Polifônico

Crítica da peça Outro lado, do grupo mineiro Quatroloscinco Teatro do Comum

31 de março de 2012 Críticas
Foto: Divulgação.

Dando continuidade à sua pesquisa começada pela peça É só uma formalidade, a companhia Quatroloscinco, de Belo Horizonte, apresenta outro espetáculo que mescla as possibilidades de confluência entre a realidade e a ficção. Outro lado, apresentado no Teatro Cacilda Becker na Mostra Mambembão 2012, é uma peça que evoca as infinitas possibilidades existentes no caos quando se está diante de algo inevitável. Quatro personagens aprisionados em um bar, em tempos de guerra, lidam com o determinismo, procurando na ficção uma válvula de escape razoável.

Em paralelo a isso, o ator Ítalo Laureano desfila as possibilidades matemáticas para a resolução do Cubo de Rubik, ou simplesmente cubo mágico. Antagonicamente, lembra que existe a possibilidade de usá-lo como entretenimento infinito: acompanhando de forma aleatória a trajetória de um dos cubinhos pelas faces, sem compromissos de igualar em cores todas elas. Uma abordagem que, espelhando as possibilidades dos personagens, sugere o que pode ser feito quando o ideal é inalcançável.

O entrincheiramento dos personagens no bar, porém, não supõe que todo efeito possível está totalmente contido na causa. Nesse ponto, a peça lembra O Anjo exterminador de Buñuel, no qual um grupo de convidados fica subjetivamente incapacitado de deixar uma sala de jantar, sem que nada os impeça fisicamente de sair. Com o passar dos dias, eles exaurem todas as condições de sociabilidade do recinto. Em Outro lado, não é o que eles são capazes de realizar que acaba dentro do bar – jamais todo o possível é realizado – contudo, para eles o que não existe mais são as possibilidades de realização diante dos fatos. Seria um determinismo em absoluto, sem saída. Mas o efeito que os aprisiona interage simultaneamente com a causa e também com outros efeitos subjetivos, acarretando um nível de realidade diferente do nível das causas anteriores. Uma interação que produz uma memória coletiva de algo não vivido por eles, uma memória de um futuro por vir, mas idealizado, num determinismo onde a determinação é posta no instante do acontecimento ou na simultaneidade dos processos. Com esta posteridade ficcionalizada eles encontram uma forma de sair daquele lugar.

O método para compor essa fuga depende de três condições de possibilidade. São como linguagens que se entrecruzam para produzir as impressões sensíveis da peça. Começa por uma enumeração que, ora é trazida pela metáfora com o cubo mágico, composto determinantemente por faces, cubos menores e cores, ora pelo elenco dos personagens e de suas características. Nesse nível é que as proposições individuais são lançadas, como propostas disjuntivas, mas que se combinam para formar o núcleo narrativo. Este segue uma linha monódica, ou seja, uma voz principal numa única temática, envolta ou não de acordes: pequenos detalhes dos personagens sem caráter melódico próprio.

Enquanto isso, os fluxos misturáveis entre eles são compostos na forma de histórias que são inventadas e mescladas com suas lembranças. Essa camada é a que confere aderência aos personagens, e, como lida com o material onírico de seus papéis, fornece os elementos de resistência frente às dificuldades – como a dificuldade de encarar o descompasso em suas vidas trazido pela guerra. A guerra, com efeito, é o ruído externo que os catapulta para essa busca introspectiva e os faz passar pela reflexão e pelo revigoramento de uma ética.

A terceira condição faz menção às fronteiras imanentes que não cessam de se deslocar, formando lacunas ou fendas na narrativa, equiparáveis às viradas de faces que podem ser executadas em um cubo mágico. Assim, os topos das cenas são virados para expor diferentes pontos de vista de uma situação particular. As diferentes vozes libertas, sem necessitarem atuar numa mesma realidade, podem produzir uma textura mais extensa e polifônica. Esse procedimento verticaliza as cenas, sobrepondo-as para que soem ao mesmo tempo, sem que sejam encenadas ao mesmo tempo, deixando que ressoem umas nas outras, num resultado semelhante ao de uma harmonia musical.

A impressão que surge desse efeito é de que a imagem não fica restrita ao conteúdo das palavras. Na verdade, é uma força imagética criada para esburacar as palavras, para interromper qualquer processo de revelação que uma história contada esteja trazendo e assim possa dar chance a uma percepção aliviada da concatenação cognitiva. Uma viragem entre o real dos personagens e suas ficções. São quase pequenas alegorias carregadas pelo vento – e a imagem de uma parede de ventiladores em uma das extremidades do palco evoca isso. Outra evidência dessa terceira linguagem se dá nos corpos dos atores. Eles concentram seu gestual em movimentos significativos. Seus corpos falam por cima ou por entre as palavras, ressignificando o que elas contam. A peça, desta maneira, caminha para a conceituação de que uma imagem estética não é um artifício, mas se faz por um acúmulo, por um processo polifônico entre o real e a ficção.

Humberto Giancristofaro é escritor. Formado em Filosofia pela UFRJ e Université Paris VIII, atualmente mestrando em Filosofia na UFRJ, pesquisador das teorias francesas de Estética contemporânea.

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