Arquivo de Autor

Constructo

Crítica da peça Sinfonia Sonho, de Diogo Liberano, do grupo Teatro Inominável

Foto: Divulgação.

Kevin (Márcio Machado), menino de 9 anos que acaba de se mudar com os pais e a irmã para uma casa nova, tem um desejo que expressa o motor da peça Sinfonia Sonho de Diogo Liberano: ele quer virar música. Da mesma forma, cada passo tanto da dramaturgia quanto da atuação indica um desejo de mesma natureza. A direção busca operar uma mudança de valores, por meio de uma revolução das sensações. Ou seja, fazer do corpo dramático um acontecimento teatral alinhado à percepção causada por uma sinfonia. A base desse experimento é guiada por Diogo Liberano de dentro do acontecimento. Sentado em cena com o roteiro em mãos, ele incorpora o narrador e presentifica o diretor, fazendo as vezes de um maestro para apontar o ritmo, a textura e a amplitude dos eventos e dos personagens. Continuação »


Polifônico

Crítica da peça Outro lado, do grupo mineiro Quatroloscinco Teatro do Comum

Foto: Divulgação.

Dando continuidade à sua pesquisa começada pela peça É só uma formalidade, a companhia Quatroloscinco, de Belo Horizonte, apresenta outro espetáculo que mescla as possibilidades de confluência entre a realidade e a ficção. Outro lado, apresentado no Teatro Cacilda Becker na Mostra Mambembão 2012, é uma peça que evoca as infinitas possibilidades existentes no caos quando se está diante de algo inevitável. Quatro personagens aprisionados em um bar, em tempos de guerra, lidam com o determinismo, procurando na ficção uma válvula de escape razoável. Continuação »


Intraduzível

Crítica de Duplo Crimp, que reúne as peças O campo e A cidade, de Martin Crimp

Nicole Cordery. Foto: Tatiana Farache.

O diretor Felipe Vidal, que já havia montado a peça Tentativas contra a vida dela, de Martin Crimp, continua sua relação com o autor inglês montando Duplo Crimp. Este é um projeto composto de duas peças, O campo e A cidade, ambas traduzidas por Daniele Avila Small, e que estiveram em cartaz no Teatro Gláucio Gill de 13 de janeiro a 13 de fevereiro.

É inevitável estabelecer, primeiramente, a ordem destas em relação a Tentativas. Sendo um marco na carreira e no estilo de Crimp, Tentativas fundamentou elementos dramatúrgicos que podem ser vistos em iminência na peça O campo e já bem explorados em A cidade. Vamos nos ater especialmente na construção das identidades de seus personagens e das questões postas aos atores para interpretá-los. Continuação »


A arte é o nosso negócio

Crítica da peça Ópera dos vivos, da Companhia do Latão

“Há um sério risco de acabarmos por encontrar um emprego para a nossa ociosidade”

A insurreição que vem – Comitê invisível

Cada um dos quatro atos da peça Ópera dos vivos, encenada pela Companhia do Latão, de São Paulo, com direção de Sérgio de Carvalho, reconstitui uma etapa histórica da instituição de regimes de dominação da metade final do séc. XX. Os problemas que podem ser colhidos dos argumentos da peça, com os quais a sociedade atual está se deparando, referem-se a um novo regime de dominação dispersa, que Gilles Deleuze identificara como um regime de controle contínuo, percebido na substituição do cárcere por coleiras eletrônicas, na avaliação continuada e na formação permanente das escolas, nos hospitais, nas empresas e nas formas de tratar o dinheiro. A questão que paira para Deleuze e que se encaixa como questão da Ópera dos vivos é: ao que estamos sendo levados a servir? Continuação »


Estética da impotência

Crítica da peça É só uma formalidade, do grupo mineiro Quatroloscinco – Teatro do Comum

Foto: Divulgação.

“Estamos cansados do homem, nós sofremos do homem.”

