A burguesia é branca

Crítica da peça As regras da arte de bem viver na sociedade moderna, de Jean-Luc Lagarce

25 de julho de 2011 Críticas
Lorena da Silva. Foto :Vica Nabuco.

Está em cartaz, até o dia 27 de julho, no Espaço SESC em Copacabana, o espetáculo As regras da arte de bem viver na sociedade moderna, escrito pelo francês Jean-Luc Lagarce, com atuação de Lorena da Silva e encenação de Miguel Vellinho. Apresentado no Espaço Bar, área cênica reservada para experimentações de caráter mais intimista (o espetáculo comporta somente trinta e dois espectadores), a linguagem da encenação produz reflexão que, por meio da ironia, retrata o jogo de interesse que esclarece a essência da filosofia de vida na sociedade capitalista-burguesa, onde as relações de privilégios e regalias entre as elites estruturam-se solidamente em laços perpétuos de comunhão “fraternal” ou “amorosa” nos sacramentos da Igreja Católica.

Há uma regra de conduta no âmbito familiar e ela precisa ser seguida à risca. Uma delas é esta: Se os padrinhos, na falta dos respectivos pais, serão os substitutos destes na educação de seus afilhados, torna-se evidente o raciocínio segundo o qual os primeiros devem ter todas as condições financeiras adequadas para cumprirem com seus deveres de segundos pais. Por essa razão, os cônjuges devem ser induzidos às escolhas que não ultrapassem os limites do bom senso, como, por exemplo, não escolher para padrinho de seus filhos um parente pobre, ou um ente que seja de idade avançada ou então um amigo da família que seja relativamente “moreno”. No matrimônio, a conduta é semelhante. Presta-se atenção às jóias que servirão de aliança, aos convidados do casamento e à organização da festa, que deve ser impecável. Essa prática, segundo a oradora da noite, se perpetuou e continuará se perpetuando ao longo da existência, sem modificações abruptas que levem à sua diluição.

O texto de Lagarce, escrito em 1994, um ano antes de sua morte, consegue evocar o cheiro enjoativo e asfixiante das convenções mais decadentes da moral ao ironizar, com bastante sutileza e humor ferino, os juízos de valor de uma parcela da sociedade ocidental europeia – mas sem se circunscrever a ela, pois, no texto representado, o autor não se preocupa com delimitações precisas de tempo e espaço. Levando essa reflexão para uma instância mais aprofundada, podemos supor que o olhar crítico do autor incide sobre o aspecto preservacionista de uma mentalidade social que procura se agarrar às certezas incontestáveis da tradição como salvaguarda do caos a que o indivíduo contemporâneo globalizado está submerso até o fio dos cabelos. Se a plateia consegue rir do discurso proferido pela mulher que está no centro das luzes, tentando nos doutrinar a respeito da forma mais eficaz de relação intersubjetiva, mediada pelo interesse financeiro, é porque a estrutura narrativa engendrada por Lagarce, aliada à escritura cênica de Vellinho, nos fornecem chaves para que consigamos assimilar toda carga de preconceito com que são disseminados os discursos da classe social dominante.

No início do espetáculo, quando as situações ainda não estão definitivamente dadas, tem-se a impressão de que estamos penetrando num salão esteticamente aristocrático. Essa percepção é realçada quando nos damos conta de que a cor branca domina todo espaço teatral. Aliado à música clássica que toca ao fundo, no momento de entrada da platéia, o cruzamento destes signos indica a instauração de uma atmosfera ficcional “rigorosa” que atinge em cheio o espírito do espectador: parece que este, ao inspirar a essência límpida e asséptica do pequeno ambiente dramático, está passando por um estágio de preparação sensível para assimilar, em momento posterior, o conhecimento registrado em páginas envelhecidas pelos doutos do saber, organizadores das tais regras que serão ditas ao longo dos sessenta minutos de duração do monólogo. É como se essa massa de percepções visuais que se inscreve no espaço de atuação, com a cenografia de Carlos Alberto Nunes e a iluminação de Renato Machado (que literalmente banha a plateia de luzes durante quase todo espetáculo), transformasse o Espaço Bar num reduto, digamos, “sagrado” de preservação do decoro, da manutenção do bom tom nas relações humanas, do comedimento nos gestos e, por fim, do domínio pleno e racional de toda manifestação mais brusca dos sentimentos.

Todo esse conjunto poético é devidamente incorporado pela detentora da palavra. Lorena da Silva lança mão de um registro de atuação que brinca com signos corporais e vocais codificados por um segmento social privilegiado. Tem-se a impressão de uma aparente segurança na concepção dos gestos e atitudes, que, ao mesmo tempo, prima pela sutileza. Sua fala se torna símbolo de uma verdade inalterada. Inclusive, pode-se contar nos dedos os instantes de alteração de seu timbre de voz. Sua fala é discreta, suave, porém cínica e inflexível. As regras que profere ora sentada, ora transitando pelos espaços do palco, produzem uma espécie de rigidez que não agride os ouvidos do receptor. No entanto, este comportamento quase apolíneo deixa entrever algo de impaciente, algo que não consegue se conter nos abismos profundos da alma daquela senhora – de vez em quando, a locutora deixa escapar uma camada bruta de sentenças ou frases plenas de violência. Sendo assim, a composição da personagem apresenta-se sob a capa de uma formalidade artificial repressora, que, contra a sua vontade, deixa vir à tona um ímpeto de abscesso quase dionisíaco, que de forma alguma consegue ser dominado.

E nesse sentido, assim como não se consegue dominar os impulsos mais primitivos do homem em nome da boa etiqueta, não há mais como sufocar uma sociedade com dogmas e cânones de tradições seculares que enquadra tudo em um regime legislador, seja ele de que instância for, como justificativa para a preservação de valores éticos defendidos por homens de bem, preocupados com a família, com a religião e com a propriedade.

Pedro Allonso é ator e aluno do curso de Teoria do Teatro da UniRio.

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