Argumento contra a existência de vida inteligente no cone sul (Trilogia da Revolução, Vol. I)

De Santiago Sanguinetti. Tradução de Diego de Angeli.

27 de maio de 2015 Traduções

Vol. VIII nº64, maio de 2015

Aclaração prévia: as notas de fim se referem a aqueles elementos que adquirem sentido em virtude de sua proximidade temporal e geográfica com o momento e lugar da enunciação. É por esse motivo que necessitarão de adaptação em caso de eventuais encenações em outros lugares e em outras épocas.

Por se tratar de uma tradução realizada especificamente para publicação, optamos por não fazer nenhum tipo de adaptação ao contexto brasileiro, uma vez que os personagens e eventos citados na obra possibilitam, enquanto leitura, maior diálogo com a história uruguaia e com o estudo realizado pelo autor a partir da noção de revolução na América.

 

Prêmio Florêncio de Melhor Texto de Autor Nacional — Asociación de Críticos Teatrales del Uruguay, 2013.

Menção Especial no Prêmio Molière — Embaixada da França no Uruguai, 2012.

Texto ganhador da Convocatória Aberta a Espetáculos Teatrais do Teatro Solís para sua temporada de verão, no marco de Montevideo Capital Iberoamericana de la Cultura 2013.

Argumento contra a existência de vida inteligente no Cone Sul estreou na sala Zavala Muniz do Teatro Solís, Montevidéu, em 11 de janeiro de 2013. O elenco foi composto por:

MANUEL: Bruno Pereyra

SOFÍA: Josefina Trías

MATEO: Alejandro Gayvoronsky

ÉRICA: Carolina Faux

Cenografia e Iluminação: Sebastián Marrero y Laura Leifert

Figurino: Florencia Rivas

Programação Visual: Federico Silva

Produção: Andrea Silva

Direção: Santiago Sanguinetti

 

“Só queria ser parte de algo importante”: quantas vezes temos escutado essas frases na TV ou no cinema? O personagem diz, em comovedora atmosfera de arrependimento epilogal, como torpe justificação de todas as infâmias cometidas durante o ritual de ingresso a alguma comunidade utópica: tem colocado em risco a vida de familiares e amigos, tem arruinado a carreira de um militar de alto escalão, tem estropiado um par de carros, tem rompido com sua namorada, tem torturado civis no Iraque, tem se fotografado em episódios de abuso sexual de detidos ou prisioneiros, tem atirado em seus condiscípulos em um colégio, tem violado e incendiado aos filhos de seus vizinhos. Débeis advertências extemporâneas sobre violência e catástrofes, sobre o terrível de fugir das responsabilidades civis. Mas não é possível deter essa fuga, essa drenagem inercial dos corpos até o Grande Corpo. Pelo tanto, não é possível, nunca foi possível deter essa violenta catástrofe: essa violência é o motor da máquina comunitária. Catástrofe de uma cultura que socializa não por subjetivação, senão, muito mais brutalmente, por pertencimento”.

Sandino Núñez.

Disney War, 2011.

 

Personagens

Manuel, 26

Sofía, 25

Mateo, 27

Érica, 24

Lis, uma bebê em um carrinho

Gus, um bebê em um carrinho

Um apartamento. É inverno em Montevidéu.

03:17 am. Sala.

Um homem jovem, sentado em uma cadeira. MANUEL. De costas para o público. À sua esquerda, um carrinho de bebê. Olha a tela de um televisor. Imagens de algum documentário em preto e branco com soldados e tanques, cartazes estudantis, e bombas. Um documentário sobre algum país da América Latina nos anos setenta. De fundo, “Pa’l norte” de Calle 13. MANUEL olha sem se mover. Sem se mover ainda. De repente, só um pé. Engancha o carrinho e começa a balançá-lo. Sem mexer o resto do seu corpo. Segue assim um pouco. Um pouco mais. Agora levanta um braço e vemos sua mão. Tem um revólver. Coça a cabeça com ele. A música segue tocando. Na outra mão, um ursinho de pelúcia. Se levanta e atravessa a sala.

03:32 am. Quarto de MANUEL e SOFÍA.

MANUEL deita junto à SOFÍA. Abraça-a.

SOFÍA. Humm. Quê? Que foi?

MANUEL. Nada. Carinho.

SOFÍA. Me deixa dormir.

MANUEL. Bem.

Pausa larga.

SOFÍA.  Mas me abraça.

MANUEL a abraça. Passam o resto da noite abraçados.

09:28 am. Cozinha.

MANUEL e SOFÍA estão tomando o café da manhã. MANUEL encostado em alguma parede, com uma xícara de café na mão. SOFÍA sentada em algum banco. Os dois em silêncio.

MANUEL. Dor de cabeça.

SOFÍA. Ressaca?

MANUEL. Não sei. Escutou as notícias?

SOFÍA. Você sabe que eu não escuto as notícias .

MANUEL. O mundo tá acabando.

SOFÍA. Ah, sim?

MANUEL consente com a cabeça.

MANUEL. Os ianques colocaram veneno de escorpiões no cu dos pombos pra combater o terrorismo. Mas saiu do controle e quando eles cagam, você morre. Assim, estando a um quilômetro, você morre. Hoje eu saio na rua com máscara cirúrgica.

MANUEL coloca uma máscara cirúrgica que tinha escondido . SOFIA sorri.

SOFÍA. Funciona?

MANUEL simula dizer algo com sentido enquanto finge uma voz difusa pelo efeito da máscara.

SOFÍA. Mfff? Que é mfff?

Novamente MANUEL simula dizer algo com sentido enquanto finge a mesma voz difusa.

SOFÍA. Você pode tirar isso?

MANUEL tira. Vai até SOFIA e a abraça. A beija.

MANUEL. Hoje quero tomar até ver marcianos viados.

SOFÍA. Ontem você levantou. De noite.

MANUEL. Existirá marcianos viados?

SOFÍA. Era umas três ou algo assim.

MANUEL. Bem, E.T. era meio gay.

SOFÍA. Manuel.

MANUEL.Sim, levantei.

SOFÍA. Foi ao banheiro?

MANUEL.Sim, fui ao banheiro.

SOFÍA.Não foi ao banheiro.

MANUEL.Preciso tomar algo mais forte que esse café.

SOFÍA.São nove da manhã.

MANUEL. E meu peido leva três hora de atraso.

SOFÍA. Não foi ao banheiro.

MANUEL. Fui caminhar.

SOFÍA. Tenho que ir.

MANUEL. Todo mundo caminha.

SOFÍA.Podemos parar com tudo se quiser.

MANUEL. E perder os tibetanos batendo forte o gong? “Tá chegando o fim do mundo. Corram, viados”.

SOFÍA. Não acho que eles se inteirem.

MANUEL. Tava pensando no filme. O do fim do mundo. O que era muito ruim.

SOFÍA. Todas os filmes sobre o fim do mundo são ruins.

MANUEL. Mas nessa tinham tibetanos.

SOFÍA. Vou fazer (isso) por você.

MANUEL. Vai fazer porque pra você dá no mesmo.

SOFÍA. Levo a Lis.

MANUEL. E eu vou fazer pra acabar com tudo. E voltar a ser a gente mesmo. Uns moleques com liberdade e o mundo aos pés. Como quando a gente se deixava cagar pelos pombos.

SOFÍA. Nunca deixamos de ser a gente.

MANUEL. Sim, faz um par de dias. É outra tática dos ianques. Transformam sua alma pra combater o terrorismo. Fazem isso quando você tá cagando no vaso.

SOFÍA. Transformam sua alma.

MANUEL. Sim.

SOFÍA. E agora quem você é?

MANUEL. E.T.

SOFIA ri.

SOFÍA. Olá, E.T.

MANUEL. Olá.

SOFÍA. É um prazer. Quando era criança achava que você era de verdade.

MANUEL. O prazer é meu, espécie de terráqueo mais lindo que o resto.

SOFÍA. E.T. não fala assim.

MANUEL.Esteve estudando.

SOFÍA. Filosofia?

MANUEL. Em Humanas. E você, quem é?

SOFÍA. Eu?

MANUEL. Com certeza esses ianques de merda já te “switchearam” o espírito.

SOFÍA. Simone de Beauvoir.

MANUEL. Simone de Beauvoir tá morta, não vale.

SOFÍA. Quem disse que não vale?

MANUEL. Eu inventei o jogo e digo que não vale.

SOFÍA. Vai cagar.

MANUEL. Aí é quando os ianques transformam sua alma.

SOFÍA. Nos vemos daqui a pouco.

MANUEL. Quê? Todo mundo usa o vaso. A ideia é genial, tem que reconhecer.

SOFÍA. Te amo. Ainda que você seja estranho.

MANUEL. Uma noite. Nada mais. Essa. Outra vez crianças. Ir pra longe e não voltar. Ou voltar sendo outros. E mudar o mundo.

SOFÍA. Eu também tô nervosa.

MANUEL. Me dá um beijo.

SOFÍA.Não fode, já tá tarde.

MANUEL. E se eu morro hoje?

SOFÍA. Então vou lembrar suas últimas palavras: mffffff.

MANUEL. Não vai me dar um beijo?

SOFÍA. Não.

MANUEL. Pode acontecer de uma pomba cagar na tua cabeça. Nunca se sabe.

SOFÍA. Vou correr esse risco. E te deixar uma camisa limpa à mão.

MANUEL. Então não?

SOFÍA. Não. Fica tranquilo. Eu vou morrer primeiro.

MANUEL. Nós vamos morrer juntos. Cravejados pelas balas. Quando algo sair mal. Não?

09:31 am. Sala.

MATEO acorda. Se acomoda no sofá em que passou a noite.

MATEO. Vocês podem calar a boca? Não me deixam dormir.

SOFÍA. Não é sua casa. Não reclama.

MANUEL. E você, o que que tá fazendo aí? A SOFÍA. O que que ele faz aqui?

SOFÍA. Ontem, foi ficando. Não se lembra?

MANUEL. Não. Merda. A MATEO. O que que você deu pra gente?

SOFÍA. Tomamos um poco. Foi isso.

MANUEL. Me drogou.

MATEO. Só quero dormir um pouco mais, não fode.

MANUEL. Me drogou e me fez coisas.

MATEO. Não fala besteira.

MANUEL. Você se aproveitou de mim.

MATEO. Tendo ela ao lado?

MANUEL. Agora eu tenho que te pegar.

MATEO. Você e quantos mais?

MANUEL. Uhhh. Na minha casa não.

MATEO. Me deixa dormir.

MANUEL. Não muda de assunto.

SOFÍA. Vão fazer a Lis chorar.

MATEO. Essa bebê nunca chora. É um mutante.

MANUEL. Você tá a um passo de que eu te bote pra fora daqui com um chute no saco.

MATEO. Ouvi dizer que tem dejetos tóxicos aqui perto. Daqui a uns anos vai crescer um olho na bunda. Ou vai sair uma mão da garganta. Aconteceu com uma amiga uma vez. Foi viver com o Wolverine.

SOFÍA. De onde você tira essas merdas?

MATEO. Histórias que conto pro meu filho dormir.

SOFÍA.  Você é o pior pai do mundo, sabia?

MATEO.  Sim, já sei.

MANUEL.E seu filho?

MATEO.Por aí. Nem ideia. Com a mãe. Enfim. Pra mim não tem café?

SOFÍA / MANUEL.Não.

MATEO: Alguma coisa pra dor de cabeça?

SOFÍA. Ontem te ouvi falar dormindo. Do meu quarto.

MANUEL. A SOFÍA. Você não dorme de noite que fica escutando todo mundo?