Nietzsche

Após a reviravolta que sacou a humanidade da Idade das Trevas, o Renascimento formulou uma nova concepção do mundo, sob a qual, aos poucos, a sociedade europeia e suas descendentes foram se estruturando. Logo o Humanismo trouxe a figura do indivíduo e a ideia de uma razão que determina e referencia qualquer realização. O Racionalismo apossou-se do trono divino, vago na modernidade. O homem e seus costumes foram dissecados. Com esses estudos, manuais enciclopédicos puderam ser forjados para auxiliar o caminhar da sociedade. Não obstante, a referência a esse humanismo se tornou compulsória e o comportamento do homem se estruturou como uma fórmula demasiado humana. O grupo Quatroloscinco, procurando desconstruir esse protocolo, levou à cena É só uma formalidade. Continuação »


Expressões que traduzem impressões

Crítica da peça Meire Love – uma tragédia lúdica, do Grupo Bagaceira de Teatro, de Fortaleza

Foto: Nubia Abe.

Meire Love – uma tragédia lúdica foi escrita pela dramaturga cearense Suzi Élida e dirigida por ela e Yuri Yamamoto. A peça trata do delicado tema da exploração sexual infantil. A história é sobre Meire, uma menina que, crendo nos búzios, tem fé de que um príncipe encantando estrangeiro vai tirá-la da miséria e levá-la para o exterior. Quando seu plano é descoberto, ela aparece morta. Sua coragem é exemplo para as colegas de rua que passam a discutir sobre as possibilidades que lhes restam, enquanto esmolam e prostituem-se pela orla de um balneário. Continuação »


Sonhos de um palhaço

Crítica do espetáculo Circo do só êu, de Ésio Magalhães

Foto: divulgação.

O espetáculo foi assistido noII Festival de Teatro de Itajaí, SC.

Quando todos os espectadores já estão em seus lugares, um palhaço grita efusivamente da plateia que está ansioso por assistir ao espetáculo que, por sinal, já deveria ter começado. Depois da frustrante informação de que o circo desistiu de vir se apresentar, pois aceitou uma oferta maior de outro produtor, Zabobrim, inconformado, aceita entreter o público. Este é o prólogo do espetáculo Circo do só êu, escrito, dirigido e encenado por Ésio Magalhães.

Uma produção do Barracão de Teatro de Campinas, este espetáculo faz parte do longo trabalho como palhaço de Ésio, que se apresenta para seu respeitável público no II Festival de Teatro de Itajaí com essa paródia do Cirque Du Soleil. Continuação »


No silêncio, a voz muda

Crítica da peça Outros tempos, de Harold Pinter, traduzida e dirigida por Pedro Freire

Otto Jr e Cristina Flores. Foto: Dalton Valério.

O que o diretor Pedro Freire construiu em sua montagem da peça Outros tempos de Harold Pinter foi uma maneira de dar visibilidade às forças que, embora naturais do caráter humano, aparecem veladas por serem demasiado intrínsecas. Outros tempos, que esteve em cartaz no mês de julho no teatro SESC Copacabana, é uma peça que, sem recorrer a flashbacks, amarra as linhas do tempo num instante presente. A medida que os nós vão sendo atados, mais perceptível a cadeia de relações vai se tornando, porém nunca sendo completamente explanada. O projeto que possibilita a visibilidade dessas forças depende da edificação de três níveis de relação. A tarefa do diretor de equacionar um provável contato entre esses níveis é determinante para a definição dos eixos em torno dos quais a peça gira. Continuação »


Incertezas

Crítica da peça Astronautas, de Maria Borba

Foto: Marcella Garbo.

Com uma montagem limítrofe ao vídeo, a peça Astronautas põe em jogo a hipervalozição das verdades científicas e aproxima esse discurso às incertezas das ciências humanas. A cena é concentrada na projeção que exibe uma montagem de diferentes aulas de astrofísica e cosmologia, comunicações filosóficas e manifestações artísticas. Por vezes a voz da diretora Maria Borba, sentada ao lado da tela, sobrepõe-se às imagens, acompanhada ao violão por Augusto Maulbouisson, sentado do outro lado da tela. Tais interferências pontuam uma manifestação artística por cima de uma aridez da física e amaciam algumas verdades que são postas em xeque pelos próprios professores. A questão posta não procura desconstruir a teoria das cordas ou dizer que nada se sabe acerca do universo. A peça parece apontar para a pessoalidade e para a singularidade das descobertas, sejam elas científicas, artísticas ou filosóficas. Continuação »


Dramaturgia da alteridade

Conversa com o grupo Foguetes Maravilha

Alex Cassal em Alcubierre. Foto: Magda Bizarro

HUMBERTO GIANCRISTOFARO – Para a gente esquentar, queria perguntar como se deu a parceria entre vocês e como isso chegou à ocupação de agora, do Foguetes Maravilha no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto. O primeiro trabalho de vocês juntos foi o Ele precisa começar?

