Um olhar com pensamento dentro | Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais

Um olhar com pensamento dentro

Crítica de Descartes com lentes, solo de Nadja Naira com texto de Paulo Leminski

29 de novembro de 2010 Críticas
Foto de Descartes com Lentes em Curitiba. Atriz: Nadja Naira. Foto: Elenize Dezgeniski.

“E os aparelhos ópticos, meus aparatos? Ponho mais lentes no telescópio, tiro outras; amplio; regulo; aumento, diminuo, o olho enfiado nestes cristais, e trago o mundo mais perto ou o afasto longe do pensamento: escolho recantos, seleciono céus, distribuo olhares, reparto espaços, o Pensamento desmonta a Extensão, – e tudo são aumentos e afastamentos. Um olhar com pensamento dentro.”
Paulo Leminski, Descartes com lentes

A apresentação de Descartes com lentes realizada no ACTO2, encontro de teatro do Espanca! com o Grupo XIX e a Companhia Brasileira, que aconteceu em Belo Horizonte em outubro deste ano, se deu num contexto singular: a inauguração da sede do Espanca!, ainda em processo de reformas, mas já em plena atividade. Depois da apresentação, artistas e espectadores conversaram, trocando impressões sobre o trabalho e sobre a experiência da criação, o que aconteceu como consequência natural daquele encontro, provavelmente pelo viés filosófico do próprio texto, que convida à conversa.

É frutífero o encontro entre teatro e filosofia. Em Descartes com lentes, soma-se o encontro com a literatura. O trabalho sobre o texto de Paulo Leminski se deu como exercício da atriz Nadja Naira com o diretor Marcio Abreu no processo de criação do espetáculo Vida, que a Companhia Brasileira de Teatro também apresentou no ACTO2. No texto publicado na edição de outubro da Questão de Crítica, sobre Congresso Internacional do Medo, espetáculo que abriu o evento, mencionei uma afinidade entre o encontro dos grupos no ACTO2 e o encontro dos personagens da peça, que conseguem se comunicar apesar da diferença entre as línguas/linguagens. Descartes com lentes também apresenta o confronto entre línguas/linguagens: o texto tematiza o embate entre o latim e as línguas indígenas; a montagem enfrenta o problema de trazer a literatura para o teatro. O exercício da atriz se dá na ação de trabalhar sobre um problema: o de materializar cenicamente um texto que foi escrito para ser lido. Trabalhar sobre um problema já é, por si só, um gesto filosófico.

Aqui também se tematiza a tentativa de desvendar a linguagem do outro, mas não só do outro que é Paulo Leminski, o autor, mas do outro que é Descartes, o filósofo feito personagem numa narrativa fictícia. Talvez seja possível dizer, então, que Descartes com lentes vá mais longe nesse sentido, com o jogo de desvendamento do pensamento do outro, não apenas da sua linguagem. A operação de Leminski é colocar-se no lugar de Descartes. O texto começa: “Ego, Renatus Cartesius, cá perdido nesse labirinto de enganos deleitáveis” (LEMINSKI: 1993,6) A operação de Nadja Naira é colocar-se não apenas no lugar de Descartes – um Descartes de ficção –, dizendo esse texto, mas também no lugar de Leminski, dando a ver os seus escritos – e o seu olhar sobre Descartes.

Detalhe do cenário de Descartes com lentes na sede do Espanca!. Foto: Daniele Avila.

Nadja Naira dá início à apresentação com um gesto simples. Mas mesmo que nada tenha sido dito ainda, o espectador já sabe que há um René Descartes em jogo e a parede ao fundo da cena mostra uma espécie de cartografia de palavras e frases em diferentes línguas. O gesto simples tem sua potência. Nadja traça, com pó de giz, um círculo no chão, inscrevendo assim uma ideia de espaço delimitado no espaço potencial da cena: talvez um espaço circunscrito do “eu”. Mas com esse gesto, ela sugere também, na minha leitura, uma ideia de tempo, de época, de tempo histórico. Um círculo pode remeter à imagem de uma bússola ou de um relógio – especialmente quando ela se joga no chão e seus braços e pernas formam possíveis ponteiros. Mas também pode ser uma lente, a lente pela qual veremos esse Descartes, a lente de Leminski, ou um telescópio, que “traz o mundo mais perto”, mecanismo moderno do olhar, no seu sentido amplo. O círculo também pode ser uma alusão ao rigor da Geometria, porto seguro no mar de dúvidas de Descartes. Ou à forma do mundo que, para Descartes, era mensurável. Naquele círculo de giz no chão é possível ver o mundo e a matemática unidos pelo gesto do homem de traçar seu pensamento, pela sua capacidade de dotar o sentido de forma. Ou pode ser só um círculo.

