Arquivo de Autor

O mundo contemporâneo em desalento

Crítica da peça O céu está vazio, de Julia Spadaccini, com a Cia Casa de Jorge

Foto: Divulgação.

Antes de iniciar, gostaria de deixar duas questões, com suas respectivas respostas, para a reflexão.

1ª questão: Por que o mundo virtual é tão atraente?

Porque é lúdico. É um mundo coerente com a maneira de viver dos jovens, não exige engajamento nem compromisso. Ali qualquer um pode viver uma série de vidas sucessivas sem nenhum compromisso definitivo. As pessoas querem se distanciar da realidade não porque ela seja assustadora ou sem-graça, mas porque ela implica sempre um limite. Além disso, a realidade requer uma identidade, um objetivo mais ou menos claro na vida, ao passo que esses exercícios virtuais não pressupõem nenhuma identidade, nenhuma perspectiva e ainda derrubam todos os limites, incluindo os do pudor e da polidez.

2ª questão: Por que atualmente os casamentos não duram? A vida a dois ficou inviável com o novo arranjo social que igualou os papéis do homem e da mulher?

Pelos padrões vigentes na sociedade atual, nos é recomendado ao longo da vida renovar os objetos dos quais nos servimos. Trocar de carro, de tapetes, de mobília, etc. As relações afetivas acabaram seguindo esse mesmo princípio, dos objetos descartáveis. Elas não resistem a esse apetite de rejuvenescimento e renovação da sociedade contemporânea. Continuação »


O bardo contemporâneo

Crítica da peça Penso ver o que escuto, da Cia Bufomecânica

Foto: Divulgação.

O pátio central do Arquivo Nacional no centro do Rio de Janeiro foi ocupado, durante o mês de dezembro de 2011, pela peça Penso ver o que escuto, realização da Cia Bufomecânica sob a direção de Fábio Ferreira e Claúdio Baltar. Nesta nova produção, a Cia Bufomecânica – em parceria com a Royal Shakespeare Company – trouxe a público o resultado da pesquisa realizada pelo grupo sobre os dramas históricos de William Shakespeare. O cerne deste estudo cênico está nos reis ingleses do século XV. O ponto de partida é a peça Ricardo II, passando por Henrique IV, HenriqueV, Henrique VI e culminando em Ricardo III. O ponto de intersecção entre essas peças se dá nos intermináveis conflitos entre as dinastias York e Lancaster que se digladiam ferozmente pelo trono inglês, lançando a Inglaterra em uma era de terror e medo. As peças Ricardo II e Ricardo III (escritas provavelmente entre os anos de 1590 e 1595) são o fio condutor da encenação concebida por Fábio Ferreira e Claúdio Baltar. Continuação »


Reflexão e comicidade sobre a condição humana

Crítica da peça Senhora Solidão, texto e direção de Leandro Muniz

Foto: Divulgação.

“Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão.”

A solidão, ao que tudo indica, parece ter se tornado um dos grandes males dos tempos modernos. O tema aparece com certa recorrência em músicas, livros e no cinema. A escola existencialista acredita que a solidão faz parte da essência do ser humano. Cada pessoa vem ao mundo sozinha, atravessa a vida como um ser em separado e, no final, morre sozinho. Aceitar o fato, lidar com isso e aprender como direcionar nossas próprias vidas de forma bela e satisfatória é a condição humana. Continuação »


Sweet Tiger Lili à deriva

Crítica da peça O gato branco de Jô Bilac, com direção de João Fonseca

Elenco de O gato branco. Foto: Divulgação.

Sete desconhecidos, Michel (Bruno Ferrari) um advogado sem escrúpulos, Arthur (Camilo Bevilacqua) um médico sofisticado, a soturna Letícia (Fernanda Nobre), o comandante Tadeu (Leandro Almeida), a dona de casa Ana Paula (Luciana Magalhães), o vigarista Erik (Pablo Falcão) e a professora Vic (Paloma Duarte) recebem um misterioso convite para um jantar a bordo da embarcação Sweet Tiger Lili. Atendendo ao estranho chamado e movidos, sobretudo, pela curiosidade, as personagens embarcam e descobrem que durante o encontro alguém entre eles deverá morrer. Diante desta situação, o grupo descobre que a razão de estarem todos ali é a realização de um julgamento extrajudicial que pretende descobrir qual dentre os presentes é o culpado por um crime acontecido três anos antes. Na tentativa de identificar um culpado, os presentes vão aos poucos revelando que todos ali são mais do que aparentam ser e as máscaras das personagens caem com o desenrolar dos fatos. Todos os passageiros a bordo do Sweet Tiger Lili podem ser culpados ou inocentes. É tudo uma questão de ponto de vista. Continuação »


“As histórias de hoje não têm clima. É só sacanagem.”

Crítica da peça Os Catecismos segundo Carlos Zéfiro, de Paulo Biscaia Filho

Atriz: Martina Gallarza. Foto: Marco Novack.

