Sobre a teoria do eterno retorno aplicada à revolução no Caribe (Trilogia da Revolução, Vol. II)

25 de abril de 2016 Traduções e

Vol. IX, nº 67 abril de 2016 :: Baixar edição completa em PDF

De Santiago Sanguinetti

Tradução de Diego de Angeli

 

Nota do tradutor: Por se tratar de uma tradução realizada especificamente para publicação, optamos por não fazer nenhum tipo de adaptação ao contexto brasileiro, uma vez que os personagens e eventos citados na obra possibilitam, enquanto leitura, maior diálogo com a história uruguaia e com o estudo realizado pelo autor a partir da noção de revolução na América.

Sobre a teoria do eterno retorno aplicada à revolução no Caribe estreou na Sala Zavala Muniz do Teatro Solís, Montevidéu, em 2 de agosto de 2014. O elenco era integrado por:

 

CARLOS M.:  Guillermo Vilarrubí

ERNESTO G.: Alfonso Tort

LENIN V.: Gabriel Calderón

RAÚL C.: Rogelio Gracia

 

Cenário e iluminação: Sebastián Marreo y Laura Leifert

Figurino: Virginia Sosa

Som: Fernando Castro

Programação Visual: Federico Silva

Produção: Andrea Silva

Direção: Santiago Sanguinetti
Mas que, pois eram armados, seriam gente de razão.

Cristóvão Colombo, Diário de Viagem.

 

Uma situação que foi criada através do tempo pode se desfazer em outro tempo:

os negros do Haiti, entre outros, o tem provado completamente.

Simone de Beauvoir, O segundo sexo.

 

Capacetes azuis da ONU em missão de paz.

Uma base do exército.

Porto Príncipe, Haiti.

Uma sala desordenada, caótica, com algumas janelas para o exterior, uma porta e muitas caixas de papelão nas quais se lê a inscrição “Ajuda humanitária” empilhadas contra os cantos. CARLOS, com uma camiseta branca e seu capacete azul sobre a cabeça, está sozinho em cena. Canta “Navidad” de José Luis Perales. Para os espectadores. Soa patético. E se vê patético. De fundo começam a cair algumas bombas. Tudo estremece. CARLOS se assusta toda vez que soa uma bomba. ERNESTO entra em cena e o interrompe.

 

ERNESTO.    O que que você tá fazendo?

CARLOS.       Nada.

ERNESTO.    Tá cantando.

CARLOS.       Não.

ERNESTO.    Sim, tá cantando.

CARLOS.       Não, não tava cantando.

ERNESTO.    Te escutei, tava cantando.

CARLOS.       Não.

ERNESTO.   Já te dissemos que não pode cantar.

CARLOS.       Não tava cantando.

ERNESTO.   Tava cantando. “Navidad” de José Luis Perales, Carlos. Te escutei. Um karaokê no meio da guerra, Carlos. Como um puto coreano em um bar de putas. Tava cantando ao puto do Perales. Como um puto viado, Carlos. Perales, merda.

CARLOS.       Tímido. Bom, mas só um pouco.

ERNESTO.    O quê?

CARLOS.       Um pouquinho.

ERNESTO.    Não te escuto.

CARLOS.       Separando apenas o índice e o polegar. Assim, nada mais.

ERNESTO.    É por causa das bombas?

CARLOS não responde.

ERNESTO.    São as bombas, Carlos?

CARLOS assente com a cabeça.

ERNESTO.    Te dão medo as bombas?

CARLOS assente com a cabeça.

ERNESTO.    Bom, já passou. Vem, me dá um abraço.

Se abraçam.

ERNESTO.    Tá melhor agora?

Entra LENIN.

LENIN.           Não sejam viados, soldados.

ERNESTO.    O que que você tá dizendo?

LENIN.           Que não seja viado, soldado. É uma ordem.

ERNESTO.    Não seja imbecil, Lenin.

CARLOS.       Tímido. Não briguem. Por favor, não briguem.

ERNESTO.   Não vê que fica mal? Quer fazer ele chorar de novo? E depois se chora quem aguenta? Você aguenta ele? Não, aguento eu. Então, não faz ele chorar, caralho.

LENIN.           Escuta uma coisa, Ernesto. Quando o bando de negros de merda que tá lá fora jogando pedras entre nesta base de merda e de um em um façam fila pra meter no teu rabo até que suas tripas saiam pelo buraco do cu, e agarrem as tripas penduradas, e façam delas uma bucetinha e as violem também, e nos façam desfilar pela rua vestidos de rosa como umas bailarinas ao grito de “sou tua puta e olhem como fica bem esse tutú em mim”, aí vamos chorar todos juntos, até que se partam os olhos pelas lágrimas de sangue que vamos chorar de tanta dor no cu e pelo sêmen de negro que vamos ter dentro fazendo pressão para estourar nosso cérebro. Aí vamos chorar, mas só aí. Antes não. E o que chorar agora, abrimos a porta e jogamos ao bando. Para que sejam comidos por esses negros de merda. E se têm fome, que comecem por este pedaço de viado que o único que faz é cantar cançõezinhas afeminadas de senhorita burguesa. Foda-se o Haiti, caralho!

CARLOS fecha os olhos e começa a cantar “Aqui no mar” do filme A Pequena Sereia.

ERNESTO.    Calma, Lenin.

LENIN.           Faço o melhor que posso.

ERNESTO.    Como vamos?

LENIN.           Perdendo.

ERNESTO.    E os outros?

LENIN.           Não há comunicação.

ERNESTO.    Ainda tem comida, não?

LENIN.          Cada vez menos. E eles são muitos, Ernesto. E não somos marines, caralho. Tira o capacete azul. Que merda fazemos com esses capacetes de merda agora?

ERNESTO.    A ONU? Os outros acampamentos?

LENIN.           Os negros tomaram tudo.

ERNESTO.    Os haitianos.

LENIN.           Quê?

ERNESTO.    Não são “negros”, são “haitianos”.

LENIN.           Tá de sacanagem.

ERNESTO.    É de bom tom, Lenin.

LENIN.           Os negros querem nos matar, Ernesto.

ERNESTO.   Ao dizer “os negros” tá generalizando.

LENIN.           E?

ERNESTO.   Nem todos os negros querem nos matar. Alguns negros querem nos matar.

LENIN.           Quê, você gosta dos negros?

ERNESTO.   Quê? Não. Só digo que é melhor dizer “haitianos”. Todos os haitianos querem nos matar. Teoria de conjuntos, Lenin.

CARLOS.       Não quero morrer.

ERNESTO.    Ninguém vai morrer, Carlos.

LENIN.          Todos vamos morrer. Se entram, estamos mortos. Vão nos empalar. De um a um. E vão nos fazer zumbis. Esta gente inventou os zumbis, caralho.

CARLOS.       Não quero que me empalem.

ERNESTO.    Para que vão te empalar se depois vão te fazer zumbi?

LENIN.           Para te fazer zumbi antes tem que te matar.

ERNESTO     Com um pau no cu?

LENIN.           Qual é o problema?

ERNESTO.    Não me imagino um zumbi com um pau no cu.

LENIN.           Não?

ERNESTO.    Você sim?

LENIN.           Sei lá.

ERNESTO.    Um morto com um pau no cu não assusta ninguém.

CARLOS.       A mim assustaria.

ERNESTO.   Sério? Um tipo arrastando um pedaço de madeira entre as nádegas? Esteja morto assim e com uma perna alheia entre os dentes, eu me cago de tanto rir na cara.

LENIN.           Os zumbis não estão aí para assustar. Estão aí para outra cosa.

ERNESTO.    Para quê?

LENIN.           Não sei.

ERNESTO     Para que são feitos?

LENIN.           Quem?

ERNESTO.    Os zumbis de merda, Lenin.

LENIN.           Sei lá! Você acha que eu tenho cara de haitiano?

CARLOS.       Por que jogam pedras?

LENIN.           Os zumbis?

CARLOS.       Os negros.

ERNESTO.    Haitianos.

CARLOS.       Haitianos.

LENIN.           Para quebrar coisas.

CARLOS.       O que querem?

LENIN.           Entrar.

CARLOS.       Sim, já sei. Digo, para quê querem entrar.

LENIN.           Ah. Não sei. Suponho que querem que fôssemos.

ERNESTO.    Vamos.

LENIN.           Ahn?

ERNESTO.    Presente. “Querem que vamos embora”.

LENIN.           Você quer que eu te coma um braço.

ERNESTO.    Não há motivos para violentar a gramática dessa forma, Lenin.

LENIN.           Você entende que vamos morrer, não?

ERNESTO.    E o que você ganha falando mal?

LENIN.           Me deixa em paz, puta que te pariu!

CARLOS.       Me sinto Artigas.

Silêncio.

ERNESTO.    Explica.

CARLOS.       Artigas. Pelo lugar. É o mesmo. Estamos sitiados.

ERNESTO.    O de Artigas foi ao contrário.

CARLOS.       Em que sentido?

ERNESTO.    Ele sitiou Montevidéu. Ninguém o sitiou[1].

CARLOS.       Sério?

ERNESTO.    As aulas particulares não te serviram de nada, Carlos?

LENIN.           Aulas particulares?

CARLOS.       Não compreendo, Ernesto.

LENIN.           A ERNESTO. Você deu aulas particulares para ele?

CARLOS.       Eu gosto de aprender.

LENIN.           Vocês são um casal ou algo assim?

ERNESTO.    Não diga estupidezes, Lenin.

LENIN.           Assassinado por uns negros de merda com uma caterva de bichas ao lado. Puta que pariu.

ERNESTO.   Aqui ninguém vai morrer, está claro?

LENIN.           Nas revoluções as pessoas morrem, Ernesto.

ERNESTO.   Do que você tá falando?

LENIN.           Não se dá conta?

ERNESTO.   De quê?

LENIN.           Não pode ouvir?

ERNESTO.   Falam em francês, Lenin. Não entendo uma merda.

LENIN.           É o que gritam. Todo o tempo. “Revolução”, Ernesto. “Revolução”.

ERNESTO.   E?

LENIN.           Isso.

ERNESTO.   Quê?

LENIN.           São comunistas, Ernesto. E atrás deles um bando de zumbis bolcheviques com sotaque cubano e olhos puxados. Estão formando um exército de vermelhos do além, merda. Não se dá conta? Vão invadir a América Latina começando por aqui, por esta ilha de negros de merda. Esta vez é pra valer, puta que pariu. Um bando de mortos-vivos marxistas leninistas lambe saco de Mao. Se tem milhões de chineses vivos, mortos tem muitos mais, caralho. Os chineses zumbis vão invadir o mundo. Vão levantar de novo o muro de Berlim. E vão mandar nossos filhos viverem na Sibéria para comerem seus corpinhos.

ERNESTO.   Você não tem filhos.

LENIN.           Não quero que comam meus filhos!

ERNESTO.   Você não tem filhos, Lenin.

LENIN.           Dá no mesmo!

ERNESTO.   Calma. Os zumbis não existem.

LENIN.           Pelo bem de meus futuros filhos, espero que tenha razão.

CARLOS.      Sinto falta da minha mãe.

LENIN.           Não seja débil, soldado. Dos débeis eles comem o cu primeiro.

CARLOS.      Podia ter escolhido o Congo.

LENIN.           O Congo dá no mesmo. Continuam sendo negros que falam em francês.

ERNESTO.   Lenin.

LENIN.           Foda-se o Haiti.

CARLOS.      Afeganistão tem outro prestígio.

LENIN.           O Iraque. Por que não Iraque?

CARLOS.      Eu prefiro Iraque.

LENIN.           Não. Viemos de um país de medíocres. E os medíocres não vão ao Iraque.

CARLOS.      Uma merda Haiti, ahn?

LENIN.           Nem sequer é uma ilha inteira.

CARLOS.      Porque na outra metade está El Salvador.

ERNESTO.   República Dominicana.

CARLOS.      Puta que pariu.

ERNESTO.   Já vai guardar.

CARLOS.      É impossível, Ernesto. Eu confundo.

LENIN.           Onde deixei o megafone?

CARLOS.      Estava ao lado do mictório.

ERNESTO.   O que vai fazer?

LENIN.           Vou falar com eles.

ERNESTO.   De quê?

LENIN.           A CARLOS. Por que ao lado do mictório? As pessoas colocam isso na boca, por Deus.

ERNESTO.   Lenin.

LENIN.           Vou dizer o anacrônico que é fazer uma revolução nos tempos que correm. E que o Che não falava crioulo. E que Toussaint Louverture é um bom nome para um gato e nada mais. Tiveram sua oportunidade em mil oitocentos e quatro e fizeram merda. Aí você vê. O primeiro país em toda América a se independizar e fizeram merda. Por quê?

