Convivência

Crítica da peça O que eu gostaria de dizer

15 de julho de 2008 Críticas
Atores: Luis Melo, Bianca Ramoneda e Marcio Vito. Foto: Guga Melgar.

Na arena do Espaço SESC, a peça O que eu gostaria de dizer, dirigida por Marcio Abreu, apresenta três unidades de espaço, delineadas por esculturas cenográficas de Cláudio Alvarez. Cada um desses espaços é ocupado por um dos atores. A partir desses pequenos universos, três personagens se expressam e, direta ou indiretamente, se relacionam. Dos três espaços, um fica mais afastado: é a sala do personagem de Luis Melo, com poltrona, almofada, mesa de cabeceira, rádio, apoio para os pés. Os outros dois estão mais próximos entre si, embora separados: formam a casa de um casal em vias de separação. O espaço de Bianca Ramoneda é ocupado por uma cadeira, duas malas e um abajur, enquanto o de Márcio Vito contém apenas uma miniatura de veleiro, um banquinho, uma lata de lixo e uma lâmpada. As esculturas são formadas apenas pelo que seria a ossatura de um espaço fechado – os contornos estão traçados, mas não há paredes. Assim, o cenário cria certo isolamento para cada personagem, mas os mantém dentro do mesmo campo visual.

Essa disposição cênica provoca uma convivência entre aqueles personagens, que pode ser mais marcante nos momentos em que eles não contracenam diretamente: a subjetividade vasa por aqueles espaços sem limites concretos – e aqui me refiro tanto ao espaço da cenografia quanto ao espaço da atuação. As imagens que se formam a partir do trabalho de um ator com seu texto ganham sentido na medida em que elas são afetadas pela presença dos outros atores e pelas imagens sugeridas pelos outros textos. O personagem de Luis Melo parece não ter relação direta com o casal (em alguns momentos eles parecem vizinhos). No entanto, quando ele menciona a falta que sente de determinada mulher, é possível ver a personagem de Bianca Ramoneda como essa mulher de quem ele sente falta. Não digo que ela seja literalmente essa pessoa, mas ela é, certamente, a imagem de uma mulher de quem um outro homem vai sentir falta. Assim se aproximam também os personagens de Luis Melo e Márcio Vito: um homem sozinho e um homem prestes a ficar sozinho. Não se trata de dizer que eles são o mesmo personagem, mais velho e mais novo. Eles se aproximam pelas questões subjetivas com as quais estão lidando, a memória, a saudade, a solidão, a questão do lugar, do pertencimento (que é também um assunto na situação da personagem de Bianca Ramoneda). Eles não precisam “contracenar” para que haja um diálogo entre seus personagens. A encenação propõe um diálogo de sentidos, não de falas.

Logo no início, Luis Melo fala o texto que está no programa da peça, que diz: “Não há melhor lugar para estar do que estar contente. / (…) Um dia fui para o pólo mais frio por causa do calor e lá não me senti bem. / Num outro dia fui para o pólo mais quente por causa do frio e também lá não me senti bem. / Decidi então deixar de andar de um lado para o outro.” A personagem de Bianca Ramoneda escreve uma carta de despedida, pela qual se pode perceber o seu não-pertencimento à casa onde mora; ela menciona um caracol, que “carrega uma casa nas costas”. Já o personagem de Marcio Vito constrói todo o seu discurso para desconstruir o discurso dela, contrariando as metáforas do caracol, do pássaro (que pousa mas logo alça vôo para outro lugar), afirmando a sua noção de lugar como construção, como parceria: “casa” para ele é o “casal”. A tranqüilidade de Luis Melo, “sentado no sofá de si mesmo”, contrasta radicalmente com a inquietação do casal: nenhum dos dois encontra descanso em “si mesmo”, pois seus espaços físicos estão abalados.

O trabalho dos atores que fazem o casal parece responder de forma menos literal à questão do título da peça. Eles parecem trabalhar sobre a dificuldade de dizer o que não tem audibilidade para o outro. Ambos dependem do discurso do outro para construir suas falas, estão intrinsecamente relacionadas. Isso contrasta com o discurso lapidado de Luis Melo, que não apresenta nenhum problema para a cena, nenhuma questão a ser desenvolvida ou pensada – mas envolve o público numa relação de pura simpatia, como se ele estivesse ali como um mediador entre o espetáculo e a platéia.

Essas duas situações tão díspares a princípio poderiam parecer apenas concomitantes na peça, mas a dramaturgia organiza as cenas de um modo que transforma a simultaneidade em convivência. Em alguns momentos, o casal funciona como uma espécie de desdobramento daquele discurso – como na hora em que Luis Melo fala da mulher dormindo e Bianca Ramoneda dorme. No entanto, há outros momentos em que a convergência de sentidos não é tão clara e o trabalho de imaginação do espectador é mais livre. Da mesma forma, a trilha sonora de Pedro Luis e Antonio Saraiva às vezes sublinha a cena, às vezes se coloca como mais um elemento dissonante para entrar em convivência.

Talvez seja possível dizer que a pergunta do título tenha, em cena, dois apontamentos diferentes. Um deles é o discurso claro, conciso, autônomo, que prescinde do diálogo embora se dirija ao outro (assim são os discursos proferidos por Luis Melo e pela carta de Bianca Ramoneda). O outro é o fluxo confuso e repetitivo de temas e palavras que não dão conta das idéias (o texto de Márcio Vito). Talvez a pergunta seja das mais difíceis, na mesma medida em que é das mais importantes. O “como dizer” parece ser também uma questão: temos um discurso falado, um discurso escrito e um anti-discurso. Penso que cada espectador vai se envolver através do seu “como”. Há aqueles que vão se aproximar pelo discurso pronto, pela coerência das idéias e pelos adornos da linguagem. E há aqueles que, diante da pergunta “o que eu gostaria de dizer”, encontrarão mais familiaridade na confusão dos fragmentos que se repetem. O que me parece interessante é que a peça não aponta uma única resposta para essa pergunta, nem mesmo uma forma única de respondê-la. O que vemos em cena se dá mais como um estímulo para continuarmos nos fazendo perguntas. E a atmosfera do espetáculo parece lidar com tranqüilidade com o fato de que as respostas são sempre provisórias.

Vol. I, nº 5, julho de 2008

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