Sobre os questionamentos e as dificuldades das relações afetivas

Crítica da peça [Des]conhecidos, de Igor Angelkorte

21 de maio de 2012 Críticas
Foto: Divulgação.

Existe a possibilidade de duas pessoas permanecerem juntas sem saber, com absoluta certeza, o que sentem e como sentem o que sentem uma pela outra?

A Probástica Companhia de Teatro tenta responder a esta pergunta ao trazer para o Teatro Gláucio Gill o seu primeiro trabalho, a peça [Des]conhecidos que segue em temporada até o dia 11 de junho. A peça se escora em um enredo um tanto quanto trivial nos dias de hoje. Um encontro às cegas é marcado para acontecer em um bar. O primeiro contato se dá através de um site de encontros na internet. Um dos envolvidos chega, encontra o bar lotado e não avista seu par. Em uma das mesas há uma pessoa sozinha. O primeiro então se aproxima, pede licença para se sentar apenas para aguardar um lugar vago que possa ocupar. Neste momento, meio que casualmente, um rápido diálogo se estabelece e com o desenrolar do papo, os dois descobrem que eram eles que se falavam via internet. Os dois desenvolvem uma relação – fortuita, sem garantias de compromisso duradouro ou laços rígidos – mas há um problema: um deles não acredita no amor. A partir desta constatação, o casal recém formado esbarra nas fragilidades e inseguranças que um relacionamento aberto sugere e os dois passam a questionar seus conceitos sobre o amor, cada um sob seu ponto de vista.

O texto escrito por Igor Angelkorte – que também dirige e atua – encontra referências nos escritos do sociólogo polonês Zigmunt Balman, mais precisamente no livro Amor líquido – Sobre a fragilidade dos laços humanos. Nele, Balman discute sobre a capacidade que a sociedade pós-moderna tem de enfrentar um dos medos mais antigos da trajetória do ser humano e que sempre foi tratada como uma ameaça: a forma como lidamos com o desejo e o amor por outra pessoa. O sociólogo entende que tanto os homens quanto as mulheres se encontram entrincheirados no que diz respeito às relações afetivas. Hoje não somos capazes de reconhecer se queremos sair ou permanecer em um relacionamento. Por isso nos movimentamos em várias direções, entrando e saindo de casos amorosos, sempre mantendo a esperança de encontrar a parceria ideal. Balman analisa ainda que os avanços nos campos da tecnologia da comunicação nos proporciona uma quantidade infindável de troca de mensagens entre pessoas que desejam avidamente se relacionar. Entretanto, esses mecanismos agem de forma pouco efetiva e afastam a possibilidade de conversas mais substanciais, o que não ocorreria se os interlocutores estivessem frente a frente. Com isso podemos perceber que o amor sofre e passa a ser vivenciado de outra maneira, de um modo mais inseguro, com todas as cargas de dúvidas que enfrentamos no ato de se unir ao outro.

A partir destas ideias, Balman mostra que em toda a história da humanidade nunca houve tanta liberdade na escolha de parceiros e há uma grande variedade de modelos de relacionamentos e que, no entanto, os casais nunca se sentiram tão ansiosos afetivamente. O mundo pós-moderno nos incita a fazer escolhas em um curto espaço de tempo e isso nos motiva a entrar em novos relacionamentos sem fechar a porta para outros que possam se mostrar mais atraente.