ERNESTO.   Por ser negros?

LENIN.           Não fui eu quem disse.

ERNESTO.   É um argumento estúpido.

LENIN.           É um mundo estúpido.

CARLOS.      Quem é Toussaint Louverture?

ERNESTO.   Você cantando, Carlos.

LENIN.           O problema desses tipos é geográfico. É o mal de ficar entre Venezuela e Cuba. Chega o Socialismo até por ondas magnéticas. Devem sentir. Algo no ar.

CARLOS.      Viemos ajudá-los.

LENIN.           Viemos fazer algo de dinheiro, não se engane.

CARLOS.      Este capacete representa meu país e eu o respeito.

LENIN.           O capacete é azul, não celeste, imbecil. Representa a ONU, não o Uruguai[2].

ERNESTO.   Têm motivos para nos odiar.

LENIN.           Não comece.

ERNESTO.   Só digo que não fomos de todo bons.

LENIN.           Não comece.

ERNESTO.   É verdade.

LENIN.          O da violação foi só uma vez. E foi um pouquinho. Nem sequer metemos até o fundo desse negro de merda.

CARLOS.      Do que você tá falando?

ERNESTO.   Sério, Carlos. Cantando.

LENIN.           Era um “juego”, caralho. Um jogo de merda. E que conste que eu nem sequer desfrutei.

ERNESTO.   Você tinha maracas e ficou pulando como uma líder de torcida, Lenin.

LENIN.           Me deixei levar, Ernesto!

CARLOS.      Você se violou um negro?

ERNESTO.   “Violar” não é um verbo pronominal, Carlos. Não se diz “se violou”, e sim “violou”. Você violou negros. Nós violamos negros. Vós violastes negros.

LENIN.           Eu não violei ninguém. O tipo queria comida e nós demos. Uma gelatina Royal de maçã que tava de lamber os beiços. Foi uma transação comercial. Nada mais.

ERNESTO.   O tipo resistia, Lenin.

LENIN.          Demos uma gelatina Royal de maçã, merda!

ERNESTO.   Tinha sangue por todos os lados.

LENIN.           Não tinha, não.

ERNESTO.   Tem fotos.

LENIN.           Fodam-se as fotos.

ERNESTO.   Você quem tirou, Lenin.

LENIN.           Queria ter uma lembrança do Haiti, caralho.

CARLOS.      Vão te foder. E vão te fazer zumbi. Primeiro vão te foder e depois vão te fazer zumbi. Nessa ordem.

LENIN.           O tipo deixou. Estávamos sozinhos e precisávamos de um pouco de carinho, nada mais. Só um pouco de carinho.

ERNESTO.   Era menor, Lenin.

LENIN.           Não me venha com tecnicismos, tá? Se senta no meio fio e os pés pisam o chão, pode comer, Ernesto. São pequenos delinquentes. Se podem roubar, também podem fazer amor, caralho.

CARLOS.      Você é pedófilo, Lenin.

LENIN.           Uma merda que eu sou.

CARLOS.      E é gay também.

LENIN.           Não sou, não. Os menores não têm sexo, Carlos. Se você come antes de que façam dezoito, não é viado. Depois sim. Eu não como homens, campeão.

ERNESTO.   E antes de que façam dezoito o que são?

LENIN.           Andróginos.

ERNESTO.   Tem pau, Lenin.

LENIN.           Calma!

CARLOS.      Lenin, não pode andar por aí violando gente.

LENIN.           Eu não violo gente, imbecil. Eu faço amor.

ERNESTO.   Se é pela força, é violação.

LENIN.           Esse é teu ponto de vista.

ERNESTO.   Não é um ponto de vista, é um delito.

LENIN.           Palavras, Ernesto. Palavras.

ERNESTO.   Não te entendo, Lenin.

LENIN.          O quê? Queria que eu comesse uma mulher?

CARLOS.      Você gosta de comer outras coisas?

LENIN.           Não seja idiota.

CARLOS.      Macacos, Lenin? Pássaros? Cachorrinhos?

LENIN.           Eu como mulheres, campeão. Mas não no Haiti.

CARLOS.      Por?

LENIN.           Porque têm AIDS.

CARLOS.      Todas?

LENIN.           Todas, Carlos.

CARLOS.      E os homens não?

LENIN.           Não, os homens se curam.

CARLOS.      Da AIDS?

LENIN.           Com certeza, Carlos.

CARLOS.      Como?

LENIN.           Sem ironia. Magia vodu, Carlos. Magia vodu.

CARLOS.      Ah.

ERNESTO.   De que caralho você tá falando?

LENIN.           Todo mundo sabe, Ernesto.

ERNESTO.   O quê?

LENIN.           Que se você tem AIDS e come uma menina virgem, fica curado.

Silêncio.

ERNESTO.    Que merda você tá dizendo?

LENIN.           Mas tem que ser muito menina, se não, não serve.

ERNESTO.    Você é um idiota, Lenin.

LENIN.                       E antes tem que fazer ela tomar um chá de tília, porque se ela tá muito nervosa se aperta toda e, claro, você se cura da AIDS, mas sua pica dói por uma semana.

ERNESTO.   Para, Lenin.

LENIN.           Pensei que sabiam.

ERNESTO.    AIDS não se cura, imbecil.

LENIN.           Vocês não falam com a gente?

CARLOS.       Que gente?

LENIN.           A que vive aqui, merda.

ERNESTO.    Somos proibidos de falar com essa gente.

LENIN.           Bom, se vamos começar com estupidezes…

CARLOS.       Quem te disse isso?

LENIN.           Quê?

CARLOS.       O das meninas virgens.

LENIN.                       Essa gente, os haitianos, os negros de merda pseudorrevolucionários que agora tão cercando a base.

CARLOS.      Como sabe que é verdade?

LENIN.           Porque eu mesmo me curei assim, Carlos.

Silêncio.

ERNESTO.    Você tem AIDS, pedaço de retardado?

CARLOS.       A LENIN. Não me toque.

ERNESTO.    A AIDS não se contagia tocando gente, Carlos. Já falamos disso.

CARLOS.       Tem certeza?

ERNESTO.   Não se lembra da aula sobre doenças venéreas, Carlos?

CARLOS.      Não.

ERNESTO.   A CARLOS. Promete que quando voltarmos ao Uruguai você vai fazer exames da cabeça.

LENIN.           Ei, eu não tenho AIDS. Já me curei.

ERNESTO.   Tem AIDS e fode gente, retardado?

CARLOS.      A LENIN. Se violou uma menina e a contagiou com AIDS, Lenin?

ERNESTO.    A CARLOS. Lembra, se diz “violou”, não “se violou”.

LENIN.           Já não tenho AIDS, merda.

ERNESTO.    Claro, claro, Lenin.

LENIN.           Me deixa em paz.

CARLOS.       Você é doente.

LENIN.           É verdade, me curei. Me sinto forte e vigoroso.

ERNESTO.    Você tá pálido, Lenin.

LENIN.           Cala a boca!

CARLOS.       Não posso acreditar que tenha AIDS.

LENIN.           Eu não tenho nada.

CARLOS.       Compartilhamos o banheiro, Lenin.

ERNESTO.    É AIDS, não hepatite, Carlos.

CARLOS.       Não é o mesmo?

ERNESTO.    Não.

LENIN.           A hepatite se cura comendo legumes e cocô de cachorro.

ERNESTO.    Tá de sacanagem.

LENIN.           De jeito nenhum.

ERNESTO.    Isso quem te disse?

LENIN.           Essa gente, merda!

ERNESTO.    Você é um idiota.

LENIN.           Sabedoria popular, Ernesto. A voz dos ancestrais.

CARLOS.       A voz dos ancestrais te disse para comer legumes e cocô de cachorro?

LENIN.           Não seja imbecil. Só se tiver hepatite.

CARLOS.       É nojento, Lenin.

LENIN.           Não é nojento. É homeopatia.

ERNESTO.    É medieval, Lenin.

LENIN.           É tradição. A tradição é boa, Ernesto.

ERNESTO.    É paleolítico. Você tá a um passo do macaco.

LENIN.           Todos estamos a um passo do macaco.

CARLOS.       De que macaco?

ERNESTO.    Você tá mais perto, Lenin. O macaco é como seu primo irmão.

LENIN.           O macaco é meu primo irmão?

CARLOS.       De que caralho vocês tão falando?

LENIN.           Apontando para fora. Eles são os macacos!

ERNESTO.   Eles tão fazendo a revolução. São etapas, Lenin. Agora tão superando a alienação, entende, Lenin? Abrem os olhos, pensam que o mundo é uma merda para todos, mas entram na Internet e veem coisas, veem gente com dinheiro, Lenin. Colocam “Haiti” no Google e aparece uma agência de viagens e turismo, aparece um par de fotos do Caribe, Lenin, e se inteiram que tem gente que faz turismo, entende? Turismo. E recreação. E ficam com raiva. Jogam pedras e quebram o primeiro que encontram. E o primeiro que encontram é este contingente das Nações Unidas. E matam aos que estão dentro, cortando suas cabeças como a de Maria Antonieta. Entende?

LENIN.           Macacos. Macacos que leem Marx e Engels. Macacos que leem O Capital. Mas macacos afinal.

CARLOS tapa os ouvidos e começa a cantar “Um mundo ideal”, do filme Aladdin.

ERNESTO.   A LENIN. Vê o que você faz? Você grita e ele fica autista.

LENIN.           A CARLOS. Vira homem.

ERNESTO.   Deixa ele cantar, faz bem pra ele.

LENIN.           O que fazemos?

ERNESTO.   Com Carlos?

LENIN.           Com a revolução, idiota.

ERNESTO.   Não sei.

LENIN.           E se damos a eles o que querem?

ERNESTO.   O quê? Vai empurrar um meio de produção goela abaixo?

LENIN.           Não seja imbecil.

ERNESTO.   Brincando. “Ei, aqui vai esta fábrica pra vocês! Socializem-na!”

LENIN.           Não tô falando disso, Ernesto.

ERNESTO.   É o que querem, Lenin.

LENIN.           Mas eu não sou um porco burguês, caralho. Se tivesse querido isso teria viajado a Moscou, não ao Haiti.

ERNESTO.   Não tem capacetes azuis em Moscou.

LENIN.           Foda-se! Cago pros capacetes azuis.

ERNESTO.   Nem pense nisso.

LENIN.           Cago pros capacetes azuis!

ERNESTO.   Você caga pra mim?

LENIN.           Cago.

ERNESTO.   Vai cagar pra mim!

LENIN.           Cago muito.

ERNESTO.   Ah, vai cagar pra mim!

LENIN.           Com diarréia, com sífilis eu cago!

ERNESTO.    A sífilis afeta o pinto não o intestino, imbecil.

CARLOS canta um pouco mais forte tapando os ouvidos.

ERNESTO.   Apontando a CARLOS. Olha o que você faz. Mas olha o que você faz.

LENIN.           Eu assim não posso, Ernesto.

ERNESTO.   A CARLOS. Calma, Carlos.

LENIN.           Eu sou um masculino sensível.

ERNESTO.   A LENIN. Não é necessário.

LENIN.           O quê?

ERNESTO.   A linguagem de formulário entre a gente, Lenin. Não é necessário.

LENIN.           Por que tá dizendo isso?

ERNESTO.   Você disse que era um masculino sensível.

LENIN.           É o que sou, Ernesto.

CARLOS abandona seu ensimesmamento. Silêncio.

CARLOS.       Tem cheiro. Sentem o cheiro?

ERNESTO.    É fumaça.

Os três se aproximam de alguma janela. Olham pra fora.

LENIN.           Aquilo é fogo?

ERNESTO.    Sim.

CARLOS.       Tão queimando algo.

LENIN.           O que é? Um pano?

CARLOS.       Parece uma bandeira.

ERNESTO.    Sim. É a bandeira dos Estados Unidos. Tão queimando.

LENIN.                       Mas que obviedade. Queimar bandeiras ianques. Um lugar comum. Gritando pela janela. Isso é um lugar comum, idiotas! Se faz em todos os lados! Ficou de moda nos anos sessenta! Se atualizem, medíocres! E agora o quê? Vão jogar pedras no McDonald’s? Assim não se começa uma revolução, mongolóides!

ERNESTO.   Calma, Lenin.

LENIN.           A ERNESTO. Quebram uma vidraça e acham que tomaram a Bastilha. Grita pela janela. Idiotas!

CARLOS.      Olhando pela janela. Destroçaram tudo.

ERNESTO.   Isso que você tá olhando não foram eles, foi o terremoto.

CARLOS.      Eles têm terremotos?

ERNESTO.   E furacões.