Os Catecismos segundo Carlos Zéfiro, em cartaz desde o dia 10 de março, no Teatro 2 do Centro Cultural do Banco do Brasil no centro do Rio de Janeiro, e que cumpre temporada até o próximo dia 10 de abril, é uma produção conjunta entre a ClaMa! Cia de Teatro e a companhia paranaense Vigor Mortis. Com direção e texto a cargo do curitibano Paulo Biscaia Filho, o espetáculo presta reverências e justa homenagem àquele que foi o responsável pela alegria dos onanistas de plantão e por boa parte da iniciação sexual dos jovens rapazes dos anos 50, 60 e 70, o cartunista Carlos Zéfiro. Ele se notabilizou por publicar e ilustrar mais de uma centena de revistinhas com conteúdo pornô-erótico que ficaram conhecidos em todo o país como “catecismos” – pois reza a lenda que estas eram vendidas dissimuladamente em bancas de jornais e entregues aos seus compradores escondidas dentro de publicações religiosas. Continuação »


Confrontações entre o texto literário e o texto dramatúrgico

Estudo sobre a transposição para a cena do romance O Memorial do Convento

Foto: divulgação.

“…fingindo, passam então as histórias
a ser mais verdadeiras que
os casos verdadeiros que elas contam…”

(Memorial do Convento p.134).

Introdução

O presente estudo tem como objetivo confrontar o texto literário de O Memorial do Convento, escrito por José Saramago, com o texto dramatúrgico homônimo adaptado por José Sanches Sinisterra e Christiane Jatahy em 2003.

O interesse está em observar como se deu a transformação de um texto originalmente literário para uma estrutura dramática e em que pontos a obra inicial se modificou com a transição para a cena. A intensão deste estudo é corroborar com a hipótese levantada pela Drª Maria Helena Werneck, professora da Escola de Teatro e do departamento de Teoria Teatral da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Werneck afirma que a forma mais antiga de transposição do texto da literatura para o teatro interfere na estrutura narrativa com a adoção de princípios dramáticos, como a presença dos personagens, como lastro psicológico ou tipologia social, do diálogo intersubjetivo e do conflito. A permanência do realismo cênico está, no entanto, abalada pela fonte literária, que interfere na analogia entre verdade e ficção, oferecendo-se uma ficção anterior como referência. A ideia de “teatro como quadro fiel do que se passa no mundo”, acaba refratada duas vezes, pela materialidade do texto literário e pelo suporte da materialidade cênica, criando uma forma de intertextualidade, que pode se apresentar mais ou menos explícita no texto adaptado ou na cena construída. Continuação »


Com uma ajudinha dos meus amigos

Crítica da peça Manson Superstar, da Cia Vigor Mortis, de Curitiba

Foto: divulgação

Oh I get by with a little help from my friends,
hm Gonna try with a little help from my friends,
Oh I get high with a little help from my friends,
Yes I get by with a little help from my friends,
With a little help from my friends .
(Trecho da música With a Little Help From My Friends. Escrita por John Lennon e Paul MCartney. (1967). Do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. The Beatles.)

A casa número 10050 da Cielo Drive, no elegante bairro de Bel Air em Los Angeles, entraria para a história como o palco de um dos episódios mais brutais e sangrentos da recente história criminal norte-americana. Na noite de 9 de agosto de 1969, quatro jovens na casa dos 20 anos – um homem e três mulheres – seguidores de uma seita fundada por Charles Manson, invadem a residência do diretor cinematográfico Roman Polanski, assassinam a sangue frio sua esposa, a atriz Sharon Tate, então grávida de oito meses, e mais quatro amigos do casal. As vítimas foram torturadas, esfaqueadas e espancadas até a morte, o sangue delas foi usado para escrever mensagens nas paredes. Em uma delas foi escrito Pigs (Porcos). Na noite seguinte, o mesmo grupo invade outra casa da região. Matam o empresário Leno La Bianca e sua mulher, valendo-se do mesmo modus operandi. As mensagens escritas na parede da casa desta vez, também com o sangue das vítimas, foram: Helter Skelter (Confusão), Death to pigs (Morte aos porcos) e Rising (Insurreição). Continuação »


Grand Guignol, cinema e quadrinhos

Crítica da peça Nervo Craniano Zero, da Cia Vigor Mortis de Curitiba

Foto: divulgação.

A peça Nervo Craniano Zero, que esteve em cartaz no mês de março dentro da Mostra Fringe do Festival de Curitiba, foi escrita e dirigida por Paulo Biscaia Filho e encenada pela companhia curitibana Vigor Mortis, que desde 1997 pesquisa e trabalha a linguagem do Grand Guignol. O gênero se baseia nas estéticas do Teatro de Horror de Paris e surgiu no final do século XIX na França. Teve como inspiração inicial as obras de escritores como Edgar Alan Poe e André de Lorde (le prince de terreur) e encaixou-se perfeitamente no espírito decadentista que dominou a literatura francesa do período. O traço marcante do Grand Guignol é a exploração do terror e da violência em cena. É a partir deste contexto que vem à cena Nervo Craniano Zero, trazendo para a contemporaneidade esta linguagem, com uma roupagem que rende ainda homenagens aos mestres dos quadrinhos noir como Will Eisner, Frank Miller e Garth Ennis e ao cinema do diretor canadense David Cronenberg, um dos mestres do cinema de terror e violência. Continuação »