A edição de número 70 marca os 12 anos da Questão de Crítica como um período incerto, de tentativa de retomada, mas também de muitas dúvidas. Essa edição compreende textos publicados entre novembro de 2019 e maio de 2020, ou seja, entre um final de ano em que se torna cada vez mais perceptível o imenso desmonte da cultura no Rio de Janeiro, e o início do processo de isolamento social, tendo em vista a pandemia do novo coronavírus.

A seção de críticas começa com um texto de Juliana França, feito a convite da revista, para marcar a breve temporada de Gota d’água {preta}, montagem paulista do Coletivo Negro, no Sesc Ginástico no Rio de Janeiro. Resgatando uma apresentação vista em julho de 2019 e um texto escrito mas não publicado na época, Caio Riscado escreve sobre Mão, que tem direção de Renato Linhares.

A convite da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo e do British Council, Daniele Avila Small foi ao Festival Internacional de Teatro de Edimburgo em agosto de 2019 para fazer uma cobertura do Fringe e do Edinburgh Showcase do British Council. O artigo aqui publicado aborda diversos espetáculos, incluindo duas peças que estiveram na MITsp 2020, O pedido e Burguerz. Está disponível também em inglês, na seção de traduções.

Como um recorte da sua participação como crítica convidada do 34º Festivale, publicamos dois textos de Daniele Avila Small: uma crítica da peça Festa de inauguração, trabalho do Teatro de Concreto, de Brasília; e uma crítica de um espetáculo que já tem quase 20 anos de estrada, Hysteria do Grupo XIX de Teatro. Mesmo que indiretamente, essa peça se relaciona com a criação mais recente de uma das atrizes do grupo, Janaina Leite, autora e diretora da peça-palestra Stabat Mater, que também recebe crítica nessa edição. A crítica de Stabat Mater também tem uma versão em inglês.

Ainda na seção de críticas, Rui Pina Coelho escreve sobre Osmarina Pernambuco não consegue esquecer, espetáculo de Keli Freitas encenado no Teatro D. Maria II, em Lisboa, enquanto Daniele Avila Small escreve sobre uma leitura do texto de Keli Freitas, realizada por seu parceiro de criação nesse projeto, Alex Pinheiro, com direção de Inez Viana. A leitura fez parte da programação do Tempo Festival em novembro de 2019.

Renan Ji escreve sobre Três maneiras de tocar no assunto, solo de Leonardo Netto, que assina a dramaturgia. A peça, que tem direção de Fabiano de Freitas e foi viabilizada por financiamento colaborativo, estreou no Rio de Janeiro no Teatro Poeira e estava no início da temporada em São Paulo quando os teatros foram fechados.

A seção de processos traz dois textos. A cenógrafa Aurora dos Campos escreve sobre um trabalho realizado na cidade do Porto, onde vive atualmente. Três percursos e um desvio para um mesmo fim é um projeto de percursos performativos que funcionam com instruções para serem vivenciados por um grupo de participantes e é parte de uma pesquisa da autora sobre a dimensão da ficção no quotidiano e em ambiente urbano. Luiza Rangel,  diretora, atriz e professora, escreve sobre a experiência de criação de Fale sobre mim em parceria com um grupo de alunos e alunas adolescentes de uma escola municipal localizada no Conjunto Urucânia, periferia da Zona Oeste do Rio.

Na seção de estudos, Daniele Avila Small especula sobre o papel do teatro filmado no contexto atual a partir do registro audiovisual de Hamlet, montagem de 2006 do The Wooster Group com direção de Elizabeth Le Compte, realizada em diálogo com um registro histórico de uma montagem da mesma peça com direção de John Gielgud e tendo Richard Burton como protagonista. Renan Ji tece relações entre artes cênicas e pedagogia em diálogo com espetáculos que estiveram no Brasil em março de 2020 na MITsp, logo antes do início do isolamento social.

Quanto ao Prêmio Questão de Crítica, que desde 2012 realizávamos no primeiro semestre de cada ano, decidimos não mais fazê-lo, pelo menos por um tempo. A premiação demandava um trabalho não remunerado contínuo, ao longo de todo o ano, que não tivemos mais como sustentar. Lembraremos com carinho das oito edições que conseguimos realizar e agradecemos muito a colaboração de todos os membros do júri, artistas e técnicos que contribuíram com a realização das festas de premiação, que nos trouxeram tantas alegrias. Esperamos ainda proporcionar outros encontros, de outras maneiras, assim que possível.

Fotos em destaque: Osmarina Pernambuco não consegue esquecer – leitura (divulgação); Osmarina Pernambuco não consegue esquecer – espetáculo (Filipe Ferreira); Stabat Mater (André Cherri) e Gota d’água {preta} (Sérgio Silva).