Quanto texto, quanta estupidez

Crítica da peça A estupidez, da Cia. Os Dezequilibrados, texto de Rafael Spregelburd

19 de maio de 2011 Críticas
Letícia Isnard, Alcemar Vieira, Saulo Rodrigues e José Karini. Foto: Divulgação.

Em cartaz no Teatro II do CCBB – RJ durante os meses de abril e maio, a Companhia Os Dezequilibrados comemora seus quinze anos com a encenação do texto A estupidez, do dramaturgo argentino Rafael Spregelburd. O texto faz parte de uma heptologia inspirada no quadro de Hieronymus Bosch, A roda dos pecados capitais. Em foco estão os supostos pecados do homem contemporâneo. Por exemplo, dentre os outros textos que fazem parte da série estão A paranoia e A teimosia. A escolha, da Companhia, por A estupidez revela o desejo de falar, claro, da estupidez humana, e também evidencia um processo marcado pela presença primordial do texto.

Como descrito pela tradutora e atriz da peça Letícia Isnard no programa do espetáculo, entre o primeiro encontro com a dramaturgia e a encenação (incluindo o período de tradução) foram seis anos – desde o planejamento até a criação. Por obstinação, ou outros impulsos, não há como negar que a montagem de A estupidez se deu por um caminho textocêntrico. Percurso diferente de muitas das montagens da Companhia que inclui adaptação de romances, texto baseado em filme, textos escritos durante os processos, composto a partir de vivências pessoais dos atores, etc. Depois de diversas maneiras de encarar o texto, e de muitos lugares alternativos (apartamentos e cinema) de apresentação, A estupidez parece um retorno, uma busca, ou um encontro com um lugar mais “tradicional” de criação.

Nada disso, entretanto, se contrapõe a história da Companhia, pois todas essas produções demonstraram que o texto é um elemento que sempre tem destaque nos processos. O objetivo, então, desta digressão é pensar o que pode revelar sobre a peça este lugar central do texto. Primeiramente, e antes de remeter à encenação, a escolha valoriza a dramaturgia contemporânea e reafirma o espaço do texto na atualidade – isto diz respeito diretamente aos profissionais e estudantes de teatro que se deparam com frequência com frases do tipo “o teatro é a arte do encenador”, “o texto está em crise”, e classificações similares. Uma dramaturgia relevante para o seu tempo não fica esquecida.

Quanto à encenação, o lugar central do texto revela porque tudo, absolutamente todas as características técnicas da peça (direção, atuação, cenografia, figurino, iluminação e trilha), convergem para as indicações dramatúrgicas. Mais do que isso, atem-se à única tarefa de tornar o texto algo “visual”. E que fique claro que isto não é uma rendição, e sim uma aceitação de que, neste caso específico, partem do texto os “comandos” para a encenação. Não foi possível identificar uma criação técnica muito descolada do que este sugeriria.

Sobre o texto: ele é extenso, são dois atos longos, feitos em quase três horas de duração, com intervalo. O ritmo das cenas é intenso, acelerado, fazendo com que os cinco atores (Alcemar Vieira, Cristina Flores, José Karini, Letícia Isnard e Saulo Rodrigues) se desdobrem em 24 personagens (com trocas de figurinos incrivelmente rápidas) para dar conta de uma estrutura que mescla o vaudeville com os personagens estereotipados do cinema americano de segunda categoria. E é uma comédia.

O humor é um aspecto importante deste espetáculo. Primeiro porque o ritmo que ele impõe não permite que o longo tempo da peça pareça “interminável”. E depois porque, apesar do texto mostrar personagens estúpidos, envolvidos em situações estúpidas, e reagindo estupidamente a elas, o humor não é estúpido. Não é banalizado. Ele é claramente o agente que leva à reflexão nos fazendo rir, principalmente, da estupidez alheia. O riso não é provocado por gestos bobos e piadas óbvias e superficiais, mas se dá a partir de um julgamento. Determinada ação/reação de certo personagem é estúpida, por isso ele é estúpido também, por isso ele é risível. E, assim, espera-se que o espectador pense criticamente no que o personagem fez.

Cristina Flores, Letícia Isnard e Saulo Rodrigues. Foto: Divulgação.

As construções dos personagens também estimulam esta recepção: são as mais caricatas (clichês) possíveis, provocando no público um estado de alerta, pronto para rir a qualquer instante. Demonstram, ao mesmo tempo, a superficialidade daqueles “tipos”, que são estendidos, metaforicamente, a qualquer ser humano. Camuflados de “ator mal sucedido”, “jornalista sensacionalista”, “policiais gays”, “doente mental”, etc., esses personagens praticam o que há de mais estúpido nas ações do homem contemporâneo: violência física e violência psicológica em favor da ganância e da astúcia. Todos querem ser o “esperto” que tem mais dinheiro, desde o casal de marchands que tenta ficar milionário vendendo um quadro em fase de deterioração de um artista inventado à menina bobinha que só quer saber se pode guardar o dinheiro da vaquinha. Quando os personagens não correm atrás de dinheiro, deixam-se ser usados pela cobiça dos outros.

Curiosamente, todos passam por um sofrimento. Doenças, amores vazios, traição, descaso, solidão. Eles estão hospedados em hotéis baratos na beira da estrada e neste ambiente vivem suas histórias pobres. A cenografia de Rui Cortez e Nello Marrese constrói um único quarto e corredor de hotel fuleiro, em cores pastéis, papel de parede desbotado e cortinas com aparência de empoeiradas, enfim, um genérico de hotel de beira de estrada. Dá a impressão de um lugar qualquer para qualquer pessoa. De fato, a história fala de gente normal, possível e sem importância. E ainda inclui o culto contemporâneo ao cientista detentor da verdade absoluta. Essa é a parte do texto que, talvez, mais forje a existência da “moral da história”.

O cientista Robert Finnegan chega a uma fórmula por meio da física quântica que decifraria todos os mistérios do mundo. Ele grava em fitas K7. As fitas passam pelos núcleos de personagens, mas a única que a escuta é Ivy Posgate, personagem que sofre de debilidade mental e não fala. É como se existisse uma verdade absoluta rondando o mundo e todos estivessem ocupados demais com sua estupidez para perceber. Contudo, assim como um personagem caricato, “verdade absoluta” também é um clichê. E pela lógica dramatúrgica, um clichê é estupidez. E pela lógica do mundo (de fora do texto), um clichê não é uma verdade absoluta.

Assim, A estupidez é mais uma montagem que mistura falsas verdades com clichês verdadeiros e deixa o pensamento um pouco confuso. Ao público cabe relativizar as idéias e sair do embaraço. E isso é um bom exercício.

Tem uma frase no texto que diz: “Você pode sofrer sem que haja lição alguma”. A fala é uma lição e um paradoxo. Uma síntese do discurso da peça que insiste em dizer que está tudo fora do lugar.

Mariana Barcelos é atriz, estudante de Artes Cênicas, bacharelado com habilitação em Teoria do Teatro pela UNIRIO.

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