O passado eternizado

Crítica da montagem de O que você mentir eu acredito, dirigida por Rodrigo Portella

21 de maio de 2013 Críticas
Foto: Divulgação.

O projeto de O que você mentir eu acredito está fundado numa operação de Felipe Barenco sobre diversos contos de Caio Fernando Abreu. O autor realiza uma apropriação literária, recortando frases de seus contextos originais e inserindo-as numa nova configuração dramatúrgica. As frases são reunidas numa história única, que, contudo, preserva um caráter fragmentado.

Felipe Barenco expõe um painel de acidentada comunicabilidade familiar entre integrantes de diferentes gerações. Logo no começo da apresentação, os tempos mortos sobressaem através de um silêncio decorrente de um modo de funcionamento em que o principal não é verbalizado. Entretanto, para além desse enredo generalizante, o autor especifica questões. Em cartaz no Teatro Sesi, O que você mentir eu acredito se revela como uma peça sobre o descompasso temporal vivenciado por personagens que permanecem atrelados a uma tragédia ou que se conscientizam tarde demais de terem desperdiçado um período impossível de ser recuperado. Apesar de não possuírem obviamente acesso ao passado, os personagens se mostram estacionados nele.

Ao contrário do panorama humano descortinado em cena, a montagem de agora parece simbolizar uma presentificação do passado. O que você mentir eu acredito foi encenado há dez anos pela Quantum Companhia de Teatro, conduzida por Rodrigo Portella, mas com dramaturgia distinta (no espetáculo de 2003 havia um entrelaçamento de textos de Caio Fernando Abreu e João Gilberto Noll). A montagem atual, também dirigida por Rodrigo Portella, parte, portanto, de uma experiência anterior, procurando, porém, alçar voo independente em relação a ela.

A dramaturgia lança situações concretas sem perder de vista a abordagem subjetiva. A casa onde avó, filho e neto moram desponta como um espaço internalizado – desolador, pouco acolhedor, conforme materializado na cenografia de Edward Monteiro –, ainda que constantemente invadido por interferências sonoras. A luz de Renato Machado se aproxima, em certos momentos, de uma perspectiva intimista ao concentrar o foco em torno dos atores e é manipulada por eles, comprovando a determinação do diretor em engajar o elenco na construção da cena. Os figurinos de Claudio Tovar oscilam entre a neutralidade e a quebra de uma concepção realista.

Mais do que desenhar personagens facilmente reconhecíveis, os atores são conduzidos a preencher a carga de não-dito, elemento central no relacionamento entre todos. Armando Babaioff destaca a estrutura algo lacunar e enigmática do texto (em especial, no início) ao buscar um registro de fala distante da previsibilidade. Betina Viany imprime uma presença ácida, que rompe com o tom poético ou dramático, trazendo à tona o trivial, o prosaico. Izabella Luz, como a personagem estrangeira à família, soa mais linear. Joelson Medeiros contrasta autoridade e fragilidade como o pai um tanto defendido, levado pelo filho a empreender um ato de desmascaramento.

Daniel Schenker é doutorando em teatro e crítico da revista Bravo! e do blog danielschenker.wordpress.com

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