FELIPE ROCHA – Vou contar a minha parte da história. Eu há muito tempo tinha vontade de escrever um texto. Eu estava numa turnê, tinha tempo, daí eu escrevia. Tinha vontade de montar e chamei o Kike [Enrique Dias], com quem eu trabalhava há muito tempo, pra dirigir, mas ele estava muito ocupado. Como eu tinha muita clareza do que eu queria falar, eu achei que seria complicado, estando em cena, dar para um outro diretor que de repente me propusesse uma coisa muito diferente daquilo. Então, achei que talvez o mais legal naquele momento fosse que eu mesmo dirigisse e chamasse alguém para colaborar. Eu e o Alex, a gente já se conhece há muito tempo. Na época que ele chegou ao Rio, ele foi fazer aula com a Dani Lima, que é minha mulher, e trabalhou muito tempo com ela. A gente fez um trabalho com um inglês, o Roberto Pacitti, que esteve aqui, acho que no PanoramaContinuação »


Ato de variação

Crítica da peça Oxigênio, da Companhia Brasileira de Teatro, texto de Ivan Viripaev

Rodrigo Bolzan. Foto: Elenize Dezgeniski.

Na tentativa de repensar o indivíduo e a sua relação com o mundo, a Companhia Brasileira de Teatro montou a peça Oxigênio, que está em cartaz no espaço SESC até o dia 29 de maio. Numa melhor definição, poderíamos dizer que há na peça uma preocupação com o essencial e o institucional. Ao perseguirem o que de fato pode auxiliar o indivíduo na descoberta da sua presença no mundo, há o perigo de se instituir os caminhos e engessá-los sem levar em consideração o particular, o dinâmico. Nessa condição paradoxal, as questões sobre o que determina nosso lugar no mundo são feitas pelo dramaturgo russo Ivan Viripaev. A forma encontrada pelo diretor Marcio Abreu para afastar sua montagem de um teatro de instituições foi mesclar uma série de linguagens: a música, no ritmo marcado e preciso da peça; a moda, no vai e vem dos atores pelo palco-passarela, desfilando suas idéias; o talkshow, com microfone aberto para discussões entre os atores; a ficção, com a história da Sacha e do Sacha; a biografia, através do dialogo franco entre Patrícia Kamis e Rodrigo Bolzan, atores da peça. Com isso, ele consegue devolver o poder de impacto de certas palavras, e consequentemente de certos atos, que foram perdidos devido a um processo de dessensibilização social. Assim, o conflito que é proposto em cena escapa dos conflitos previstos por um sistema institucional e não pode ser controlado por ele. Essa é a inquietação que a peça causa no espectador, a ele é oferecida uma brecha para se repensar. Continuação »


Espectros de Mozart

Crítica da peça A história do homem que ouve Mozart e da moça do lado que escuta o homem

Atores: Adriana Zattar e Roberto Birindelli. Fotos: Lina Sumizono.

Em cartaz no SESC Tijuca até o dia 1 de maio, A história do homem que ouve Mozart e da moça do lado que escuta o homem é uma peça que, ao escolher uma estética da crueldade, compartilha o desequilíbrio. Quando o diretor Luiz Antônio Rocha decide pôr em jogo as fragilidades privadas de forma crua, ele apazigua as inquietantes tentativas de homogeneização da normalidade como padrão de referência, tanto estética como eticamente. O que ele oferece é uma pequena revolução íntima, ao estilo da proposta de Antonin Artaud com seu Teatro da Crueldade. É preciso estabelecer desde já que o que parece aos olhos apolíneos uma tipificação pejorativa será para essa dramaturgia algo essencial e o estopim de uma conflagração subjetiva. Termos como crueldade, crueza e, mais à frente, desequilíbrio e deformação são o prenúncio de que algo novo será reconstruído sobre as carcaças dos personagens. A dinâmica positiva do Teatro da Crueldade é analisada no artigo publicado na edição de março de 2010, nesta revista – A noção de corpo sem órgãos em Artaud e no Teatro da Crueldade. Continuação »


Janela barroca

Crítica da peça 201, de Dulce Penna de Miranda

Foto: divulgação.