SOFÍA. Me acostumei. Por causa da Lis.

MATEO. Sonhei algo estranho.

MANUEL. A MATEO. Eu não disse que ia te pegar?

MATEO. E agora por quê?

SOFÍA. Chega.

MATEO. No sonho…

MANUEL. Eu tava? Se não tava, não me importa.

MATEO. Não, Sofía tava.

MANUEL. Você quer que eu te pegue de verdade?

SOFÍA. O que você sonhou?

MATEO. Tava numa mesa de operações. E tinha um filho.

MANUEL. Você?

MATEO. Sim, eu. Do meio das minhas pernas saía um menino. Ou eu paria pela bunda, não me lembro muito bem. Mas não doía. Nada.

MANUEL. Cagar uma cria pela bunda te parece estranho?

MATEO. Pra você não?

MANUEL. Já sonhei coisas piores.

SOFÍA. Deixa ele terminar.

MANUEL.  A SOFÍA. Você não tinha que ir?

SOFÍA. Mostrando a palma da mão a MANUEL. Fala com a minha mão.

MATEO. Bom, de repente, o menino começa a correr até mim falando em russo, gritando “te amo, viado”. E vejo que tem barba, bigode e muito, muito pêlo nas axilas, e uma metralhadora UZI em cada mão. E tá me metendo bala. Mas eu não morro. E começo a disparar com um fuzil FMK-3 como se fosse o mesmíssimo Rambo matando libaneses. E aí me dou conta de que tô no deserto. E que a Palestina é um estado independente. Não me pergunte por quê mas eu sabia que a Palestina era um estado independente. E a Palestina tava cheia de iraquianos, ou de iranianos com Q, que é mais ou menos o mesmo. E o menino que acabo de parir começa a sangrar de tanta bala que a gente vai metendo nele, eu, os libaneses, Mariano Rajoy[1] e Angela Merkel[2]. Todos com fuzis, ao grito de “Chupem, idiotas”. E lança-granadas. E toma-lhe bomba o pobre menino. E aí Ronald McDonald’s, com a cara de Margaret Thatcher, tenta tapar os buracos das balas com hambúrgueres triple bacon. E quando olho pro céu vejo cair bombas de fragmentação, que explodem cuspindo fogo, sêmen, matrioscas e Fanta Morango made in Brazil, que queima como o ácido. E enquanto todos nos derretemos feito cera quente entre o óleo fervendo e o napalm, o pobre menino se desfaz em choro, exigindo por alto-falante às massas operárias, como uma espécie de Mayakovski do novo mundo, que não entreguem a bunda até conseguir a reforma agrária, a supressão do segredo bancário e a abolição do direito de herança, entre outras coisas. E ao fundo, Marx, assoviando a “Internacional” que soava um pouco à cúmbia, com a banda presidencial celeste e branca, escapando pela ponta. E senti um grito. E aí acordei. E depois voltei a dormir.

MANUEL. Não tem sentido.

MATEO. Os sonhos não tem sentido. Aí tá a graça.

SOFÍA. A MANUEL. Fez de novo.

MATEO. O quê?

MANUEL. Você continua sonhando com políticos europeus, caricaturas ianques e poetas russos.

SOFÍA. Nada de América Latina.

MANUEL. Se deu conta?

MATEO. A Fanta Morango era made in Brazil. É um avanço, não?

SOFÍA. Não, é uma estupidez.

MANUEL. Te alienaram os sonhos.

SOFÍA. Cagou.

MATEO. Me deixem em paz. Tô dormindo.

SOFÍA. Tô indo. Levo a Lis.

09:34. Quarto de Lis.

SOFÍA acomoda algo no carrinho de Lis. Olha-a.

SOFÍA. Tá estranha.

09:34 am. Sala.

MATEO. É que ontem me senti sozinho e a toquei um pouco. Se você sentir que ela tá grudenta, já sabe.

MANUEL bate em MATEO. Finalmente.

MATEO. Era uma piada.

MANUEL. Você é um doente.

MATEO. Você também.

MANUEL. Não me importa.

09:34 am. Quarto de Lis.

SOFÍA. Tem os olhos mais velhos. Algo no olhar. Como se quisesse dizer algo.

Leva-a no carrinho até a sala.

SOFÍA. Não veem nada esquisito?

Os três a olham. Em silêncio. Pausa longa.

MANUEL. Tá chorando?

SOFÍA. Não.

MATEO. Parece que sim.

SOFÍA. Não, digo que não.

MATEO. É o ursinho.

MANUEL. Não se mete com o Mefistófeles.

SOFÍA. Enfim. Deve ser eu. Nos vemos depois.

Beija MANUEL.

SOFÍA. Falamos quando voltar.

SOFÍA sai.

MANUEL. Você, levanta daí. Temos que organizar o de hoje.

MATEO. Me faz um café?

MANUEL. Não.

MATEO põe música. “Cumbia de los aburridos” de Calle 13.

MATEO. Já falamos bastante.

MANUEL. Não é suficiente.

MATEO. Ninguém vai tá esperando. É fácil.

MANUEL. Onze e quinze, chegamos.

MATEO. E à mesma hora no Chile e na Argentina.

MANUEL. La Universidad de Buenos Aires.

MATEO. E La Universidad de Chile.

MANUEL. Bem, onze e quinze. E entramos.

MATEO. Sem problemas. Como entram todos.

MANUEL. Quero passar pela biblioteca.

MATEO. Pra quê?

MANUEL. Quero começar aí. E depois o hall de entrada.

MATEO. Daí ao primeiro piso.

MANUEL. Até o auditório. Sala Vaz Ferreira[3].

MATEO. E bang.

MANUEL. Tá bem?

MATEO. Não. Mas essa é a ideia, não?

MANUEL. Falta a chamada anônima. À imprensa.

MATEO. Isso a Eri faz.

MANUEL. Eri? Por que Eri?

MATEO. Eu contei pra ela.

MANUEL. Não ia contar.

MATEO. Me perguntou. O que queria que eu dissesse?

MANUEL. Podia mentir.

MATEO. Não gosto de mentir pras mulheres.

MANUEL. Toda a sua vida você mentiu pras mulheres.

MATEO. Mas agora eu tô tratando de mudar.

MANUEL. Você?

MATEO. Bom, escapou.

MANUEL. Como escapou?

MATEO. Sim, escapou.

MANUEL. Não íamos contar a ninguém.

MATEO. Você contou a Sofi.

MANUEL. É diferente.

MATEO. Chupou minha orelha, o que que eu ia fazer?

MANUEL. Você contou pra alguém mais?

MATEO. Não, só pra ela.

MANUEL. Bem. Tá bem.

MATEO. E pro meu irmão.

MANUEL. Tá de sacanagem?

MATEO. Por quê? Vai ser bom.

MANUEL. Vão contar aos outros.

MATEO. Não vão contar a ninguém.

MANUEL. Certeza que os milicos já se inteiraram. Devem tá aí fora.

MATEO. Lá fora tem gente estúpida. E gente estúpida não se dá conta das coisas.

MANUEL. Preciso pensar.

MATEO. Não tem nada que pensar. Pensar faz mal. Provoca câncer.

MANUEL. Pode desligar essa música?

MATEO. Ei, calma. Não é música. É um manifesto.

MANUEL. Tem que parar e pensar.

MATEO. Vão vir.

MANUEL. Quem?

MATEO. Eri e meu irmão.

MANUEL. Pra quê?

MATEO. Como “pra quê”?

MANUEL. Você quer que eu te meta umas porradas?

MATEO. Chegam daqui a pouco.

MANUEL. E depois o quê?

MATEO. Vamos falar. Organizar tudo. Carregar as armas. E nos mandar.

Pausa.

MANUEL. Você e eu estudamos juntos.

MATEO. Ética um.

MANUEL. Achava que ia ser algo nosso.

MATEO. Moleques gritando. Alguns tiros.

MANUEL. Y que viva la revolución.

MATEO. Como dementes do primeiro mundo.

MANUEL. Tem algo em tudo isso que não me convence.

MATEO. Culpa?

MANUEL. Não.

MATEO. Que é?

MANUEL. Não sei.

MATEO. Dadaísmo e revolução. Não tem nada que explicar.

MANUEL. É o problema de ler Poe ainda moleque. Você vira um filho da puta.

MATEO. Tenho que chamar Eri.

MANUEL. No fundo é por liberdade, não?

MATEO. Suponho.

MANUEL. Ter nosso próprio Columbine[4]. Nosso próprio Virginia Tech[5]. Nossa própria matança de Toulouse[6]. Ficar pau a pau com a loucura do primeiro mundo. É isso, não?

MATEO. Não é suficiente com milicos que se filmam em um vídeo brincando de etarras[7]. Ou médicos charlatões matando doentes em um cti. É muito estúpido.

MANUEL. A gente precisa ir a fundo.

MATEO. Matar estudantes. O pesadelo de José Pedro Varela[8].

MANUEL. Mas é diferente. A gente não tá louco, verdade?

MATEO. Não.

MANUEL. Algo se rompeu. Faz tempo. De noite, antes de dormir, trato de entender. Por quê. Por que tenho medo.

MATEO. De quê?

MANUEL. Não sei. De tudo. De sair na rua. De votar nas eleições. De acreditar em uma ideia. De acreditar nas pessoas. Em um partido. De virar anarco. De ir trabalhar. De criar um filho. De viver. E às vezes quero que o Estado exploda e ir viver em um falanstério. Ou em um kibutz, que é o que tem de mais parecido. Quando Lis nasceu, na primeira noite, eu li pra ela Ulysses de Joyce. Se começa agora é capaz que algum dia o entenda. Sou um desastre. Não sei o que fazer. E isso é uma maneira de… Não sei, de nada. Podemos falar de outra coisa?

MATEO. Quando meu filho nasceu, eu o esqueci num táxi. Não me peça conselhos.

MANUEL. Os moleques teriam que vir com um manual.

MATEO. Não serve pra nada. Alguma vez você leu um manual?

MANUEL. Não.

MATEO. Viu só? Ainda que venham com instruções. É impossível.

MANUEL. Existe um sistema perfeito?

MATEO. Político?

MANUEL.Político. Social. Ético.

MATEO. A anarquia orgásmica.

MANUEL. Você é um imbecil.

MATEO. Si nos organizamos, cogemos todos.

MANUEL. Essa é a letra de uma canção, Mateo[9].

MATEO. É o que eu penso.

MANUEL. Quero te mostrar algo.

MATEO. Espera. Vou ao banheiro.

MANUEL. Toma cuidado.

MATEO. Com quê?

MANUEL. Não importa.

09:38 am. Banheiro.

MATEO abaixa as calças e senta no vaso.

09:38 am. Quarto de MANUEL e SOFÍA.

MANUEL pega um livro. Leva-o até a sala.

09:39 am. Living.

MANUEL senta no sofá. Em silêncio. Lê.

MATEO. Chamando sentado no vaso. Manuel.

MANUEL. Quê?

MATEO. Vem cá.

MANUEL. Tem papel higiênico na estante. Não fode.

MATEO.  Não é isso. Vem.

MANUEL. Termina aí e depois falamos.

MATEO. Não. Vem agora.

MANUEL. Não vou falar com você através da porta como se fôssemos namorados.

MATEO. Eu não falo com a minha namorada quando eu tô cagando.

MANUEL. É disso que eu tô falando.

MATEO. Você fala com a Sofi quando tá cagando?

MANUEL. Não.

MATEO. Foi o que você disse.

MANUEL. Não foi o que eu disse.

MATEO. Sim, foi o que você disse.

09:39 am. Sala.

