Primordiais espaços periféricos

Crítica de Cozinha e dependências e Um dia como os outros, de Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri

28 de abril de 2011 Críticas
Um dia como os outros. Atrizes: Analu Prestes e Bianca Byington. Foto: Vicente de Mello.

Cozinha e dependências e Um dia como os outros, textos de Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri, são ambientados em espaços periféricos. Nem a cozinha, onde se encontram os personagens na primeira história, nem o bar, onde estão os da segunda, despontam como lugares nobres, onde deveriam se desenrolar as ações de cada história. Os personagens se esbarram na cozinha para reclamar do andamento da reunião planejada para um convidado famoso, que não transcorre na sala exatamente conforme o planejado; e se encontram no bar para sair rumo a uma festa de aniversário, partida que, porém, acaba não acontecendo devido à eclosão de um conflito conjugal.

Mas a abordagem dos autores em relação aos espaços invisíveis não é semelhante nos textos. Em Cozinha e dependências, o espectador é informado de toda a ação que ocorre na sala da casa, mas a qual não tem acesso porque o mais relevante reside nos embates domésticos que, pouco a pouco, tomam conta da área de serviço; já em Um dia como os outros, os personagens ambicionam sair para outro lugar, desejo que, porém, não se materializa. Diferentemente da outra peça, pouco acontece fora das vistas do público. A cenografia de Lidia Kosovski e Marcelo Lipiani utiliza uma mesma base para as duas montagens, diferenciada de acordo com as especificidades de cada ambiente.

A invisibilidade não se restringe à esfera espacial. Ambos os textos contam com personagens apenas mencionados. Numa peça é justamente o convidado tão aguardado pelos donos da casa. Trata-se, é bem possível, de um recurso utilizado pelos autores para mostrar que o principal muitas vezes não está onde se espera. Na outra, os personagens brincam com um cachorro que o público não vê. O personagem parece bastante circunstancial, pelo menos até que fique evidenciado que, naquela família, os animais são muito mais bem tratados do que as pessoas.

Cozinha e dependências. Atores: Marcio Vito, Leandro Castilho e Kiko Mascarenhas. Foto: Vicente de Mello.

Os diretores Bianca Byington e Leonardo Netto valorizam os diálogos da dupla Jaoui/Bacri através de uma cena dinamizada pelos trabalhos dos atores, que transitam entre a contenção e a composição, com certo destaque para o primeiro registro. Bianca Byington está melhor como a atribulada Martine, que se equilibra entre a organização da reunião em sua casa e os conflitos familiares, do que como a limitada Yolanda, personagem de perfil melancólico para a qual a atriz empresta marcante acento cômico. Leandro Castilho sustenta o desenho chamativo do despachado Fred e acerta ainda mais nas discretas ações realizadas pelo garçom Denis. Silvia Buarque está especialmente bem como Charlotte, convidada que não demora muito a perceber as verdadeiras intenções por trás de um jantar de ocasião, mas também sobressai como a algo deslocada Betty. Diferentes níveis de irritação movem os personagens de Márcio Vito, que confere credibilidade à desestabilização de Henrique, em Um dia como os outros. Kiko Mascarenhas equilibra com precisão as doses de desencanto e vaidade de, respectivamente, Georges e Philippe. Analu Prestes mescla humor e agressividade na construção da dominadora Madame Mesnard.

O esforço de Bianca Byington no acúmulo de funções não se perdeu no terreno das boas intenções que não chegam a resultar no palco. Cozinha e dependências e Um dia como os outros surgem diante do público como radiografias comportamentais bastante prazerosas de se assistir.

Informações sobre a temporada no site do Teatro Poeira: http://www.teatropoeira.com.br/site/

Daniel Schenker é doutorando em Artes Cênicas pela UniRio e crítico de teatro do Jornal do Commercio e da revista Isto É/Gente.

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