Sobre fundo verde

Crítica da peça Passagens

15 de outubro de 2008 Críticas
Atriz: Izadora Mosso Schetert. Foto: divulgação.

Em cartaz no Teatro do Jóquei, a peça Passagens, dirigida por Diego de Angelis, traz à cena o primeiro trabalho da Pangéia Cia. de Teatro, que durante um ano e meio realizou uma pesquisa inspirada em procedimentos cinematográficos. Sete atores se revezam na apresentação de diversos personagens. A dramaturgia do espetáculo não conta com uma fábula, mas com pequenos momentos, recortes de situações vividas por personagens cujas características são apenas sugeridas. O espetáculo é formado por quadros, de duração variada, que se dão a ver sobre um fundo verde – referência a uma técnica utilizada no cinema: os atores fazem as cenas sobre um fundo infinito, para que se acrescentem os efeitos especiais num segundo momento.

É possível assistir o espetáculo visualizando o que ele poderia ser: o fundo verde nos dá essa sugestão. Ao abordar um espetáculo de uma companhia cujo trabalho está ainda nos primeiros estágios, considero importante levar em consideração o contexto da realização. O espetáculo foi feito sem nenhum patrocínio, embora seja visível que a produção tenha custos. A proposta da pesquisa e as soluções encontradas pelo diretor demandam recursos que têm custos mais elevados que aqueles com os quais a produção, de algum modo, conseguiu arcar. Fica perceptível para o espectador que há uma distância entre a idéia dos artistas e a viabilidade do espetáculo.

De início, é possível perceber que o Teatro do Jóquei não oferece um bom palco para essa peça. Passagens demanda não apenas uma relação frontal com o espectador, mas todo o suporte ilusionista do palco italiano, algo que esse teatro não pode oferecer, mesmo com todas as adaptações que foram feitas. Um exemplo disso é a ausência de coxias, o que prejudica bastante as entradas e saídas dos elementos que compõem o cenário. Há apenas algumas tapadeiras que, sozinhas, não dão conta de criar um palco italiano. O Teatro do Jóquei, um dos poucos da cidade em que é possível utilizar uma configuração diferente para a localização da platéia, é constantemente adaptado para receber peças que não têm essa demanda, mas não conseguem se encaixar na programação dos teatros que seriam mais adequados à sua encenação ou não têm como pagar os teatros particulares. Também é possível ver que o grupo não teve tempo suficiente para ensaiar no espaço de apresentação, um problema constante nas produções cariocas.

O fundo verde é um dado interessante da cenografia, assinada por Márcia Breves e pela própria companhia. Como se trata de um elemento nada comum no teatro, ele estabelece uma relação com o olhar do espectador, uma espécie de negociação entre a sua materialidade gritante e a sugestividade que engendra. Sabemos que aquele fundo verde está ali para dar lugar à imaginação e à criatividade que as imagens colocadas em cena provocam. Mas, ao mesmo tempo, ele é só um fundo verde – finito, mas inquieto. As tapadeiras pretas, no entanto, parecem ir contra esse efeito, na medida em que se sobrepõem a uma parte do fundo verde.

Como acontece muitas vezes com as peças que se dividem em quadros, há uma irregularidade entre eles. Há também uma diversidade: alguns são mais líricos, outros mais cômicos; alguns bem curtos, outros talvez longos demais. Há poucos momentos em que os atores falam. Nesses casos, a utilização do microfone produz uma dissonância com os demais efeitos do espetáculo. Talvez esse elemento tenha sido explorado de modo um tanto excessivo por determinado setor do teatro carioca. Grande parte das produções consideradas alternativas ou que dialogam com a performance e outras mídias acabam por lançar mão do microfone, como se isso fosse uma espécie de protocolo do teatro contemporâneo. No caso desse espetáculo, o microfone entra em apenas alguns momentos, mas a forma de utilizá-lo parece não ter se encaixado bem com o trabalho dos atores.

Quanto à diversidade de propostas para os quadros, penso que essa opção colabora para que o espectador vá, ao longo da peça, se despindo de suas expectativas e preconceitos e para que ele esteja disponível para se surpreender com momentos radicalmente distintos, como os solos de Gabriela Carneiro da Cunha, que têm uma expressividade mais amadurecida e a cena da mulher do tempo oriental de Izadora Mosso Schettert, cuja comicidade surpreende pelo despojamento. Talvez seja possível dizer que a pesquisa do grupo, que transita entre a linguagem cinematográfica e o teatro, também passa por uma investigação das noções de teatralidade e expressão pessoal de cada um dos seus integrantes, o que pode desencadear algumas irregularidades no produto final. Com a continuidade que caracteriza os trabalhos de grupo, essa irregularidade tende a se resolver, especialmente com a afinação entre as propostas de cada ator e aquela do diretor.

De qualquer forma, Passagens traz algo que parece orientar a Pangéia Cia de Teatro nesse momento inicial: eles estão procurando investigar as questões que lhe dizem respeito diretamente. Provavelmente, seria menos trabalhoso se cada um estivesse tentando a sorte com algum grupo já formado, ou com um diretor já experiente, ou ainda se estivessem encenando um “grande texto”, uma peça já conhecida com uma poética já digerida. A proposta do grupo parece ser a de tentar encontrar o seu próprio teatro, o que é bastante complexo.

Vol. I, nº 8, outubro de 2008

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