MANUEL se levanta. Vai até a porta do banheiro.

MANUEL. O que você quer?

MATEO. Você veio.

MANUEL. Sim.

MATEO. Então somos namorados.

MANUEL. Não enche o saco, Mateo.

MATEO. Espera. Tava pensando. Me ocorreu isso.

MANUEL. Vai demorar?

MATEO. Não. Espera. É genial.

MANUEL. Quê?

MATEO. Você tem câmera?

MANUEL. Sim. Você pode sair daí?

MATEO. Não terminei.

MANUEL. Que nojo, Mateo.

MATEO. Espera. Acabei de te falar dos milicos que se faziam de etarras. Lembra?

MANUEL. Os que se filmaram em um vídeo que ninguém viu?

MATEO. Os que tavam disfarçados de cavaleiros do apocalipse. Os da foto no jornal. Com a bandeira uruguaia como toalha de mesa. Os idiotas que se achavam da Al Qaeda.[10]

MANUEL. Sim, me lembro.

MATEO. Tá aí.

MANUEL. Não te sigo.

MATEO. É o que nos falta. Uma estupidez parecida. Uma carta de suicídio.

09:40 am. Banheiro.

MATEO se levanta do vaso e sai.

MATEO. Tem um alto-falante?

MANUEL. Você não deu descarga.

MATEO. Não fode.

MANUEL. Não lavou as mãos.

MATEO. Já disse pra não encher. Um microfone?

09:40 am. Sala.

MANUEL. Serve um Echo Mike[11]?

MATEO. Você tem um Echo Mike?

MANUEL. “Cantar com Echo Mike é de profissional, sional, sional”.

MATEO. O que que você tem? Cinco anos?

MANUEL. Guardo coisas.

MATEO. Traz a câmera.

MANUEL. Pra quê?

MATEO. Traz.

09:41 am. Quarto de Sofía e Manuel.

MANUEL pega a câmera.

09:41 am. Sala.

MANUEL.  Toma. Pra que que você quer?

MATEO. Tem uma bandeira de Artigas[12]?

MANUEL. Quê?

MATEO. A de “Libertad o muerte”.

MANUEL. Essa não é a de Artigas[13].

MATEO. O que for. Tem?

MANUEL. Tá de sacanagem? Parece que eu possa ter uma bandeira de Artigas?

MATEO. O quê? Na minha casa eu tenho uma.

MANUEL. Você não tá bem da cabeça.

MATEO. Você tem um Echo Mike.

MANUEL. Serve a bandeira de Bella Vista?

MATEO. E passar por fundamentalistas pro Vaticano. Gosto[14].

MANUEL. Do que você tá falando?

09:42 am. Toca a campainha.

MATEO. Abre. É a Eri.

MANUEL. Como sabe que é a Eri?

MATEO. Porque coloquei um sensor no cu dela e quando tá ela perto vibra meu celular. Você pode abrir?

09:42 am. Sala.

Entra ÉRICA.

ÉRICA. Oi, Manuel. A MATEO. Te escutei.

MATEO. A ÉRICA. Te amo.

ÉRICA. Um sensor, é?

MATEO. Eu não disse nada.

ÉRICA. Você poderia ter pensado um chip no cérebro. Mas tinha que ser um sensor no cu.

MATEO. Era uma piada.

ÉRICA. Como um bom pedaço de carne. Como a carniça dos machos alfas. É isso, né? E tenho o cu tão fodido que não me dou conta se me metem um chip entre as nádegas.

MATEO. Acho que temos que revisar o conceito de piada.

ÉRICA. Ho, ho, ho, vamos rir da minha namorada. Ho, ho, ho.

MANUEL. O que que vocês têm?

ÉRICA / MATEO. Nada.

MATEO. De qualquer forma, não tava rindo de você. Mas dele.

ÉRICA. Ria dele sobre mim.

MATEO. Ria dele sobre ele.

MANUEL. Você ria de mim?

MATEO. Sim.

MANUEL. Tem certeza?

MATEO. Sim, acho que sim.

ÉRICA. Chorando. Sempre faz o mesmo.

MATEO. Tá chorando?

ÉRICA. Não, é que ontem eu vi “Um cão andaluz” e quis provar o lance do olho. E acho que me machuquei. Óbvio que tô chorando, imbecil.

MATEO. Bom, me desculpa.

ÉRICA. Sorrindo. Não. É uma piada. Vem, não te dei um beijo. Em que estavam?

Pausa.

MATEO. Era uma piada?

ÉRICA. Sim.

MATEO. Tudo?

ÉRICA. Sim, tudo.

MATEO. Você fez eu me sentir mal.

ÉRICA. Sério?

MATEO. Claro, que que você pensa?

ÉRICA. Bom, não foi minha intenção.

MATEO. “Quase chorando”. Nunca é sua intenção.

ÉRICA. Ei, não é pra tanto. Vem.

MATEO. Sorrindo. Não. Tava brincando.

MANUEL. Sério, que que vocês têm?

ÉRICA. Senti saudade.

MATEO. Eu também.

ÉRICA. Passaram bem ontem?

MATEO. Acho que sim. Não me lembro.

ÉRICA. Sofi?

MANUEL. Saiu.

MATEO. Chegou na hora, Eri.

ÉRICA. Pra quê?

MATEO. Estamos a ponto de filmar o pior vídeo da história do medo no país.

ÉRICA. Como sabe que vai ser o pior?

MATEO. Porque além de ruim, é estúpido. E é porque sim. Como tudo isso.

MANUEL. Tem algo que tá mal.

MATEO. Ainda com isso?

MANUEL. No homem. Tem algo que tá mal.

ÉRICA. Eu não tô mal.

MATEO. Sim, tá mal.

ÉRICA. Bom, sim, tô mal. Mas você também tá mal.

MATEO. Já sei que eu tô mal.

ÉRICA. Posso contar algo?

MANUEL. Não.

ÉRICA. Quando vinha pra cá tinha uma menina. Na rua. De mãos dadas com a mãe. Tava na esquina esperando pra cruzar. Os carros passavam rápido. E perto. Eu me aproximei. E pensei: e se eu a empurro? Na rua. Pensei, por que não? Não a empurrei, óbvio. Fui embora. Sai correndo porque tive medo de ser capaz de… Isso.

Silêncio.

MANUEL. E você tá nos contando isso porque…

ÉRICA levanta os ombros.

ÉRICA. É o que acontece com quem sofre de vertigem. Sabem que seriam capazes de se jogar, e tem medo disso, não da altura. É o que tá mal. No homem.

Silêncio.

MATEO. A MANUEL. Tem máscaras?

MANUEL. Pra quê?

MATEO. Pra que não reconheçam nossas caras.

MANUEL. Meias negras não servem?

MATEO. Prefiro os três porquinhos. Ou a Mulher Morcego. Ou o Superhomem da capa de Apocalípticos e integrados. O que for sempre que for estúpido. A do V de Vingança não, já tá batida.

MANUEL. Me ajudem a buscar.

MATEO. Merda, tinha que ter cortado o cabelo como De Niro em Taxi Driver.

09:44 am. Quarto de Lis.

MANUEL. Acho que tenho umas máscaras por aqui.

MANUEL remexe alguma gaveta. MATEO fica diante de um espelho.

MATEO. Are you talking to me?

ÉRICA. Máscaras de quê?

MATEO. Tenho algo de De Niro, não?

MANUEL. Wakko, Yakko e Dot.

ÉRICA.  Os animaniacs da Warner?

MANUEL. Os que viviam no tanque de água e eram mais anarcos que Bakunin.

MATEO. Como se chamava o que viu Taxi Driver e quis matar Reagan?

ÉRICA. Uh, eu quero o Wakko.

MANUEL. Não, Wakko sou eu.

MATEO. O demente que se masturbava com Jodie Foster.

ÉRICA. Por que tenho que ser a Dot?

MANUEL. Ninguém disse que tinha que ser a Dot.

ÉRICA. Não quero ser o Yakko.

MANUEL. Então se fode.

MATEO. John Hinckley. Um idiota.

MANUEL. Mostrando as três máscaras. Tão aqui.

Os três olham as máscaras em silêncio. Wakko, Yakko e Dot. Como se fossem algo sagrado.

ÉRICA. E agora?

MANUEL. Colocamos.

MANUEL coloca a de Wakko. ÉRICA a de Yakko. E MATEO a de Dot.

YAKKO. É estranho.

DOT. Dot não era menina?

YAKKO. Vamos sair na rua assim?

DOT. Não quero ser uma menina.

YAKKO. Nem eu e não me queixo.

WAKKO. Onde deixei a câmera?

DOT. Na sala.

WAKKO. Liga lá. Eu levo as bandeiras.

YAKKO. Onde estão?

WAKKO. No meu quarto.

09:45 am. Sala.

DOT põe a câmera em um tripé. Acomoda uma mesinha em frente a ele. Liga.

09:45 am. Quarto de Manuel e Sofía.

WAKKO recolhe uma bandeira de Bella Vista, amarela e branca, uma flâmula da seleção uruguaia de futebol e um cachecol celeste.

09:45 am. Cozinha.

YAKKO caminha nervosa. Toma um comprimido. Talvez uma aspirina.

09:46 am. Sala.

DOT. A WAKKO. Coloca a bandeira na mesa.

WAKKO põe a bandeira de Bella Vista sobre a mesa, como uma toalha de mesa.

WAKKO. Mostrando as flâmulas. Trouxe o pavilhão pátrio. Versão bonsai.

DOT. Ultra nacionalistas e católicos.

WAKKO. Depois disso vamos ser o furor da extrema direita.

DOT. E quando se funde a Frente Nacional Uruguaia, ao melhor estilo Jean-Marie Le Pen[15], a bandeira vai ter nossas caras.

WAKKO. Estas ou as de verdade?

DOT. Qualquer das duas vai ser o mesmo.

YAKKO. Voltando da cozinha. Eu quero o cachecol.

DOT crava as flâmulas em algum lugar perto deles. YAKKO põe o cachecol azul celeste. Os três se sentam em um sofá atrás da mesinha de centro, em frente à câmera. Olham fixamente sem se mexer. Pausa larga.

WAKKO. Tá ligada?

DOT. Sim.

YAKKO. Sempre quis ser atriz.

WAKKO e DOT giram a cabeça e olha pra ela.

YAKKO. Amanhã vamos sair no noticiário. É o mais perto que vou chegar.

DOT. Falta algo.

YAKKO. Merda. Já ia esquecendo.

YAKKO se levanta e do meio de suas roupas começa a tirar armas que coloca sobre a mesa. Em cima da bandeira. Revólveres. Navalhas. Paus. Algum cano. Algemas. Granadas. Soco inglês. Um nunchaku. Pausa. Os outros a olham. Silêncio.

YAKKO. Mostrando as armas. Informação contextual.

WAKKO. Tão carregadas?

Silêncio. Os três olham as armas.

DOT. Eu me referia a uma plataforma reivindicativa, ou algo assim.

YAKKO. Ah. Pausa. Bom. Pausa. Guardo?

DOT. Não, agora deixa.

WAKKO. Tem que dizer algo.

YAKKO. Quê?

WAKKO. Dizer porque vamos fazer. Pedir por algo. A selva do Amazonas. A autodeterminação dos povos livres. Os bosques de bambu para que não desapareçam os viados ursos panda. Qualquer coisa. Algo estúpido.

DOT. Mas não temos nada.

Pausa.

WAKKO. Nenhuma ideia.

YAKKO.  Entrar em uma faculdade e sair matando porque sim, não tem sentido.

Pausa. Os três continuam olhando fixamente à câmera. Sem se mexer.

