Críticas

O recurso

30 de setembro de 2022 Críticas

Uma pessoa que frequenta teatro regularmente pode pensar que já conhece Hamlet. Uma pessoa que frequenta teatro regularmente há décadas pode dizer que já viu muitos Hamlets. Essa pessoa também pode pensar que tudo já foi dito e elaborado sobre essa peça, inclusive no cinema. É possível pensar que a mais conhecida das obras de Shakespeare é sobre um príncipe melancólico, sobre um reino em que há algo de podre (uma redundância), sobre disputas de poder, sobre amor, traição, engano e ambição. Sobre o fardo de carregar um legado. Sobre não ter certeza de qual é o seu papel no mundo. Sobre estar só e não poder confiar em (quase) ninguém. Sobre tudo isso junto. Mas eu acho mesmo que Hamlet é uma peça sobre o teatro – e não estou sozinha nessa, obviamente.

A árvore metálica do vale de cada pessoa

25 de agosto de 2022 Críticas

Um vale é uma área de depressão territorial alongada, de baixa altitude, cercada por montanhas ou colinas. Sua formação se dá normalmente devido à atividade fluvial: a correnteza das águas provoca uma erosão e um vale é formado, em processo lento e contínuo de deslocamento de materiais de um lugar para outro. É lá no fundo desse vale em que acontece Vale da Estranheza – espetáculo do grupo alemão Rimini Protokoll – apresentado na 8ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, com direção de Stefan Kaegi. Nesse terreno movediço, a peça faz girar e profanar elementos muitas vezes lidos como separados, mas que só existem na relação com o que aparenta ser seu oposto: robô e gente, vida e morte, pele e silício, saúde e doença, mania e depressão, acerto e erro, estabilidade e instabilidade, corpo e engrenagem.

Negro-vida em oposição ao Negro-tema

25 de agosto de 2022 Críticas

Eu tenho direito ao espaço que ocupo na nação, nessa nação.
(…) A terra é meu quilombo. O meu espaço é o meu quilombo.
Onde eu estou, eu estou, onde eu estou, eu sou. 

Beatriz Nascimento

O 8° Festival Midrash de Teatro, idealizado por Nilton Bonder, com curadoria de Vilma Melo e Natasha Corbelino, reuniu presencialmente 20 peças teatrais e ações formativas no período de 01 a 28 de maio de 2022 no Teatro Café Pequeno, no Leblon. Foi uma mostra extensa do teatro produzido por artistas negros que estabeleceu um deslocamento geográfico, étnico, político e cultural na cidade. Tratou-se de um festival de Teatro Negro por contemplar produções teatrais que tinham como característica em comum a predominância de artistas negros, contrariamente ao que é praticado no sistema cultural de uma maneira geral. Para mim, o festival buscou evidenciar distintas produções não monolíticas que não reforçassem a ideia de Teatro Negro como monocultura. No entanto, para além dos diversos modos de produção e estéticas, podemos perceber pontos de convergência no que tange às negritudes, termo cunhado pelo poeta martinicano Aimé Cesaire e tão caro a Abdias do Nascimento e ao Teatro Experimental do Negro aqui no Brasil, inspiração para a maioria dos artistas racializados desse país.

Gerald Thomas compõe seu “ready-made” rodriguiano

22 de agosto de 2022 Críticas

Um feto suspenso no espaço por uma rede tenta romper as fronteiras limitantes em F.E.T.O. (Estudos de Doroteia Nua Descendo a Escada), espetáculo de Gerald Thomas a partir de Doroteia, de Nelson Rodrigues. Está pronto para entrar no mundo. E o mundo, está pronto para recebê-lo?, parece nos perguntar o encenador.

Em sua primeira incursão na obra de Nelson Rodrigues, o diretor faz renascer apenas o DNA do clássico da dramaturgia brasileira. Estilhaça o texto compondo quadros vivos autônomos entre si que conservam pouco mais do que o deboche da obra original em relação à sociedade de seu tempo. A fidelidade de Gerald não é literal, textual, mas conceitual. Centra-se na visão social e política de Nelson e sua Doroteia (1949). “Esta não é uma ave de cunho psicológico”, avisa Fabiana Gugli em cena cacarejando abraçada a uma ave decepada, para não deixar dúvidas sobre o caráter anárquico da releitura.

Camadas biográficas entre idas e vindas temporais

5 de agosto de 2022 Críticas

Turmalina 18-50 é, inicialmente, sobre João Cândido Felisberto, Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata ocorrida em 1910. A obra conta em detalhes toda a trajetória de dor e de lutas contra o racismo por parte de Felisberto – nome que lhe foi negado pela Marinha do Brasil à época. Trazer à cena a história desse herói negro, morador de São João de Meriti, mesmo território da Cia Cerne, autora do trabalho, sugere uma duplicidade biográfica no que tange à vida e aos feitos do personagem principal, mas também à identidade que atravessa esse coletivo de artistas. A Cia Cerne integra a Rede Baixada em Cena, organização cultural criada em 2008 na Baixada Fluminense para fortalecer a consciência política e participativa de artistas e produtores da região. A Cia Cerne também é um dos 22 coletivos integrantes da Rede de Grupos de Pesquisa Continuada em Teatro da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a Frente Teatro, que tem como valor expandir territórios e fomentar compartilhamentos entre artistas de todas as regiões do Rio de Janeiro.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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