o dinheiro contado da passagem no bolso, de ter sido arrebatada em minhas verdades diante de um imenso telão montado pelo Festival de Cinema do Rio; sozinha depois de um dia inteiro de maratona cinematográfica passando por Rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, Infidelidade, Castelo Ratimbum. Vendo-as cair por terra e meus parâmetros se resignificarem diante de um arrebatamento culminado em lágrimas de libertação e alegria. Me senti renascida porque vi que não estava só em meus devaneios éticos. Eles não eram devaneios…! Os vi ter “voz” naquele momento. E me senti forte e corajosa o suficiente para seguir nessa caminhada chamada vida.

O embranquecimento da pretura

10 de fevereiro de 2018 Críticas
Cássia Damasceno e Grace Passô. Foto: Nana Moraes.
Cássia Damasceno e Grace Passô. Foto: Nana Moraes.

 

Escrevo esse texto a convite da revista Questão de Crítica.
Esse texto não é uma crítica sobre preto.
Preto merece uma crítica detalhada sobre o que preto mostra em cena.

Eu esperei muito tempo para ver preto no palco.
Estava muito ansiosa e cheia de expectativas.
É muita coisa pra se esperar de um espetáculo trazido pela companhia brasileira de teatro chamado preto.
Das dezessete montagens da companhia BRASILEIRA de teatro, apenas três tiveram atores pretos no elenco.
Somente uma dessas três montagens aconteceu antes da chegada de Grace Passô. Nessa primeira montagem, a atriz preta em cena era Cássia Damasceno, também produtora da companhia há anos. Essa primeira peça da companhia BRASILEIRA de teatro com uma atriz preta, só teve apresentações no exterior. No Brasil foram só ensaios abertos.
Significa.
Só agora, em preto, Cássia volta ao palco pela segunda vez com a companhia BRASILEIRA de teatro. Pela primeira vez no Brasil.

A Grace Passô é uma das maiores, se não a maior dramaturga do Brasil. Ela é preta. Grace é também uma das maiores atrizes que temos atualmente. Grace é preta.
É da Grace a vaga carne.

Renata Sorrah é uma das maiores atrizes do Brasil. Ela não é preta. Renata é petra.
Em preto ela não se afeta nem por ser branca e nem por não ser preta.

Preto deixa exposta a dificuldade que é falar de preto no Brasil. Dificuldade que é falar de preto em lugares brancos.
A gente tem pânico de performar a violência do racismo e prefere falar sobre “ser o que se é”.

E a gente é muita coisa.

A gente é gay, a gente é branco, a gente é diferente, a gente é único, a gente é um monte de coisa que “não pode esquecer que é”.
Mas sobre preto a gente não consegue falar de um jeito que não seja branco porque falar sobre preto é violento e incomoda e a gente não quer estragar o conforto branco do teatro.

É difícil mesmo.

Fica mais fácil diluir e não empretecer a linguagem.

Depois de ver a peça, fui procurar matérias na rede que me ajudassem a entender o processo de preto, que me ajudassem a entender sobre o que queriam falar na peça e na maioria das vezes, vejo a Renata falando da importância do teatro, do fazer teatral. Esse branco fazer teatral. Fazer teatral que é petra e não preto.

É claro que quem vai dar entrevistas é sempre a Renata que é a mais famosa do grupo, essa é a regra e a gente sabe disso. Tudo certo.
Mas eu queria é ver a vaga carne falando. Ah, como eu queria! A vaga carne falando preto e não petra.

Queria ver a Grace e o Márcio Abreu falando. E a Renata também! Falando sobre preto! E pode dizer que é branco e que pra um branco é muito difícil entender essa coisa toda porque não dá mesmo pra sentir a dor do outro e por isso a pesquisa do grupo. Mas não generalizar a dor, falar de diferença e deixar a plateia branca com esse confortinho no coração achando que cada um tem o “seu diferente”.
Racismo é uma coisa muito séria! Não que as outras dores não sejam também sérias e isso aqui não é um ranking de quem sofre mais.

Mas a peça se chama PRETO e isso é sério e significa.
Muito.

Foi curioso o que aconteceu na estreia de preto aqui no Rio de Janeiro.
No começo da peça, a Grace chama alguém pra carregar uma mesa no palco e depois pede pra essa pessoa se sentar à mesa e fazer um gesto inesquecível.

No CCBB daqui, um ator branco, colega nosso, se prontificou a ajudá-la.
Está certo que era o começo da peça e nada tinha sido estabelecido ainda. Mas a gente estava sabendo sobre o que se tratava. A peça se chama preto.

Se chama preto mas o teatro é branco.

O gesto desse ator foi colocar o pau pra fora. O pau branco pra fora.

Significa, não é?
MUITO.

Sinto que o público branco sai desse espetáculo do jeito que entrou. Ou melhor, sai se sentindo mais inteligente e com o coração quentinho. Com a sensação de que somos mesmo diferentes e que cada ser humano tem o seu “ser preto”, cada um à seu modo.

Com isso, podem entender que estou defendendo a violência ou a opressão para com o opressor pra se falar de racismo. Não é isso.
Mas como pode esse tema não ser desconfortável?
Estamos fugindo dele há séculos!
Dito isso, espero agora os defensores brancos dizerem que sim, que se sentiram SIM afetados com a peça. Tudo bem.
Está tudo certo. Somos todos seres humanos, não é?

Há pouco tempo, eu conversava com um amigo branco, estudante de teoria do teatro na Unirio, sobre preto e ele me contou das atuais performances feitas por alunos pretos do curso de teatro e de quão violentas elas têm sido. Ele me disse que essa forma talvez fosse pouco eficaz por afastar as pessoas brancas da questão racial.

Afastar?

