A sonoridade material do texto

Crítica da peça Merci, solo de Ana Barroso dirigido por Moacir Chaves

16 de julho de 2010 Críticas
Atriz: Ana Barroso. Foto: Guga Melgar

A encenação de Merci em cartaz no Teatro do Oi Futuro do Flamengo, escrita por Daniel Pennac, com a direção de Moacir Chaves e a atuação de Ana Barroso é um exemplo de como podem ser congregados de maneira sutil a dramaturgia, a cena e a escrita. A sutileza aqui criou um campo de beleza para a recepção no sentido da estética. Todos os elementos que constituem a encenação são cuidadosamente e inteligentemente elaborados. Para começar, vale a pena ler o programa deixado nas cadeiras do teatro. A escrita começa a forjar um imaginário antes mesmo do texto falado e que, ao final, se junta a esse último criando a possibilidade de desdobrar sentidos, uma esfera quase material para nossa reflexão.

O texto de Ana Barroso compartilha o insight de Pennac em Merci – “os libertadores de luzes” – aqueles que, ainda em nossa infância, promovem eventos nos quais sofremos de um certo modo e geram instâncias subjetivas e criativas. Em seguida, “a nova era” alentada por Marta Arlete Gonçalves, diretora de cultura do Oi Futuro, a fuga do lugar comum por meio do deslocamento da materialidade da cena de Moacir Chaves, o verbete sobre Guilherme Tell e a função gratuita da arte realizada como uma experiência de sonho. Um sonho freudiano. Toda essa escrita formaliza um dos elementos de Brecht ao avesso, traz a verticalidade da cena para a horizontal e configura paredes vazadas de um edifício na imaginação do espectador que a encenação, longe de querer completar de modo categórico, formaliza.

Acredito que este agenciamento entre o programa do espetáculo e a cena possa ter sido iluminado pela excelente tradução de Angela Pecego e Ana Barroso que conseguiu encontrar pontos de comunicabilidade entre a fala coloquial e a precisão terminológica. Neste sentido, o trabalho da tradução encontrou significação na fala límpida e na voz singularmente clássica da atriz. Utilizo o termo clássico para me referir a uma não imposição de sentidos, a um timbre que soa por meio da clareza sem recorrer às curvas e floreios do art nouveau. O resultado dessa fala é que o sofrimento, as neuroses, as dúvidas barrocas da personagem, por assim dizer, dão a ver a dramaturgia de modo aberto, criando ainda alicerces delicados nos quais o humor ácido do texto pode fluir aos espectadores sem tornar seus momentos reflexivos, nem sublinhados, nem chapados. A figura é mais a da opacidade que promove a atividade da recepção.

Relação cena e dramaturgia

A encenação de Moacir Chaves formaliza a grata noção de que a relação atual entre um texto dramatúrgico e suas formas de representação não são as expressões puras de um conjunto social e artístico e sim a problematização de relações mútuas e complementaridades. A meu ver, a direção procurou por procedimentos que investem no teatro como resultante de uma experiência e não de canonizações ou de objetos de museu. O teatro, a partir da modernidade, revelou a questão existente entre o texto e a cena, onde a última ganhou autonomia em relação ao primeiro. Mas essa transformação do valor da cena está certamente em conversa com o paradigma do texto, mesmo que seja para negá-lo. Portanto, pensar na transformação dessa relação é encontrar novos procedimentos que não podem surgir em um desenvolvimento linear. Se, por um lado, durante algumas experimentações o teatro valorizou a cena em detrimento do texto escrito a priori, o deslocamento dessa noção proposto na encenação de Merci acabou gerando uma alegoria fundamentada na noção material da escritura, ou da memória que a escritura nos provoca.

A meu ver, a materialidade da memória do texto está, desde o início, instalada no lugar da primeira aparição de Ana Barroso, que depois – não no mesmo instante – se revela como uma instância onírica. Se o fragmento de texto de Daniel Pennac no programa se refere à produção artística como uma espécie de produção inconsciente, a cenografia de Sergio Marimba (a cama beliche) assume para si a construção da parataxe, ou seja, a construção da frase sem ideia de subordinação. A escultura objeto construída com cadeiras escolares gastas compõem um conjunto de significados que nos remetem, entre outros, ao peso e às pressões das categorizações, aos recalques educacionais, às quases desconhecidas subjetividades infantis que fazem sombra em nosso mundo adulto. No sentido de esclarecer minha percepção cito Heiner Goebbels: “O que me interessa é inventar um teatro onde todos os recursos não só se ilustrem reciprocamente e se dupliquem, mas conservem suas próprias forças e no entanto ajam juntas” (GOEBBELS apud Lehmann, 2007: 143-144).

A justaposição dos signos segue com o estranhamento da localização do frigobar que se dá a ver como o lugar do já referido ponto crucial da dramaturgia, a luz interior, uma dose de recarga dos eventos gerados na infância, ressignificados pelo deslocamento no palco. Nossa relação com essa recarga das energias infantis é diagonal, é de atravessamento na melhor das hipóteses. E só assim que acontece, sem a imposição da linearidade. Do modo como percebo, a encenação revigora assim a relação com a dramaturgia, por linhas transversais que provocam uma experiência de formação do imaginário do espectador de teatro por meio da conjugação de elementos visuais e texto como algo que não está. Este é o paradoxo inerente ao teatro. Em um determinado momento a personagem pede que se acenda a luz da platéia para que ela possa enxergar um dos pilares de seus agradecimentos. A significação no teatro passa também pelo o que está oculto na visualização.

Pensar a relação entre a cena e a dramaturgia em Merci parece ser uma necessidade que a encenação oferece e que se entrecruza com as possibilidades geradas a partir do palco italiano. Se o espaço italiano foi gerado potencialmente como um lugar de verdade, um recorte luminoso do real, a encenação do espetáculo cria um território duvidoso para as regras dos discursos estabelecidos sobre as instâncias de criação. A personagem encenada, ganhadora de um prêmio pelo conjunto de sua obra literária, problematiza a noção do ajuizamento e de sua própria criatividade, por assim dizer. Aposta mais no humor, mais em uma noção de blefar sobre seu destino do que de incorporar qualquer categoria que a fama lhe impõe. Parafraseando Daniel Pennac e a encenação de Moacir Chaves, agradeço por ter me lembrado, ao final do espetáculo, de José Saramago e os ruídos em sua criação que o prêmio Nobel lhe trouxe.

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