LENIN.           Que se fodam. Por negros e comunistas. Essa ilha é a Sodoma bíblica pós Marx. Gritando pela janela. E Deus vai fazer ela desaparecer!

CARLOS.      E que culpa tem El Salvador?

ERNESTO.   República Dominicana.

CARLOS.      Puta merda!

LENIN.           É tudo a mesma merda, Carlos.

CARLOS.       Olhando pela janela. Aquela é a bandeira da ONU?

ERNESTO.    Sim.

CARLOS.      Tão queimando ela também.

ERNESTO.   E agora botaram fogo na bandeira do Uruguai. Sim, na do Uruguai.

CARLOS.       E tão fazendo dedo pra gente.

LENIN.           Gritando pela janela. Continua sendo pano, mongóis!

CARLOS.      E isso o que é?

ERNESTO.   Estão empurrando alguém. Entre vários.

CARLOS.      É…?

ERNESTO.    Sim, é o General Bertolotti.

Silêncio.

CARLOS.       E tão queimando ele também.

Silêncio. CARLOS e LENIN se afastam da janela. Se olham. ERNESTO segue olhando para fora.

LENIN.           Temos que sair daqui.

CARLOS.       Eu gostava do General Bertolotti.

LENIN.           Tenho que ir ao banheiro.

CARLOS.       No meu não. Usa outro.

LENIN.           Não tem outro, Carlos.

CARLOS.       Então não vá, Lenin.

LENIN.           Como que não vou?

CARLOS.       Não, fica aqui.

LENIN.           Não vou ficar aqui.

CARLOS.       Sim, fica aqui com a gente, Lenin.

ERNESTO.   Gritando pela janela. Olá! Se é por causa da mais-valia, a gente não tem nada a ver, ahn? De fato, pessoalmente tô de acordo e a mim parece fantástico. Honestamente. E isso da luta de classes, maravilhoso, maravilhoso de verdade, sério. A autodeterminação dos povos livres me enche de orgulho, sério. E que o Socialismo real tenha vigência, opa, isso tá muito bem também, ahn? A imaginação ao poder, senhores! Vira a cabeça para CARLOS e LENIN. Como se diz “ditadura do proletariado” em francês?

LENIN.           Não tenho a menor ideia, Ernesto.

ERNESTO.    Você não fala com as pessoas?

LENIN.           Através de sinais. Gestos. Mímica. Domínio do corpo.

CARLOS.       Eu te entendi completamente, Ernesto.

ERNESTO.    Você fala português, Carlos.

CARLOS.       E eles não?

ERNESTO.    Não, eles falam francês.

CARLOS.       Como na França.

ERNESTO.    Sim, como na França, Carlos.

CARLOS.       São bem diferentes, não?

ERNESTO.    O português e o francês?

CARLOS assente com a cabeça.

ERNESTO.    Sim, são bem diferentes.

LENIN.           Tenho um dicionário. Na mala eu tenho um dicionário.

ERNESTO.    Pega, Lenin.

LENIN.           Não posso, tenho que ir ao banheiro.

ERNESTO.    Vá ao banheiro e pega o dicionário.

LENIN.           Bom, mas primeiro vou ao banheiro.

ERNESTO.    Primeiro vá ao banheiro e depois pega o dicionário.

LENIN.           E o megafone.

ERNESTO.    Vai mijar, caralho.

CARLOS.       Lenin.

LENIN.           O quê?

CARLOS.       Leva o walkie talkie.

LENIN.           Carlos, vou ao banheiro.

CARLOS.       Leva o walkie talkie e deixa ligado.

LENIN.           Não vou levar o walkie talkie.

CARLOS.       Deixa ligado em todo momento, Lenin.

LENIN.           Vou e venho, Carlos.

CARLOS.       É por sua vida, Lenin.

LENIN.           Não vai acontecer nada.

CARLOS.       Tá perigoso, Lenin.

LENIN.           Vou mijar, Carlos. Não posso mijar com o walkie talkie ligado.

CARLOS.       Então vou com você, Lenin.

LENIN.           Você fica aqui. Me dá o walkie talkie. Me dá a merda do walkie talkie.

CARLOS dá um dos walkie talkies a LENIN.

CARLOS.       Lenin.

LENIN.           O quê?

CARLOS.       Se você for e não voltar, eu vou sentir saudade.

LENIN o olha. Silêncio. Sai.

ERNESTO.    Lenin vai ficar bem, Carlos.

CARLOS.       Eu sinto que tá perigoso, Ernesto.

ERNESTO.   Enquanto estamos aqui vai ficar tudo bem. Só temos que esperar que…

CARLOS.       Interrompendo ERNESTO, acionando o walkie talkie. Tá bem, Lenin?

Silêncio.

LENIN.           Voz pelo walkie talkie de CARLOS. Tô bem, me deixa em paz.

CARLOS.       Falando pelo walkie talkie. Fica comigo em todo momento, Lenin.

LENIN.           Pelo walkie talkie. Tô entrando no banheiro.

CARLOS.       Falando pelo walkie talkie. Continua comigo, Lenin.

LENIN.           Pelo walkie talkie. Não vou mijar enquanto falo com você, Carlos.

CARLOS.       Falando pelo walkie talkie. Vê alguém? Me diz, vê alguém?

LENIN.           Pelo walkie talkie. Carlos, sério, não seja doente.

ERNESTO.    Deixa ele mijar, Carlos.

CARLOS.       Falando pelo walkie talkie. Podem ter hostis, Lenin.

LENIN.           Pelo walkie talkie. O negros não são hostis, são só negros, Carlos.

CARLOS.      Falando pelo walkie talkie. Podem ter zumbis também. Você disse que podiam ter zumbis.

LENIN.           Pelo walkie talkie. Não tem ninguém, Carlos. Não tem negros e não vejo nenhum dos nossos tampouco. Pausa. Já entrei no banheiro, Carlos. Tô abaixando a cueca. Agora vou apagar um pouco o walkie talkie para poder… Pausa. Mas puta merda, mas puta que pariu, eu fiz xixi fora, Carlos. Molhei essa merda de calça. Me mijei todo, Carlos. Por estar segurando esse puto walkie talkie de merda, me mijei todo. Seu filho da puta, Carlos. Me deixa mijar em paz, puta que pariu!

CARLOS.      Falando pelo walkie talkie. Continua comigo, Lenin.

ERNESTO.   Como que não viu nenhum dos nossos?

CARLOS.      Falando pelo walkie talkie. Como que não viu nenhum dos nossos, Lenin?

Silêncio.

CARLOS.      Falando pelo walkie talkie. Lenin. Silêncio. Lenin. Silêncio. Lenin. Silêncio. Lenin. Silêncio maior. Lenin. A ERNESTO. Perdemos o Lenin, Ernesto.

ERNESTO.   Não perdemos ninguém, Carlos.

CARLOS.      Foi comido pelos zumbis, Ernesto.

ERNESTO.   Não existem zumbis, Carlos. Não existem zumbis.

CARLOS.      Magia vodu. Negros com fome e magia vodu. A combinação é terrível, Ernesto.

LENIN.           Pelo walkie talkie. Aqui Lenin, bando de mongóis.

CARLOS.      Falando pelo walkie talkie. Você me assustou, Lenin. Cortou a comunicação e ficamos nervosos aqui.

LENIN.           Pelo walkie talkie. Tava sacudindo, Carlos. O que você quer? Que te dê detalhes?

ERNESTO.   Pegando o walkie talkie das mãos de CARLOS. Lenin, como que não tinha ninguém?

LENIN.           Pelo walkie talkie. Não tinha ninguém, Ernesto.

ERNESTO.   Falando pelo walkie talkie. E os outros?

LENIN.           Pelo walkie talkie. Se foram. Foram comidos. Não tenho ideia, Ernesto.

ERNESTO.    Falando pelo walkie talkie. Você verificou no térreo?

LENIN.           Pelo walkie talkie. Tô no térreo.

ERNESTO.    Falando pelo walkie talkie. Nada?

LENIN.                       Pelo walkie talkie. Nada. Pausa. Deixa eu ver, espera. Tem uns ruídos no fundo. Tá escuro aqui.

CARLOS.      A ERNESTO. Que não vá. Diz pra ele não ir. Gritando pelo walkie talkie. Não vá, Lenin. Que não vá, Lenin!

ERNESTO.    Sai de cima, Carlos.

LENIN.                       Pelo walkie talkie. Tem alguns capacetes jogados. São azuis. Pausa. Tem manchas de sangue, Ernesto.

ERNESTO.    Falando pelo walkie talkie. Volta, Lenin.

CARLOS.      Gritando pelo walkie talkie. Isso. Volta, Lenin. Fica com a gente todo momento.

ERNESTO.    Sai de cima, Carlos!

LENIN.                       Pelo walkie talkie. Esperem. Tem algo aqui. Pausa. Mas que merda…? Ei, não! Não! Grita. Auxílio! Grita desgarradoramente. Auxi…! Desliga.

Silêncio. CARLOS e ERNESTO ficam olhando o walkie talkie. Sem se mover. Silêncio. O walkie talkie volta a ligar. LENIN gritando no limite do suportável. Desliga. Silêncio. Volta a ligar. Mais gritos. Desliga. Silêncio. Volta a ligar. De novo um grito desgarrador, que devagar vai se transformando em uma risada estúpida. LENIN está rindo.

ERNESTO.   Falando pelo walkie talkie. Lenin, é você?

LENIN.           Rindo pelo walkie talkie. Era brincadeira, era brincadeira.

CARLOS.      Gritando pelo walkie talkie. Não é engraçado, Lenin.

LENIN.                       Rindo pelo walkie talkie. Como ficou o cuzinho, putos? Franziram o olho do cu ou não franziram o olho do cu? Feito uma passa de uva ficou o olho do cu, bichas.

LENIN segue rindo.

CARLOS.      Gritando pelo walkie talkie. Vai pra puta que pariu. Pensei que um touro tava te violando, Lenin.

ERNESTO.    Por que um touro?

CARLOS.       Não sei. Você o que pensou?

ERNESTO.    Que tavam matando ele.

CARLOS.      Ah. Bom, sim. Isso tem mais sentido. Mas, não sei, escutei como um touro de fundo. Que sorte que não foi um touro. Teria pegado AIDS.

ERNESTO.    Os touros não têm AIDS.

CARLOS.       Alguma vez você fodeu um touro?

ERNESTO.    Por que eu iria foder um touro?

CARLOS.       Não sei. Você perguntou.

ERNESTO.    Eu não perguntei nada.

CARLOS.       Não?

Ainda se escuta a risada de LENIN pelo walkie talkie.

ERNESTO.    Apontando o walkie talkie. Como se desliga essa merda, Carlos?

CARLOS.       Não sei, Ernesto.

ERNESTO.    Desliga essa merda!

CARLOS.       Não gosto de te ver assim, Ernesto.

ERNESTO.    É que não tem sentido.

CARLOS.       Compartilho, Ernesto.

ERNESTO.    Pra onde foram os outros?

CARLOS.       Os outros estão bem, Ernesto.

ERNESTO.    Você pode calar a boca?

CARLOS.       Calei, Ernesto.

ERNESTO.    Vem, me ajuda. Temos que trancar as portas.

CARLOS.       Eu sinto que não tenho forças, Ernesto.

ERNESTO.    Não enche, Carlos.

CARLOS.      Lenin abusou animicamente de mim. E quando abusam animicamente de mim eu me canso. É físico, Ernesto.

ERNESTO.    Me ajuda a procurar alguns paus.

CARLOS.       Emocionalmente, tô devastado, Ernesto.

ERNESTO.    Paus, Carlos. Paus.

CARLOS.       Sem se mover do lugar. Não tem paus, Ernesto. Não tem paus.

ERNESTO.    Olha nas caixas.

CARLOS.       Não tem caixas, Ernesto.

ERNESTO.    Tá de sacanagem comigo?

CARLOS.       Eu não tenho senso de humor, Ernesto.

ERNESTO.    Apontando as caixas. Tá cheio de caixas, Carlos!

CARLOS.       Eu não vejo, Ernesto.

Entra LENIN. Tem as calças molhadas. Traz um dicionário, um megafone e uma boneca inflável.

LENIN.           Rindo. Como se borraram, bando de bichas, ahn?

CARLOS.      Lenin, ajuda o Ernesto que tá nervoso. Disse que tem caixas.

ERNESTO.   Eu não tô nervoso! Pausa. Lenin, que merda você tá fazendo com uma boneca inflável?

LENIN.           O que que parece, campeão?

ERNESTO.   Você disse que ia trazer um dicionário.

LENIN.           Mostrando o dicionário. Tá aqui. E de quebra trouxe Isabel.

CARLOS.      Isabel?