WAKKO. Já sei. Apontando o livro que trouxe de seu quarto uns minutos atrás. No livro. Leiam isso. Mostra uma página.

DOT. Lendo. Isso é genial.

WAKKO. Dadaísmo e revolução.

YAKKO. Deixa eu ler.

WAKKO. “As vanguardas artísticas do século XX”, de Mario de Micheli.

YAKKO.  Lendo. É um manifesto do ‘19.

WAKKO.  Que importa?

YAKKO. É alemão.

WAKKO. Metemos umas frases de Mariátegui e de Carlos Quijano que jorram latinoamericanismo e pronto.

DOT. Amauta e Marcha. Gosto[16].

WAKKO. E de fundo, Calle 13[17]. O que mais você pode querer?

DOT. Gosto como você pensa. Acho que te amo.

WAKKO. Nem pense nisso.

YAKKO.  Ei, tô aqui.

WAKKO se levanta e procura outros papéis. Dá um a YAKKO e outro a DOT.

WAKKO. Eu falo primeiro. Vocês depois. O que tá sublinhado. Eu vou no meio.

DOT. Por que você?

WAKKO. É minha casa.

DOT. Foi minha ideia.

WAKKO. Matar gente é uma ideia velha. E anônima. Sem copyright. Então não fode.

WAKKO põe a música “Calma pueblo” de Calle 13 em um equipamento de áudio. Os três se acomodam no sofá. WAKKO senta no centro. YAKKO e DOT em cada lado. Pausa.

WAKKO. À câmera. Este golpe à intelligentsia burguesa é um chamado à ação revolucionária neodadaísta.

YAKKO e DOT giram a cabeça e olham para WAKKO.

DOT.  Do que você tá falando?

WAKKO. À câmera. Aquele que quiser nos seguir deverá lutar por, um: a união revolucionária internacional de todos os criadores intelectuais do mundo inteiro, tendo como base o comunismo radical. Dois: a ampliação progressiva do tempo livre graças à mecanização completa de todas as atividades laborais. Três: a socialização imediata da propriedade e a alimentação comunista de todos. Exigimos também, A: a distribuição pública e diária de comida a todos os seres humanos capazes de criar. B: a instauração de um conselho dadá para proceder a um reordenamento geral da vida. C: regulação imediata de todas as relações sexuais no sentido dadaísta internacional, mediante a criação de uma central dadaísta do sexo. Viva Cristo rei!

YAKKO. À câmera. Disse José Carlos Mariátegui, peruano: “O socialismo está na tradição americana. A mais avançada organização comunista primitiva que registra a história é a inca. Não queremos, certamente, que o socialismo seja na América decalque e cópia. Deve ser criação heróica. Temos que dar vida, com nossa própria realidade, em nossa própria linguagem, ao socialismo indo-americano. Aí está uma missão digna de uma nova geração”. Revista Amauta, setembro, 1928.

DOT. À câmera. “O fascismo em suas formas confessas e em suas formas enrustidas, tem sido nosso inimigo e também a hipocrisia democrática, a que aqui rendemos culto, essa que cuida do envase e esquece da essência. Revolução? Evolução? América está nas vésperas de sua segunda grande revolução. Se cumprirá esta pela violência? O que sabemos?”, Carlos Quijano, Semanário Marcha, 1964.

WAKKO. À câmera. Todo tempo de diálogo se esgotou.

YAKKO. À câmera. Esta tarde na Faculdade de Humanas vamos dar o primeiro golpe.

DOT. À câmera. E depois vamos matar Sandino Núñez[18].

WAKKO e YAKKO o olham.

WAKKO. Hã?

DOT. O quê? Não me cai bem. É inteligente.

YAKKO. Eu não quero matar Sandino Núñez. Conheço a filha.

DOT. Bom. Como queiram. Mas com certeza depois vai escrever sobre a gente e vai nos fazer merda.

09:51 am. Sala.

Entra SOFÍA com o carrinho de bebê. Os três giram e a veem. Com suas máscaras postas. SOFÍA olha em silêncio sem se mexer. Instante de incompreensão.

SOFÍA. Que porra vocês tão fazendo?

WAKKO. Apontando a DOT. Foi ideia dele.

SOFÍA. Temos que falar.

WAKKO. O que aconteceu?

SOFÍA. Você pode tirar isso?

WAKKO nega com a cabeça.

SOFÍA. Acabaram de me ligar.

09:52 am. Quarto de Lis.

SOFÍA deixa o carrinho de bebê ali. Volta à sala.

YAKKO. Quem?

SOFÍA. De Buenos Aires.

DOT. Queriam o quê?

SOFÍA. Não vão mais fazer.

WAKKO. O que aconteceu?

SOFÍA. Se arrependeram.

WAKKO. Mas tava tudo coordenado.

DOT. Portenhos de merda.

YAKKO. Como que se arrependeram?

SOFÍA. Mudaram o objetivo.

WAKKO. Não entendo.

SOFÍA. Não vão à UBA.

DOT. Mas se não vão à UBA não tem graça.

YAKKO. A DOT. Graça?

DOT. A YAKKO. Sentido. O que for. Cala a boca.

YAKKO. A DOT. Idiota.

WAKKO. A SOFÍA. Te disseram por quê?

SOFÍA. Preferiram atentar contra um circo.

DOT. Um circo? Que circo?

SOFÍA. O de Moscou, que acaba de chegar a Buenos Aires.

WAKKO.  Por que um circo? É estúpido.

SOFÍA. Parece que na semana passada encontraram um dos palhaços praticando zoofilia com duas zebras, um macaco e dois anões marroquinos. E a sociedade protetora dos animais tá a ponto de linchar todo mundo. E querem aproveitar a mobilização pra começar a revolta. E além disso é russo. Disseram que tem valor simbólico.

DOT. Não posso acreditar.

WAKKO. De novo a Rússia. Primeiro a Perestroika e agora isso?

SOFÍA. Você tá comparando isso com a Perestroika?

WAKKO. É muito?

DOT. E o palhaço?

WAKKO. Que importa o palhaço?

DOT. Agora quero saber o que aconteceu com ele.

YAKKO. Como é que faz pra trepar com duas zebras ao mesmo tempo?

SOFÍA. E um macaco.

DOT. Acho que me perturba mais o caso dos anões marroquinos.

YAKKO. E agora?

DOT. Podemos mudar nosso plano também e matar o Sandino Núñez.

WAKKO. Você pode deixar de encher com o Sandino Núñez?

DOT. Bom, não precisa gritar. Era uma ideia.

SOFÍA. Apontando as máscaras. De verdade, vocês podem tirar isso?

Os três tiram as máscaras.

MANUEL. Ainda tem Santiago do Chile.

MATEO. Que horas são?

SOFÍA. Quase dez.

MATEO. Que estranho.

ÉRICA. O quê?

MATEO. Meu irmão. Disse que chegava nove e meia.

MANUEL. Eu sabia. Tem algo que não vai bem.

MATEO. Onde deixei o celular?

ÉRICA. Eu não vi.

MANUEL. Olha no quarto da Lis.

SOFÍA. O que vocês faziam no quarto da Lis?

MATEO. A gente se tocou um pouco pensando no seu bebê.

MANUEL. A MATEO. Já te peguei uma vez. E vou te pegar de novo.

MATEO. Não seja menininha. A ÉRICA. Me ajuda a procurar.

MANUEL. Por que o seu irmão não veio?

MATEO. Sempre demora vendo pornô. Ou escrevendo bobagem no Facebook. Com certeza vai publicar o que vamos fazer hoje.

MANUEL. Mateo.

MATEO. Sempre coloca tudo: “Ei, soltei um peido, tem cheiro de frango”.

MANUEL. Mateo.

MATEO. Tá muito sozinho. A tela lhe faz companhia.

MANUEL. Mateo!

MATEO. Ei, calma. Meu irmão não vai contar a ninguém.

09:56 am. Quarto de Lis.

MATEO procura seu celular.

09:56 am. Quarto de Sofía e Manuel.

ÉRICA procura o celular de Mateo.

09:56 am. Sala.

SOFÍA. A MANUEL. O que a Eri tá fazendo aqui?

MANUEL levanta os ombros.

SOFÍA. Você viu as notícias?

MANUEL. Você sabe que eu não vejo as notícias.

SOFÍA. Não enche o saco.

MANUEL. Te amo.

SOFÍA. A Cruz Vermelha quer tirar todos da cadeia.

MANUEL. Todos quem?

SOFÍA. Os milicos.

MANUEL. Por quê?

SOFÍA. Por velhos.

MANUEL. O que tem a ver que sejam velhos?

SOFÍA. Quando você envelhece deixa de ser mal. Vira apenas um idiota que se baba.

MANUEL. Onde você viu isso?

SOFÍA. No jornal.

MANUEL. Qual?

SOFÍA. Em todos. Filhos da puta eram os de antes. Agora são todos imbecis.

09:57 am. Banheiro.

MATEO encontra o celular no chão. Junto ao sanitário.

MATEO. Tá aqui.

ÉRICA. Chegando ao banheiro. Achou?

MATEO. Tava aqui no chão. Deve ter caído quando fui tirar uma foto da minha enorme piroc…

SOFÍA. Interrompendo. Tem crianças.

MANUEL. Apontando a MATEO. E ele é o primeiro.

09:57 am. Sala.

MATEO e ÉRICA voltam à sala. MATEO lê uma mensagem de texto em seu celular.

MATEO. Meu irmão escreveu. Merda. Tenho que ir buscar as armas que faltam. E o meu filho. Nessa ordem.

MANUEL. É necessário?

MATEO. Não, podemos usar estalinho[19]. Ou algum sinalizador. A gente não vai assustar ninguém. Mas vai se divertir muito.

MANUEL. Tá bem.

SOFÍA. Te esperamos.

MATEO. A ÉRICA. Você vem?

ÉRICA. Por que temos que ir buscar seu filho?

MATEO. Você não gosta dele?

ÉRICA. Tem cara de advogado.

MATEO. Nem fez um ano.

ÉRICA. Pior.

MATEO. Não diga “advogado” ao meu filho.

ÉRICA. Parece um insulto?

MATEO. Não, pra você parece um insulto.

ÉRICA. Pra mim não parece um insulto.

MATEO. Foi o que você disse.

ÉRICA. Passar a vida assinando divórcios em um escritório de dois por dois é um insulto.

MATEO. Tá dizendo que é um insulto.

ÉRICA. Você disse que é um insulto.

MATEO. Não, você disse que é um insulto.

ÉRICA. Eu disse que tem cara de advogado.

MATEO. Bom, por isso.

ÉRICA. Ou de psicólogo.

MATEO. Epa, epa.

ÉRICA. Imagina se vira assistente social?

MATEO. Não brinca com fogo.

MANUEL. Sério, qual o problema de vocês?

MATEO. A MANUEL. Amor. Puro amor. Voltamos rapidinho.

09:58 am. Sala.

MATEO e ÉRICA saem. Pausa. Silêncio.

MANUEL. Mateo quer matar Sandino Núñez.

SOFÍA. Sim, já escutei.

MANUEL. Não o culpo. É inteligente.

SOFÍA. Sim.

Silêncio.

MANUEL. E agora o que fazemos?

SOFÍA. Com o quê?

MANUEL. Com tudo.

SOFÍA. Nada.

Silêncio.

MANUEL. E nós?

SOFÍA. O quê?

MANUEL. Estamos bem?

Silêncio.

SOFÍA. Você nunca sonhou em viver em uma publicidade de fraldas?

MANUEL. Usadas?

SOFÍA. Limpas.