Me pergunto quando é que os alunos brancos se colocaram próximos dessa questão pra agora se sentirem afastados, afetados, violados (quase oprimidos).

Em outra conversa, dessa vez com uma estudante preta e não petra, também aluna da Unirio, ela me contava de um colega preto que não consegue terminar o curso por conta de uma matéria dada em um único horário, horário esse que ele não consegue comparecer por conta de seu trabalho. A professora diz não poder fazer nada. Essa aluna segue pelo mesmo caminho e ainda citou algumas matérias que exigem leituras em outras línguas que ela não teve a oportunidade de estudar e que outras alternativas tampouco são oferecidas.
A professora e as línguas são brancas.

De quem é a violência?
De quem é o desconforto?

É muito difícil para o branco, que não é preto, entender a violência do preto como linguagem, mesmo que essa “violência performática” não ameace ninguém, não impeça nenhum aluno branco de finalmente ter seu diploma.

É difícil entender porque não é o jeito civilizatório branco de se comunicar.

O lance é que o branco se sente mal ao menor sinal de não estar no “gostosinho” do seu lugar, do jeito que sempre foi acostumado a estar, sem ser incomodado ou ameaçado. Botando, inclusive, o pau branco pra fora.
E se fosse, botando o pau pra fora, um ator preto da plateia (digo da plateia, não do elenco) que não fosse colega nosso? Seria pretura como modo civilizatório?
Tenho dúvidas.

O discurso do “somos todos seres humanos” valeria?

A peça preto consegue deixar o assento do teatro 3 do CCBB ainda mais macio do que ele realmente é.

Mas preto tem protagonismos fortes! A cena final da Cássia me mata.
A Grace cantando é foda!
Os três atores pretos juntos Cássia, Grace e Felipe (Soares), nas cadeiras no palco é muito potente.
Muita coisa forte!
Eu gosto da peça e falo sério.
Mas… quando vai tensionar… alivia.
Falando em alívio… o funk… é pra quê?

Tudo escorre sempre numa corrida em volta do palco.

Preto parece ter medo de falar de um jeito preto e prefere falar de um jeito petra.
Preto foge da “violência performática” dando corridas pelo palco.
Corridas que cercam, cercam, cercam o bode, mas não o pegam pelo chifre.
A velha amenização do assunto em nome do conforto branco.

“A pretura como modo civilizatório” diz muito sobre preto.
“Civilizar é fazer sair do estado primitivo: civilizar um povo. É instruir, polir, tornar civil, cortês.”
Civilizar é embranquecer.

A pretura como modo de embranquecimento.
Significa.
Muito.

 

Foto: Nana Moraes.
Felipe Soares, Cássia Damasceno e Grace Passô. Foto: Nana Moraes.

Mariana Nunes é atriz, formada pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes :: https://www.facebook.com/Mariana-Nunes-Atriz-Actress-594355897324755/

Dobradinha

4 de fevereiro de 2018 Críticas

 

Foto: Bidi Bujnowsky.
Foto: Bidi Bujnowsky.

Ricardo Kosovski entra em cena vestido num paletó largo demais. E descalço. Depois de algum tempo em silêncio, com seu corpo tomado por pequenos movimentos físicos que remetem a certos espasmos involuntários do corpo, provavelmente causados por um grande desconforto, começa a falar:

“Puxo um fio. E depois outro. E mais outro. Desenrolo e chego no ponto onde quase acaba. É o que parece: vai acabar. – A – CA – BA . Você não pode falar. Os fios estão vivos e embolados dentro da sua barriga. Quanto mais eu puxo, sinto que também são meus. Estão embolados na minha barriga também. Eu sei que dói. Está doendo em você também? Você não responde. Você não consegue falar. Quem acredita nisso que estou falando chama esses fios de história. Mas agora esses fios são as suas tripas. E as minhas também. Eu estou falando de tripas. Tripas de todos aqueles que chegaram até essa fronteira, onde tudo acaba. Eu posso falar por você. É o que faço agora.”

Moscou é aqui

26 de janeiro de 2018 Críticas
Foto: Divulgação.
Foto: Divulgação.

Quando estava a caminho do Glauce Rocha, sem saber do que se tratava, contei a um amigo que eu estava indo ver uma peça provavelmente inspirada em Tchekhov, na Irina de As três irmãs. No ônibus, enquanto olhava sem ver a paisagem passando em velocidade de filme mudo – revi ontem O garoto, do Chaplin, e meu filho perguntou por que tudo parecia mais rápido do que na “vida real” – comecei a imaginar uma peça que aproximaria a frustração da caçula de As três irmãs, por não conseguir recuperar o paraíso perdido, e a situação de tantas mulheres que ficaram pelo caminho porque não tinham condições materiais mínimas para realizar os seus desejos, ou, nas palavras de Virginia Woolf, porque não tinham “um teto todo seu” – como tantos artistas na nossa cidade neo-evangélica.

Liberdade pela metade

19 de janeiro de 2018 Críticas
Foto: Ricardo Brajterman.
Foto: Ricardo Brajterman.

A ideia de entrar no teatro para ver uma releitura de Shakespeare, ainda mais com este belo título, O animal que ronda, me deixa sempre numa expectativa prazerosa. Não só porque as releituras dos clássicos são mais raras do que eu gostaria na cena teatral carioca, mas sobretudo porque, ao ver uma nova interpretação de uma obra canônica, duas vertentes muitas vezes antitéticas do meu trabalho, a de crítico teatral e a de professor de filosofia, encontram uma síntese que faz com que eu me sinta menos partido. Afinal, como professor universitário, eu sou fundamentalmente um leitor de releituras de obras clássicas. Nesse sentido, independentemente da minha vontade consciente, me sentei na arquibancada do Espaço Municipal Sergio Porto com duas perguntas (ou exigências) na cabeça.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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