LENIN.           Perdão. Apresentando. Carlos, Isabel. Isabel, Carlos.

CARLOS.      Apertando a mão à boneca. Encantado.

LENIN.           A CARLOS. Gostou, ahn?

CARLOS sorri tímido.

LENIN.           O que é meu é seu e vice-versa, Carlos.

ERNESTO.    Carlos, não te recomendo.

LENIN.           É terapêutico. Acalma os nervos e relaxa os ovos, Ernesto. Eu não posso pensar com os ovos cheios, entende? E proponho como uma atividade coletiva, campeão. Para fortalecer o grupo. Temos que estar unidos. Como os Romanov na Revolução Soviética.

ERNESTO.   Mataram todos os Romanov, Lenin.

LENIN.           Para de encher com os tecnicismos! E não mataram todos. Não. Anastasia se salvou. Tá no filme da Disney, merda. Assista Disney, caralho!

CARLOS.      Vão fazer um filme da Disney sobre a gente?

LENIN.           Claro que sim, Carlos. Claro que sim.

ERNESTO.   Me ajuda a procurar nas caixas, Lenin. Temos que proteger o lugar.

CARLOS.       Ernesto tá alucinando, Lenin.

ERNESTO.    Você cantando, Carlos.

CARLOS começa a cantar outra vez a canção “Um mundo ideal”. ERNESTO e LENIN revisam as caixas de papelão.

ERNESTO.    O que você viu lá embaixo, Lenin?

LENIN.                       Nada, não tem nada. Só se escutam os gritos que vêm de fora. Estamos sozinhos, Ernesto.

ERNESTO e LENIN começam a tirar objetos inverossímeis das caixas de “Ajuda humanitária”. Pranchas de surfe, preservativos, roupa íntima feminina, tacos de golfe, ursinhos de pelúcia, patas de rã, um quadro de escola.

ERNESTO.    E os outros? Viu pistas? Rastros?

LENIN.           Rastros?

ERNESTO.    Marcas. Sinais.

LENIN.           Como João e Maria você diz?

ERNESTO.    Sim, como João e Maria.

LENIN.                       Não seja idiota, Ernesto. Lá fora tem negros rebeldes, não uma casa de chocolate com uma velhinha filha da puta. Isso é real, caralho.

Continuam tirando objetos das caixas. Perucas, varas de pescar, pôsteres de Madonna, revistas pornográficas, marcadores para quadro branco, bebês de plástico.

ERNESTO.   E a água? A comida?

LENIN.           Tirando um livro e lendo o título. O que faz o “Manifesto Comunista” aqui? Apontando algo que ERNESTO acaba de tirar. Isso é vaselina?

ERNESTO.   Se concentra, Lenin.

LENIN.           Não vi se tinha comida.

ERNESTO.   Como que não viu?

LENIN.           Tava mijando, Ernesto. Fui e vim.

ERNESTO.    Você trouxe uma boneca inflável, imbecil.

LENIN.           Encontrei pelo caminho.

ERNESTO.    Você a inflou enquanto vinha pra cá, não?

LENIN.           Me deixa em paz!

CARLOS continua cantando. LENIN encontra um boneco em uma das caixas.

LENIN.           Ernesto, olha esse boneco. Se parece com o Carlos.

LENIN aperta o boneco no abdômen. CARLOS se queixa e se contrai. Deixa de cantar. Silêncio. LENIN dá um golpe com os dedos na cara do boneco. CARLOS acusa um golpe na cara e cai no chão. Silêncio. LENIN ri.

LENIN.           Não posso acreditar. Fizeram uma merda de boneca vodu do Carlos. Que babacas.

CARLOS.       Do que você tá falando?

LENIN.           Nada, Carlos.

LENIN dá um golpezinho na virilha do boneco. CARLOS cai no chão com as mãos nos testículos, queixando-se. LENIN ri mais forte.

ERNESTO.    Não brinque com isso, Lenin.

CARLOS.       No chão. Que merda vocês tão fazendo?

LENIN.           Rindo. Fiz uma batida de ovos.

ERNESTO.   Não seja estúpido, Lenin. Os tipos que tão lá fora querem nos matar. Se vamos perder, pelo menos que seja com altura.

LENIN.           Rindo. Fiz uma batida de ovos.

ERNESTO.    Apontando o boneco. Me dá isso, Lenin.

LENIN dá o boneco a ERNESTO. Continua rindo.

ERNESTO.   A LENIN. Tranca a porta com os tacos de golfe. E deixa de rir, doente.

LENIN tranca a porta enquanto ERNESTO olha o boneco que tem nas mãos.

CARLOS.       O que vocês tão fazendo comigo, Ernesto?

ERNESTO.    Magia, Carlos.

CARLOS.       A magia não existe.

ERNESTO.   Na América existe, Carlos. Na América existe tudo. Leia Garcia Márquez. Ou Cortázar. Ou Felisberto[3], Carlos. Ou Onetti. Leia Onetti.

CARLOS.       Não conheço.

ERNESTO.    Você vai gostar.

CARLOS.       Apontando o boneco. Que merda é essa?

ERNESTO.   Alguém te fez um boneco vodu, Carlos. Essa ilha é perigosa. Em uns países você pega malária, em outros bombardeiam seu escritório, e em outros te fazem um boneco vodu e cagam sua vida, Carlos. E aqui acontece esse último. São estilos.

CARLOS.      Pra que serve?

ERNESTO.   Esse boneco é como se fosse você, mas em miniatura e recheado de polyform, entende? E se eu aperto a barriguinha você vai sentir coisas horríveis, Carlos. Enquanto aperta o estômago do boneco. Viu?

CARLOS leva a mão ao estômago e vomita um extenso jato de sangue.

LENIN.          Para, Ernesto. Uma coisa é bater nos ovos, e outra é fazer vomitar as tripas.

ERNESTO.   Eu apenas encostei!

CARLOS.      Não continue, Ernesto.

LENIN.           A ERNESTO. Se não sabe como usar começa fazendo cosquinha, não provocando uma úlcera.

ERNESTO.   Não sei o que aconteceu. Eu não fiz nada.

LENIN.           Não é como jogar Wii, Ernesto.

CARLOS.       Não sejam doentes, me dá esse boneco.

LENIN.           Pegando o boneco de ERNESTO. Deixa comigo.

CARLOS.      Me dá o boneco.

LENIN faz cosquinhas ao boneco. CARLOS ri.

CARLOS.      Cara, sério, não enche, me dá o boneco.

LENIN continua fazendo cosquinhas ao boneco. CARLOS ri.

CARLOS.       Chega, Lenin. Ernesto, diz alguma coisa.

ERNESTO.    Lenin, não brinque mais com a merda do boneco.

CARLOS.       Lenin, você tem a calça molhada.

LENIN.           Porque você fez eu me mijar todo, Carlos.

CARLOS.       Avançando até LENIN. Me dá o boneco.

LENIN.           Levantando o boneco. Se der mais um passo te quebro o braço.

ERNESTO.    Ao Carlos não, Lenin.

CARLOS.       É sério, não brinca.

LENIN.           Não tô brincando.

CARLOS.       Eu gosto de você, Lenin.

LENIN quebra o braço do boneco. CARLOS grita e se contorce de dor.

ERNESTO.    O que que você tá fazendo? Mas o que que você tá fazendo, imbecil?

LENIN.           Arrependido. Foi sem querer!

ERNESTO.    Ele tava dizendo que gostava de você, retardado!

LENIN.           Entendi outra coisa!

ERNESTO.    O que você entendeu?

LENIN.           Entendi outra coisa! Pensei que era uma ameaça!

ERNESTO.    Você é um idiota, Lenin!

LENIN.           Me assustei, Carlos!

CARLOS continua no chão se contorcendo de dor.

ERNESTO.    Como que se assustou?

LENIN.           Veio pra cima de mim e não pensei, Ernesto!

ERNESTO.    Você quebrou o bracinho dele, Lenin!

LENIN.           E você fez ele vomitar sangue, Ernesto!

ERNESTO.    Foi sem querer!

LENIN.           O meu também, caralho! Me perdoa, Carlos!

CARLOS.       Dói. Dói.

ERNESTO.    Procura algo para atar o braço dele, Lenin.

LENIN.           É fratura exposta? Porque se é fratura exposta não quero olhar.

ERNESTO.    Carlos, é fratura exposta?

CARLOS.       Quê?

ERNESTO.    Se dá pra ver o osso, Carlos.

LENIN.           A CARLOS. Não me mostra que me impressiona.

CARLOS.       A ERNESTO. Não sei, não quero olhar.

ERNESTO.    Carlos, me fala se você tem um puto osso saindo do braço.

CARLOS, jogado no chão, olha o braço.

CARLOS.       Não, não tem osso.

ERNESTO.    Confirmado, Lenin. Não tem osso.

LENIN suspira.

ERNESTO.   Carlos, mantenha o braço apoiado. A LENIN. Traz uma tala, uma corda, qualquer coisa.

LENIN procura nas caixas.

LENIN.           Não tem talas. Procura. Aqui tem uma gravata do Garfield, serve?

ERNESTO.   O que for, Lenin.

LENIN joga uma gravata com desenhos do Garfield a ERNESTO.

ERNESTO.    Carlos, deixa eu atar o seu braço.

CARLOS.       De maneira nenhuma, Ernesto.

ERNESTO.    Me dá o braço.

CARLOS.       Dói.

ERNESTO.    Confia em mim.

CARLOS.       Eu confio em você.

ERNESTO.    Não vai doer.

CARLOS.       Promete?

ERNESTO.    Prometo.

LENIN.           Vai, não fiquem de viadagem.

ERNESTO ata o braço de CARLOS com a gravata. CARLOS está a ponto de chorar.

ERNESTO.    A CARLOS. Tá se sentindo melhor?

CARLOS.       Não.

LENIN.           Por favor, Ernesto. É uma gravata do Garfield não um frasco de morfina.

ERNESTO.    Tô fazendo o melhor que posso.

LENIN.           Todos estamos fazendo o melhor que podemos.

CARLOS.       Não briguem. Por favor não briguem.

Alguém força a porta de entrada tentando abri-la. Não pode. Está trancada com os tacos de golfe. Silêncio. Os três olham a porta. Alguém do lado de fora continua forçando. Batem. Silêncio.

ERNESTO.    A LENIN. Você não disse que não tinha ninguém?

LENIN.           Não tinha ninguém. Quando desci não tinha ninguém.

CARLOS.      São os negros.

ERNESTO.   Haitianos, Carlos.

CARLOS.      O que for. Vão nos foder.

Forçam a porta. Silêncio.

RAÚL.            De fora. Pessoal, abram. Não sejam estúpidos. Tô escutando vocês.

LENIN.           Quem é?

RAÚL.            De fora. Sou eu, Lenin. Raúl.

LENIN.           Que Raúl? Não conheço nenhum Raúl.

RAÚL.                        De fora. Como que não conhece nenhum Raúl?

LENIN.           Não conheço nenhum Raúl.

RAÚL.                        De fora. Você me conhece, tonto.

LENIN.           E você quem é?

RAÚL.                        De fora. Raúl.

ERNESTO.    Raúl da biblioteca?

RAÚL.                        De fora. Ernesto, é você?

ERNESTO.    Sim, sou eu. E você é…

RAÚL.                        De fora. Raúl.

CARLOS.       É um zumbi, Ernesto.

ERNESTO.    Não, é o Raúl.

CARLOS.       Não acredite nele.

LENIN.           Não tem voz de zumbi. Fala bem. Modula.

CARLOS.      Gritando na direção da porta. Testemos, Raúl, faz como um zumbi.

RAÚL.                        De fora. Quê?

ERNESTO.    Abre, Lenin.

LENIN.           Abre você, tá me achando com cara de Mary Poppins?

ERNESTO.    O que que tem a ver Mary Poppins?

LENIN.           Não sei, não abria portas?

RAÚL.                        De fora. Podem abrir, puta que pariu?

ERNESTO destranca a porta. Entra RAÚL, com seu capacete azul sobre a cabeça.

LENIN.           Ah, esse Raúl. Agora sim caiu a ficha.

RAÚL.                        Que merda vocês tão fazendo aqui?

CARLOS.       Toma o pulso dele, Ernesto. Se não tem, é um zumbi.

ERNESTO.    Calma, Carlos. Raúl não é um zumbi.

RAÚL.                        De que caralho tão falando?

LENIN.           Onde você tava, Raúl? Eu desci e não tinha ninguém.

RAÚL.                        Lá fora, procurando os camaradas. Acabo de entrar.

ERNESTO.    Você tava com o resto?

RAÚL.            No princípio sim. Depois não.

CARLOS.      Eu acho que tô tendo um choque pós-traumático, Raúl.

