Qual o tempo de vida de um espetáculo?

Crítica da peça Hysteria, do Grupo XIX de Teatro

10 de julho de 2009 Críticas
Foto: divulgação.

Hysteria, que contribuiu na consolidação do nome do grupo XIX de teatro, é uma peça dos anos 2000 que vem sendo objeto de apreciação crítica e despertado a curiosidade do meio teatral. Tanto é assim que foram as pessoas do meio teatral que compuseram boa parte da plateia que lotou as dependências de uma sala no Liceu de Artes e Ofícios, em Recife, em apresentação do Festival Palco Giratório.

Luiz Fernando Marques sabe o que significa a noção de “lugar” nos dias de hoje. Este signo, que vem sendo debatido com freqüência na arte, sobretudo na arte urbana, com suas intervenções e ressignificações. Quando a direção opta por separar homens e mulheres,  o lance de dados não é feito de modo gratuito e meramente estilístico. A divisão por gênero, feita pelo diretor Luis Fernando Marques, estabelece o lugar de onde se quer partir e de onde se quer falar: da condição da mulher.

As mulheres, desde sua entrada no espaço cênico, feita posteriormente à dos homens, são coparticipantes da encenação. A dramaturgia tem pontos em branco que precisam ser preenchidos com a interação com a plateia. Com desenvoltura, é apresentada a história de quatro personagens confinadas, por motivos diversos, desde insubmissão à ordem estabelecida até crimes como assassinado, todas mantidas sob a mão de ferro de uma tarefeira.

A montagem de Hysteria não propicia, nem vejo que seja este o seu interesse, um mergulho pelos labirintos da loucura propriamente dita, mas nos mostra o quão arbitrário são os valores que demarcam a sanidade, o que remete a encenação ao que Machado de Assis joga sutilmente no seu belo conto O Alienista. A trama, situada na década de 1890, com seus espaços em branco a serem preenchidos com os improvisos e jogos de interação com a plateia (feminina, aos homens compete apenas observar passivamente) estabelece um atrito de tempos. Se nos é apresentado em cena, pelo texto, um código moral, ético e social que dita a cartilha do que seria a mulher do século XX, o jogo de cena com a plateia faz emergir, silenciosa e subrepticiamente, um possível novo código de conduta para a mulher.

O sucesso e a circulação de Hysteria, que já está com 6 anos de estrada, abre outras janelas para se pensar o teatro: qual é o tempo de vida útil de um espetáculo? Vale mesmo a pena manter uma produção, substituindo atores, como é o caso aqui de Sara Antunes que está em temporada como seu solo Negrinha? Qual é o ponto que faz com que o espetáculo se torne antes um repertório de museu ao qual todo iniciado em artes cênicas tem de assistir? É uma questão que extrapola o contexto de Hysteria que, embora não soe envelhecida, não mantém o frescor e o impacto que, seguramente, fizeram o seu nome no ano de sua estreia. Espetáculos da década de 1990, alguns de companhias como o Galpão, de Minas Gerais e da Piollin, da Paraíba se inserem nesse contexto. Qual é o tempo de vida de um espetáculo? Esse, com certeza, é um bom tema pra se refletir.

Informações sobre temporadas e espetáculos no site do Grupo XIX: http://www.grupoxixdeteatro.ato.br/

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