MANUEL. Não.

SOFÍA. Bebês loiros. Cheiro de talco. E um jingle imbecil de fundo.

MANUEL. Não.

Silêncio.

MANUEL. Como sonho é bastante idiota.

SOFÍA levanta os ombros.

SOFÍA. Queria ter um filho. E depois outro. Quatro. Cinco. Um bando de moleques. Ir viver no campo. Criar coelhos. Colocar rastas coloridos e viver em comunidade entre malabaristas e cabeludos de nariz de palhaço. Tocar violão. Aprender todo o repertório de Sui Generis[20] pra noites de fogueira. Militar pela diversidade sexual com lésbicas de camisa xadrez. Dizer cinquenta vezes por dia a palavra “feliz” e a palavra “irmão” sem que ninguém me dê uma cotovelada no olho por parecer brega. Escutar Silvio Rodríguez[21] todo o dia e me sentir uma melhor pessoa. Levantar da cama com vontade de abraçar uma árvore. Andar todo dia em uma bicicleta velha comprada de segunda mão, com um capacete rosa que diga “I love Cabo Polonio”[22] e fazer as tarefas com uma bolsa ecológica com desenhozinhos de arco íris como uma idiota. Não soltar um peido por medo de que exploda a camada de ozônio. Deixar que os mosquitos me piquem até eu ficar paraplégica porque são criaturas que, como eu, merecem a vida. Ainda que seja alérgica, puta merda. Queria tudo isso. E mais. Não sei. Ser Rainbow Brite e criar Ursinhos Carinhosos. Viver com um pônei. Isso era o que queria.

MANUEL. E depois você me conheceu?

SOFÍA. Depois me dei conta que os bons são uns idiotas. E que a vida é muito curta pra andar pedindo licença. Pra cruzar a rua com luz verde. Pra desconectar o USB de forma segura. Ou pra fazer uma colposcopia a cada seis meses ainda que tenha na buceta uma verruga do tamanho de um melão hiper desenvolvido. A vida é muito curta e ser bom leva muito tempo.

MANUEL. Ser mau não?

SOFÍA. Também. Mas é mais divertido. E exige menos atenção. Se até os imbecis podem ser maus sem esforço, imagina a gente. Que é inteligente.

Silêncio.

MANUEL. Não entendo.

SOFÍA. Sorrindo. Então tá do lado dos imbecis.

MANUEL sorri.

SOFÍA. Em qualquer caso, tem tudo pra ser um perfeito filho da puta. E fique feliz, os filhos da puta não tem câncer.

Silêncio.

SOFÍA. Você pode ser bom de uma só maneira e mau de muitas.

MANUEL. Aristóteles.

SOFÍA. Anônimo. Citado por Aristóteles. Ética a Nicômaco. Livro dois, capítulo seis.

MANUEL. Eu não lembro do seu aniversário, e você se lembra disso?

Silêncio.

SOFÍA. Sabia que quem fazia os bonecos de Rainbow Brite eram crianças filipinas que trabalhavam como escravos?

MANUEL. Não.

SOFÍA. Uma vez minha mãe comprou uma. E na perninha de plástico encontrei uma mensagem que dizia “Help me, please”.

MANUEL. Sério?

SOFÍA. Não. Mas teria sido genial, não?

MANUEL. Sim. Suponho.

SOFÍA.  Apontando a câmera. E isso?

MANUEL. Nosso epitáfio.

SOFÍA. Gravado?

MANUEL. Somos dementes do primeiro mundo, não?

SOFÍA. Não me esperaram.

MANUEL. Ainda tem bateria.

SOFÍA. Me filma?

MANUEL. Sempre.

MANUEL pega a câmera.

SOFÍA. Vem.

10:11 am. Quarto de Lis.

SOFÍA desata um balão de hélio, com forma de Mickey Mouse ou Ronald Mc Donald’s, que estava pendurado em algum lugar. Sai do quarto.

SOFÍA. A MANUEL. Me segue.

MANUEL. Até o fim do mundo.

10:11 am. Banheiro.

SOFÍA senta no vaso. MANUEL segura a câmera. Filma.

SOFÍA. Tá?

MANUEL consente com a cabeça.

SOFÍA. Espera.

SOFÍA apaga todas as luzes da casa. Volta ao banheiro. Inala hélio no escuro. Acende una lanterna que põe embaixo da cara, parodiando uma cena de terror. Sempre com a voz aguda do hélio.

SOFÍA. À câmera. Comunicado quatro das Forças Armadas. Pausa. 9 de fevereiro de 1973[23]. Pausa. Os mandos militares conjuntos do Exército e a Força Aérea. Pausa. Ante a crise que afeta o país e os efeitos de esclarecer até a última dúvida que possa existir no espírito de todos os uruguaios sobre as causas que a ocasionaram. Pausa. Sentem o dever moral de informar o seguinte. Pausa. SOFÍA já não inala hélio. Nós vamos cagar a vida de vocês durante doze anos. E mais. Como em Hiroshima.

MANUEL abaixa a câmera. Aos poucos SOFÍA começou a chorar.

SOFÍA. Vamos apodrecer a terra, o sangue e o pensamento daqui a cem anos. Vamos matar uma geração para que a seguinte nasça morta. Ou deformada. Vamos fazer tão bem nosso trabalho que na terra só vão ficar imbecis e dementes e cagões.

MANUEL. Sofía.

SOFÍA. Continua filmando.

MANUEL. Não quero.

SOFÍA apenas chora. Em silêncio. MANUEL volta a acender as luzes.

SOFÍA. A gente vai mudar alguma coisa?

MANUEL. Com isso?

SOFÍA consente com a cabeça.

MANUEL. Não. Vai ser pior.

SOFÍA. Pelo menos é alguma coisa.

Pausa. SOFÍA inala hélio. Canta o Hino Nacional do Uruguai. Soa ridícula. MANUEL sorri.

MANUEL. Te amo.

SOFÍA. Você não tem que dizer que me ama toda vez que eu me sinto mal.

MANUEL. Sou eu quem se sente mal. Por isso digo que te amo.

SOFÍA. A gente vai morrer?

MANUEL. Algum dia.

SOFÍA. Como?

MANUEL. Fazendo amor em uma cama de madeira. Raspando o piso de taco até que pegue fogo. Fudendo no meio do incêndio.

SOFÍA. E as balas?

MANUEL. Chegam depois.

Silêncio.

MANUEL. O que mudou?

SOFÍA. Não sei.

MANUEL. Quero que se lembrem disso.

SOFÍA.  Eu vou lembrar de você.

MANUEL. Os outros.

SOFÍA.  Não tem outros. Somos só você e eu.

MANUEL. Tô falando sério.

SOFÍA.  Não tô brincando.

MANUEL. Tem mais gente aí fora.

SOFÍA.  Essa gente não me importa.

MANUEL. A mim sim.

SOFÍA. Você me importa.

MANUEL. Me importa o que eles têm na cabeça. Agora. Depois. Sempre.

SOFÍA. Você tem a mim.

MANUEL. Já sei.

SOFÍA. Conta comigo. Olha pra mim.

MANUEL. Tô aqui.

SOFÍA. Estamos aqui.

MANUEL. Preciso sair.

SOFÍA. Ainda não.

MANUEL. Eles já deveriam ter chegado.

SOFÍA. Acabaram de sair.

MANUEL. A bebê?

SOFÍA. Dorme.

MANUEL. Não lhe dei um beijo.

SOFÍA. Eu dei um por você.

MANUEL. Melhor.

SOFÍA.  Vai bem.

MANUEL. Você acha?

SOFÍA. Você não é um pai tão ruim.

MANUEL. Você também não.

Silêncio.

MANUEL. A primeira vez que fiz a barba, minha mãe me emprestou uma Gillete rosa com que depilava as axilas. E tirou fotos. Com a Gillete rosa na minha cara, e espuma de barbear até os olhos. E mostrou pra todo mundo no meu aniversário.

SOFÍA sorri.

MANUEL. Não ria.

SOFÍA. Você lembra como foi?

MANUEL. Meu aniversário?

SOFÍA. O dia em que Lis nasceu?

MANUEL. Você tava grávida. Muito grávida. Lia artigos sobre Cuba e a revolução socialista. E de repente a barriga começou a gotejar. Bom, não a barriga, não. O chão. Não me lembro se tinha um vestido ou uma saia ou o quê. Mas começou a jorrar aí, tudo, o útero, começou a rasgar, a derreter, não sei. E eu que chega, vamos ao hospital. E você não. Que queria terminar de ler o editorial que escreveu Quijano para os vinte e cinco anos de Marcha. E que dizia que a revolução tava vindo. Que era o momento. E eu que bom, você pode ler no caminho. E você que foi no sessenta e quatro, antes de Pacheco Areco e a grandessíssima puta que o pariu[24]. E eu que não importa porra nenhuma agora. E chegamos ao hospital. E tivemos uma filha. E Marcha desapareceu. E a revolução não veio e Quijano errou como daqui até a Coréia do Norte. E o mais perto que estamos da Pátria Grande é escutar Calle 13.

Silêncio.

SOFÍA. Sorrindo. Te amo.

MANUEL. Não vai acontecer nada comigo.

SOFÍA. Te digo, não mais.

MANUEL. Não vou morrer hoje.

SOFÍA. Pelas dúvidas.

MANUEL. Onde tão?

SOFÍA. Quem?

MANUEL. As armas.

SOFÍA. No quarto.

MANUEL.Com Lis?

SOFÍA. Tá tudo bem.

MANUEL.Você a colocou no mesmo quarto.

SOFÍA. Você a ensinou a disparar?

MANUEL. Não.

SOFÍA. Então não tem problema.

MANUEL. Dorme?

SOFÍA. No carrinho.

MANUEL. Mefistófeles?

SOFÍA. O urso?

MANUEL. Sim.

SOFÍA. Com ela.

MANUEL. Você tirou as…?

SOFÍA.  Claro.

MANUEL. Não tem que deixar ela brincar com isso.

SOFÍA.  Por agora não.

MANUEL. Se acostumam.

SOFÍA. Sim. Mas ainda não.

MANUEL. Usaram nas Malvinas.

SOFÍA.  Ouviu alguma coisa?

MANUEL. Os fuzis FMK-3.

SOFÍA.  Vem de fora.

MANUEL. É irônico.

SOFÍA.  Como conseguiram?

MANUEL. Não perguntei.

SOFÍA.  Pergunto quando chegarem.

SOFÍA.  Você que colocou Mefistófeles?

MANUEL. Não.

SOFÍA. Quem foi?

MANUEL. Ela.

SOFÍA.  O ursinho?

MANUEL. Mefistófeles é macho.

SOFÍA.  Mefistófeles é um ursinho de pelúcia. E Lis não fala.

MANUEL. Fala sim.

SOFÍA.  Não.

MANUEL. Comigo ela fala.

SOFÍA.  O que ela te disse?

MANUEL. Que mudemos o mundo antes que faça quinze ou vai dar muita bicuda nas nossas bundas.

SOFÍA.  Aprendeu rápido.

MANUEL. Eu ensinei.

SOFÍA.  Palavrão?

MANUEL. Palavras. Todas.

SOFÍA.  Você lembra de ontem?

MANUEL. Onde deixei os cigarros?

SOFÍA.  Na cozinha.

MANUEL. No chão?

SOFÍA.  Na piscina.

MANUEL. Eu não fumei lá.

SOFÍA.  Caminhamos horas.

MANUEL. Quando?

SOFÍA.  Ontem.

MANUEL. Preciso fumar.

SOFÍA. Começou a chover.

MANUEL. Não tá chovendo.