LENIN.           Calado, Carlos.

CARLOS canta para si.

ERNESTO.   Onde estão os outros, Raúl?

RAÚL.                        Não sei. Távamos jogando truco[4]. De repente escutamos ruídos, bombas, vidros quebrados. Bertolotti saiu gritando “che, no jodan, somos de la ONU!”. Me deu fome. Fui buscar uns snacks na cozinha.

ERNESTO.   Uns snacks?

RAÚL.            Batatinhas, amendoins, uns cheetos. Quando voltei não tinha ninguém. Saí pra procurar. Nada. Encontrei os rebeldes.

LENIN.           Você viu os rebeldes? Como são?

RAÚL.            Ao que você se refere?

LENIN.           Se parecem com o quê?

RAÚL.            Como “se parecem com o quê”, idiota? São pessoas.

LENIN.           Pessoas como?

RAÚL.            Pessoas com caras. Cabelo. Dois braços… a maioria.

LENIN.           Tem cartazes?

RAÚL.            Cartazes?

LENIN.           Distribuem panfletos?

RAÚL.            Não, não sei. Do que você tá falando?

LENIN.           Trato de identificar perfis, Raúl. Se tem cartazes e panfletos, pedem aumento de salário. Se tapam a cara, são anarquistas. Mas se mostram a cara, atiram pedras e balas e não têm cartazes, saíram pra matar. E pra mudar o mundo. E não importa mais merda nenhuma. E estamos no forno.

ERNESTO.   A RAÚL. Te disseram algo?

RAÚL.            Falam em francês. Não entendi uma merda. Isso é América Latina, por que falam em francês?

ERNESTO.   O francês é um idioma latino.

RAÚL.            Não seja burro, Ernesto.

CARLOS.      Se eu desmaiar não se preocupe, Raúl. Você continua contando.

LENIN.           A RAÚL. Te machucaram?

RAÚL.            Não. Mas tavam muito putos. Fazendo gestos próprios de uma guerra. Eu ofereci meus snacks como sinal de respeito. Tentei criar um vínculo afetivo. Eu te ofereço meus snacks e você me deixa viver.

ERNESTO.   Você ofereceu snacks, Raúl?

RAÚL.            Não tinha espelhinhos coloridos, o que você queria que eu fizesse?

ERNESTO.   Não tem sentido.

RAÚL.            Se funcionou há quinhentos anos, por que não iria funcionar agora, Ernesto?

LENIN.           Funcionou?

RAÚL.            Não. Começaram a correr atrás de mim. A jogar pedras. Comeram os snacks. Atiraram em mim.

LENIN.           Assim nos agradecem. Cuidamos das bundas deles e assim nos agradecem. Não se dão conta que estamos do seu lado? Gritando pela janela. Somos força de paz, filhos da puta!

CARLOS escuta LENIN gritar e deixa de cantar. Ninguém fala. Silêncio.

ERNESTO.   Faz quinhentos anos Colombo esteve aqui, no Haiti. Colocou outro nome, mas era aqui. Era um vinte e cinco de dezembro quando uma das caravelas encalhou. A Santa Maria. Desmontaram ela toda e fizeram um forte. E batizaram “Fuerte Navidad”. Foi aqui mesmo. A primeira construção dos espanhóis na América. Colombo deixou um grupo de marinheros para que procurassem ouro. E no ano seguinte, na segunda expedição, voltou a procurar por eles. E sabem o que encontrou?

CARLOS.      O que encontrou, Ernesto?

ERNESTO.   Nada. O Forte tinha sido queimado e os espanhóis, assassinados.

LENIN.           Onde você quer chegar?

ERNESTO.   Que foi aqui. A primeira rebelião foi aqui. A primeira rebelião na América foi aqui. E a primeira guerra de independência também, Lenin. Em mil oitocentos e quatro. Toussaint Louverture, Lenin. E agora se repete. Como um círculo, Lenin. Haiti é como América Latina, mas em miniatura. Como um prólogo do que vai vir depois, entende?

Silêncio.

LENIN.           Não.

Uma pedra lançada de fora quebra o vidro de uma janela. Os quatro se cobrem. Alguns vidros quebrados ficam no chão.

RAÚL.                        Mas que susto, puta que pariu!

LENIN.           O que foi?

ERNESTO.    Jogaram uma pedra.

CARLOS.      Não dava pra supor que isso ia acontecer no Caribe! O Caribe é caipirinha na praia, ver o entardecer de sunga e aplaudir o pôr do sol. O Caribe é coco! Quero meus cocos! Merda! O meu braço tá doendo.

LENIN.           Indo até a janela. Me dá o megafone, Ernesto.

ERNESTO.   Dando o megafone. O que você vai fazer, Lenin?

LENIN.           Vou aplicar psicologia invertida, Ernesto. Vou fazer eles acreditarem que pensamos como eles. Que somos hippies. Comunistas. Tudo isso. Que não somos uma ameaça. E quando perceberem que eles e nós somos um só, que estamos no mesmo bando, vão nos deixar em paz.

RAÚL.            Isso não é psicologia invertida.

LENIN.           A RAÚL. Você não se faça de vivo que acabou de chegar.

ERNESTO.    Como caralho vai fazer isso, Lenin?

LENIN.           A RAÚL. Você não tá me caindo bem, Raúl.

ERNESTO.   Lenin.

LENIN.           Cantando canções de protesto, Ernesto. Toma o megafone e canta na direção da janela. Qué culpa tiene el tomate de estar tranquilo en la mata? ¿Qué culpa tiene el tomate…?” Aos outros. Cantem, che. Os outros começam a cantar. Pela janela. “¿Qué culpa tiene el tomate de estar tranquilo en la mata, si viene un hijo de puta y lo mete en una lata y lo manda pa’ Caracas?” Aos outros. Mais forte! Pela janela. “¡Si viene un hijo de puta y lo mete en una lata y lo manda pa’ Caracas!” Aos outros. Cantem, putos! Todos, cantando muito forte. “¿Qué culpa tiene el cobre de estar tranquilo en la mina? ¿Qué culpa tiene el cobre de estar tranquilo en la mina, si viene un yanqui ladrón y lo mete en un vagón y lo manda a Nueva York? ¡Si viene un yanqui ladrón y lo mete en un vagón y lo manda a Nueva York[5]!” Pausa. Para fora. E? Estamos juntos ou o quê?

Chegam quatro ou cinco pedradas mais que rompem outros tantos vidros do cômodo.

LENIN.                       Se cobrindo. Mas que bando de filhos da puta! Gritando pela janela. Sou uruguaio! Sou neutro, merda!

CARLOS.      Não entendo. Que merda tem a ver Caracas com tudo isso?

RAÚL.            Apontando a boneca inflável. Isso é uma boneca inflável? Que merda vocês tavam fazendo aqui em cima?

LENIN.           Faço o quê, provo com “Gallo rojo, gallo negro[6]”?

ERNESTO.   Lenin.

LENIN.           Toma o megafone e canta. “A desalambrar, a desalambrar[7]. Que la tierra es mía, tuya y de aquel. De Pedro y María, de…”

ERNESTO.   Interrompendo. Para, Lenin! Não seja doente.

Pausa. Silêncio prolongado. Os quatro estão exaustos, derrotados.

RAÚL.                        Vão nos matar. Não tem volta. Somos só quatro e esta gente sobreviveu ao Apartheid, vocês se dão conta?

Silêncio.

CARLOS.      A RAÚL. Você é racista, não é, Raúl?

ERNESTO.   Raúl, dizer que essa gente sobreviveu ao Apartheid é como dizer que minha gente chegou à Lua. E minha gente não chegou à Lua.

CARLOS.      Ninguém chegou à Lua.

LENIN.           A ERNESTO. Quem é sua gente?

ERNESTO.   Minha família, meus amigos. Não sei, meu bairro. Por que tá perguntando?

CARLOS.       O da Lua foi uma montagem. Falso. Meu braço tá doendo.

LENIN.           Que bairro?

ERNESTO.    La Comercial[8].

LENIN.           Ah.

ERNESTO.    Por?

LENIN.           Não, nada. Queria saber.

CARLOS.       Acho que tô tendo uma embolia.

ERNESTO.   Essa gente aí de fora não é diferente da nossa gente, Raúl. Eles são mais minha gente que um norueguês, por exemplo.

LENIN.                       Tem água no meio, Ernesto. Se tem água no meio é diferente. Noruega, Haiti ou Alaska, dá no mesmo.

RAÚL.            Alaska não tem água no meio.

LENIN.           Ahn?

RAÚL.            Que Alaska não está separado pelo mar.

LENIN.           Então os que vivem no Alaska são mais minha gente que os haitianos. Pro Alaska se pode ir caminhando. Pro Haiti não. Pausa. Como são os que vivem no Alaska? Alaskacianos? Alaskaenses?

CARLOS.      Alaskos.

LENIN.           Alaskos.

RAÚL.            Você iria caminhando pro Alaska?

LENIN.           É uma maneira de dizer.

CARLOS.      Que merda viver no Alaska, não?

LENIN.           É melhor que Haiti.

ERNESTO.   Você já teve no Alaska?

LENIN.           Não. E você?

ERNESTO.   Não.

LENIN.           Então?

ERNESTO.   Então o quê?

LENIN.           Não sei, me perdi.

ERNESTO.   Não importa que não se possa chegar caminhando. O Haiti é mais como a gente do que o Alaska. Definitivamente.

LENIN.           Como a gente quem? Como você?

CARLOS.       Você é bolchevique, Ernesto?

ERNESTO.    Não é ideológico, é cultural.

LENIN.                       Cultural? O quê, do rio Bravo pra baixo usamos todos ponchos coloridos? É isso?

ERNESTO.   Não, estúpido. Tem uma história.

LENIN.           A história não te faz amigo dos estrangeiros, Ernesto.

ERNESTO.   Apontando pra fora. Em algum ponto sinto que gosto deles. Como se gosta de um primo de segundo grau que não se vê muito.

LENIN.           Síndrome de Estocolmo. Isso é o que você tem.

RAÚL.                        Eles comeram meus snacks, Ernesto.

ERNESTO.    Fodam-se seus snacks, Raúl.

RAÚL.                        Tô com fome, Ernesto!

ERNESTO.    Você aguenta.

RAÚL.                        Lembrem-se. O Apartheid.

LENIN.           A RAÚL. O que tem a ver seus snacks com o Apartheid?

RAÚL.            Não sei.

CARLOS.      Você tem AIDS, Lenin.

RAÚL.            Estamos falando de comida, Carlos. Não seja asqueroso.

ERNESTO.   Os snacks não são comida, Raúl.

CARLOS.      Por que caralho dizem “snacks”? Não é melhor “batatas fritas” ou “Cheetos”? O que eram, Raúl, batatas fritas ou Cheetos?

RAÚL.                        Não me lembro. Acho que amendoins.

LENIN.           Você come amendoim com esse calor?

RAÚL.                        Parem de falar de comida.

LENIN.           Você puxou o assunto.

RAÚL.                        Me dá mais fome.

CARLOS.       Acho que tô com gases.

LENIN.           Você não pode tá com o braço quebrado, Carlos.

CARLOS.       Não. Talvez seja uma torção.

RAÚL.                        Não vou poder resistir muito mais.

ERNESTO.    Lenin, pega o dicionário.

LENIN.           Pra quê?

ERNESTO.    Pra me traduzir.

LENIN pega o dicionário, que tinha ficado em algum canto. ERNESTO pega o megafone e vai até a janela.

ERNESTO.    Gritando pela janela. Hola[9]!

LENIN.           Procuro “ola”?

ERNESTO.    Sim.

LENIN.           Procurando no dicionário. Espera, espera.

ERNESTO.    Vai, Lenin. Tão me olhando.

LENIN.           Lendo. Tá aqui. “Vague”.

ERNESTO.    Tem certeza?

LENIN.           É o que diz aqui.

ERNESTO.    Pela janela. Vague!

RAÚL.                        “Vague” é ola. Sem agá.

LENIN.           Foi o que disse.

RAÚL.                        Mas ola de mar, onda, imbecil.

LENIN.           Ahn?

ERNESTO.    “Hola”, saudação, tem agá, Lenin.

LENIN.           Não, não tem.

ERNESTO.    Sim. Tem.

RAÚL.            Tem.

LENIN.           Você calado, Raúl.

ERNESTO.    Você me fez dizer “ola” tipo “onda”?

LENIN.           Foi o que você me disse!

ERNESTO.    Mas “hola” de saudação, não “ola” de praia, idiota!

CARLOS.       Quem gostaria de dar um mergulho na praia?

