Uma reavaliação das posturas individuais

Crítica da peça Oxigênio, da Companhia Brasileira de Teatro

19 de janeiro de 2011 Críticas
Ator: Rodrigo Bolzan. Foto: Elenize Dezgeniski.

Uma interrogação essencial a atravessar as estruturas da peça Oxigênio, da Companhia Brasileira, é de que modo o ator pode se colocar legitimamente no palco, diante do autor das palavras que profere, do colega com quem contracena e, em última instância, do público.

O texto do dramaturgo russo Ivan Viripaev exige esse autoquestionamento, na medida em que derruba as roupagens com que um ator costuma se travestir ao assumir um papel. Faz com que os personagens catalisadores do espetáculo, um assassino passional e sua musa cúmplice, se esfacelem, sobrevivendo apenas como artifícios para proveito dos narradores. Estes, à sua vez, também se desmantelarão.

A direção de Marcio Abreu absorve tal autocrítica e a verte em tentativas de atualizar a cada apresentação a presença dos atores Rodrigo Bolzan e Patrícia Kamis, distanciando-se da ação representativa — que é, por definição, repetitiva – em busca de uma outra forma de verdade cênica. Dentro dessa proposta, a chave da montagem está em determinar o lugar de onde os atores falam para que, a partir dessa localização (também geográfica, mas sobretudo de concepção artística), tomem consciência da postura que adotam em cena. Não a de intérpretes de personagens, uma vez que a noção de personagem se descama sucessivamente até que dela pouco ou nada reste.

Faz-se, em vez da pretensa encarnação de um papel, a mera menção. Esta incorpora uma camada crítica de comentário, por meio da imitação de um jeito de andar ou um trejeito alheio, sem que nunca essa “cópia” tome o corpo e a fala do ator por completo. Como um de muitos exemplos disso, tem-se o momento em que a Sacha defendida por Patrícia Kamis é descrita por Rodrigo Bolzan como uma charmosa mulher descalça. A atriz se comporta como tal, mas do alto de um vibrante sapato amarelo, que se torna um obstáculo a qualquer tendência – por parte do público – de confundir atriz e personagem.

A própria ideia de que é possível se colocar no lugar de um outro será posta em dúvida: nem pela representação e talvez nem pela aproximação narrativa, embora seja esta a postura assumida pelos atores. À sombra de um texto que questiona literalmente a possibilidade de alguém se envolver ou se importar com uma realidade que não a sua, fazendo dessa constatação uma condenação a modelos de interpretação tanto quanto a comportamentos sociais, resta à narrativa um estatuto de falsidade semelhante ao da representação. A não ser quando realizada à luz do comentário crítico.

Coletivo

Esses são problemas deixados sem resolução definitiva, até porque o que está em jogo é exatamente indagar como se pode responder às demandas – políticas, éticas, religiosas, afetivas, artísticas – do mundo tal como se apresenta hoje, tanto em âmbito pessoal quanto globalizado. A questão do ator reflete outra nódoa ética a ser desfeita: como viver a vida nesta realidade, comum a todos os indivíduos imersos num coletivo? A provocação se dá no sentido de compreender se é possível ultrapassar a individualidade. Para tanto, recorre, na esfera temática, à gravidade da fome, da violência e do terrorismo como ameaças inescapáveis dos nossos dias, ao mesmo tempo, apartadas da individualidade de cada espectador ou ator presente.

O caso criminoso de amor entre um homem e uma mulher russos detona uma discussão ampliada sobre as motivações fundamentais do ser humano, que conduz à apreciação da realidade imediata. Vincula-se, portanto, ao caráter essencial do teatro como compartilhamento com o público, num momento presente e irrepetível – o mesmo ideal sobre o qual se edifica a montagem anterior da Companhia Brasileira, Vida.

Também por esse aspecto ganha importância a investigação sobre como o ator deve se colocar frente ao texto, de modo a mantê-lo pulsante, e a não cristalizar o discurso do qual é porta-voz em uma construção vocal e física que apenas o repita dali em diante. Este é um desafio que se impõe a cada vez que o espetáculo recomeça, por isso fica difícil mensurar seu sucesso generalizando uma temporada.

A julgar por visões isoladas de duas apresentações, se percebe por parte da dupla de atores um esforço consciente constante, que em algumas cenas ainda não se realiza como desejado, sobretudo na atuação em desenvolvimento de Patrícia Kamis, cuja fala se mostra menos flexível às oscilações do momento, porque ainda vem impregnada de inflexões previamente concebidas em sua leitura da peça.

Atores: Rodrigo Bolzan e Patrícia Kamis. Foto: Elenize Dezgeniski.

Energia

O texto de Viripaev fornece as linhas de força do espetáculo sem ditar seus limites, razão pela qual se ultrapassa o caráter de mero manifesto provocativo contra a alienação pós-moderna. Equilibrando palavras e imagens, Marcio Abreu explora as três dimensões do espaço desenhando uma movimentação dinâmica dos atores pelo cenário – a princípio, uma rampa com um palco posterior no alto –, de modo a sublinhar a presença corporal deles para além dos discursos, e cria cenas que sobrepõem novos significados ao que se diz, por vezes conflitantes ou irônicos.

A crítica ao consumismo alienante, por exemplo, ecoa mais alto porque, enquanto empreendem um debate ético sobre temas dos mais controversos, os atores também provam roupas e absorvem parte da gramática corporal do mundo da moda, usando a rampa como passarela, numa referência sugestiva de como nosso tempo se relaciona com as questões essenciais e as supérfluas.

Amparada em uma estrutura musical, a dramaturgia divide as cenas em composições de diferentes andamentos e variáveis níveis de energia, pontuadas por refrões que impregnam o público de imagens metafóricas. Sobressai a fala de Rodrigo Bolzan sobre os “pulmões que dançam”: “Em cada homem há dois que dançam: o direito e o esquerdo. Um dançarino – o direito, o outro – o esquerdo. Dois dançarinos de ar. Dois pulmões. O pulmão direito e o esquerdo. Em cada homem há dois que dançam – o pulmão direito e o esquerdo. Os pulmões dançam e o homem recebe o oxigênio.” Os ecos que tais frases já contêm se fortalecem pelas vezes em que o trecho é dito novamente – e reavivado – pelo ator, com voz e gestual ritmados em intensidade crescente.

A música executada ao vivo pelos atores e por um instrumentista (o autor da trilha, Gustavo Schwartz, ou Vadeco, com quem reveza) é aproveitada em sua potência energética, mobilizadora e catártica. Não à toa ouve-se rock e rap, expressões máximas da rebeldia social e catalisadores da fúria humana, seja para incitá-la ou, ao contrário, consumi-la de modo alienante, evitando que tome outras direções mais ativas.

Por trilhar tais caminhos, Oxigênio demanda do público o exato oposto da suspensão da descrença. Um espírito crítico constante, aplicado ao conteúdo e à forma de encenação sobre o palco, de modo que possa, espelhadamente, se voltar contra o próprio espectador, num estímulo ao autoexame de consciência, que desmistifique as respostas padronizadas e impulsione uma reavaliação das posturas individuais no mundo.

Informações no site do grupo: http://www.companhiabrasileira.art.br/

Luciana Eastwood Romagnolli é jornalista formada pela Universidade Federal do Paraná, com especialização em Literatura Dramática e Teatro, e atua no jornal mineiro O Tempo.

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