A árvore metálica do vale de cada pessoa

Crítica da peça Vale da estranheza, do Rimini Protokol, na MITsp 2022

25 de agosto de 2022 Críticas

Um vale é uma área de depressão territorial alongada, de baixa altitude, cercada por montanhas ou colinas. Sua formação se dá normalmente devido à atividade fluvial: a correnteza das águas provoca uma erosão e um vale é formado, em processo lento e contínuo de deslocamento de materiais de um lugar para outro. É lá no fundo desse vale em que acontece Vale da Estranheza – espetáculo do grupo alemão Rimini Protokoll – apresentado na 8ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, com direção de Stefan Kaegi. Nesse terreno movediço, a peça faz girar e profanar elementos muitas vezes lidos como separados, mas que só existem na relação com o que aparenta ser seu oposto: robô e gente, vida e morte, pele e silício, saúde e doença, mania e depressão, acerto e erro, estabilidade e instabilidade, corpo e engrenagem.

Vale da Estranheza é um monólogo feito por um robô-réplica do escritor e dramaturgo alemão Thomas Melle, também autor da peça e do livro O Mundo às Costas, inspiração para o espetáculo. O corpo e a voz do robô funcionam como cópias do autor. Vale da estranheza é também termo elaborado pelo cientista japonês Masahiro Mori, abordado ao final da peça: lugar de estranhamento diante de robôs com traços realísticos da aparência humana ou a cópia de uma pessoa, mas não boa o suficiente para gerar familiaridade.

Apesar da prepotência do ser humano de se entender como superior às suas máquinas e de sua tentativa de dominá-las – o medo da perda de controle e de que elas ganhem qualquer autonomia subjetiva –, a vida na terra só acontece na relação sistêmica entre distintas formas de linguagem e memória. A fissura vai muito além da distância entre o cemitério e o lixo eletrônico.

Nesse sentido, a raiz central do Vale da Estranheza (a peça, não o conceito) parece estar mais na fruição poética da relação entre elementos e textos da máquina teatral do que na aparência ou no gesto mecânico do robô, ou dos fios que saem por detrás de sua cabeça. O lugar do pensamento nessa extensão não se restringe às visualidades maquínicas no palco ou ao argumento “destrutivo-construtivo” das tecnologias, mas adentra profundezas das subjetividades. Me atenho ao tema da peça, verbalizado pelo robô no início do espetáculo: a instabilidade e a beleza do erro.

Em cena, o robô está sentado diante de um notebook e ao lado de um telão, que é explorado de diferentes formas. Além de funcionar como suporte para a palestra, as projeções têm um caráter documental, quando evidenciam a duplicação do corpo da pessoa para o robô, mas também quebram o aparato informativo, como se o Melle original aparecesse durante a cena e começasse a interagir com sua própria cópia ao vivo. Após uma breve tosse e um engasgo, o robô começa:

Sejam bem-vindos. Estou feliz que vieram ouvir minha palestra sobre o problema da instabilidade e, como eu chamo, superando o obstáculo do Vale da Estranheza. Discutirei esse assunto olhando duas biografias: a do cientista da computação Alan Turing e a minha própria.[1]

O principal traço criativo de Vale da Estranheza é uma inversão de papel específica para solucionar um problema demarcado: a instabilidade do corpo-mente de Thomas Melle. O que vemos em cena não é apenas um robô, um boneco tecnológico qualquer, uma marionete sci-fi. É uma réplica de um escritor maníaco-depressivo, tomado pela bipolaridade, fator limitante das suas condições e que experimenta, com esta máquina, uma resolução de seu problema. O transtorno de Melle, por operar dentro da instabilidade, também é lido como erro de acordo com os padrões normativos que buscam o equilíbrio mental.

Vale da Estranheza. Foto: Guto Muniz.
Vale da Estranheza. Foto: Guto Muniz | Foco in Cena.

Seguindo essa raiz, a obra costura ciência e arte com fluidez. A fronteira entre ambas se dilui no experimento: a construção do robô e a elaboração de reflexões e documentos funcionam como metodologia científica e procedimento artístico e investigativo de caráter prático. A hipótese principal é amenizar ou sanar o problema da instabilidade e do erro a partir da construção do robô.