“O presente está grávido do futuro; o futuro poderia
ser lido no passado; o distante é expresso pelo próximo.”
(Leibniz, Principes de la Nature e la Grace fondés en raison)

O espaço cênico do Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, por ocasião da peça 201, argumento e direção de Dulce Penna de Miranda, foi dividido em duas metades por uma parede, criando duas ambientações diferentes para um mesmo apartamento em épocas diferentes. A parede e sua ampla janela, que permite a visibilidade simultânea de ambos os espaços, é o fundamento para uma reflexão sobre a singular potência que há no cotidiano. Cada lado-época está relacionado, sob um regime de atualidade/virtualidade, com o outro. Separados pela janela, um é o lado de fora do outro, estruturando uma univocidade narrativa na qual os locatários de cada lado-época se complementam e constituem uma cadeia causal não linear que se reflete em todos os sentidos do tempo. A exemplo dos mundos compossíveis de Leibniz, o apartamento 201 é construído sob a égide de uma força barroca que dobra o tempo sobre si e redobra o espaço para a construção de uma cena livre da ordem cronológica dos acontecimentos retilíneos. Os mundos possíveis são conjuntos lógicos de conceitos individuais; com o advento da perspectiva, cada percepção formula seu mundo particular. Os mundos compossíveis são todos os desdobramentos que cada acontecimento pode sofrer e a percepção é a janela entre esses mundos, sendo o melhor dos mundos possíveis o que se chama de real. Continuação »


Memória sem sujeito

Crítica da peça Tentativas contra a vida dela – 17 situações para o teatro, de Martin Crimp

Atores: José Karini, Lucas Gouvêa e Luciana Fróes. Foto: divulgação.

“Todas as mensagens foram apagadas” é o título da primeira das 17 situações para o teatro. Poucas passagens ecoam de forma tão atemorizante para a contemporaneidade como este ruído de ausência. Na era dos terabytes, das milhares de fotos domésticas arquivadas com a esperança de registrar todos os dias de nossas vidas; raros são os textos que peitam a aquiescência da narração, tal como a peça Tentativas contra a vida dela, de Martin Crimp, dirigida por Felipe Vidal, em cartaz no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto. Continuação »


A noção de corpo-sem-órgãos em Artaud e no Teatro da Crueldade

Artigo sobre Antonin Artaud

1) Um homem que inquietou os homens

Antonin Artaud empenhou sua vida para expressar uma visão acerca da “verdadeira e imortal liberdade”. Dedicou seu corpo a um fazer teatral que anunciava a amplitude de se viver livre – um teatro ritual que extraía o indivíduo dos liames que o ancorava, que chocava e proporcionava um desejo de viver. Parece-me que ele mesmo fugia do juízo como se estivesse atolado em um pântano de piche. Completamente imerso nessa armadilha viscosa, Artaud elaborou um plano de purificação para gerar um novo corpo que não era nem humano nem metafísico, e ainda, refratário e autônomo, um corpo de resistência e intensidades: o corpo sem órgãos. Continuação »


A sobrevivência do tempo

Crítica da peça Louise Valentina

Atrizes: Rosanne Mulholland e Simone Spoladore. Foto: Hannah Jatobá

Questões formais

Na peça Louise Valentina, o diretor Felipe Vidal usa recursos cinematográficos que sugerem uma percepção diferenciada do espaço cênico. Ele acrescenta uma profundidade de campo ao palco ao projetar quatro sequências de curtas-metragem dirigidos por Marcela Lordy. A profundidade de campo foi uma técnica inovadora de filmagem que surgiu no cinema da década de 40; ela permite que o espectador de cinema veja um só plano que põe em relação o plano de fundo com o primeiro plano, passando por todos os três tipos de plano: geral, médio e close. Este procedimento foi desenvolvido por Orson Welles que, ao por a câmera em um ângulo diagonal preciso, conseguia atravessar todos esses níveis e mantê-los em foco. Foi bem explorado por ele no filme Cidadão Kane para acrescentar diferentes níveis de situação e de tempo em uma única imagem. Continuação »


Todo mundo morre no final

Crítica de Ur-Hamlet, performance do Odin Teatret

De Wroclaw, Polônia

Na pequena cidade de Worclaw, no interior da Polônia, aconteceu o Festival Internacional de Teatro The World As A Place Of Truth organizado pelo The Grotowski Institute. Durante todo o mês de junho grandes nomes do teatro contemporâneo intercambiaram seus trabalhos para uma plateia quase toda formada pelos próprios atores que se apresentavam no festival. A primeira semana foi dedicada a Eugenio Barba e seu último trabalho: Ur-Hamlet.

