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Devaneio metateatral sobre a cultura das aparências

23 de maio de 2013 Críticas
Foto: Divulgação.

Em 1943, quando o diretor polonês Ziembinski estreou sua versão para a peça Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, quem estava na plateia talvez não pudesse suspeitar que, naquela noite, o teatro brasileiro inaugurava historicamente sua fase moderna. No entanto, era inegável o estranhamento gerado pela opção rodrigueana de concentrar toda a ação cênica na cabeça da protagonista Alaíde. Após ter sido atropelada e chegar à sala de cirurgia entre a vida e a morte, a personagem se tornou marco de nossa dramaturgia ao oscilar entre os planos da memória, da realidade e da alucinação.

É também a estranheza fragmentária e lacunar gerada pela sobreposição de planos um dos pontos de contato mais fortes entre Vestido de noiva e o novo espetáculo do Grupo XIX de Teatro, Nada aconteceu, tudo acontece, tudo está acontecendo, livremente inspirado na obra clássica de Nelson e com dramaturgia criada pelo grupo em parceria com Alexandre Dal Farra. A direção é de Luiz Fernando Marques e Janaina Leite.

O real afetivo em cena

26 de janeiro de 2012 Críticas
Foto: Rafael Turatti.

Antes de falar sobre a peça Feito pra acabar, que fez três apresentações na XI Mostra de Teatro da UFRJ, gostaria de me ater a esse evento realizado anualmente pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sendo oficialmente o espaço em que os alunos formandos do curso de direção teatral apresentam seus trabalhos cênicos de conclusão de curso, e assim um momento de fechamento de ciclo dentro da formação do artista, a Mostra possui um caráter de integração entre as partes que produzem um objeto artístico. De fato, o evento aparece como um grande acontecimento dentro da universidade, movimentando os corredores históricos do prédio da Praia Vermelha e intensificando uma vontade do público e de estudantes de teatro, especialmente, em que haja mais eventos teatrais dessa natureza em nossa cidade.

Teatro documentário ou sob o risco do real

12 de outubro de 2011 Processos
Foto: Divulgação.

Experimentamos o poder de representação da cena e o fato de que tudo que nela é mostrado se torna automaticamente teatro, mas pesquisamos também, o modo como o olhar se modifica segundo a natureza daquilo que é colocado em cena. São peças onde não se sabe mais onde começa o teatro e onde acaba a realidade. Trata-se de percepção, de recognição do mundo e, particularmente, dos homens.
(texto extraído do site do coletivo alemão Rimini Protokoll)

Na busca de entender o que na cena contemporânea vem se convencionando chamar de Teatro Documentário (1), é que desenvolvemos a breve exposição que se segue. Essa primeira fase da reflexão foi um desdobramento do experimento Festa de separação: um documentário cênico (2008) (2), espetáculo que tem sua dramaturgia e cena constituídas por material autobiográfico elaborado a partir de festas de separação, verdadeiros happenings, que foram a base do processo de criação. Nos perguntamos então sobre as implicações de uma cena constituída a partir do “real” e passamos a refletir sobre os diferentes pressupostos e elaborações através de obras de artistas como a argentina Vivi Tellas ou o coletivo alemão Rimini Protokoll.

Materialidade artesanal

3 de novembro de 2010 Críticas
Hygiene em Belo Horizonte. Atores: Tatiana Caltabiano e Ronaldo Serruya. Foto: Felipe Vidal.

Há poucas semanas, escrevi sobre a peça Mi vida después, da encenadora argentina Lola Arias, que me fez pensar o quanto é raro ver (no Rio de Janeiro pelo menos, onde vivo e trabalho) trabalhos de artes cênicas que façam referência à História – no caso me referia especificamente a um momento problemático da nossa História, a ditadura. Com isso, não estou defendendo que se deve fazer teatro para falar da História, faço apenas uma especulação. No Rio, fica a impressão de que isso acontece mais nos musicais que muitas vezes contam a história de determinado músico ou de determinado período da música. Mas o formato congelado dos musicais cariocas (é claro que existem exceções) revestem os temas históricos de um glamour tão artificial, que mal se pode reconhecer ali uma história vivida por seres humanos – o que fica visível nos figurinos com jeito de recém-saídos da costureira, na iluminação de efeitos fáceis e nos cenários grandiosos, porém literais e sem potencial de produção de sentidos. A História que se conta é quase sempre de um momento áureo, por assim dizer, ou a biografia romantizada de alguém conhecido. É raro ver alguém tocar nas feridas da História por aqui. Cariocas não gostam de dias nublados.

Autoral e polifônico

30 de outubro de 2010 Conversas

Por acasião da temporada do espetáculo Marcha para Zenturo, criado pelo Grupo XIX de Teatro e pelo Espanca!, Felipe Vidal conversa com os integrantes de ambos os grupos. A conversa foi realizada em setembro de 2010 no Espaço SESC. Participaram da conversa: Luiz Fernando Marques, Janaina Leite, Juliana Sanches, Ronaldo Serruya e Paulo Celestino (do Grupo XIX); e Marcelo Castro, Gustavo Bones e Grace Passô (do Espanca!).

Felipe Vidal – Acho que a gente pode começar falando de uma coisa mais objetiva sobre os grupos para depois entrar na história do espetáculo. Queria saber como é a sobrevivência dos grupos, como se dá o dia a dia, como acontece isso para vocês – individualmente e coletivamente?

Janaina Leite – No Grupo XIX a gente tem um contexto bastante específico que é o movimento teatral em São Paulo, que nos anos 90 abriu uma porta enorme de possibilidades pro teatro de grupo. Ainda com todas as restrições, dentro do cenário do país, acho que São Paulo tem uma realidade pra realização do teatro de grupo que é bastante singular. São 10 anos de trajetória e a gente se cola totalmente às conquistas do movimento em São Paulo. Tem a ver com a Lei de Fomento, com todos os editais que vieram depois; com a Lei de Fomento, sobretudo, que foi o que estruturou o grupo. Estruturou, criou um espaço, a gente se entendeu como grupo a partir da Lei de Fomento. O que significa esse entendimento sobre o que é ser grupo, o que é fazer um trabalho continuado, o que é ter uma pesquisa. Então, a gente hoje em dia tem essa força muito grande que é estar ligado a um espaço – o que potencializa muito nossas atividades não só internas, como possibilidade de interação, de receber outros grupos e atividades no espaço – e essa manutenção que vai se dando por esses editais públicos.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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