SOFÍA. Rápido. O que é a virtude para os estoicos?

MANUEL. Zenão?

SOFÍA. Qualquer um.

MANUEL. Não fode.

SOFÍA.  Os jovens são bons pra Matemática não pra Ética.

MANUEL. Aristóteles.

SOFÍA. Você lembra?

MANUEL. Não podia deixar de olhar pra vocâ nas aulas de Ética um. Sala Armin Schlaefrig[25].

SOFÍA. Nome de ator de películas de terror.

MANUEL. Como Béla Lugosi.

SOFÍA. Como Lon Chaney.

MANUEL. Esse era maquiador.

SOFÍA. Também atuava.

MANUEL põe “A limpiar el sucio” de Calle 13.

MANUEL. Dança?

SOFÍA. Agora?

MANUEL. Se não, quando?

SOFÍA. Posso te dar um beijo antes?

MANUEL. Não me oponho.

Se beijam sobre o sofá. MANUEL empurra com o pé a mesinha de centro cheia de armas.

SOFÍA. Espera.

MANUEL. O que foi?

SOFÍA. Tirando um revólver do meio das almofadas do sofá. O que é isso?

MANUEL. É do Mateo. Dorme com ela.

SOFÍA. Pra quê?

MANUEL. Diz que é pra se proteger da anã do sonho.

SOFÍA. A o quê?

MANUEL. Uma fada filha da puta que vai de casa em casa furando os olhos das pessoas. E mete coisas no seu cu bem devagarzinho. E quando você acorda, se dá conta de que gostou e vira viado. Como a rainha Mab, mas um pouco mais filha da puta.

MANUEL e SOFÍA se olham. Sorriem.

SOFÍA. Mateo acredita nessas bobagens?

MANUEL. E em Papai Noel. E que o senhor que cobra o aluguel é um enviado do diabo.

SOFÍA. Às vezes me dá medo.

MANUEL. Papai Noel?

SOFÍA. Mateo.

MANUEL. Ah. A mim também.

10:19 am. Batem à porta.

MANUEL. Chegaram.

SOFÍA. Já?

MANUEL levanta os ombros.

10:19 am. Sala.

MATEO e ÉRICA entram discutindo. MATEO traz um carrinho de bebê com seu filho Gus nele.

MATEO. Não é inválido. Simplesmente não tem pernas.

ÉRICA. Dá no mesmo.

MATEO. Não, não é o mesmo. Inválido é quando tem pernas e não pode usar. Isso é outra coisa. A MANUEL. Não é?

MANUEL. De que merda você tá falando?

ÉRICA. Mateo diz que se você não tem as pernas não é inválido.

SOFÍA. E o que é, então?

MATEO. Não sei. Disforme, sei lá.

ÉRICA. Não, disforme é quando tem coisas que não teriam que estar aí. Como um terceiro olho, ou dois narizes. Ou asas. Ou algo assim.

MATEO. Bom, pode ter uma cadeira de rodas.

ÉRICA. Não me refiro a isso.

MATEO. A cadeira não teria que estar aí.

ÉRICA. Mas isso não te faz disforme.

MATEO. Por que não?

ÉRICA. Porque a cadeira é outra coisa.

MATEO. O quê?

ÉRICA. Um instrumento.

MATEO. Um instrumento?

ÉRICA. Uma máquina.

MATEO. Então é um andróide.

ÉRICA. Mais que disforme, sim.

MATEO. E solta raios pelos olhos, ou lê o pensamento da gente, ou arrota com gosto de kryptonita. É isso?

ÉRICA. Não, isso seria um mutante.

SOFÍA. Por que tão falando disso?

Pausa.

ÉRICA.  Não sei.

MATEO. Não. Eu muito menos.

MANUEL. Olhando o carrinho de Gus. Isso é uma granada?

MATEO. Sim.

MATEO começa a tirar armas de grosso calibre de dentro do carrinho de Gus. Fuzis, escopetas, rifles, granadas. Coloca tudo sobre a mesinha de centro que já quase esburra de armamento pesado.

MANUEL. Olhando o carrinho. Ficou uma granada.

MATEO. Não. Essa é de pelúcia. Olha-a. Acho.

Pausa. Os quatro olham dentro do carrinho de Gus. Não estão seguros de que seja de pelúcia.

MANUEL. Dorme muito tranquilo.

MATEO. Não entende nada o pobre.

SOFÍA. Tá chorando?

ÉRICA. Tá dormindo.

SOFÍA. Pode fazer as duas coisas.

MANUEL. A MATEO. Já se deu conta de que não se parece com você?

MATEO. Já. Se parece com o tipo do supermercado. O que corta presunto. Mas posso viver com isso.

ÉRICA. Na rua encontramos con Sandino Núñez.

MANUEL. A MATEO. Me diz que você não matou Sandino Núñez.

MATEO. Não vou matar ninguém até terminar com isso.

ÉRICA. A SOFÍA. Me passa o telefone.

SOFÍA. Pra quê?

ÉRICA. Tem que avisar à imprensa.

SOFÍA passa o telefone à ÉRICA.

MATEO. Tô com fome.

ÉRICA disca um número.

SOFÍA. A MATEO. Olha na geladeira.

10:21 am. Cozinha.

MATEO procura comida na geladeira. Encontra algo. Come ali.

10:21 am. Sala.

SOFÍA. Vou ver a Lis.

10:21 am. Quarto de Lis.

SOFÍA olha o carrinho. Mexe em algo no interior. Muda algumas mantas do bebê.

10:21 am. Sala.

ÉRICA. No telefone. Alô, Televisión Nacional[26]?

MANUEL. Por que Televisión Nacional?

ÉRICA. Tapando o telefone. Me cai bem. Destapa o telefone. Só queria avisar que hoje ao meio día vai ter um atentado na Faculdade de Humanas. Pausa. Não, é sério. Pausa. Uns amigos e eu. Pausa. Sim, ao meio dia. Pausa. Tapa o telefone. A MANUEL. Pergunta se a gente pode mudar a hora.

MANUEL. Por?

ÉRICA. Que a essa hora tem o carro em Maroñas[27] e que não chegam.

MANUEL. Tá de sacanagem?

ÉRICA. Destapa o telefone. Não, senhora, parece que o da hora é impossível de mudar. Pausa. Não, amanhã não. Pausa. Porque amanhã não pode ser, senhora. Pausa. Deixa eu ver, espera. Pausa. Tapa o telefone. A MANUEL. Mudar pra amanhã não, né?

MANUEL. É sério isso?

ÉRICA. Destapando o telefone. Aqui tão me dizendo que é hoje, senhora. Pausa. Não, a gente não vai chamar nenhuma ambulância. Pausa. E não, muito menos a polícia, senhora. Pausa. Deixa eu ver, espera. Tapa o telefone. A MANUEL. Ela pergunta se pode chamar a polícia e as ambulâncias pra que não seja tão terrível.

MANUEL. A ideia é que seja terrível.

ÉRICA. Destapando o telefone A ideia é que seja terrível, senhora. A senhora viu, Al Qaeda, ETA, as FARC. Eles não avisam antes, senhora. Acho. Tapa o telefone. A MANUEL. Você tem certeza de que eles não avisam antes, né?

MANUEL. Érica.

ÉRICA.  Era só pra checar.

MANUEL. Não, não avisam.

ÉRICA. Okey. Destapa o telefone. Não, não avisam senhora. Tá checado, não avisam.

MANUEL. Érica, você tá de sacanagem, né?

ÉRICA faz com as mãos um gesto de espera.

ÉRICA. No telefone. Bom, isso eu não tenho muito claro, senhora. Deixa eu ver, espera. Tapa o telefone. A MANUEL. Pergunta por que vamos fazer isso.

MANUEL levanta os ombros.

ÉRICA. No telefone. Olha, senhora, aqui tão fazendo um gesto como que não sabem muito bem por quê. Pausa. Tapa o telefone. A MANUEL. Diz que não tem sentido.

MANUEL. E que merda ela tem a ver com isso?

ÉRICA. Destapando o telefone. E que merda a senhora tem a ver com isso? Ahn? Depois a gente passa a vida dando explicações e pra quê? Ahn? Às vezes dá aquela vontade de fazer o que bate na telha. E vai e faz. E o quê? Tá mal? Ahn? Pausa. Tapa o telefone. A MANUEL. Diz que nesse caso sim, tá errado.

MANUEL. Não tá falando com ninguém, não é?

ÉRICA. Baixando o telefone. Mas é óbvio que não, idiota. Ri. Você acha que eu sei o telefone da Televisión Nacional de memória? O que você acha que eu sou? Uma espécie de freakie da comunicação que sabe os números de telefone de todos os meios de imprensa do país? Você acha que eu tenho cara de freakie?

MANUEL. Você é cruel.

ÉRICA. E eu desfruto cada segundo plenamente.

10:23 am. Sala.

MATEO volta da cozinha comendo algo.

MATEO. O que foi que eu perdi?

MANUEL. Acho que vou matar sua namorada.

MATEO. Comigo acontece o tempo todo. Mas não posso. Tá louca, mas é o amor da minha vida.

MANUEL. Tá me sacaneando.

MATEO. Vai se acostumando. Ela vai voltar a fazer.

10:23 am. Sala.

SOFÍA volta do quarto de Lis.

SOFÍA. As câmeras já tão?

MANUEL. Não tem câmeras.

SOFÍA. Por?

MANUEL. Pergunta à Eri.

ÉRICA. Liguei pra Televisión Nacional e não chegamos a um acordo.

MANUEL. A ÉRICA. Érica.

ÉRICA. Desculpa. Não posso parar. A MATEO. O que acontece comigo?

MATEO. A ÉRICA. É o amor. Vem, me dá um beijo.

ÉRICA e MATEO se beijam.

MANUEL. Me dão medo.

MATEO. Ajoelhando-se no chão. Perdão. Estende os braços em cruz. Me declaro culpado. Sou um romântico nascido no século errado. Acredito no amor e na revolução. E acredito nos sonhos. Ainda que esses sonhos sejam pesadelos recorrentes como os que tinha quando era criança onde meu pequeno pinto era atacado pelo meu próprio prepúcio uma e outra vez, e me despertavam chorando e chamava minha mãe. E minha mãe vinha e abaixava minhas calças e me mostrava meu pequeno prepúcio, e me dizia, viu como não aconteceu nada, menino? O prepúcio é seu amigo, Mateo. E eu a abraçava. E fazia as pazes com meu pequeno prepúcio e com meu pequeno pinto. E só depois podia dormir.

Pausa. Os três olham para MATEO.

ÉRICA. Teria preferido não escutar isso.

SOFÍA. Eu também.

MANUEL. E eu.

MATEO. Adoro contar essa história. Sempre caem.

SOFÍA. Era mentira?

MATEO. Quando você me viu falar sério?

MANUEL. Eu já te vi falar sério.

MATEO. Não, eu jamais falo sério.

10:25 am. Cozinha.

Toca a campainha do interfone.

ÉRICA. Eu vou.

10:25 am. Cozinha.

ÉRICA atende o interfone.

ÉRICA. Sim? Pausa. Um segundo.

10:25 am. Sala.

ÉRICA. É a polícia.

Silêncio.

MANUEL. É sério?

ÉRICA levanta as sobrancelhas. Não responde.

MANUEL. Se não for a polícia eu vou te encher de porrada.

10:26 am. Cozinha.

MANUEL atende o interfone. MATEO, ao seu lado, olha.

MANUEL. Olá? Pausa. Suspira aliviado. Oi, mãe. A ÉRICA. Eu vou te encher de porrada. Volta ao interfone. Não, não você, mãe. Pausa. Que não, que não é você que eu vou encher de porrada, mãe.

