Flashes de um exílio subjetivo

Crítica da peça Não sobre o amor, dirigida por Felipe Hirsh

15 de abril de 2008 Críticas

 

Atriz: Arieta Correa. Foto: divulgação.

Logo no início de Não sobre o Amor, Victor Shklovsky é atravessado, enquanto dorme, pela imagem de Elsa Triolet (rebatizada, em cena, de Alya), projetada ao fundo do palco. A passagem diz bastante sobre esta nova montagem de Felipe Hirsch, em especial no que se refere à importância do tempo em seu teatro.

Através do recurso da projeção, o espectador percebe o modo como Alya ficou e permanece inscrita em Shklovsky. Alya surge como uma imagem antiga – referente ao passado, como o cinema, calcado numa reexibição do que foi registrado anteriormente – que, porém, continua viva no instante imediato – o tempo presente, próprio de uma manifestação como o teatro.

Esta contracena temporal traz à tona a “temática” da memória no trabalho de Hirsch, valendo evocar, por exemplo, os textos desfocados nos quadros-negros que integravam a cenografia de Thom Pain/Lady Grey. As letras meio apagadas sugeriam que o acontecimento vivido não é recuperado, na medida em que o ato de lembrar compreende acréscimos e subtrações em relação a determinado fato.

Em Não sobre o amor, em cartaz no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil, Felipe Hirsch substitui a tela de filó transparente, elemento que constitui tanto uma interferência no olhar do espectador quanto uma busca de textura para a cena, por procedimentos diversos. O mais evidente é a projeção de letreiros ao longo de toda a encenação, que despontam como informações concretas que resumem o pequeno bloco que virá a seguir e também parecem traduzir um movimento do pensamento ou uma manifestação de intenções.

No decorrer da montagem, Hirsch articula objetividade/subjetividade e exterioridade/interioridade. Os personagens, constantemente deslocados, falam a respeito de espaços familiares, utilizando-os para abordar uma sensação de exílio bastante íntima. O estrangeiro não é evocado apenas como aquele que não pertence à mesma pátria; simboliza todos com os quais não se consegue estabelecer cumplicidade. Tranqüilos ou até mesmo felizes talvez sejam os que vivem destituídos de grande inquietude, distantes de uma preocupação com o autoconhecimento.

A luz quente que invade o espaço impessoal onde Victor Shklovsky está confinado não diz respeito tão-somente ao espaço externo (há sugestões de som ambiente no começo e no final do espetáculo), mas informa sobre um personagem que reivindica sua ânsia por calor/afeto. A iluminação de Beto Bruel preenche a cenografia de Daniela Thomas, elemento fundamental na concepção do espetáculo, ao potencializar a inadequação de Shklovsky situando-o como habitante de um mundo literalmente às avessas e ao determinar parte da movimentação dos atores, encarregados de escalar os objetos de cena e procurar se equilibrar sobre eles.

Leonardo Medeiros demonstra preocupação em buscar imagens que corporifiquem sua fala e escapa da armadilha de compor por meio da imitação os personagens invisíveis que cita no decorrer de sua narração. Arieta Corrêa, apesar de se ressentir um pouco de uma personalidade interpretativa mais destacada, adota uma adequada postura contida, às vezes discretamente transbordante (em especial, nos seus primeiros momentos em cena). Um dos trabalhos mais bem-sucedidos da Sutil Companhia a passar pelo Rio de Janeiro, possivelmente ao lado do ótimo e pouco lembrado Por um novo incêndio romântico, Não sobre o Amor é uma montagem austera que tende a repercutir no espectador devido à propriedade com que se debruça sobre o “universo” da desilusão amorosa.

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