Feito o gesto, a atriz se dirige aos espectadores sentados à sua frente e de ambos os lados. A sua relação com o texto e com a tarefa de fazer com que ele seja legível é o seu enfrentamento. É possível ver em Descartes com lentes o papel do enfrentamento com a palavra, com a leitura, com a língua, com o que é a princípio ilegível, como um processo de formação. A leitura, a reflexão, o pensamento sobre o estar no mundo se apresentam como enfrentamentos que possibilitam ao homem estar de pé. O poder crítico que implica desvendar outra língua não é, em Descartes com lentes, um fardo intelectual, mas deleite sensorial. O desvendamento do latim – questão determinante nos tempos da Reforma, contexto cultural da época de Descartes – é sinal de independência intelectual e espiritual, uma espécie de chave que abre portas para salas antes restritas.

Vemos (e ouvimos) em Descartes com lentes um emparelhamento do latim – a língua universal dos instruídos do velho mundo – com a língua pagã do novo mundo. E vemos o “eu” no meio disso tudo, que tenta dizer: “Ego, Renatus Cartesius…” (Eu, René Descartes) e continuar de pé. A cada vez que tenta dizer quem é, cai. A cada vez que tenta começar a se definir, cai no chão, levanta a recomeça. No pensamento de Descartes, pode-se dizer que o “eu” é a medida das coisas. O eu é a questão, o ponto a partir do qual se enfrenta o problema da realidade. Isso está materializado pelo processo inicial da fala da atriz, pela relação que estabelece com o nome escrito no seu antebraço, que ela lê e mostra, repetidamente.

Uma leitura possível de Descartes com lentes é, portanto, pelo viés da ideia de formação. Os anos de formação de René Descartes foram em viagem. Foi nutrido nas letras, teve formação jesuítica, mas não cursou universidade. A descoberta dos novos continentes faz parte da problematização do pensamento de sua época. O interesse pela natureza está emparelhado ao interesse pelo conhecimento no início da Era Moderna. Descartes não fez nenhuma viagem à América, mas a ficção de Leminski coloca a intelectualidade analítica diante da exuberância sensorial da flora e da fauna da terra brasilis. As noções se formam no encontro com o outro. Essa viagem fictícia de Descartes é uma viagem de formação, uma formação efetiva, que depende do encontro da subjetividade com algo externo, que pressupõe uma dor. No caso da peça, da leitura interpretativa e performática de Nadja Naira, essa formação pressupõe um desnudamento, um desnudamento de um certo latim masculino, a experiência da nudez feminina, a nudez da formação da atriz.

Segundo Descartes, as viagens e leituras em excesso fazem o homem correr o risco de descentrar-se – em Descartes com lentes vemos um Descartes descentrado, um estrangeiro, “bárbaro que não entende”: “Barbarus hic ego sum quia intellegor ulli, – isso do exílio de Ovídio é meu.” (LEMINSKI: 1993, 3) O espectador, diante daquele quadro com frases em outras línguas e diante da expectativa de que algo aconteça, mas sem saber o que pode acontecer, também se sente um pouco assim: um estrangeiro que não entende. Com essa frase, o texto alinha, aproxima, coloca em pé de igualdade o espectador e o personagem.

A partir daí, começa a aventura que não tem destino certo. Nesse labirinto de enganos deleitáveis, não se procura exatamente uma saída. A graça é refazer os mesmos caminhos, esperando que deles se desdobrem outras possibilidades: passar de novo pelas mesmas ideias para entendê-las de maneira diferente. O texto anda como em círculos. A sensação, no entanto, não é a de não sair do lugar, mas a de se movimentar em espiral. A criação de um espaço de convivência entre a atriz, o texto e os espectadores apresenta uma forma de ver e rever aquelas palavras e frases antes desconhecidas, agora reconhecidas. Algo se forma.

No encontro de Descartes com o clima tropical, a flora e a fauna que entram nos seus sonhos, o prazer do saber não é o prazer da retenção do saber, mas do processo de conhecer: desconfiar, perguntar, não saber. “Que perguntas fazer?” Há um prazer nessa resistência que ele mostra ao continuar se perguntando: o pesar do pensar aparece com humor e espirituosidade. A leitura de Nadja Naira e Marcio Abreu revelam este prazer. Descartes com lentes, como exercício teatral ou como espetáculo, fala sobre o olhar. As lentes mencionadas ao longo do texto (assim como no título e no gesto cenográfico que abre a cena) são os filtros do olhar. O olhar não se desnuda, mas se forma.

Foto de Descartes com Lentes em Curitiba. Atriz: Nadja Naira. Foto: Elenize Dezgeniski

Referência bibliográfica:

LEMINSKI, Paulo. Descartes com lentes (conto). Col. Buquinista, Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1993. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/6883212/Paulo-Leminski-Descartes-com-lentes

Marcio Abreu e Nadja Naira conversam com o público na sede do Espanca! depois da apresentação. Foto: Daniele Avila.

Vol. III, nº 27, novembro de 2010

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