A densidade da palavra na voz de Fernanda

Crítica da peça Viver sem tempos mortos, monólogo de Fernanda Montenegro

30 de agosto de 2011 Críticas
Foto: divulgação.

Monólogo estruturado a partir da permanência em cena de uma atriz (sentada, valendo-se de econômica movimentação) durante uma hora de duração, Viver sem tempos mortos evidencia uma assinatura através de aparente invisibilidade. Felipe Hirsch, distante do registro de muitos dos trabalhos realizados na Sutil Cia. de Teatro – nos quais materializa a investigação da memória em texturas diversas das cenografias e na construção de uma atmosfera auxiliada por refinados recursos de iluminação –, aposta, dessa vez, no vigor interpretativo de Fernanda Montenegro. Uma opção que não determina a anulação de uma visão diretorial. A “presença” de Hirsch pode ser detectada na importância destinada à palavra, nas sutis gradações de luz (iluminação a cargo de Beto Bruel) que recortam o rosto da atriz no decorrer da apresentação, na neutralidade do figurino e na quase ausência de elementos cenográficos (direção de arte de Daniela Thomas). Elementos que se somam na afirmação da plataforma de um teatro calcado na síntese, na contramão do espetacular.

Não é uma vereda estranha na carreira de Fernanda Montenegro. Viver sem tempos mortos traz à tona trabalhos da atriz. Um deles é outro monólogo: o excepcional Dona Doida – Um interlúdio, que começou carreira na segunda metade da década de 80. Apesar das diferenças (a atriz “encarnou” uma Adélia Prado bem mais despojada do que a Simone de Beauvoir de agora e se debruçou sobre material poético), também se tratava de um trabalho fundado na força da palavra. Cabe evocar ainda Dias felizes, de Samuel Beckett, texto que Fernanda Montenegro visitou duas vezes (primeiro ao lado de Sadi Cabral, nos anos 70, e depois com Fernando Torres, na década de 90). A circunstância de Winnie, personagem centrada num contraste entre uma crescente condenação à imobilidade e um inquebrantável otimismo diante da vida, desafiou a atriz a concentrar sua interpretação na expressividade de um corpo com possibilidades reduzidas de “ação”, na expressividade da voz e na propagação da palavra.

Estas qualidades podem ser reencontradas em Viver sem tempos mortos, encenada no Oi Futuro (Flamengo) e, mais recentemente, como parte integrante da programação de reabertura do Teatro Dulcina. Fernanda Montenegro interpreta Simone de Beauvoir por meio de um registro vocal que dimensiona a intensidade das experiências vividas, muitas norteadas pelo impacto libertário de 1968, sintetizado no título-slogan da montagem. A atriz adensa as palavras, avoluma-as, ao presentificar um passado tomado por vínculos afetivos e sexuais que continuam reverberando na esfera íntima de maneira contundente por terem sido determinantes em sua constituição. Em outros momentos, ao abordar fatos de ordem mais concreta, biográfica, Fernanda Montenegro assume um tom contundente, menos subjetivo – mas sempre atravessado de pessoalidade –, auxiliada por discreta movimentação das mãos. É na interpretação filigranada de Fernanda que a dramaturgia (assinada pela própria atriz), voltada para o confronto com a morte a partir da dimensão da perda da amiga Zazá, o elo com o romancista Nelson Algren e, sobretudo, a comunhão com Jean-Paul Sartre, adquire poderosa ressonância junto ao público.

Daniel Schenker é doutorando em Artes Cênicas pela UniRio e crítico de teatro do Jornal do Commercio e da revista Isto É/Gente.

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