Uma paisagem que afeta

Crítica da peça Louise Valentina

26 de janeiro de 2010 Críticas
Foto: Tomás Ribas

Um dos maiores desafios da cena contemporânea é o de expressar, por meio da fragmentação que quase a define, uma possibilidade de apreensão para o espectador que revele uma perspectiva na própria duração do tempo do espetáculo. Em termos de artes cênicas isso é importante, pois deixa o espectador em um estado de suspensão, em uma espécie de devir, esperando por traços de identificação daquela sensação primeira. E isto acontece no espetáculo Louise Valentina solo de Simone Spoladore, encenado por Felipe Vidal. A imagem inicial da atriz Simone Spoladore parece condensar a dramaturgia – uma mulher que se deixou asfixiar paulatinamente. A performance da atriz nessa cena, com movimentos lentos e delicados em contraste com sua posição e os elementos da cenografia, nos dá a ideia de que o que nos aflige culturalmente nem sempre é possível de ser nomeado. A referida imagem me remeteu à cena inicial do espetáculo Hey girl do diretor Romeo Castellucci, apresentado no Riocenacontemporânea em outubro de 2007. Esta relação enriquece as duas obras que materializam um certo estado imperceptível de soterramento do feminino. Esta primeira conjugação entre forma e conteúdo acompanha a encenação de Louise Valentina, orienta nossa percepção e, conseqüentemente, a minha análise. 

Neste sentido, a cena seguinte é um corte que, em princípio, parece ser aleatório. Acredito que este seja um problema reincidente quando se trata de um espetáculo de certo modo biográfico. É uma importante questão que aparece para a direção e para a dramaturgia composta pelo diretor e pela atriz. Como inserir informações a respeito da personagem de modo que não se assemelhe às formas mais tradicionais? Porém, na evolução da encenação este aspecto desaparece e a tensão que se forma torna esta cena uma espécie de show, um teatro de revista, talvez algo parecido com o que a própria Louise Brooks tenha realizado. Assim, o cunho biográfico fica inserido na forma tensa das sucessões dos fragmentos que configuram o espetáculo.

A atriz Simone Spoladore é sujeito e objeto da encenação no melhor sentido de uma ciência pós moderna que encara o conhecimento como algo imbricado na subjetividade do cientista. As noções pós modernas são afeitas à ideia e à experimentação de que o real é algo problematizado pela ficção. A identificação que podemos estabelecer entre Louise Valentina e as biografias, nesse caso, é que elas levantam pontos para a reflexão teórica entre o que é o real e o que é ficcional. Podemos dizer que a ilusão de totalidade que a biografia parece conferir à história de uma vida precisa transitar entre o detalhe e a abrangência, ou seja, a biografia depende de uma pesquisa e o detalhe é um elemento que comprova a arqueologia feita pelo biógrafo. Do modo como eu percebo, os vídeos da encenação aparecem como esses detalhes. Nos vídeos, Spoladore e Brooks se misturam conferidas pelo olhar referencial de Man Ray, Marcel Duchamp, Helena Ignez e de todas as referências listadas no programa da peça.

A performance de Simone Spoladore se constitui justamente na tensão referida acima. Perpassa por elementos certamente de construção pessoal da atriz e pelas referências. Esta conjugação entre sujeito e objetos – também elaborados por outros sujeitos – resulta em uma atuação que eu denominaria de real (no sentido de estar acontecendo no agora, no sentido de ser crível e afetiva) e de ficcional (no sentido de ser deliberadamente construída, portanto, artística). Spoladore se torna em cena uma paisagem para Brooks, um acontecimento para ambas.

Atriz: Simone Spoladore. Foto: Tomás Ribas

A compreensão da “história” por uma multiplicidade de visões nos remete, mesmo que numa espécie de leitura selvagem, a Gilles Deleuze em seu livro Crítica e clínica, que nos diz que a mais simples história do gênero literário diz respeito aos acontecimentos e à memória coletiva. É neste âmbito que os figurinos de Ronaldo Fraga e a cenografia de Aurora de Campos se dão a ver: como objetos constituídos sutilmente por uma memória da arte.

A cenografia é uma composição material da dramaturgia que opera na direção de criar possibilidades de sentido, pois cria um campo de contrastes e ambientes sobre a perspectiva do espaço em que se movimenta a Louise de Spoladore. Se por um lado, a cama que vemos em cena se assemelha a uma cama de enfermaria de hospital ou de ambulatório, esta é constituída por um metal delicado, parece ser feita de aço. Essa composição pousada no espaço branco, lacônico, estabelece um estranhamento e, ao mesmo tempo, um reconhecimento, em conjunto com a penteadeira repleta de objetos que seriam pessoais e próprios de estarem ali. Este jogo entre reconhecimento e estranhamento se completa quando a penteadeira se revela microfonada. Dramaturgicamente, este jogo também conforma o aparecimento das correspondências (cartas) na encenação.

A inserção de Guido Crepax provoca um corte tenso de status epistemológico na encenação que abre o espaço para outras linguagens e outras possibilidades de perspectivas sobre Brooks. Na cena, pela transparência (sombras), se misturam o teatro, o cinema com os curtas-metragem de Marcela Lordy e os quadrinhos propriamente ditos. Spoladore surge transfigurada – heroína, Valentina em atuação deliberadamente ficcionada – e suavemente a encenação incorpora esta operação. Não existe um retorno ao estatuto anterior a este corte, não existe nenhuma proposta de pureza estética. Brooks está simplesmente lá, existindo entregue às sobreposições e, portanto, às incompletudes também de Valentina e de Spoladore. E esse efeito funciona como uma espécie de afirmação do real numa sociedade que está constantemente sendo desdobrada em imagens e representações, ficções e simulacros.
Leia também a crítica de Humberto Giancristofaro e o texto de Felipe Vidal sobre o processo de criação dramatúrgica de Louise Valentina.

Outros textos críticos e informações sobre apresentações no blog da peça: http://louisevalentina.wordpress.com/

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