É a partir destes conceitos que Igor Angelkorte ampara sua peça e é exatamente isso que vemos em cena. Através dos diálogos rápidos, encaixados de forma natural e quase espontâneos, a plateia é convidada a acompanhar a angústia de duas pessoas que se relacionam afetivamente e que possuem pontos de vista diferentes sobre o amor. Não há certo ou errado, apenas opiniões e atitudes contrárias. Um dos méritos de [Des]conhecidos, está justamente em não apontar culpados, em não tentar passar uma mensagem, uma lição de moral ou coisa que o valha. Aqui não há maniqueísmos movendo as personagens ou juízo de valores, elas agem apenas de acordo com suas idiossincrasias e não abrem mão de suas posições. E isso define com exatidão uma geração, a geração Y, que se acostumou a viver em meio ao ritmo acelerado da sociedade atual. Outro ponto a se destacar no texto e que pode ser visto também como uma metáfora para esse cotidiano de relações rápidas e pouco aprofundadas, está na construção das personagens, que não têm nome. Com isso, o autor priva ainda mais os personagens de uma relação de intimidade entre elas. A marca de [Des]conhecidos está justamente na forma como as personagens lidam com a capacidade de doar, receber e afetar o outro.

Foto: Divulgação.

A peça traz uma modificação interessante e bastante significativa para a temporada no Teatro Gláucio Gill. Na primeira, que foi apresentada no Espaço Cultural Barteliê, Igor Angelkorte e Chandelly Braz dividiam a cena. Nesta temporada, a Probástica Cia de Teatro apostou em um novo olhar para a peça, colocando em cena o ator Samuel Toledo no lugar de Chandelly em algumas apresentações (às sextas e segundas). Ocorre que agora há uma variante em relação à encenação original. Em um dia temos no palco a dupla Igor-Chandelly e no outro a dupla Samuel-Igor. O que poderia ser encarado como uma mera substituição, acabou se transformando em uma nova forma de olhar a história de [Des]conhecidos, tanto para os atores quanto para os espectadores. A primeira intenção era debater a questão da afetividade entre um homem e uma mulher. Com a nova configuração, passa-se também a discutir esse mesmo assunto sob a ótica de dois homens. O que fica provado é que não existem tais “diferenças”, pois [Des]conhecidos é um trabalho que revela o desejo de falar sobre afetos e não sobre sexualidade. Até existem pontos que tangenciam a questão sexual, mas isso é relegado ao segundo plano. E a afetividade demonstrada em cena é imune a tipificações e estereótipos.

O ponto alto deste trabalho está nas atuações. O jogo entre os atores – tanto Igor-Chandelly, quanto Samuel-Igor – flui de maneira natural. A espontaneidade em cena é um ponto a ser observado com atenção. A impressão que temos é que não há um texto definido, tampouco marcas a serem cumpridas tamanha a naturalidade com que os atores se portam em cena. Creio que dois fatores podem ser atribuídos a isso. A primeira é a grande intimidade entre o trio Igor-Chandelly-Samuel, pois os três já seguem juntos desde a primeira temporada de [Des]conhecidos, há um ano. Samuel é responsável também pela direção musical da peça e quando não está em cena com Igor, assume a trilha sonora, que é executada ao vivo. O segundo fator pode ser conferido ao pequeno espaço no qual a peça é apresentada. O público fica restrito a pouco mais de quarenta espectadores. A escolha por um espaço exíguo é proposital e contribui ainda mais para a encenação. [Des]conhecidos é um tipo de trabalho que se aproveita dos pequenos espaços para criar laços de cumplicidade entre atores e público. Tanto que, em dado momento, a plateia está em cena sem ao mesmo se dar conta deste fato. É quase como se fizéssemos parte daquele bar onde os dois até então, desconhecidos, se encontram. Conforme a peça se desenrola, passamos a torcer pelas personagens, tomando o partido de um ou de outro.

O que fica ao final de [Des]conhecidos é a incógnita para a pergunta que abre este texto e a certeza e de que se trata de um bom estudo sobre os afetos e os relacionamentos, uma breve radiografia sobre as agruras sofridas por aqueles que procuram estabelecer parcerias no mundo globalizado.

Foto: Divulgação.

Referência bibliográfica:

BORDON, Gioconda. A fragilidade dos laços humanos. Digestivo Cultural. 24 out 2005. Disponível em: <http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=123&titulo=A_fragilidade_dos_lacos_humanos>. Acessado em: 14 de maio de 2012.

Raphael Cassou é ator, iluminador e graduando em Teoria do Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO.

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