Pulsões de morte transbordam na Guanabara | Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais

Pulsões de morte transbordam na Guanabara

Crítica da peça Senhora dos Afogados, encenada por Ana Kfouri

19 de janeiro de 2011 Críticas
Atriz: Cris Larin. Foto: Dalton Valério.

A presença do mar, que se impõe como personagem em Senhora dos Afogados, norteou a diretora Ana Kfouri na escolha do espaço para encenar sua versão da peça de Nelson Rodrigues: o restaurante Albamar, de frente para a Baía de Guanabara. A diretora afasta o espaço de sua utilidade cotidiana. O Albamar não é evocado como restaurante. Seu amplo salão é aproveitado para reconstituir a casa da família Drummond.

Ana Kfouri caminha em sentido contrário ao da abordagem de um grupo como o Teatro da Vertigem, conduzido por Antonio Araujo, que dialoga em níveis variados com a literalidade dos espaços não-convencionais escolhidos para apresentar seus espetáculos. A carga inerente a cada um dos espaços – a igreja em O paraíso perdido, o hospital em O livro de Jó e o presídio em Apocalipse 1,11, montagens que formam a Trilogia Bíblica – torna-se texto (enquanto portador de significado), elemento determinante à apreciação da plateia, assim como o Rio Tietê (ou a Baía de Guanabara, na temporada carioca) de BR 3, encenação em que o Vertigem abordava o espaço não-convencional mais como metáfora (das mazelas brasileiras) do que pela via do literal. Uma perspectiva também diferente dessa nova leitura de Senhora dos Afogados, que não interage com a utilização cotidiana do espaço, restringindo a esfera literal às cenas ambientadas no cais, particularmente a das prostitutas, que encerra o espetáculo.

Ana Kfouri, em parceria com o cenógrafo André Sanches, concebe no salão do Albamar uma casa sem paredes, destituída de espaços privados, onde os personagens já não conseguem ocultar seus desejos secretos e proibidos. Os espectadores são incluídos nesse ambiente como presenças invisíveis, como testemunhas das jornadas catárticas dos personagens. Ocasionalmente parecem ser inseridos de maneira mais direta na ação, a exemplo daqueles acomodados ao redor da mesa onde sentam os integrantes da família Drummond. A diretora poderia ter encontrado variados espaços internos que servissem tanto à reconstituição de um ambiente sem privacidade quanto à atmosfera ruidosa do café do cais, parte do espetáculo tomada por pulsação sanguínea. O que deve tê-la motivado em relação ao Albamar foi a possibilidade de aproveitar a Baía de Guanabara não só para a realização de cenas específicas (a corrida de Eduarda, entre a sanidade e a loucura, a já citada imagem das prostitutas no cais), mas para potencializar questões embutidas numa peça em que as personagens são afetadas pelo espaço externo apesar (ou justamente por isso) de viverem trancafiadas em ambiente claustrofóbico. A cenografia, nessa encenação, abarca a cidade.

Atores: Ana Abbott e Renato Carrera. Foto: Dalton Valério.

Num opressivo espaço emoldurado por fotos familiares, André Sanches destacou o espelho, conforme mencionado no próprio texto (o jogo de espelhamento entre Moema e D. Eduarda, a partir das mãos), e redimensionou elementos da casa dos Drummond, como a cama, cujo espaldar é composto por cordas, vez por outra, manipuladas. Há uma notada integração entre a cenografia e a iluminação de Renato Machado, ora ocultada, ora evidenciada em cena. Ocultada ao aproveitar o que seria a iluminação da casa através de abajures dispostos pelo espaço. E evidenciada por meio de determinadas soluções, como as velas sobre o espaldar da cama, e da inclusão de refletores visíveis, dentro e fora da cena. A luz que irrompe pela janela, inclusive, parece impor-se como cordas esticadas que atravessam o corpo de Moema, assombrada em sua missão de se tornar a única mulher da casa diante do pai, Misael.

Os figurinos de Luisa Carneiro da Cunha são adequadamente enlutados para os membros da família Drummond, menos carregados para o coro de vizinhos e exuberantes para as mulheres do cais. Destoando, em certa medida, da excelência da encenação, os atores buscam projetar a densidade de personagens que transbordam pulsões de morte nessa tragédia rodrigueana. O desafio é vencido em parte, cabendo destacar o esforço disciplinado de Ana Abbott, a atuação contundente de Rebato Livera e a precisão de Cris Larin – em especial, na primeira metade, na qual D. Eduarda vive encerrada em casa, submetida ao despotismo de Moema e Misael. Numa época em que Senhora dos Afogados vem atraindo atenção de encenadores diversos – valendo lembrar as recentes montagens de Antunes Filho, Zé Henrique de Paula e Érico José –, Ana Kfouri conseguiu realizar uma brilhante apropriação.

Informações sobre a temporada no site da peça: http://www.senhoradosafogados.com.br/

Daniel Schenker é doutorando em Artes Cênicas pela UniRio e crítico de teatro do Jornal do Commercio e da revista Isto É/Gente.

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