Correspondências que ultrapassam os tempos

Crítica da peça Eu é um outro, de Pedro Brício, com direção de Isabel Cavalcanti

31 de julho de 2012 Críticas
Foto: Divulgação.

A narrativa do espetáculo que está em cartaz no Poeirinha, Eu é um outro, dirigido por Isabel Cavalcanti e com dramaturgia assinada por Pedro Brício, constitui-se de fragmentos que recriam, no palco, a vida particular do poeta francês Artur Rimbaud. Intercalam-se a essas imagens, outros dois episódios que se aproximam do nosso tempo presente, instaurando conflitos que se deixam afetar pelo legado literário do poeta.

A elaboração de uma breve síntese, pautada nas andanças do “maldito” pelo mundo afora, e a menção às vastas obras biográficas do autor de Uma estadia no inferno, operam, no espectador, uma abertura de consciência. A relação afetuosa entre Rimbaud e Verlaine constituiu matéria prima para roteiro de produção cinematográfica, estrelada por Leonardo di Caprio e, aqui no Brasil, possibilitou ao escritor Alcides Nogueira encerrar a sua Trilogia do discurso moderno com o texto de Pólvora e poesia. As duas experiências acima citadas refletem uma certa preferência de enfoque que privilegia a recriação da vida sentimental dos dois amantes numa turbulenta relação extraconjugal com Mathilde Mauté, esposa de Verlaine.

Se, por um lado, a escrita cênico-dramatúrgica de Eu é um outro está atrelada a esse eixo inicial temático, por outro lado, a encenação ganha força quando a palavra poética, e toda carga de significações que decorrem de sua verbalização, se sobrepõem à consciência do quadro romântico. O encantamento, nesse caso, está concentrado, tanto no efeito produzido pela materialidade das projeções sonoras e visuais do discurso poético, quanto na maneira como a palavra, tornada visível, inunda o corpo do ator em cena. O trabalho de composição narrativa escapa de armadilhas que recorrem a uma tentativa superficial e banal de criar um decalque do poeta no ato da ação. A perspectiva de um Rimbaud presente no espaço ficcional e enunciando seus poemas só é possível porque uma das vertentes do trabalho dramatúrgico parece optar pela libertação de uma essência arredia, contida na fixidez das cartas e demais fontes literárias, elaboradas pelo poeta.

A ambientação pensada por Fernando Mello da Costa procura aglutinar, no pequeno espaço do Poeirinha, os tempos decorridos de cada trama, mas sem que os objetos inseridos no palco, como as mesas, as cadeiras e outros dispositivos, sublinhem características de uma época. Elas não são pensadas para servirem de pistas ou índices para situarem o espectador numa determinada fase da ação dramática. O espaço de atuação se estende também na verticalidade com que se busca criar outras dimensões de presença em cena. Há uma extensão do palco que é disposta numa estrutura maior e que se torna local privilegiado para Rimbaud verbalizar suas composições. Nesse sentido, podemos imaginar um espaço duplicado: um aspecto do espaço é circunscrito à vida biográfica do poeta, enquanto outro é reservado para a contemplação da linguagem poética. Cabe aos figurinos, elaborados por Rui Cortez, estabelecer um pacto de distinção de tempos, proposto pela narrativa.

A complexidade da estrutura texto-cênica cinde o espaço em três níveis distintos. As ações são engendradas sem ter como premissa uma lógica causal com que as sucessões e acontecimentos, no ambiente da ficção, comumente se estabelecem. Os autores expandem a vibração e a sensação de dilaceramento que emanam do discurso de Rimbaud para outros domínios, outros territórios, outros campos de relação.

A trama paralela, que remete ao Brasil dos tempos de ditadura militar, coloca em exposição a tentativa frustrada da personagem tradutora, interpretada por Lorena da Silva, de publicar a sua versão brasileira de Uma estadia no inferno, devido à pressão sofrida pela censura em voga, fato verídico que é revelado no final do espetáculo. Em outro núcleo dramático, a sensação de receio e medo de uma abordagem violenta por parte de um jovem argelino, interpretado por André Marinho a um professor de literatura, vivido por Alcemar Vieira, evoca uma espécie de contaminação narrativa, que joga com nuances de dados biográficos da vida dos dois poetas. O flerte com a descontinuidade das situações está relacionado, diretamente, com a virtualidade dos rastros e pegadas deixados por Rimbaud, que, de forma inexplicada, abandonou o exercício da escrita e se dedicou às atividades comerciais.

O elenco formado por Alcemar Vieira, Ana Abbott, Andre Marinho, João Velho e Lorena da Silva fundam uma relação de aparente cumplicidade em composições que deixam entrever a situação cênica como acontecimento, em atuações que escapam de um aprofundamento psicológico dos personagens. Toda visualidade plástica, pensada para a instauração de climas, corresponde a tentativas de materializar sensações e formas que se entrelaçam na abstração da palavra poética. Somam-se, para isso, os esforços empregados na elaboração das projeções por Paolla Barreto e Lucas Canário, que jogam com as indefinições das imagens, a iluminação de Tomás Ribas e um esboço de pintura em painel de Massimo Espósito, que concebe traços imperfeitos de um camarote ao estilo das arquiteturas teatrais hierárquicas do século XIX.

A experiência estética de Eu é um outro está pautada para além do conformismo de transformar a cena numa mera homenagem a Rimbaud. Não se trata de respeito irrestrito à sua biografia, mas de apresentar possibilidades de criação que emanem dessa influência radical de conceber a literatura e de encarar o mundo. O resultado final não é uma conclusão, mas uma soma de indagações que reverberam pelo espaço e que não cabe à peça fechar num raciocínio totalizador.

Pedro Allonso é ator e bacharel em Teoria do Teatro pela UNIRIO.

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