Críticas

De uma espectadora à distância

30 de setembro de 2022 Críticas

Discurso de promoción, espetáculo criado em 2017 pelo Grupo Cultural Yuyachkani, companhia de teatro atuante no Peru há mais de 50 anos, tem como ponto de partida a proposta de uma revisão crítica das representações dominantes da história do seu país. Diante das comemorações dos duzentos anos de independência da coroa espanhola, o grupo critica a ausência de representatividade dos grupos sociais que realmente lutaram pela emancipação da região. Para isso, eles tomam como paradigma uma obra do pintor Juan Lepiani, em que se vêm apenas homens, brancos e de classes privilegiadas, tendo o povo, uma massa informe no quadro, como mero pano de fundo desse momento histórico.

Que ele sofre

30 de setembro de 2022 Críticas

Escrever uma crítica de O que o meu corpo nu te conta? evidencia uma condição básica tanto da crítica quanto da recepção teatral de modo geral: não existe “a obra”, existem tantas experiências da mesma obra quanto o número de espectadores que a assistem. Penso ainda que as experiências das obras se modificam na memória e que são formadas tanto pelo que é posto em cena quanto pelo que cada um traz de repertório prévio na ação da recepção. Dito isto, explico a ênfase que essa peça coloca: o espetáculo dispõe de uma série de pequenos relatos para que os espectadores escolham os que querem ver e ouvir. A cada apresentação, é difícil que duas pessoas consigam ver exatamente a mesma combinação de cenas. Assim, para pensar essa peça, o que tenho em mãos é a combinação de cenas que vi.  

O recurso

30 de setembro de 2022 Críticas

Uma pessoa que frequenta teatro regularmente pode pensar que já conhece Hamlet. Uma pessoa que frequenta teatro regularmente há décadas pode dizer que já viu muitos Hamlets. Essa pessoa também pode pensar que tudo já foi dito e elaborado sobre essa peça, inclusive no cinema. É possível pensar que a mais conhecida das obras de Shakespeare é sobre um príncipe melancólico, sobre um reino em que há algo de podre (uma redundância), sobre disputas de poder, sobre amor, traição, engano e ambição. Sobre o fardo de carregar um legado. Sobre não ter certeza de qual é o seu papel no mundo. Sobre estar só e não poder confiar em (quase) ninguém. Sobre tudo isso junto. Mas eu acho mesmo que Hamlet é uma peça sobre o teatro – e não estou sozinha nessa, obviamente.

A árvore metálica do vale de cada pessoa

25 de agosto de 2022 Críticas

Um vale é uma área de depressão territorial alongada, de baixa altitude, cercada por montanhas ou colinas. Sua formação se dá normalmente devido à atividade fluvial: a correnteza das águas provoca uma erosão e um vale é formado, em processo lento e contínuo de deslocamento de materiais de um lugar para outro. É lá no fundo desse vale em que acontece Vale da Estranheza – espetáculo do grupo alemão Rimini Protokoll – apresentado na 8ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, com direção de Stefan Kaegi. Nesse terreno movediço, a peça faz girar e profanar elementos muitas vezes lidos como separados, mas que só existem na relação com o que aparenta ser seu oposto: robô e gente, vida e morte, pele e silício, saúde e doença, mania e depressão, acerto e erro, estabilidade e instabilidade, corpo e engrenagem.

Negro-vida em oposição ao Negro-tema

25 de agosto de 2022 Críticas

Eu tenho direito ao espaço que ocupo na nação, nessa nação.
(…) A terra é meu quilombo. O meu espaço é o meu quilombo.
Onde eu estou, eu estou, onde eu estou, eu sou. 

Beatriz Nascimento

O 8° Festival Midrash de Teatro, idealizado por Nilton Bonder, com curadoria de Vilma Melo e Natasha Corbelino, reuniu presencialmente 20 peças teatrais e ações formativas no período de 01 a 28 de maio de 2022 no Teatro Café Pequeno, no Leblon. Foi uma mostra extensa do teatro produzido por artistas negros que estabeleceu um deslocamento geográfico, étnico, político e cultural na cidade. Tratou-se de um festival de Teatro Negro por contemplar produções teatrais que tinham como característica em comum a predominância de artistas negros, contrariamente ao que é praticado no sistema cultural de uma maneira geral. Para mim, o festival buscou evidenciar distintas produções não monolíticas que não reforçassem a ideia de Teatro Negro como monocultura. No entanto, para além dos diversos modos de produção e estéticas, podemos perceber pontos de convergência no que tange às negritudes, termo cunhado pelo poeta martinicano Aimé Cesaire e tão caro a Abdias do Nascimento e ao Teatro Experimental do Negro aqui no Brasil, inspiração para a maioria dos artistas racializados desse país.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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