Devaneio metateatral sobre a cultura das aparências

Crítica do espetáculo Nada aconteceu, tudo acontece, tudo está acontecendo, do Grupo XIX de Teatro

23 de maio de 2013 Críticas
Foto: Divulgação.

Em 1943, quando o diretor polonês Ziembinski estreou sua versão para a peça Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, quem estava na plateia talvez não pudesse suspeitar que, naquela noite, o teatro brasileiro inaugurava historicamente sua fase moderna. No entanto, era inegável o estranhamento gerado pela opção rodrigueana de concentrar toda a ação cênica na cabeça da protagonista Alaíde. Após ter sido atropelada e chegar à sala de cirurgia entre a vida e a morte, a personagem se tornou marco de nossa dramaturgia ao oscilar entre os planos da memória, da realidade e da alucinação.

É também a estranheza fragmentária e lacunar gerada pela sobreposição de planos um dos pontos de contato mais fortes entre Vestido de noiva e o novo espetáculo do Grupo XIX de Teatro, Nada aconteceu, tudo acontece, tudo está acontecendo, livremente inspirado na obra clássica de Nelson e com dramaturgia criada pelo grupo em parceria com Alexandre Dal Farra. A direção é de Luiz Fernando Marques e Janaina Leite.

Na montagem, a transição entre imaginários e devaneios da protagonista é mote para um jogo, caro ao teatro contemporâneo, de oscilar entre realidade e ficção. Após fazer uma curta temporada de estreia em maio, na sede do grupo, na Vila Maria Zélia, em São Paulo, o espetáculo volta a se apresentar de julho a setembro, no mesmo espaço.

Acostumado a criar textos autorais que valorizam de maneira sensível a interlocução com o publico, o grupo XIX, em seu novo trabalho, parece se apropriar de Vestido de noiva como se tratasse de uma grande pergunta a ser partilhada com os espectadores.

Longe de fechar sentidos, os criadores apostam no caráter enigmático da dramaturgia para brincar com a percepção da plateia sobre as relações de aparências e recalques que caracterizam a sociedade brasileira atual.

Na nova versão, a trama se passa nas duas horas que antecedem o casamento de Alaíde e Pedro. Inseridos dramaturgicamente como convidados da cerimônia, os espectadores assistem às cenas sentados à mesa da festa, tomando vinho e petiscando salgadinhos. Vez por outra, sua presença é convocada pelos personagens-atores, numa operação performativa que busca trazê-los para o aqui-agora do acontecimento teatral.

E é justamente a noção de teatralidade e representação (ou a tentativa de ir além delas) que perpassa as várias camadas de sentido da montagem. Ao lidar com as entrelinhas da cerimônia pomposa e esvaziada do casamento de Alaíde e Pedro, o trabalho pode ser lido em diálogo com a noção de sociedade espetacular desenvolvida por Guy Debord, que funcionaria como “afirmação da aparência (…) de toda a vida humana – isto é, social – como simples aparência”.

Alguns ícones dessa premissa são colocados em cena. O fotógrafo que quer registrar todos os momentos da festa e discorre sobre ser ou não ser natural diante da câmera, ou ter sempre o mesmo sorriso em todas as fotos; o vídeo em estilo power point que mostra o estereótipo do casal feliz em fotos e frases de efeito; as recepcionistas semi-robóticas que atuam em um registro de interpretação altamente despersonificado.

Engessamentos de uma realidade que parece ocultar – e aí mais uma vez é a Nelson Rodrigues que remetem – as intrigas, o preconceito, o submundo e todos os desejos contidos que em algum momento virão à tona pela ação dos personagens.

A essa camada de aparência, se sobrepõe outra, que explora a ideia de representação para construir um jogo metalinguístico em torno do próprio teatro, tomado aqui em seu núcleo duro como acontecimento de encontro entre atores e público. Perguntas sobre qual tipo de luz pode ajudar a quebrar a distância existente numa estrutura teatral ou o pedido para que os espectadores encontrem em seus arquivos de celular uma música romântica para ambientar uma cena entre Alaíde e Pedro são exemplos dessa operação. Através dela, os planos de ficção e realidade se mesclam para evidenciar o que há de construção naquilo que assistem e, por tabela, também na vida social em que estão inseridos.

Explorada, sobretudo, pela mídia, a dinâmica espetacularizada resvala inclusive no subconsciente de Alaíde, repleto de notícias sangrentas e ícones pop da cultura brasileira – como o Rei Roberto Carlos, o Menino Maluquinho, o papagaio Louro José, Cebolinha, entre vários outros, muito ironicamente parodiados pelo ator Rodolfo Amorim, que faz também o noivo Pedro.

Nesse devaneio kitsch e sensacionalista, iluminado por luzes de neon, a personagem que mais ganha contornos dramáticos de carne e osso é aquela que paradoxalmente mais problematiza a premissa das aparências: trata-se da cafetina Madame Clessi, que, na ótica do Grupo XIX, é transformada em um travesti, o que a reveste de incrível atualidade.

Foto: Divulgação.

Não por acaso, em uma das cenas, o ator Ronaldo Serruya, que interpreta a personagem, se desnuda literalmente para falar de um sentimento íntimo e verdadeiro, o que sugere um contraponto a toda a cultura das aparências gerada até então. Talvez por ser a personagem de maior complexidade também no original de Nelson, é ela quem aponta para um frescor de atualização do universo rodrigueano na montagem do grupo paulista.

Numa confusão que parece propositada, não há muito como separar, na atual versão, os acontecimentos dos devaneios e memórias de Alaíde. Tanto que o enredo, por vezes, parece ser mais um pretexto para abordar questões que estão nas entrelinhas da linguagem adotada pelo grupo do que um porta-voz de sentido por si só. Mas entre o ‘nada aconteceu’ e o ‘tudo está acontecendo’, resta ao público fazer suas próprias construções.

E é justamente ao trazer uma ótica que se aproxima do texto de Nelson Rodrigues naquilo que ele tem de mais revolucionário – sua estrutura – que o espetáculo, assim como a peça original, nos dá pistas de quão poderosa é a capacidade do teatro de se reinventar.

Julia Guimarães é jornalista e doutoranda em artes cênicas na USP. Nasceu em Belo Horizonte e mora em São Paulo.

Notes

Newsletter

Edições Anteriores

Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

Edições Anteriores