A peça foi montada no pátio da antiga arcádia da cidade que guarda a arquitetura de um pequeno forte com enormes portões de madeira e paredes de tijolos. Utilizando diferentes estilos de teatro ritual, Barba monta de fato um ambiente que invoca o clima de uma cerimônia. A peça foge da representatividade e do conceito textocêntrico, falando diretamente ao centro dos sentidos, ao sistema nervoso. Os espectadores participam desse ritual antropológico. Continuação »


Niilismo cômico

Crítica da peça O doido e a morte, parte da programação do FESTLIP

A trama da peça O Doido e a Morte, texto de Raul Brandão encenado pelo Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, de Cabo Verde, parece fácil de ser descrita: um doido entra no gabinete do governador com uma bomba. O modo como os personagens lidam com essa situação revela uma sátira cheia de espirituosidade e dotada de um estilo bem humorado de ver a vida através da morte.

Aos poucos, três elementos se revelam e se mostram relacionados sob duas forças, dois movimentos distintos. O primeiro elemento é composto por dois artifícios: uma grande tela branca ao fundo do cenário, que assume cores marcantes com a luz e que vai acompanhando as mudanças de tons do espetáculo; junto com efeitos sonoros que dão máxima expressão a pequenos detalhes. Essa sonoplastia ressalta especialmente os movimentos mímicos. A tela não é bem um pano de fundo: os poucos objetos que compõem o cenário são transparentes ou vazados, de forma a sempre incorporar a cor que irradia de trás e que se torna dominante na cena. Continuação »


Memória como tradição

Crítica da peça Filhas de Nora, parte da programação do FESTLIP

O FESTLIP trouxe o carismático Grupo Mutumbela Gogo de Maputo para encenar As Filhas de Nora. Nora é a mesma da Casa de bonecas, e esta encenação moçambicana propõe uma continuação à história de Ibsen, respondendo o que teria acontecido com as três filhas de Nora após o sumiço da mãe. Porém, as filhas desta peça também são filhas da África e transportam o drama realista da problematização social que Ibsen enxergava na Noruega para uma realidade contemporânea das doenças sociais sofridas pelas mulheres de Maputo. Foi incrível identificar tamanha semelhança e continuidade nos problemas com  um século de diferença. Continuação »


Elogio à alteridade

Crítica da peça Os especialistas

Foto: Marcus Claussen

O texto de Adriano Shaplin utiliza uma fórmula de ação comum ao gosto da cultura norte-americana acostumada com as tramas Hollywoodianas, porém é contra a formação destas que ele constrói sua denúncia. É transparente na peça a raiva que o inspirou a escrever sobre o casamento da mídia Americana com a política militar de intervenção externa do governo Regan-Bush, criando imagens que pudessem ser mobilizadas para produzir a aprovação das guerras deste governo. Segundo o autor, a peça também pode ser vista como uma comédia, já que ele usa a caricatura para ressaltar os valores que considera corrompidos. Furiosamente inspirado na guerra do Iraque, iniciada em 2003, Shaplin recorre à realidade dos mariners para contar sua estória. Continuação »


Adultério

Crítica da peça “Quatro pessoas”

 

Foto: divulgação.

Para compreendermos o que acontece com a peça Quatro Pessoas precisamos olhar brevemente para o texto original e lembrar o que se passava na época de sua gênese. Mario de Andrade pesquisou durante um bom tempo de sua vida quais eram os aspectos humanos que formavam as características do brasileiro. Chegou a formular estereótipos bem reconhecíveis em nossa sociedade. Resgatou uma cultura nacional extremamente ligada às nossas raízes indígenas e africanas, deixando uma larga contribuição registrada em sua obra, como em Danças Dramáticas do Brasil: Folclore. Continuação »


Identidade ou diversidade

Crítica da peça “O dragão”

Os conflitos do Oriente Médio já renderam milhares de páginas jornalísticas e literárias. Muito se confabulou sobre porque toda essa barbárie está acontecendo. No caso do conflito árabe-israelense, não é diferente. Porém, por mais colorida que a cena seja pintada, o motivo de tudo é um só: território. A terra prometida não tem petróleo, mas tem fronteiras com os principais países do Oriente Médio, controla a circulação de água potável do Rio Jordão e de portos marítimos do Mediterrâneo. Continuação »