Autor Renan Ji

Aquilo que fica

31 de março de 2014 Críticas
Aury Porto e Pascoal da Conceição. Foto: Renato Magolin.

Para Alexandre Marçal, Naiara Barrozo e Ricardo Freitas

O duelo começa com uma saudação ao respeitável público: o espetáculo vai começar. Com uma referência direta à plateia, situando o dia da apresentação — 6 de março de 2014 —, o espetáculo da mundana companhia, que cumpriu temporada nos meses de fevereiro e março no Teatro Tom Jobim, parece se filiar ao que chamo de uma estética circense. Esta expressão se aplica não tanto pela presença de alguns signos que remetem ao picadeiro (o que de fato se verifica), mas principalmente por possibilitar uma forma de abordar as várias camadas dramatúrgicas do espetáculo. Penso no palco circense como uma maneira de introduzir impressões sobre um trabalho que parece buscar a sensorialidade, a proximidade visceral do público com a história narrada. Uma história que em determinados momentos convida o espectador a dançar com os atores, os quais, por seu turno, muitas vezes estão a centímetros da plateia e frequentemente falam de seus personagens em terceira pessoa, assumindo as vezes de narradores. Para além dessa quebra da quarta parede — em que um espetáculo se declara como espetáculo —, o circo enseja, também, a possibilidade de utilizar desde objetos cotidianos e elementos da cultura popular, até o mais elaborado aparato técnico (que não é sinônimo de tecnológico), com texturas e luzes à la Cirque du Soleil.

Por um fio

24 de outubro de 2013 Críticas
Foto: Divulgação.

Entro na Sala Glauce Rocha, escura, segurando uma lanterna (dada ao espectador pela produção), e procuro um lugar na plateia. O espetáculo começava com cerca de meia hora de atraso e a sensação era de que o teatro estava por um fio: uma certa náusea que precede a quase desistência, “preciso ir para casa”, “está ficando tarde”, e outras fugas e recusas mais. Nesse contexto, assistir a uma peça seria quase um ato de resistência — ou, ainda, de persistência —, como se o teatro tivesse que ser garimpado, conquistado, buscado nos recônditos das artes, em galpões clandestinos. No entanto, hoje vejo que a peça na verdade já tinha começado naquele momento, do lado de fora, no avesso do teatro. Sem qualquer trilha sonora ou contextualização narrativa, dois homens se encontram e iniciam uma conversa, depois de enxotados a pontapés por uma porta. Foram expulsos do teatro. Fecha-se o círculo: tomando-me como um hipotético microcosmo da plateia, a reação adversa do público espelha a própria expulsão dos dois últimos remanescentes da arte teatral. Minha impaciência muda como espectador se conectava subitamente ao espaço oco do qual aqueles dois personagens estavam sendo banidos.

Ao redor da sala de estar

21 de julho de 2013 Críticas
Foto: Paula Kossatz.

A peça As horas entre nós, que esteve em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto, provocou minha percepção principalmente pelo cenário, de concepção de Joelson Gusson. Junto com Diego de Angeli, a dramaturgia assinada também por Gusson parece se calcar na estrutura espacial proposta pelo cenário, a partir do qual extrairei algumas possíveis leituras desse trabalho, que buscou ser ele mesmo uma releitura de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, com ecos inevitáveis do livro e filme As horas, de Michael Cunningham e Stephen Daldry, respectivamente.

A matéria da marginalidade

8 de junho de 2013 Críticas
Foto: Paulo Caruá.

Lauande Aires assina, dirige e atua na peça O miolo da estória, integrante do Festival Palco Giratório de 2013, promovido pelo SESC. O ator também se responsabiliza pela música, pelo figurino e pela cenografia do espetáculo, incorporando o que parece ser uma dramaturgia de um homem só. Longe de propagar a ideia de que este espetáculo teatral se fez apenas com o esforço de Lauande, gostaria de desenvolver a ideia da concentração, ou ainda da condensação, do fenômeno teatral no corpo de um só homem, de um só personagem, de uma só história. Isso porque o espetáculo parece se estruturar na unicidade do protagonista João, perscrutando as motivações e utopias de um pedreiro / brincante (1) de boi bumbá, na mesma medida em que descortina um universo pessoal, um “miolo” pessoal, o homem João Miolo — sugestivo nome pelo qual o personagem se dá a conhecer.

Cowboys das ruínas

27 de abril de 2013 Críticas
Foto: Divulgação.

Três homens maltrapilhos vagam com pedaços de madeira abaixo do peito, simulando estarem frente a um balcão do bar. Pedem whisky, no melhor sotaque norte-americano. Eles pensam, trocam olhares, fazem proposições, enquanto circulam pelo palco. Um primeiro sugere uma história, logo rechaçada pelos outros dois. Depois, um deles tem uma ideia aparentemente mirabolante, logo abandonada. Por fim, eis que se chega a algum lugar: um objeto é retirado do lixo e uma história começa.

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Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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