Críticas

“Estou sentida não é por menos”

1 de março de 2020 Críticas

“Não poderia a biografia produzir algo com a intensidade da poesia,
algo com a emoção do drama, retendo, contudo,
a peculiar virtude que há nos fatos – sua realidade sugestiva,
sua própria criatividade?”
Virginia Woolf

Osmarina Pernambuco não consegue esquecer é uma peça escrita por Keli Freitas a partir dos diários de Maria Leopoldina Félix Pinheiro da Silva (1919-2014), a Osmarina Pernambuco do título. Foi o neto dela, o ator Alex Pinheiro, quem apresentou os diários da avó para a dramaturga. Em 2016, Keli e Alex apresentaram parte do processo criativo na Mostra Hífen de Pesquisa-Cena, no Rio de Janeiro. Em 2018, o texto foi selecionado na 6ª Janela de Dramaturgia, projeto que proporciona leituras encenadas de textos inéditos da dramaturgia contemporânea brasileira, realizado em Belo Horizonte. Foi quando conheci o texto, pois fiz parte da curadoria desta edição. Na ocasião, houve uma leitura feita por Bárbara Amaral com direção de Raquel Pedras em outubro daquele ano no CCBB-BH, a que não pude assistir. Também não tive oportunidade de estar na estreia da peça, encenada pela própria Keli Freitas, que também atua no espetáculo, em novembro de 2019 no Teatro D. Maria II em Lisboa. No entanto, tive a sorte de assistir à leitura realizada por Alex Pinheiro no Tempo Festival no mesmo mês, dirigida por Inez Viana.

Para mastigar o teatro

19 de novembro de 2019 Críticas

English version: http://www.questaodecritica.com.br/2019/11/fringe-2019-english/

Em agosto de 2019, passei uma semana em Edimburgo, assistindo às peças do Fringe, festival que viabiliza um imenso mercado de artes cênicas que é referência no mundo inteiro. Representando a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, acompanhei a programação do Edinburgh Showcase do British Council (que inclui obras que fazem parte do Edinburgh Festival Fringe e do Edinburgh International Festival). Foram mais de trinta espetáculos em seis dias – o que não é nada em comparação aos quase 4.000 que fizeram parte da edição deste ano. Neste artigo, escrevo sobre uma parte dessa programação. Não pretendo fazer uma crítica de cada trabalho, mas apresentar algumas ideias que se formaram no acúmulo e nos atravessamentos.

A profanação fundamental

16 de novembro de 2019 Críticas

English version: http://www.questaodecritica.com.br/2020/03/stabat-mater-english/

Em Stabat Mater, Janaina Leite dá continuidade a um processo que conjuga pesquisa de linguagem e investigação de si. Depois de uma apresentação do processo criativo na 6ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo em março de 2019, a peça estreou no CCSP – Centro Cultural São Paulo, sendo uma das finalistas do Edital de Dramaturgia em Pequenos Formatos desta mesma instituição no ano anterior. Depois, fez apresentações no Teatro de Contêiner, onde assisti ao espetáculo. Vale lembrar que o Teatro de Contêiner é o espaço da Cia. Mugunzá, criadora da peça Luis Antonio Gabriela, uma referência do teatro documentário autobiográfico contemporâneo no Brasil, que guarda parentescos com as questões que vou apresentar aqui. Neste mês, novembro de 2019, Stabat Mater volta ao Teatro de Contêiner. Tanto a peça quanto a visita ao espaço valem a viagem a São Paulo.

Uma carta para Mão

12 de novembro de 2019 Críticas

Rio de Janeiro, 2 de julho de 2019.

Para as mãos de Mão.

Essas são as minhas mãos. Eu quis compartilhá-las com vocês assim que o espetáculo terminou. Através das minhas mãos, que exibem calos somente de escrita, de tanto pressionar a caneta contra os dedos, que quero começar. O começo da mão é uma espécie de fim do corpo. Nos dedinhos, onde a mão começa, é também onde se delimita uma fronteira. Depois da mão, tudo é construção. Assim como depois dos pés e outras terminações. Tem fim a mão? Ou o que ela toca transforma-se numa espécie de prolongamento, prótese de continuidade? Com certeza tem gente que pensa que a mão começa no pulso. Aceito. Mas prefiro que a mão comece nos dedinhos, que ela venha de fora para dentro, que ela comece no ar, perto das unhas.

Gota d’água preta

26 de outubro de 2019 Críticas

Agô!

Exu é mojubá!

Sobre erros, acertos e tentativas. Mais uma tentativa-erro-acerto de tecer uma escrita sobre algo que me afeta, sem parecer afetada.

Quando será a nossa gota d’água? A partir dessa pergunta não retórica mergulho no Brasil. O povo preto em diáspora sempre esteve armado e há um tempo (muito tempo) vem escancarando os dentes. Armado até os dentes. A palavra que bate, dilacera, espanca é transformada em ato, em grito, em gesto, em música e é na estética e na força da mulher e do homem preto que Gota d’água {preta} se dá.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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