Como se chama ou Por afeto

Crítica da peça A falta que nos move ou todas as histórias são ficção

10 de setembro de 2008 Críticas
Ator: Pedro Brício. Foto: divulgação.

Uma peça com dois títulos, ou dois títulos colados um no outro: esse é um pressuposto que não pode ser deixado de lado. O título de uma peça não é dado arbitrariamente, ele pode compor o sentido da obra, explicitar algum motivo do processo de trabalho, pode ser um enigma ou só mesmo uma frase de efeito. Colocar dois títulos juntos numa peça me parece ser uma proposta feita ao público a priori: você pode ver desta ou de outra maneira, você pode entender isto ou aquilo. Ou ainda: você pode ver desta e de outra maneira, entender isto e aquilo. O “ou” do título me parece sugerir sobreposições. Ele é um pouco “e”. O espetáculo é chamado de peça-performance, mais uma sobreposição, que é também uma problematização de si mesmo: trazer o termo performance é trazer critérios e propostas de uma forma de arte bastante difícil de analisar. Esse trabalho chama a atenção para uma questão importante para a crítica: uma obra deve ser pensada a partir dos critérios que ela mesma propõe. Cabe, a quem assiste, dialogar com o que está sendo proposto. Não se trata, portanto, de esperar deste trabalho o que se espera de uma peça ou de uma performance: se as duas formas estão juntas, os critérios se mesclam e talvez seja preciso mesmo esquecê-los.

A sobreposição que pode ser percebida logo de início é a que acontece entre ator e personagem. No teatro, é mais comum vermos personagens, enquanto na performance é mais comum vermos os sujeitos dos artistas – embora isso não seja uma regra fixa. Nesse espetáculo, os atores se chamam por seus nomes próprios, se dirigem ao público falando na primeira pessoa e contam histórias que são ou poderiam ser suas. Com isso, vemos uma mistura de sujeito e personagem: o sujeito do ator aparece, mas lapidado como um personagem. No entanto, eles não parecem personagens para uma parte do público. Algumas pessoas na platéia estavam encantadas com o fato de estarem realmente participando de um evento com aqueles artistas. Mas, para outros, era claro que tudo estava montado, como numa peça. Os atores são personagens deles mesmos, construídos, marcados, com falas decoradas. Eles estão ali como anfitriões, querendo agradar, sendo o mais interessantes que podem mostrar. Até no momento em que Kiko Mascarenhas e Pedro Brício se desentendem, não chega a aparecer nenhuma perversidade, nenhuma falha de caráter. Mesmo brigando, eles parecem legais. Aponto esse momento do espetáculo para exemplificar a impressão de que a presença dos atores é um tanto glamourizada. Para as pessoas que não são envolvidas com teatro, o ator pode parecer aquela pessoa que tem uma vida social ativa, está sempre acompanhado de outras pessoas famosas, que se veste de um modo sofisticado, sai em capas de revistas, é entrevistado, convidado para festas, etc. Durante a peça, me veio à mente essa imagem do ator como uma pessoa especial, cuja subjetividade é sempre digna de despertar o interesse dos outros: ele não é simplesmente uma pessoa, é uma personalidade. A peça se vale um pouco desse fetiche com a personalidade do ator; isso pode falar mais alto do que a problematização do lugar entre ator e personagem. Talvez isso aconteça não pela encenação, nem pelo que é dito no texto, mas pela forma como os atores falam de si, pelo jeito tão firme de dizer seus nomes e de se apresentar. Talvez eles estejam muito seguros, tenham dominado a situação do espetáculo de uma forma que os coloca numa situação de afirmação, mais que de problematização. Eles não parecem movidos por uma falta. Pelo contrário, parecem personagens inteiros, preenchidos de si mesmos.

O espetáculo se constrói de forma a sugerir ao espectador que ali não há uma cena, que está acontecendo algo real. Mas algumas situações são “desmentidas” dentro do próprio espetáculo. Eles dizem que são seis pessoas e que uma delas ainda está para chegar; mas um dos atores afirma que eles são cinco e, na hora de pôr a mesa, apenas cinco pratos aparecem. Cristina Amadeo tira a roupa como se aquela fosse uma ação espontânea, mas, logo no início da peça, Marina Vianna já tinha dito que no teatro contemporâneo alguém sempre tira a roupa, como se anunciasse a cena que está por vir. Em determinado momento, a platéia é convocada a dar o seu depoimento, mas no mesmo instante um dos atores critica essa forma tacanha de sugerir uma participação do público. Como diz o segundo título, todas as histórias são ficção. Há pistas de que é tudo construído, mas há uma tentativa de mostrar que esse constructo não está congelado, especialmente com a proposta feita ao público de que deixem um relato no verso do programa, com a possibilidade de que esse relato passe a fazer parte do espetáculo. Mas me pareceu que a proposta principal da montagem era construir uma cena que parecesse real, espontânea e improvisada, enquanto a questão do primeiro título (a falta que nos move) parece diluída.

Na tentativa de buscar esse sentido enquanto reconstituía o espetáculo na memória, me deparei com uma grande dificuldade, como se algo tivesse me escapado, como se eu não tivesse mesmo entendido nada. Não se trata de tentar dizer aqui qual é a tal falta que nos move, mas talvez de perscrutar a natureza do movimento que esse trabalho faz, movido por essa falta. A geração que ali se auto-retrata aponta ausências nas suas vidas: ausência de uma figura paterna na infância, de esclarecimento sobre a situação política vivida, de pathos para reagir a uma provocação. De algum modo, as ausências parecem definitivas na formação daqueles indivíduos e é o compartilhamento dessa sensação de muitas ausências, de uma grande falta, que os move – não simplesmente adiante, mas principalmente em direção aos outros. A falta é o motivo da aproximação. A idéia de fazer parte de uma geração que não disse ao que veio é um fator gerador de cumplicidade entre as pessoas que estão em cena. Mas há um elemento que acredito ser um fator determinante para a aproximação do público. O espetáculo não é uma unanimidade, era perceptível na platéia que umas pessoas estavam bastante envolvidas e outras ficavam indiferentes do início ao fim. O que determina a reação me parece ser uma questão de afeto. Penso que não se trata de dizer se a peça é boa ou não pelas suas qualidades estéticas, nem de avaliar se os atores estão fazendo bem o seu trabalho, se o texto é bom ou não e assim por diante. Acredito que a peça produz um efeito para as pessoas que se envolvem pelo afeto, que entram na atmosfera de intimidade daquele jantar entre amigos. Se essa é uma conclusão válida, a peça-performance da diretora Christiane Jatahy e da Cia. Vértice evidencia o jogo de sedução entre obra e espectador, propondo uma relação que depende desse sentimento, que não segue muitas regras e que, como quase tudo na vida, é quem dá as cartas.

Vol. I, nº 7, setembro de 2008

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