Em alguns momentos, os resultados parecem ser ineficazes, uma vez que o robô parece estar passível da instabilidade que Melle tenta corrigir em sua réplica. O robô tem um surto de ansiedade, pensa em se livrar do Melle original sem ser notado, confronta o seu “eu-robô” e a plateia e, assim, cria-se um duplo: as inconstâncias de escritor foram transferidas para a máquina durante o molde. Isso negaria a estabilidade no Vale da Estranheza? Ou o robô estaria desenvolvendo uma personalidade própria além-Melle?

O paralelo com a biografia de Alan Turing recorta também a instabilidade e o erro. Melle chegou a tentar escrever uma peça sobre Turing, em que este era Deus em um mundo habitado por máquinas que procuram o seu criador. Não conseguiu finalizar devido a uma crise de pânico. A leitura da homossexualidade de Turing como desvio e erro por parte do estado é tensionada como violência pela busca de uma padronização. No Reino Unido dos anos 1950, quando a homessexualidade era considerada crime, Turing foi submetido a um processo de castração química, com injeções de estrogênio sintético, como condição de sua liberdade. O cientista, sem se reconhecer no próprio corpo, se matou ingerindo uma maçã envenenada por cianeto.

Outro recorte da peça é o teste de Turing, que tem o intuito de investigar aproximações entre humanos e máquinas. Algum participante isolado faz perguntas, de forma escrita, para dois destinatários também isolados – uma outra pessoa e uma máquina – e deve tentar adivinhar se seu interlocutor é uma pessoa ou um computador. Se o participante que faz as perguntas não conseguir identificar quem é máquina ou humano, o computador vence o teste de Turing. Com ironia, a plateia é questionada se alguém já errou o teste de Turing reverso – aquele em que o computador quer testar se você é um robô e você erra – e o quão autênticas são nossas memórias, se elas são consequências de uma fabulação por meio de uma fotografia, por exemplo.

Como desfecho e subversão de toda a origem da pesquisa colocada em jogo, Vale da Estranheza retoma os últimos estudos de Alan Turing: a morfogênese – desenvolvimento das formas das coisas vivas e suas irregularidades, desvios e coincidências. Ao rememorar Turing, Thomas Melle robô dimensiona:

ele, o trágico computador, que era considerado pelo seu ambiente como uma anormalidade para ser corrigida, descobriu a aleatoriedade da vida e a lei do erro e a beleza dessa lei que também era sua própria beleza. Esta noite é dedicada a essa forma de beleza.[2]

A bipolaridade do escritor e a homossexualidade do cientista são elogiadas a partir da morfogênese. Aquilo que foge à lógica maquínica pode possuir algo de belo. A zona movediça em que se instaura esse estranho vale e as árvores que dele nascem, em que cada um se reconhece intimamente naquilo que foge ou excede – instável e errático – nos leva à beleza da aleatoriedade e da subjetividade das pessoas. A instabilidade como elogio e fuga de padrões me recorda o vídeo do filósofo Gilles Deleuze: o verdadeiro charme das pessoas reside nos seus traços de loucura. [3]

Os “erros” nos aproximam das máquinas ou nos afastam delas?

Vale da Estranheza. Foto: Guto Muniz.
Vale da Estranheza. Foto: Guto Muniz | Foco in Cena.

Em algum momento, ao final de um debate que aconteceu após o espetáculo, questionei discretamente pelo canal de perguntas: Como tornar as máquinas mais humanas, já que elas são partes de nós? A pergunta foi recebida com estranhamento – a moça do meu lado soltou um “Deus me livre” – e a resposta que emergiu é que máquina é máquina e não deve parecer humana. No momento, eu não questionava sobre a aparência da máquina, mas sim a condição humana em uma dimensão expandida das tecnologias. Revi a peça no Vimeo e fiquei refletindo sobre o seguinte trecho: “como a arte, esta doença [a bipolaridade em questão] é apenas uma intensificação do que está adormecido em todos nós… e é por isso que essa palestra não é sobre mim…. é sobre você.” [4]