LENIN.                       Sem escutar a CARLOS.   Bom, espera. Procurando a palavra no dicionário. “Homosexual”… “Homónimo”… “Hombre”… “Holocausto”… “Holanda”… Tá aqui, “hola”. Pausa. “Salut”.

Silêncio.

ERNESTO.   Salut? Tá de sacanagem.

LENIN.           Não. Aqui diz. “Salut”.

CARLOS.      Sorrindo. “Salut”. Que idiotas.

ERNESTO.   Pela janela. Salut!

RAÚL.                        O “tê” final não se pronuncia.

ERNESTO.    Quê? Se fala “salú”?

RAÚL assente com a cabeça.

ERNESTO.   Pela janela. Salú! Salú, valentes haitianos! A LENIN. Procura “valiente”.

RAÚL.                        “Valiente” com “vê”, Lenin.

LENIN.                       Já sei, Raúl. Pausa. A RAÚL, fazendo v com os dedos. O “vê” é o das perninhas, não é?

RAÚL.                        Sim, é o das perninhas.

ERNESTO.    Anda, Lenin. Procura a merda da palavra.

LENIN.           Procurando. “Vampiresa”… “Valija”… Aqui, “valiente”. “Brave”.

ERNESTO.    Pela janela. Salú, braves haitians!

LENIN.           “Haitians”? Como sabe que se fala “haitians”?

ERNESTO.    Se entende por contexto, Lenin.

LENIN.           Ah.

CARLOS.       Para si, sorrindo. “Salut”. Que idiotas.

ERNESTO.    Procura “irmãos latino-americanos”, Lenin.

LENIN.           Você tá me matando, Ernesto.

RAÚL.                        Procurando entre as caixas. Alguém viu um livro que deixei aqui?

CARLOS.       O que você tá lendo, Raúl?

RAÚL.                        Clássicos.

LENIN.           Tá aqui. “Hermano”, “frère”.

ERNESTO.    Pronunciando mal. Frère?

                        LENIN continua procurando no dicionário.

RAÚL.                        A ERNESTO. O erre soa diferente. Como se tivesse fazendo um gargarejo. Mostra o som do erre francês.

CARLOS.      Terno. Ah, como um gatinho.

CARLOS, RAÚL e ERNESTO tratam de fazer o erre como se estivessem fazendo gargarejo. RAÚL os corrige sem falar, sempre fazendo gargarejo. CARLOS e ERNESTO tratam de fazer bem, sempre sem deixar de fazer gargarejos. RAÚL faz “não” com a cabeça e continua fazendo gargarejos. ERNESTO e CARLOS tratam de imitá-lo.

RAÚL.            A ERNESTO. Deixa eu ver, tenta agora. Frère.  

ERNESTO tenta dizer “frère” corretamente. Não pode.

ERNESTO.   Não consigo. É uma merda. Não posso.

LENIN.           Lendo o dicionário. “Latinoamericano” se diz “latinoaméricain”.

ERNESTO.   Pela janela, como pode. Braves haitians, frères latinoaméricains!

CARLOS.      Soa feio, Ernesto. É francês, tem que soar lindo.

ERNESTO.   Se afasta da janela. É uma merda de trava-línguas. Não posso.

LENIN.           Se fossem seus irmãos te entenderiam, Ernesto. Mas não são, então não fode.

ERNESTO.   Continuam sendo latino-americanos, Lenin.

LENIN.           Ser latino-americano é um slogan para vender discos de salsa, Ernesto. Não enche o saco.

CARLOS.      A RAÚL. Que clássicos você tá lendo, Raúl?

ERNESTO.   Não é pela salsa, Lenin.

RAÚL.            Kant, Marx, Nietzsche.

ERNESTO.   Tem uma história de exploração compartilhada, uma raíz lingüística e… Se interrompe. Pausa. Reage. A RAÚL. Você tá lendo Marx?

RAÚL.            Sim, por?

LENIN.           A RAÚL. Raúl, não pode ler Marx.

CARLOS.      Se te faz feliz, leia, Raúl.

LENIN.           Calado, Carlos.

CARLOS.      Ainda tá doendo o meu braço.

ERNESTO.   Raúl, esses livros você tem na biblioteca?

RAÚL.            Alguns sim, outros não.

ERNESTO.   Outros não?

RAÚL.            Alguns me aborreciam e eu doei.

LENIN.           A quem você doou, Raúl?

RAÚL.            Aos civis, a quem iria doar?

ERNESTO.   Que livros você doou, Raúl?

RAÚL.            Não sei. A Genealogia da moral, de Nietszche. O capital, de Marx. O programa militar da revolução proletária, de Lenin.

CARLOS.      Olha, Lenin, se chama como você.

ERNESTO.   O que mais, Raúl?

RAÚL.            O papel do trabalho na transformação do macaco em homem, de Engels. Algumas cópias do Manifesto Comunista, que trouxe várias.

LENIN.           Trouxe várias? Como que trouxe várias, retardado?

RAÚL.            Bom, não gritem comigo. Antes de vir para cá me deram uma caixa com livros pra doar. E eu não revisei.

ERNESTO.   Te deram?

LENIN.           Quem te deu esses livros, Raúl?

RAÚL.            Não sei. Uns tipos. Me disseram que eram estudantes. De faculdade. Que queriam fazer uma doação de livros. E me pareceu bem. Os livros são bons.

CARLOS.      Eu gosto dos livros.

LENIN.           Os livros são perigosos, Raúl. Por isso existe o fogo.

ERNESTO.   O fogo existe antes dos livros, Lenin.

LENIN.           E veio bem para queimar porcarias, Ernesto!

CARLOS.      Isso quer dizer que aquilo lá fora é culpa nossa?

ERNESTO.   São haitianos, não estúpidos, Carlos. Conhecem Marx desde antes de que chegássemos aqui. Viajamos ao Haiti não ao paleolítico, gente.

LENIN.           É culpa nossa. Abrimos as portas do marxismo leninismo para eles. Transformamos essa ilha em um criadouro de vermelhos. Literatura de guerrilha demos para eles. Carne crua aos canibais. Negros, zumbis, bruxos e ainda bolches. Foda-se o Haiti! E odeio o Caribe! Raúl, você se dá conta que agora esses tipos vão armar balsas para irem para Cuba? Se expondo aos tubarões para escapar do capitalismo. Balseiros em contra-corrente. Para criar o bairro haitiano de La Habana. Aí você tem, Cuba, Haiti e Nicarágua: o triângulo das Bermudas da subversão armada. Pausa. Gritando. Merda!

CARLOS.      Lenin, você se deu conta que se chama Lenin?

LENIN.           Carlos, cala a boca ou arranco seus dentes.

ERNESTO.   Quantos livros você doou, Raúl?

LENIN.           Não fala “doação”, isso é proselitismo. Pedagogia para ácratas. Um manual para revolucionários neófitos. E o que mais você deu de presente, Raúl? Um guia para construir armas caseiras? “Faça sua bomba molotov em cinco passos simples”?

RAÚL.            Não sei quantos. Não muitos. Alguns pareceram interessantes, e dei algumas aulas.

Silêncio.

LENIN.           Como?

CARLOS.      Você não fala francês, Raúl.

ERNESTO.   Aulas sobre o quê?

RAÚL.            Sobre Hegel.

ERNESTO.   Hegel?

CARLOS.      Por que não nos dá uma aula sobre Hegel, Raúl?

ERNESTO.   Hegel?

RAÚL.            Tinha gente que traduzia. Com isso, e alguns desenhosinhos, fomos nos entendendo.

ERNESTO.   Que livro de Hegel, Raúl?

RAÚL.            A fenomenologia do espírito.

CARLOS.      O título é prometedor, Raúl.

ERNESTO.   Você falou com eles da Fenomenologia do espírito?

RAÚL.            Algumas coisas. “A dialética do amo e do escravo”, e um pouco mais.

Silêncio.

LENIN.                       A RAÚL. Você é um imbecil.

ERNESTO.    Lenin, você leu Hegel?

LENIN.                       Não, mas esse título destila socialismo, Ernesto. “A dialética do amo e do escravo”. Você escuta e dá vontade de botar fogo em algo imediatamente. É um convite a viver em comuna. A deixar de tomar banho. E a plantar berinjelas no jardim dos fundos, Ernesto. A mim não me enganam.

RAÚL.            Hegel não fala sobre isso.

CARLOS.      E de que fala, Raúl?

LENIN.           De um bando de hippies de merda se alimentando a base de comida macrobiótica, disso fala. Foda-se a revolução!

RAÚL.            Espera. Pega o quadro de escola que ficou jogado por aí e o encosta contra algum canto. A ideia de Hegel é bastante sólida.

LENIN.           Apontando sua virilha. Essa é sólida.

ERNESTO.   Não seja básico, Lenin. Estamos tentando falar de Hegel aqui.

RAÚL.            Pegando alguns marcadores para quadro branco. É algo assim. Escutem. Escreve “Hegel” no quadro. Para Hegel a princípio está o sujeto. Desenha um sujeito no quadro. Um desenho infantil, um palitinho de fósforo com braços e pernas. Sozinho. Ilhado. E esse sujeito sai de si para ir ao mundo dos objetos movido pelo desejo. Desenha um objeto, como por exemplo uma maçã, e a une ao sujeito através de uma flecha sobre a qual escreve a palavra “Desejo”. Se encontra com um objeto, e o incorpora, ou seja, o anula. Tem fome e come, integra o alimento. Mas de repente se encontra, não com um objeto, senão com outro sujeito. Apaga a maçã e desenha outro sujeito, do que sai um balãozinho que diz “Oi!”. E quer ser reconhecido por esse novo sujeito, quer ser reconhecido como sujeito independente. Como?, anulando o outro, brigando. Do primeiro sujeito sai um balãozinho que diz “Grrrr”. É uma luta até a morte pelo reconhecimento da própria existência. Ser ou morrer. E não estamos falando de um delírio persecutório, me entendem? Isso é real.

CARLOS.      Hegel fala tudo isso?

RAÚL.            Digamos que sim, Carlos. Hegel é difícil. Pausa. Aponta o chão em frente ao quadro. Podem sentar. Os três se sentam no chão. Volta ao quadro. A essência da natureza humana se constrói a partir dessa luta. O que é que nos diferencia dos animais? Desenha um animal com quatro patas, algo irreconhecível. Que os animais tratam de sobreviver. Sempre. Fogem da morte. O homem, em troca, é o único animal estúpido que luta ainda a custa de perder a própria vida. Não lhe importa. Deixa tudo nessa luta, como um imbecil, como se a vida não valesse nada. Enquanto desenha “Vou te matar e não me importa”. É um “vou te matar e não me importa”. E se não ganho é o mesmo que estar morto, é o nada, plim. Quando termina todo esse desastre? Quando um dos dois sujeitos se rende, se acovarda, se caga. Quer conservar a vida, ergo, se comporta como um puto animal. Apaga o balãozinho do segundo sujeito e escreve outro que diz “Me rendo, cara”. “Me rendo, cara”. Volta ao primeiro desenho. O vencedor, essa espécie de maníaco depressivo com pulsões assassinas, se ergue como amo, venceu seu instinto de conservação e está pronto para seguir pisoteando gente como um segurança de boate, com seus amiguinhos, todos juntos como um bando de dementes paranóicos que cagam pra vida, e não tem nenhum problema em te meter a porrada na primeira oportunidade, abandonados à orgia dos prazeres, enquanto o escravo mantém o contato com o mundo através de seu trabalho. Desenha uma foice em uma das mãos do segundo sujeito e um martelo na outra. Enquanto um trabalha, o outro descansa. Do primeiro balãozinho sai “Zzzzzzzz”. Isso fica lindo quando a força bruta é substituída pelo capital. Desenha um signo de pesos[10] no primeiro sujeito, uma cartola em sua cabeça, um cigarro na boca e um bastão em sua mão. Porque o capital não é outra coisa que um guarda-costas metafórico que cuida do cu dos ricos que ficaram mongolóides e não têm valor nem para empurrar uma velhinha na via pública porque caminha devagar. E já está o prato servido para que o filho da puta do Marx venha falar de proletários e burgueses. Escreve “Marx” no quadro, junto a “Hegel”. De “Marx” sai uma flecha até o amo, que imediatamente é tachado com uma cruz. Escravos ao largo da história, esperando o momento justo para despertar e superar essa oposição dialética e se converter em amos de seu próprio destino através da luta armada como único caminho, como queria Lenin. Escreve “Lenin” ao lado de “Marx”. Sem sentir piedade de ninguém nem compaixão ante nenhum, sem sentir misericórdia, que não é outra coisa que uma invenção católica para juntar uma família que se odeia e comer frutas secas no inverno. E eles, esses haitianos pisoteados durante séculos, o lixo do pior restaurante de comida rápida no subúrbio mais longe do mercado mundial, se veem prontamente matando gente e se perguntam, “compaixão?, por quem?, não, a compaixão é um sentimento inútil, é uma doença, é a estratégia dos débeis montando o espetáculo do infortúnio”. Porque agora a panqueca virou e somos nós os débeis. E choramos e pedimos de joelhos por favor que não nos matem. Mas eles sabem que tudo isso não é mais que uma atuação, puro teatro, uma performance maldita dirigida ao seu coração como um cartão de Natal com cachorrinhos paraplégicos. Um golpe baixo da frescura cristã. E não, não têm lástima nem compaixão com a gente. Isso a gente gostaria. Mas eles querem vingança. Para eles a compaixão é uma espécie de transtorno com manifestações hipocondríacas e nada mais, e não estão dispostos a sofrê-lo. E isso não digo eu, diz Nietzsche. Escreve “Nietzsche” ao lado de “Marx”, “Lenin” e “Hegel”. Aponta-os. E aqui os têm. Hegel, Marx, Lenin e Nietzsche, o Quarteto Fantástico da subversão política e moral. Apontando para fora. E o resultado está aí. A guerra, a revolta sediciosa, a justiça social. E nossa morte.