10:26 am. Sala.

Toca o telefone.

ÉRICA. Eu atendo.

SOFÍA. Nem pense nisso.

SOFÍA atende. ÉRICA a olha.

SOFÍA. Alô? Pausa. Sim, sou eu.

10:26 am. Cozinha / Sala.

MANUEL. Não, desculpa mãe, mas agora você não pode subir.

SOFÍA. Aonde?

MANUEL. Não, não deixei de te amar, mãe. Você pode deixar de dizer isso?

SOFÍA. Mas puta que pariu. Quem disse isso pra vocês?

MANUEL. Não, a Sofi não tem nada a ver.

SOFÍA. Mas muito menos os peruanos.

MANUEL. Sofi te ama, mãe.

SOFÍA. Eu não odeio eles. Que culpa eles têm?

MANUEL. Não chama ela de “escrota”, mãe.

SOFÍA. Isso aconteceu há cem anos. “Filhos da puta” por quê?

MANUEL. Porque ela não merece.

SOFÍA. São vocês que não merecem.

MANUEL. Nos vemos depois, mãe.

SOFÍA. Tá bem. Como queiram.

10:27 am. Cozinha / Sala.

SOFÍA e MANUEL desligam seus respectivos telefones.

SOFÍA. Problemas com o Chile.

ÉRICA. Com o país?

Pausa. SOFÍA a olha.

SOFIA. Sim, com o país.

ÉRICA. Ah.

MANUEL.Voltando da cozinha. O que aconteceu?

SOFÍA. Trocaram a universidade pelo estádio. Parece que hoje jogam Colo-Colo e Alianza Lima[28] e preferem colocar uma bomba ali e matar peruanos. Que de novo estão perto de uma guerra e que só falta um empurrãozinho. E no estádio mataram Víctor Jara[29], e que eles não esquecem.

MANUEL. Mas Jara foi morto por Pinochet, no Perú.

SOFÍA. Bom, você liga pra eles e explica!

Silêncio.

MATEO. E agora?

SOFIA. Estamos sozinhos.

Silêncio.

MANUEL. Mateo, seu filho se cagou todo.

MATEO. Por que tá dizendo isso?

MANUEL. Tem cheiro.

MATEO. É impossível.

MANUEL. Por que é impossível?

MATEO. Ainda não é a hora da caca.

MANUEL. Tem hora da caca?

MATEO. Claro que tem hora da caca.

MANUEL. Gus caga com horário?

MATEO. Me deixa em paz!

MANUEL. Faz o cheiro desaparecer como um pai normal, caralho!

MATEO. Pode ter sido a Lis.

MANUEL. Lis tá no quarto.

MATEO. Os cheiros viajam pelo espaço.

MANUEL. Viajam da fralda da sua cria até a minha cara, Mateo.

MATEO. Bom, então aguenta!

MANUEL. Troca esse fedelho!

MATEO. Eu sou livre e não troco ninguém.

ÉRICA. Apontando o carrinho de Gus. Manuel tem razão, vem daqui.

MATEO. A ÉRICA. Fofoqueira.

SOFÍA. Tem fralda no nosso quarto.

MATEO. A ÉRICA. Linguaruda.

MANUEL. Mateo.

MATEO. A ÉRICA. Cagoeta.

MANUEL. Mateo.

ÉRICA. Deixa ele. Às vezes mete na cabeça que sou a filha de Amodio Pérez[30].

MANUEL. Você é?

ÉRICA olha MANUEL. Pausa.

MANUEL. Quê? Ninguém sabe onde tá.

MATEO. Todo o mundo sabe que é o Pato Celeste[31].

SOFÍA. Quem?

MATEO. Amodio Pérez.

MANUEL. Do que você tá falando?

SOFÍA. Tá dizendo que Amodio Pérez é o Pato Celeste?

MATEO. Perdi a noção?

SOFÍA. Não pode dizer tudo o que te vem à cabeça, retardado.

ÉRICA.  Se diz “especial”.

MANUEL. Por Gus. Mateo, ou você troca ou eu vomito.

MATEO. A MANUEL. Você é uma menininha. A ÉRICA. Vem. Me ajuda. A última vez que tentei trocar quase lhe amputo as pernas. Indo até o quarto de Manuel e Sofía. A Gus. Vamos ver como é que tá essa caquinha, fedelho.

10:30 am. Quarto de Mateo e Sofía.

MATEO e ÉRICA trocam as fraldas de Gus.

10:30 am. Sala.

MANUEL e SOFÍA ficam sozinhos.

MANUEL. Não comemos nada.

SOFÍA. Que horas são?

MANUEL. Dez e meia.

Silêncio.

MANUEL. É estúpido, não?

SOFÍA. Mateo?

MANUEL. Tudo.

SOFÍA. Ah.

MANUEL. É?

SOFÍA. Quê?

MANUEL. Estúpido.

SOFÍA. Sim.

MANUEL. Assim começa uma revolução?

SOFÍA. É sua primeira vez?

MANUEL. A sua não?

SOFÍA. Tive na Líbia.

MANUEL. Com Kadafi?

SOFÍA. Com Mubarak.

MANUEL. Mubarak é egípcio.

SOFÍA. Também lutei no Cairo.

MANUEL sorri.

MANUEL. E na Síria.

SOFÍA. Óbvio.

MANUEL. E sobreviveu.

SOFÍA. Tô aqui, não tô?

MANUEL. Lis?

SOFÍA. Nasceu depois.

MANUEL. Não, quero dizer como tá.

SOFÍA. Ah. Como sempre.

MANUEL. Chora?

SOFÍA. Não.

MANUEL. Sabiam que tava grávida?

SOFÍA. Quem?

MANUEL. Os sírios, os egípcios, os libaneses.

SOFÍA. Os da Líbia não são libaneses. São líbios.

MANUEL. Sabiam?

SOFÍA. Claro.

MANUEL sorri.

MANUEL. Sabiam que eu era o pai?

SOFÍA. Disse pra eles que era Ban Ki-moon[32].

MANUEL. O da ONU?

SOFÍA. Sim.

MANUEL. Ban Ki-moon é gay.

SOFÍA. Tem filhos.

MANUEL. E?

SOFÍA. Os coreanos podem ser gays?

MANUEL. Todos os asiáticos são gays. Você já viu como eles andam?

SOFÍA. Que seja. Disse que ele era o pai.

MANUEL. E acreditaram?

SOFÍA. Claro.

MANUEL. E você tirou uma teta pra fora e caminhou diante de todos como A liberdade guiando o povo de Delacroix.

SOFÍA sorri.

SOFÍA. Como uma amazona.

MANUEL. Essas não mostram. E ainda falta uma teta.

SOFÍA. Porque mostraram no meio da guerra. Com a Libertade de Delacroix aconteceu o mesmo cinco minutos depois de ter sido pintada. É o que acontece quando você fica pelado e tem balaços por todas as partes. Você perde partes do corpo.

Silêncio.

MANUEL. Sempre quis ter um filho.

SOFÍA. Sério?

MANUEL. Não.

Silêncio.

MANUEL. Dá pra perceber?

SOFÍA. Um pouco.

MANUEL. Me dá um beijo?

SOFÍA. Agora?

MANUEL. Por que não?

SOFÍA. Se você pede permissão não tem graça.

MANUEL. Não tô pedindo permissão.

SOFÍA. Se você pergunta é porque…

MANUEL a interrompe com um beijo.

MANUEL. Viu? Não tava pedindo permissão.

10:33 am. Sala.

MATEO e ÉRICA voltam depois de trocar Gus.

ÉRICA. Tá decidido. Quando eu morrer vou reencarnar no Che Guevara.

Os três a olham.

SOFÍA. O Che Guevara tá morto.

ÉRICA. E?

SOFÍA. Você não pode reencarnar em alguém que tá morto.

ÉRICA. Por?

SOFÍA. Porque tá morto.

ÉRICA. Quem disse?

SOFÍA. Quem disse o quê?

ÉRICA. Quem disse o que você disse?

Pausa.

SOFÍA. Ahn?

MATEO. Eu vou reencarnar em Sandino Núñez.

MANUEL. Que merda você tem com Sandino Núñez?

MATEO. Não grita comigo!

MANUEL. Eu não gritei.

SOFÍA. Bom, chega.

MANUEL. Eu não gritei com ele!

SOFÍA. Por que estamos falando disso?

ÉRICA. Eu gostaria de saber o que pensaria o Che do que vamos fazer.

MANUEL. O Che tá morto.

ÉRICA. Que merda a Bolívia, né?

MATEO. Serve o cantor do Calle 13? Não tenho o número mas a gente pode conseguir.

MANUEL. O do Calle 13 não é o Che.

MATEO. Dá uns aninhos.

ÉRICA. A MANUEL. Traz uma taça.

MANUEL. Pra quê?

ÉRICA. Vira, coloca um dedo em cima e vai ter linha direta com os mortos.

MANUEL. Tá me sacaneando de novo.

ÉRICA levanta os ombros.

MATEO. Ou podemos falar com o espírito de Fidel Castro.

SOFÍA. Fidel Castro tá vivo.

MATEO. Duvidando. Mmm.

ÉRICA. Vai, traz uma taça.

MANUEL. Não vou trazer uma taça.

ÉRICA. Vai, traz uma taça.

MANUEL. Me deixa em paz.

ÉRICA. Vai que eu morro hoje.

MANUEL. E?

ÉRICA. Não quero morrer sem me despedir da minha mãe.

MANUEL. Pra isso não precisa de nenhuma taça. Liga pra ela.

ÉRICA. Minha mãe tá morta.

MANUEL. E se você morrer vão tá juntas em pouco tempo, então não fode.

MATEO. Sua mãe não tá morta.

ÉRICA. Quem é o fofoqueiro agora?

SOFÍA. A MANUEL. Traz a porra da taça pra que fale com o viado do Che, caralho!

ÉRICA. Você chamou o Che de viado?

SOFÍA. Quer a taça ou não?

ÉRICA. Não chama o Che de viado.

SOFÍA. Na minha casa eu chamo de “viado” quem eu tiver vontade.

MATEO. A SOFÍA. Me chama de “viado”.

SOFÍA. Viado.

MATEO. A ÉRICA. Se atreveu, sem mais.

ÉRICA. Não deixa ela te chamar de “viado”.

MATEO. Eu não deixo me chamarem de “viado”.

ÉRICA. Ela acabou de chamar.

MATEO. É diferente.

ÉRICA. E você não faz nada?

MATEO. Não.

ÉRICA. E se eu te chamo de viado?

MATEO. Você não vai fazer isso.

ÉRICA. Viado.

MATEO bate em ÉRICA com o punho. Um golpe seco. Silêncio.

MANUEL. Que que você tá fazendo?

SOFÍA. Érica, tá bem?

ÉRICA. Ha. Voltaram a cair.

ÉRICA bate sua palma com a de MATEO.

MATEO. É tão fácil.

SOFÍA. Era sacanagem?

MATEO. Sorrindo. Sim, claro.

SOFÍA. A ÉRICA. Mas te bateu de verdade.

ÉRICA. E?

SOFÍA. Se te bate de verdade não é brincadeira.

MATEO. Sim, como não?

MANUEL. Não.

MATEO. Não?

SOFÍA. Não, retardado.

ÉRICA. A SOFÍA. Lembra, “especial”.

MATEO. Eu decido quando é uma brincadeira e quando não.

ÉRICA. E nesse caso estamos de acordo.

MATEO. Pra sacanear vocês.

