A babel de Qorpo Santo

Crítica da peça Labirinto, da Alfândega 88 Cia. de Teatro

24 de fevereiro de 2011 Críticas
Atores: Alfândega 88 Cia. de Teatro. Foto: Guga Melgar.

Encenar as peças de Qorpo Santo, autor do século XIX, não é tarefa fácil nem comum nos palcos da cidade. Comediógrafo pouco visitado por nossas companhias, diretores e atores, o autor traz uma obra bastante peculiar para uma época em que ainda reinavam os dramas históricos de João Caetano, as comédias de costumes de Martins Pena o realismo do Ginásio Dramático de José de Alencar para traçar um rápido panorama do teatro na segunda metade do século XIX. Com uma escrita fragmentada, satírica e paródica, José Joaquim de Campos Leão, o Qorpo Santo, retrata cenas prosaicas do cotidiano, colorindo-as com tons de um universo nonsense, onde trafegam personagens alegóricos (como Interpreta, Impertinente, por exemplo, em As relações naturais) sem uma linha lógica de ação tempo e espaço. Há em sua escrita um foco na representação, a cena propriamente dita.

O Alfândega 88 Cia. de Teatro, sob direção de Moacir Chaves, dá a chance ao público carioca de conhecer a obra do autor gaúcho em uma montagem fiel ao sentido (ou anti-sentido) criado por ele. Os textos escolhidos para a montagem Hoje sou um; e amanhã outro, A separação de dois esposos e As relações naturais são escrituras cênicas que abrem para diversas possibilidades vocais. Há uso da palavra enquanto discurso abarcado de sentidos antagônicos num fluxo ininterrupto de uma ação não linear e que exige do espectador um diálogo contínuo entre o que se diz e o que se faz em cena. A direção de Labirinto, em cartaz na arena do Espaço SESC, optou por uma economia no que tange o espaço cênico e as caracterizações dos personagens, não havendo mudanças de cenário nem de figurino. Há troca de forma dinâmica dos personagens entre os atores, rotatividade essa justificada pelo número de personagens nas peças do autor o que confere uma agilidade ao olhar do espectador. Essa dinâmica é conferida pela narração das rubricas pelos atores que dá um tom de didatismo ao escancarar as indicações cênicas por onde circulam personagens, dentro de uma ação dramática composta de imagens justapostas.

No primeiro contato com o espaço cênico, observa-se uma cenografia enxuta e concisa com diversas mesas de madeira rudimentar das mais variadas dimensões. Cadeiras de ferro, que remetem ao mobiliário de hospitais psiquiátricos, estão distribuídas por entre as mesas, compondo o ambiente da cena. Nenhuma cadeira e mesa são idênticas entre si. Elas operam uma indicação de tempo determinado, mas se diferenciam em tamanho e detalhes do design, dispostas de frente para a plateia. Estas cadeiras pressupõem um tempo, elas estão gastas, são de outra época e por isso remetem a um tempo passado, indicado por essa cenografia de Fernando Mello da Costa, pelos figurinos de Inês Salgado e trilha sonora de Tato Taborda. Porém, a época não é a de Qorpo Santo, o final do século XIX. A referência clara é o século seguinte (principalmente o figurino e a trilha sonora composta por Beatles e Janis Joplin), mais precisamente o ano de 1966, o que propicia uma investigação por parte do espectador, que tenta fazer esse exercício de salto do tempo. Essa sobreposição de tempo é referencial. A primeira encenação de textos de Qorpo Santo é feita por um grupo de jovens estudantes de Porto Alegre em 1966. Fica evidente o jogo temporal feito por Moacir Chaves, ao interpor 1866 e 1966, principalmente quando os atores narram as rubricas destacando a autoria de Qorpo Santo e a data em que foram escritos os referentes textos. É quase uma forma de homenagem ao autor pouco visitado e ao grupo estudantil que se arriscou ao levar a cena o universo pouco usual dos personagens do autor.

Essa referência dada pela direção também se evidencia quando os atores entram em cena no início da peça. Um a um entra no palco e estabelece uma comunicação direta com o olhar do espectador e em seguida senta-se em uma cadeira. Estão sentados de frente e na medida em que as didascálias são narradas, a cena acontece. Também há outro momento em que esse aceno de desmascaramento diante do espectador é dado, quando entre uma cena e outra, todos sentados encaram a plateia ao som de A day in the life dos Beatles (composta em 1967, data próxima à primeira encenação desses textos). Esse jogo proporciona ao espectador um olhar distanciado. Um distanciamento didático que ambiguamente familiariza o espectador com o tipo de cena ali proposta, traçando uma recepção construída com fluidez no momento da ação.

A idéia do labirinto está em uma rubrica de As relações naturais: “É um labirinto, que ninguém se entende, mas o fogo, a fumaça que se observa, não passa, ou o incêndio não real, mas aparente” (QORPO SANTO, 1975) dando um sentido de Babel, de confusão de línguas e discursos que parecem desencontrados na ação que a cena opera e que se pode ver na forma como o texto de Qorpo Santo é dado pelos atores. As imagens construídas vêm a partir da palavra falada, do discurso proferido, da narração da cena de forma distanciada pelos atores. Vocalizações, berros, vozes esganiçadas e esquisitas, impostação formal nas narrações, experimentos entre timbres agudos e graves reiteram o universo surreal daqueles personagens e enredos. Labirinto, nesse sentido, é uma peça que experimenta as diversas possibilidades poéticas de leitura da obra de Qorpo Santo.

Dâmaris Grün é atriz e graduanda em Teoria do Teatro pela UniRio.

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