Silêncio prolongado.

LENIN.           Bom, temos que reconhecer que o raciocínio é convincente.

ERNESTO.   E você disse que falou disso com os civis.

RAÚL.            Fiz mal, Ernesto?

LENIN.           Me fez pensar, Raúl.

A luz se apaga no palco. Ficam no escuro. Apenas um brilho em alguma das janelas.

CARLOS.       O que aconteceu? O que foi?

ERNESTO.    Um apagão.

RAÚL.                        Cortaram a luz.

CARLOS.       Vão entrar? Não quero morrer.

LENIN.           Cara, Raúl, e como se acumula o capital?

ERNESTO.    Lenin, ajuda a procurar lanternas. Nas caixas tem que ter algo.

Os quatro começam a buscar lanternas nas caixas.

CARLOS.       Cheira a zumbi, Ernesto.

RAÚL.            Bom, Lenin, no princípio alguém colocou uma cerca num pedaço de terra e disse “isso é meu”.

ERNESTO.   Puta, acho que algo me mordeu.

CARLOS.      Um zumbi?

ERNESTO.   Não, Carlos. Na caixa, não sei. Uma coisa. Tinha pêlos.

RAÚL.            E depois colocou um cartaz proibitivo: “não entre”, “por favor, não pise na grama”, “cuidado com o cão”, ou algo assim. Tá entendendo, Lenin?

ERNESTO.   Toquei pêlos, Carlos. Puta que pariu.

CARLOS.      Uhh, que impressão.

RAÚL.            E o cara da cerca vai e têm filhos, e deixa tudo em herança, entende?

ERNESTO.   Que merda tem nessas caixas?

LENIN.           E o que mais, Raúl?

CARLOS.      Eu toquei algo pegajoso, Ernesto. Ou o que te mordeu, lambeu minha mão.

RAÚL.            E foi, não muito mais, Lenin. Vi, peguei e deixei pro meu filho. Pronto.

CARLOS encontra uma lanterna de festas, uma espécie de abóbora de Halloween com luz dentro, algo ridículo.

CARLOS.       Acendendo a lanterna. Olhem, aqui, encontrei.

RAÚL.            Apontando a lanterna. Que merda é essa?

CARLOS.      E eu sei lá? Se festeja Halloween no Haiti?

ERNESTO.   Tirando outra lanterna de uma caixa, algo estranho, um tubo de plástico fluorescente como o de “Guerra nas Estrelas”. Aqui tem outra. Cara, que merda trouxe essas porcarias?

RAÚL.            Movendo umas caixas. Eu vi uma caixa de ferramentas por aqui.

                                    RAÚL começa a procurar entre as caixas.

CARLOS.      Tenho medo, Ernesto. Me abraça?

ERNESTO.   Não.

CARLOS.      Eu tenho síndrome do intestino irritável.

ERNESTO.   Ahn?

CARLOS.      Nada, queria compartilhar.

ERNESTO vai até a janela e fica parado, olhando para fora.

LENIN.           Como tá seu braço, Carlos?

CARLOS.      Bem, acho que foi só uma torção.

LENIN.           Você gritou muito.

CARLOS.      Sim, fiquei nervoso.

RAÚL.                        Quieto, depois de mover uma caixa. Pode ser que existam guaxinins no Haiti?

ERNESTO.    Sem deixar de olhar para fora. Do que você tá falando, Raúl?

RAÚL.                        Parece que vi um guaxinim. Não sei, agora o perdi. Tá escuro.

LENIN.           Não tem guaxinins no Haiti, Raúl.

RAÚL.            Eu vi um guaxinim. Juro que vi um guaxinim. Se não tem guaxinins no Haiti, alguém trouxe um guaxinim nas caixas de ajuda humanitária.

CARLOS.      Pobre guaxinim.

ERNESTO.   Como sabe que era um guaxinim, Raúl?

RAÚL.            Tinha a marca em volta dos olhos. Essas que os guaxinins têm.

CARLOS.      Olheiras?

RAÚL.            Sim, algo assim.

LENIN.           Os guaxinins não têm olheiras.

RAÚL.            Têm sim.

LENIN.           Não têm.

CARLOS.      Têm sim, Lenin.

LENIN.           Tudo? Temos que discutir por tudo? Assim não aguento mais.

RAÚL.                        Abrindo uma das caixas. Tá aqui.

CARLOS.       Olha, Lenin, Raúl encontrou o guaxinim.

RAÚL.            O guaxinim não, Carlos. A caixa das ferramentas. Tira uma lanterna das que se coloca na cabeça, na testa. Tinha a lanterna aí. Coloca a lanterna.

ERNESTO.    Olhando para fora. Dá pra ver as estrelas.

Os outros três vão até a janela.

CARLOS.       Um guaxinim é como um rato, não?

LENIN.           Sim, Carlos. Como um rato.

CARLOS.       Mas mais simpático.

LENIN.           Sim, mais simpático.

CARLOS.      Lenin, você sabia que eu ainda tenho que tomar a vacina antitetânica?

LENIN.           Não.

CARLOS.       Agora sabe.

Silêncio. Os quatro olham para fora.

RAÚL.                        É precioso. Lá fora.

Silêncio prolongado.

ERNESTO.    Apaguem as lanternas.

Os quatro apagam as lanternas. Tudo fica escuro. Apenas um brilho. Silêncio. A escuridão se mantém durante toda a cena que segue.

LENIN.           Quantas estrelas.

CARLOS.       Olhem! O Cruzeiro do Sul!

ERNESTO.    Terno. Não, Carlos. Não.

Silêncio.

RAÚL.            Ei, olhem. Se foram. Os negros. Estavam aí fora e agora não estão. Olhem pra baixo, não tem ninguém.

LENIN.           Tem razão, Raúl.

CARLOS.      Pra onde foram?

ERNESTO.   Tão ali. Lá embaixo na rua. Tão vendo uma massa de gente que vai indo como que na direção da praia?

RAÚL.            Não “vai indo como que na direção da praia”. Vai pra praia.

CARLOS.      Vão dar um mergulho?

LENIN.           Tão levando algo. Num carrinho.

CARLOS.      E têm um carrinho!

RAÚL.            É… um canhão.

ERNESTO.   É um canhão velho. Muito velho.

CARLOS.      Olhem um cruzeiro! Lá no porto!

LENIN.           É verdade. É um cruzeiro. Um cruzeiro de luxo.

RAÚL.            Que merda faz um cruzeiro de luxo aqui?

CARLOS.      Devem estar passeando. É Caribe, não?

LENIN.                       O que diz aí do lado? Tem o nome desenhado. Como se chama? Marie… Marie algo.

ERNESTO.    Marie… Antoinette.

RAÚL.                        Colocaram “Maria Antonieta” no barco? Que desgraçados.

ERNESTO.   E vem de… Miami? Diz “Miami” aí?

RAÚL.            Tem bandera ianqui.

LENIN.           Mas não se dão conta que as bandeiras ianquis atraem bandos de sediciosos com tochas? A ERNESTO. É como ficar pelado e pretender que sua mãe não suba na ponta da minha pica e me faça assim com a língua para…

ERNESTO.   Interrompendo. Basta, Lenin.

RAÚL.            Tão desviando. Não vão à praia, vão ao porto.

ERNESTO.   Tão levando o canhão?

CARLOS.      Para que levam um canhão ao porto?

Silêncio.

RAÚL.            Tô vendo bem? Isso é um canhão da época da conquista?

LENIN.           Um canhão espanhol?

RAÚL.            Espanhol, francês. Da Europa era.

LENIN.           E funciona?

CARLOS.      Os do cruzeiro não se inteiraram que aqui tá a revolução? Temos que avisar. Gritando pela janela. Aqui tá a revolução!

ERNESTO.   Para, Carlos. Você gritou no meu ouvido.

CARLOS.      Perdão, Ernesto.

RAÚL.            Eles vêm passear no país mais pobre da América? Tão de sacanagem, são mórbidos. Isso é cruel. Gritando pela janela. Perturbados!

LENIN.           Parar no Haiti para esfregar um cruzeiro de luxo na cara desses mortos de fome. Obscenos é o que são.

RAÚL.            Isso. Gritando pela janela. Obscenos!

LENIN.           Gritando. Obscenos! Aos demais. Primeiro cólera, e agora exibicionistas com grana. Esses negros tão mijados pelos dinossauros.

ERNESTO.    Tão carregando o canhão.

LENIN.           Esse canhão funciona?

RAÚL.            O que tão colocando?

LENIN.           Bolas de futebol?

ERNESTO.   Não podem ser bolas de futebol.

CARLOS.      Vão bombardear. Vão bombardear o cruzeiro com um canhão da conquista. Corre, Lenin. Diz pra eles voltarem. Gritando pela janela. Voltem!

ERNESTO.   Para de gritar no meu ouvido, Carlos, puta que pariu!

LENIN.           Não temos que dizer nada para eles. Que sejam comidos, por filhos da puta que são. Vir pra cá pra fazer babar essa gente assim na cara. Gritando pela janela. Essa gente é pobre e tem AIDS! AIDS! Obscenos!

RAÚL.            Isso. Gritando pela janela. Exibicionistas!

LENIN.           Gritando pela janela. Leiam Hegel, merda!

ERNESTO.   Vão afundar o “Maria Antonieta”.

LENIN.           Que afundem.

CARLOS.      Pela janela. Morram, burgueses!

ERNESTO.   Sai de cima, Carlos, puta que pariu!

CARLOS.      Desculpa, me emocionei, Ernesto.

LENIN.           Olhem, vão disparar!

Silêncio.

RAÚL.            Não, pararam.

ERNESTO.   Bom, esse canhão tem quatrocentos anos. Acabaram de tirar do museu. Já é muito que tenham…

Uma detonação de canhão interrompe as palavras de ERNESTO. Silêncio.

LENIN.           Não, não eram bolas de futebol.

CARLOS.       Fizeram merda ao barco.

RAÚL.                        Deixaram um buraco justo ao lado do nome. Que simbólico.

CARLOS.       Não teríamos que ir ajudar?

ERNESTO.   Aos haitianos ou aos do cruzeiro?

Silêncio.

CARLOS.       Não sei.

LENIN.           Tá afundando.

RAÚL.                        Quantos são?

ERNESTO.   Quem?

RAÚL.            Os que tão no barco.

LENIN.           Não sei. Quinhentos?

CARLOS.      Nunca vi morrer tanta gente junta.

Soa outro estrondo de canhão. Silêncio.

CARLOS.      Não. Nunca.

Silêncio.

ERNESTO.   Sabem que em Miami também tem haitianos?

CARLOS.       As pessoas tão morrendo e você fala de Miami, Ernesto?

ERNESTO.   Não tô falando de Miami, tô falando do sistema.

LENIN.           Miami é o sistema?

RAÚL.            Tão se jogando do barco.

ERNESTO.   Tudo é o sistema.

RAÚL.            O cruzeiro tá afundando como o Titanic. Quinhentos ricos a menos no mundo. Os islenhos festejam.

ERNESTO.   Os fluxos migratórios, as leis do mercado. Que merda fazem os haitianos em Miami? Que merda faz alguém falando crioulo em Miami?

CARLOS.      Ernesto, você é anarquista?

Silêncio.

ERNESTO.   Miami e Haiti não devem ter sido muito diferentes em mil quatrocentos e noventa e dois. Palmeiras, terra, pasto. E agora, não. Não é o mesmo. E penso, que caralho aconteceu no meio? Nunca se perguntaram isso?