O fazer artístico que utiliza tecnologias como banco de dados, criação de robôs, imagens e espacialidades digitais e programas de computadores para a elaboração e execução de obras parece ser uma forma de humanização das máquinas: de habitar máquinas com subjetividade. Tal humanização pode ser identificada tanto pela condição estética da fruição e da sensibilidade, sempre em movimento, quanto pela ética como estratégia de subversão dos padrões que devem ser combatidos, como a homofobia. Entendendo a ação do erro na máquina como uma subversão política da manutenção dos padrões e privilégios nas estruturas vigentes de poder – aquilo que detém o controle, aquilo que é previsível, a domesticação das máquinas (e das pessoas) – seria o Vale da Estranheza apenas um leve rodopio diante de giras ainda maiores como em uma encruzitrava [5], em Traved, proposto pela artista e pesquisadora Dodi Leal, numa espécie de indisciplina dos padrões? A máquina ciborgue (do feminismo especulativo de Donna Haraway e das fabulações afrofuturistas) nos conduziria, ainda, a outras formas de evolução-transgressão-espiralar-não-linear do robô Thomas Melle?

Thomas Melle, em algum momento, adota o termo Outsource [terceirizar] tanto para o livro quanto para seu corpo-robô: Depois de terceirizar uma parte da minha mente para o livro, eu terceirizei meu corpo também[6] Nesse lugar, a terceirização pode ser uma réplica de uma parte de nós em livros, robôs, teatros, árvores enquanto ato político de ocupar espaços com linguagem e subjetividade. Árvores muitas vezes habitadas em vales frágeis, estranhos, incertos e movediços, misturadas e metálicas. Tomara que, em algum lugar dentro de nós ou fora de nós, façam sentido. E que sejam árvores instáveis, belas, erráticas, questionadoras e indisciplinadas…

Notas

[1] Vídeo Vale da Estranheza. Vimeo. 1min58s [tradução nossa]

[2] Vídeo Vale da Estranheza. Vimeo. 57min43s. [tradução nossa]

[3] YouTube. O verdadeiro charme das pessoas reside nos seus traços de loucura. Canal: Factotum Cultural. Data de acesso: 24 ago 2022. Link: https://www.youtube.com/watch?v=5EAUjeoR8Yk

[4] Vídeo Vale da Estranheza. Vimeo. 19min23s. [tradução nossa]

[5] “(…) na encruzilhada, tem principalmente quatro caminhos. A encruzitrava é um quinto caminho, uma generética [ética de gênero], onde a gente tem que decidir algo em função daquilo que a gente vive. Uma transmutação”. Dodi Leal, para revista Sobrado.

[6] Vídeo Vale da Estranheza. Vimeo. 53min39s. [tradução nossa]

Referências

Vídeo. Vale da Estranheza (versão em inglês). Vimeo. Uncanny Valley – English documentation – (Stefan Kaeg): https://vimeo.com/339074946 Data de acesso: 24 ago 2022.

Ensaio Vale da Estranheza, versão em inglês. The Uncanny Valley: The Original Essay by Masahiro Mori. https://spectrum.ieee.org/the-uncanny-valley Data de acesso: 24 ago 2022

Entrevista Dodi Leal para Revista Sobrado. Data de acesso: 24 ago 2022. Link: https://revistasobrado.com.br/reportagem/entrevista/dodi-leal-nao-podemos-simplesmente-acreditar-que-as-coisas-mudam-por-si-so/

Sobre humanização das tecnologias: DOMINGUES, Diana. A arte no século XXI: a humanização das tecnologias. São Paulo: UNESP, 1997.

Sobre conceito de ciborgue e feminismo especulativo: HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari; TADEU, Tomaz (org e trad.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. 2 ed: Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009. – (Mimo). Data de acesso: 25 ago 2022.  Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4945399/mod_resource/content/1/LIVRO%20Antropologia%20do%20Ciborgue.pdf

Sobre simbiose entre humanos e tecnologias: MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco. De máquinas e seres vivos: autopoiese – a organização do vivo. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 1997.

Sobre encruzilhada/encruzitrava: Crítica, cura e curadoria. Uma conversa entre Castiel Vitorino Brasileiro e Dodi Tavares Leal. Urdimento: Revista de Estudos em Artes Cênicas. Mar/abr 2021. Data de acesso: 24 ago 2022. Link: https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:wOE4_rql24wJ:https://www.revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/download/19363/12849/74162&cd=4&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br


Lívia Machado é pesquisadora em artes, jornalista, mestra em Comunicação e Sociedade (UFJF) e doutora em Meios e Processos Audiovisuais (ECA-USP). 

Vol. XIV nº 73, junho a dezembro de 2022

Foto em destaque: Guto Muniz | Foco in Cena

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