A violência latente de todos nós

Crítica da peça Nem mesmo todo o oceano, de Alcione Araújo, direção de Inez Viana

22 de outubro de 2013 Críticas
Foto: Divulgação.

A ditadura militar é um passado recente ainda cheio de lacunas que Nem mesmo todo o oceano procura formalizar sob uma perspectiva não muito habitual. O espetáculo da Cia OmondÉ, dirigido por Inez Viana, transpõe para o teatro o livro homônimo do mineiro Alcione Araújo que narra o percurso de ascensão e queda da vida de um jovem do interior do país que segue a carreira de médico no Rio de Janeiro em meio a gestação, apogeu e declínio da ditadura no Brasil.

O tratamento mostrado na encenação por aspectos de teor tipificado das partes do conflito, ou seja, da perspectiva dos militares por um lado, e por outro da articulação estudantil, emprega, na maioria dos casos, uma percepção que tende ao popular ou alegórico se quisermos. Tal percepção, em seu extremo, parece se aproximar da mitificação. Porem, no mito narrado pela Cia OmondÉ o herói é a marca da tragédia do homem contemporâneo deixado à nu sob um céu sem deuses. Conhecemos bem a história de Ulisses na Odisseia de Homero em que, durante seu regresso a Ítaca, sempre que foi necessário, teve o auxílio de Hermes e Atenas. O sentido quase que premente de uma totalidade no mundo grego era consolidado pela intensa relação entre homens e deuses, sem a qual, os primeiros provavelmente não poderiam enfrentar o mundo da realidade objetiva. Na fábula atual o homem está sozinho.

Esse fenômeno, a meu ver, ao invés de minimizar ou tornar superficial o tratamento do tema, expõe a possibilidade de uma violência muitas vezes imperceptível do que seria a dita pureza do homem do interior. Assim, se manifesta uma forma por sua latência quase muda e invisível, como o avesso de qualquer construção cultural. É como se esse homem do interior fosse uma alegoria das possibilidades de nossos sentimentos mais profundos e que, ao mesmo tempo mostra a superfície ou a fisionomia de nossos desejos de violência e depreciação do outro.

A adaptação do livro de quase 800 páginas, realizada pela própria Inez, privilegiou a estrutura narrativa do romance que congrega diferentes gêneros em sua composição de escritura e talvez mesmo por isso, possa ser um material que oferece margens de liberdade para ser trabalhado. A característica fundamental que parece unir a encenação e a idéia de romance é o fato de que o espetáculo mistura narração, músicas e fragmentos dramáticos que são, forçosamente, espaços para a construção imaginária do espectador, assim como acontece no ato da leitura.

Neste sentido, a direção dos atores privilegiou identidades em deslocamento entre um elenco todo masculino que se divide na interpretação de diferentes personagens sem valorizar protagonismos. Em contraponto, parece ter investido em qualidades individuais dos atores deixando transparecer certas fragilidades e aspectos fortes. A cena nua que se vale apenas, se não me engano, de duas cadeiras, proporciona destaque ao trabalho da atuação como potência de criação.

Dinah Cesare é teórica do teatro, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (EBA- UFRJ) dentro da Área de Teoria e Experimentações em Arte na Linha de Pesquisa Poéticas Interdisciplinares e mestra em Artes Cênicas pela UNIRIO.

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