Soa outro estrondo de canhão.

RAÚL.                        Acendendo sua lanterna. Ernesto, eu não conheço Miami.

CARLOS.      Acendendo sua lanterna. E eu não sei de que merda você tá falando quando diz “crioulo”, Ernesto.

LENIN.           Olhando pela janela. O “Maria Antonieta” já não existe. Foi engolido pelo mar.

ERNESTO.   Acendendo sua lanterna. Para que exista Miami tem que existir Porto Príncipe. Para que um país seja lindo outro tem que ser uma merda. E melhor se é uma ilha, porque fica longe. Todas as ilhas ficam longe. E melhor ainda se nem sequer é uma ilha inteira, é um pedaço de ilha. E muito melhor se nesse pedaço de ilha se fala um idioma distinto ao dos países que estão perto. Haiti é o epicentro dos cagados pela vida. É a Nova Iorque dos pobres, entendem? Isso não é uma rebelião. É o sistema que cai em cima de nós. Para começar do zero. Como em uma terra utópica. Isso é América. E em América pode passar tudo. Começa com uma greta, e termina numa cratera. Como o do meteorito que extinguiu os dinossauros. E que caiu no Caribe! A América extinguiu os dinossauros!, não vai poder extinguir o capitalismo?!

Escuta-se outro estrondo de canhão.

ERNESTO.   E agora em que merda tão atirando se já afundaram o puto barco?

Silêncio.

RAÚL.                        Olhando pela janela. Em nós, Ernesto.

LENIN.           Olhando pela janela. Tão vindo para acá. Tão aproximando o canhão.

CARLOS.       Não pode ser.

LENIN.           Eles não sabem que nós sabemos que eles têm razão.

CARLOS.      Távamos gritando por eles. Éramos amigos!

RAÚL.            É pela luz. Apaguem. Apaguem as lanternas!

ERNESTO.   Não seja idiota, Raúl. Faz uma hora que tamos gritando estupidezes. Já sabem que estamos aqui.

LENIN.           Apontando um capacete azul. Temos que pintar os capacetes de vermelho. E desenhar uma estrela na frente, como a do Che. Ou uma foice e um martelo. Ou deixar logo de putaria e jogar óleo fervendo pela cabeça deles. Alguma coisa, merda!

ERNESTO.   Pensei que tinha começado a gostar deles, Lenin.

LENIN.           Que os babacas do cruzeiro me caiam mal não significa que esses negros de merda sejam meus amigos. Ninguém que quer te meter um pau no cu e te fazer zumbi é um amigo, Ernesto.

A lanterna de CARLOS deixa de funcionar.

CARLOS.      Minha lanterna apagou! Puta merda! Tapa os ouvidos e começa a cantar “Navidad” de José Luis Perales.

RAÚL.            Olhando pela janela. Tão quase aqui.

LENIN.           Olhando pela janela. Tão carregando o canhão. Gritando para fora. Não é necessário que nos matem! A gente já entendeu!

RAÚL.            Olhando pela janela. Tão apontando pra gente!

CARLOS canta mais forte, com os ouvidos tapados e fechando os olhos.

LENIN.           Pro chão! Pro chão!

Os quatro se jogam no chão, com as mãos cobrindo a cabeça esperando o impacto. Escuta-se um estrondo. CARLOS deixa de cantar. Silêncio. Nada.

CARLOS.       Estamos mortos?

ERNESTO.    Não, Carlos.

RAÚL.                        Erraram?

LENIN.           Se aproxima da janela e olha para o teto da base. Caiu em cima. No teto. Continua olhando para o teto da base. Ei, tão aí! Os outros! Tão aí no teto!

RAÚL.            Quem, Lenin?

LENIN.           Continua olhando para cima. Os nossos! A Companhia de Fuzileiros Mecanizada, a Companhia de Apoio ao Combate, a de Apoio Logístico, a Companhia de Fuzileiros Motorizada. Tão aí! Todos com os capacetizinhos azuis. Uruguai, porra!

ERNESTO.   Isso não é futebol, Lenin. É a guerra.

LENIN.           Olhando para o teto. Tão nos cumprimentando! Grita para o teto. Que fazem aí, filhos da puta?

CARLOS.      O que dizem?

LENIN.           Não escuto nada. Para o teto. Que não escuto nada! Joguem uma corda, viados!

CARLOS.      Nos salvamos? Vamos voltar para Montevidéu?

ERNESTO.   Nos mudamos para o teto, Carlos.

RAÚL.            Não chama de “teto”, chama de “superestrutura”. Assim vamos nos acostumando à linguagem marxista.

LENIN.           Olhando para baixo. Os negros continuam apontando pra nós. Vão disparar de novo. Para o teto, tentando escutar. Ahn? Um helicóptero? Para os demais. Acho que têm um helicóptero.

CARLOS.      Um helicóptero?

LENIN.           Sim. Fazendo um gesto estranho com os braços. Fazem assim com os braços. Acho que é um helicóptero.

CARLOS.      Sim, é um helicóptero ou um ataque de epilepsia, Lenin. Você me faz ter esperança e talvez aí em cima tenha gente que tá convulsionando e nada mais, Lenin.

LENIN.           Para o teto. Joguem uma corda!

RAÚL.            Tirando a lanterna da cabeça. Caralho, tá acabando a bateria.

LENIN.           Para o teto. Depressa, puta que pariu!

ERNESTO.   Não é mais fácil sair pela porta e subir a escada?

Silêncio.

LENIN.           Sim, você tem razão, Ernesto.

Os quatro vão para a porta. A luz acende de repente. Os quatro se detêm. Olham a luz.

CARLOS.       Pra que acenderam a luz?

LENIN.           Pra olhar nossa cara enquanto nos matam, esses sádicos.

RAÚL.                        Tão brincando com a gente como com ratos de laboratório.

LENIN.           Eles são os ratos de laboratório!

RAÚL.                        Temos que sair, temos que sair!

ERNESTO tenta abrir a porta. Está trancada.

ERNESTO.    Forçando. Não abre. Puta merda, não abre!

LENIN.           Você tentou direito?

ERNESTO.    Forçando. Tô tentando, Lenin! Não vê que tô tentando?!

RAÚL.                        Calma, Ernesto!

ERNESTO.    Eu não tô nervoso!

CARLOS.       Os negros tão aqui?

RAÚL.                        Alguém escutou alguma coisa? Como entraram?

CARLOS.      Com magia negra fazem o que querem. Talvez não tenham sido eles e a porta foi trancada por um fantasma.

RAÚL.            Um fantasma percorre a América: o fantasma do…

ERNESTO.   Tentando abrir a porta. Não enche com o Manifesto Comunista agora, Raúl.

LENIN.                       Filhos da puta! Nos trancaram! Não temos culpa de nada. Por que não colocam uma bomba do outro lado da porta e deixam de foder?

CARLOS começa a cantar outra vez. “Navidad”, de José Luis Perales. ERNESTO continua forçando a porta.

ERNESTO.    Não entendo. Pra que nos trancam?

RAÚL.            Pra nos pegar como a uma presa. Pra tirar nossa pele. Vão nos esfolar! Esses tipos vão nos esfolar!

CARLOS canta mais forte tapando os ouvidos e fechando os olhos.

LENIN.           A corda. Tem que pedir uma corda.

LENIN corre para a janela e olha para cima.

RAÚL.                        Não me façam subir pela corda. Eu tenho vertigem.

LENIN.                       Olhando para o teto. Joguem uma corda, viados! A RAÚL, apontando a boneca inflável. Raúl, me passa a boneca.

RAÚL.                        Não seja idiota, Lenin.

LENIN.           Me passa a boneca, não seja babaca!

ERNESTO.    Desistindo de abrir a porta. Não posso. É impossível.

RAÚL.                        Para de encher com a boneca, Lenin!

De cima jogam uma corda que fica pendurada fora da janela.

LENIN.           Aqui tá a corda! Quem vai primeiro?

Se sente outro estrondo de canhão. Os quatro se assustam e cobrem a cabeça. CARLOS deixa de cantar. As luzes do cômodo piscam.

RAÚL.                        Vai você, Lenin.

CARLOS.       Não vá, Lenin.

LENIN.                       Não vou ficar aqui esperando que me estourem o cu.

LENIN sai pela janela e se pendura na corda. Torpemente. Tenta subir.

LENIN.           Tá alto, merda! Para cima. Não soltem, viados!

ERNESTO.    Para, que te ajudamos, Lenin.

Os demais vão até a janela e tentam ajudar LENIN a continuar subindo. Não conseguem. É patético.        

LENIN.           Pendurado fora da janela, tentando subir. Não posso!

Outro estrondo de canhão. Alguns escombros caem sobre LENIN que fica pendurado.

CARLOS.       Entra, não seja idiota, Lenin!

LENIN.           Quero subir!

RAÚL.                        Entra, Lenin, vão te fazer merda!

LENIN.           Vejo o helicóptero!

ERNESTO.    Sai daí, Lenin!

Soa um novo estrondo. De cima caem mais escombros sobre LENIN.

LENIN.                       Puta que pariu! Tão atirando no teto! Me segurem, me segurem que essa passou perto, merda!

Os demais ajudan LENIN a entrar no cômodo. LENIN entra. Um novo estrondo de canhão. Mais escombros. Os quatro se cobrem.

RAÚL.                        Quantas balas têm?!

Silêncio. LENIN se aproxima da janela.

LENIN.           Olhando para o teto. Pegou no helicóptero.

CARLOS.       É grave?

Silêncio.

LENIN.           Olhando para o teto. Acabaram com ele.

RAÚL.                        Vem, Lenin. Já foi.

LENIN se afasta da janela. Silêncio.

LENIN.           Adoro vocês, companheiros.

Silêncio. Viram a cabeça e olham para a janela. A corda pendurada fora é cortada do alto. E cai. Veem-na cair longe. Sem se mover. Silêncio largo.

CARLOS.      Sem se mover. Ernesto, sobre o que você contou dos espanhóis, como se chamava o Forte?

Silêncio.

ERNESTO.    Sem se mover. “Navidad”, Carlos.

Silêncio.

CARLOS.       Sem se mover. Ah.

Silêncio prolongado.

CARLOS.       Sem se mover. E alguém se salvou?

ERNESTO olha para CARLOS. Soa um novo estrondo de canhão. As luzes piscam. Os quatro ficam olhando elas piscarem. Olham-se. Silêncio. Apagão.

 

Santiago Sanguinetti é ator, diretor, dramaturgo e professor uruguaio. Formado na Escuela Multidisciplinaria de Arte Dramático de Montevideo e no Instituto de Profesores Artigas com especialidade em Literatura. Recebeu o Premio Nacional de Literatura, Premio Onetti de la Intendencia de Montevideo, Premio Florencio de melhor Texto de Autor Nacional e o Premio Molière da Embaixada da França. Suas obras foram encenadas no Uruguai, Argentina, Brasil, Colômbia, México, Estados Unidos, Espanha, Inglaterra e França. Recentemente escreveu e dirigiu o projeto “Trilogia da Revolução”, composto pelas obras Argumento contra a existência de vida inteligente no Cone Sul (2013), Sobre a teoria do eterno retorno aplicada à revolução no Caribe (2014) e Breve apologia do caos por excesso de testosterona nas ruas de Manhattan (2014).

Tradução para o português de Diego de Angeli. Diego é mestrando em dramaturgia pela Universidad Nacional de las Artes (UNA- Buenos Aires). Formado em cinema pela PUC-Rio e em teatro pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), além de tradutor, é dramaturgo, roteirista, diretor, ator e professor. Esteve à frente da Pangeia cia.deteatro até 2014, período em que foi curador da programação do teatro da Sede das Cias, no Rio de Janeiro.

 

Notas:

[1] No marco do processo de independência hispano-americano do século XIX, José Gervasio Artigas (1764-1850) liderou o sítio a Montevidéu, cidade que se mantinha fiel à Espanha, depois de ter vencido na Batalla de Las Piedras em 1811.

[2] A camiseta da Seleção Uruguaia de Futebol é de cor celeste.

[3] Felisberto Hernández (1902 – 1964). Escritor e músico uruguaio.

[4] Jogo de cartas.

[5] “La hierba de los caminos”, de Chicho Sánchez Ferlosio

[6] “Gallo rojo, gallo negro”, de Chicho Sánchez Ferlosio

[7] “A desalambrar”, do cantautor uruguaio Daniel Viglietti.

[8] Bairro de Montevidéu perto do centro da cidade.

[9] “Hola” e “ola” são palavras homônimas em espanhol e correspondem, respectivamente, a “olá” e a “onda”, em português. Em francês, “ola” é “vague”.

[10] Pesos uruguaios, moeda do Uruguai.

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A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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