MANUEL. Não entendo.

MATEO. Se a gente se bate estando de acordo não é delito.

MANUEL. O que é?

ÉRICA. Sadomasoquismo.

MATEO. Por exemplo.

ÉRICA. Mesmo que seja de verdade.

MANUEL. À ÉRICA. Érica, você tá sangrando.

ÉRICA. Com um fio de sangue no nariz. E?

MATEO. É sangue, não o código penal.

ÉRICA. Dentro tem mais.

MATEO. Como a baba.

ÉRICA. Sangue, baba.

MATEO. Dá na mesma.

ÉRICA. A gente faz todo o tempo.

MATEO. Eu bato nela. Ela bate em mim.

ÉRICA. E depois rimos.

MATEO. E fazemos amor.

ÉRICA. Às vezes.

MATEO. Outras vezes tô cansado.

SOFÍA. Vocês estão mal.

MANUEL. Muito mal.

ÉRICA. E o quê? Os dementes e os estúpidos não vão pra cadeia.

MATEO. Alguma vez você viu um down preso? Não. E por que isso?

ÉRICA. Porque os downs não são assassinos.

MATEO. São downs. E ponto.

MANUEL. E como funciona isso pra vocês?

SOFÍA. Deixa eles, Manuel.

MANUEL. Não, é que não entendo.

MATEO. A gente pode atuar.

MANUEL. Ou seja, que depois de matar pessoas essa tarde vocês vão se passar por downs.

MATEO. Aham. A ÉRICA. Vai, mostra.

MANUEL. Não precisa.

SOFÍA.  A MANUEL. Traz a merda do copo. Já.

MATEO. Como queiram. Mas nem a Sean Penn sai tão bem.

ÉRICA. A MATEO. Brigada.

MATEO. A ÉRICA. Você nasceu com isso, bebê.

10:38 am. Cozinha.

MANUEL procura um copo.

10:38 am. Sala.

MATEO desocupa a mesinha. ÉRICA recorta os papéis, em um anota “sim”, e no outro “não”. Coloca sobre a mesa.

MATEO. A SOFÍA. Coloca música.

ÉRICA. Isso, ambienta, ambienta.

SOFÍA. O que eu coloco?

MATEO. Deixa comigo.

MATEO vai até o equipamento de áudio e coloca “La bala” de Calle 13.

10:39 am. Sala.

MANUEL volta da cozinha trazendo um copo de plástico vermelho.

ÉRICA. Apontando o copo. E isso?

MANUEL. Não tem taças. E eu achei que o vermelho ia ajudar.

SOFÍA. Olhando algum relógio. A gente não tem muito tempo.

Os quatro se colocam ao redor da mesa. Deixam o copo de plástico vermelho no centro. Os papéis que ÉRICA acaba de escrever, em duas pontas opostas.

MATEO. E agora?

ÉRICA. Colocamos um dedo em cima da taça.

SOFÍA. Copo.

ÉRICA. Copo. E fazemos perguntas.

MANUEL. Mais nada?

ÉRICA. Ou posso dançar pelada uivando pra lua. O que que você tem?

MANUEL.Tava pensando em…

ÉRICA. Não seja imbecil, quer?

MANUEL. Parece estúpido.

SOFÍA. Manuel.

ÉRICA. Pra mim pareceu estúpida a ideia das máscaras e mesmo assim eu fiz.

MANUEL. O lance das máscaras foi ideia do Mateo.

ÉRICA. Não, não foi.

MANUEL. Sim, foi.

ÉRICA. A MATEO. Foi?

MATEO. Sim.

ÉRICA. Sim?

MATEO. Sim, foi.

ÉRICA. Ah. A MANUEL. E?

MANUEL. E o quê?

ÉRICA. Ahn?

SOFÍA. Chega.

Pausa.

MATEO. À ÉRICA. Por que você não gostou da minha ideia?

ÉRICA. Eu queria ser Wakko.

MANUEL. Então o quê? Apontando o copo. Colocamos um dedo em cima?

ÉRICA. Sim.

Os quatro colocam um dedo em cima do copo.

MANUEL. E você acha que assim a gente vai falar com Che Guevara.

ÉRICA. Sacaneando. E você acha que assim a gente vai falar com Che Guevara.

SOFÍA. A MATEO. Não, o médio não.

MATEO. Por?

SOFÍA. É como se você tivesse mandando ele tomar no cu.

MATEO. Ah, desculpa.

MATEO troca o dedo.

ÉRICA. Façam silêncio.

Silêncio.

ÉRICA. Ao teto. Querido Che.

MANUEL. Querido?

Olham-no.

MANUEL. O que é isso, um diário íntimo?

MATEO. “Querido”, eu gosto.

ÉRICA. “Companheiro” me pareceu hipócrita. E “camarada”, um pouco russo.

MATEO.  À ÉRICA. Continua.

ÉRICA. Ao teto. Che.

MATEO. “Amigo”.

ÉRICA. Ao teto. Amigo Che.

SOFÍA. “Amigo Che”? O que que a gente é, uma publicidade de cerveja?

ÉRICA. Ao teto. Che.

MANUEL. Sem nada.

ÉRICA. Ao teto. Che. Sem nada. Che. Viemos pra falar contigo, oh.

MATEO. Não viemos pra falar com ele.

ÉRICA. O que isso tem a ver?

MATEO. Também não precisa mentir.

O copo se move.

ÉRICA. Tá aqui. Eu sinto. Tá aqui.

MANUEL. Como você sabe que é o Che e não Stalin, por exemplo? Porque não é o mesmo.

MATEO.  A MANUEL. Deixa ela terminar.

ÉRICA.  Ao teto. É você, oh, ícone da revolução latino-americana?

SOFÍA. Interrompendo. Por que você olha pro teto? A MANUEL. Por que olha pro teto?

MANUEL. Tá na cuca.

O copo se move até a cartela que diz “sim”.

ÉRICA.  Tá falando.

MANUEL. Érica, você tá mexendo a taça.

SOFÍA. O copo.

MANUEL. O copo.

ÉRICA. Eu não tô mexendo merda nenhuma!

MATEO. Não posso acreditar. Tô falando com o Che.

O copo se move até a cartela que diz “sim”.

ÉRICA. Viu? Não fui eu. Ao teto. Eh… A gente vai te fazendo umas perguntas, sim?

SOFÍA. Por exemplo?

MATEO. Não sei.

ÉRICA. Só podemos fazer três perguntas.

MANUEL. Isso é com o gênio da lâmpada, imbecil.

ÉRICA. Ah, certo.

MATEO. Pra que time você torce?

SOFÍA. Você tá falando com o Che e pergunta pra que time ele torce?

MATEO. Tô nervoso!

SOFÍA. Não grita comigo!

ÉRICA. Não tirem o dedo do copo!

MATEO. Ao teto. Você gosta de Calle 13?

O copo se move até a cartela que diz “não”.

ÉRICA. Disse que não.

MATEO. Levantando da mesa. Esse jogo é uma merda.

ÉRICA. Mateo, volta pra cá.

MATEO. Mas quem ele pensa que é?

SOFÍA. O Che Guevara.

MATEO. Calle 13 é América Latina, titio.

SOFÍA. Calle 13 é de Porto Rico.

MATEO. E?

SOFÍA. Tecnicamente são ianques.

MATEO. Cuidado com o que você fala.

SOFÍA. Não me ameace.

MATEO. Ao teto. E só pra que saiba, você, Che Guevara, depois da sua morte teve ditaduras. Muitas. Terríveis.

MANUEL. Mateo.

MATEO. Ao teto. E ao voltar à democracia tivemos um mix obsceno de leis de caducidade e neoliberalismo que nos fudeu a vida[33].

ÉRICA. O copo, Mateo. Você tirou o dedo do copo.

MATEO. Ao teto. E o açúcar já não é a primeira fonte de renda de Cuba. É o turismo. Chupa essa.

ÉRICA. O dedo, Mateo.

MATEO. Ao teto. E os revolucionários já não usam fuzis. Agora tem microfones. E cantam reggaetón. E Rosario Central teve por três anos na segunda divisão[34]. Otário!

ÉRICA. O dedo, Mateo!

MATEO. Mete em você o dedo no cu!

Silêncio.

ÉRICA. Meto em mim o seu dedo no cu?

MATEO. Não tem sentido, né?

ÉRICA nega com a cabeça.

MANUEL. Tem certeza de que o Che não era de Newell’s?

SOFÍA. Mateo, volta e coloca o dedo em cima da merda do copo.

MATEO. Desculpa.

SOFÍA. Não peça desculpa. Acontece com todo mundo.

MATEO. Como ele não gosta de Calle 13?

ÉRICA levanta os ombros.

SOFÍA. Tenta com a “Internacional”.

MATEO. Você quer que eu cante a “Internacional”?

MANUEL. Por que não?

MATEO. Não lembro a letra.

SOFÍA. Eu te ajudo.

MANUEL. Mas você tem que cantar ao contrário e em castelhano.

MATEO. Não entendo.

SOFÍA. Como o disco da Xuxa[35].

MANUEL. Se você escuta ao contrário tem uma mensagem do diabo.

MATEO. E você acha que se cantar a “Internacional” ao contrário vai ter uma mensagem do diabo?

SOFÍA. Do diabo não, idiota.

MANUEL. Do Che.

SOFÍA. Todo mundo sabe.

O copo se move até a cartela que diz “sim”.

ÉRICA. O copo diz que sim.

MANUEL.      Viu?

MATEO olha pra ÉRICA.

ÉRICA. O quê? Essa vez não fui eu.

SOFÍA. A MATEO. Anota. “Arriba los pobres del mundo”.

MATEO volta a olhar pra ÉRICA.

ÉRICA. Você vai, eu mantenho.

ÉRICA mantém seu dedo no copo vermelho. Os outros tiram.

MATEO. Arriba los pobres del mundo. Escreve em alguma folha e lê. Odnum led serbop sol abirra.

ÉRICA. Sol abirra?

MANUEL. Uma variante de “playa y cerveza”. Evidentemente.

SOFÍA. En pie los esclavos sin pan.

MATEO. Nap nis sovalcse sol eip ne.

SOFÍA. Alcémonos todos al grito.

MATEO. Otirg sodot sonomecla.

SOFÍA. ¡Viva la Internacional!

MATEO. Lanoicanretni al aviv.

SOFÍA. Al aviv?

MATEO. Sim, al aviv.

MANUEL. Isso é árabe.

SOFÍA. Então é uma mensagem de Alá?

ÉRICA. Marx era muçulmano?

MATEO. Marx não compôs a “Internacional”.

MANUEL. Ou de Bin Laden.

SOFÍA. E “lanoicanretni” seria “cuidado con as torres”.

MANUEL sorri. Silêncio.

MANUEL. Podíamos ficar jogando essa bobagem durante horas.

SOFÍA. De quem foi a ideia?

MATEO. A de falar com o Che?

MATEO / ÉRICA. Foi minha.

ÉRICA. Ei.

MATEO. Era isso ou mímica.

ÉRICA. E o valor simbólico hipotético de falar com o Che não teria comparação.

MATEO. Imagina as manchetes: “falam com o espírito do Che Guevara e bombardeiam faculdade”.

ÉRICA. “Fogem em fusca branco que denominam El Granma”.

MATEO. Eu gostei da coisa do copo vermelho.

MANUEL. Tive bem, não?

Os quatro sorriem. Pausa.

SOFÍA. Chegou a hora.

MANUEL. Tragam o Gus. Eu vou buscar a Lis.

MATEO. Ao teto. Che, o de agora… não foi de verdade. À ÉRICA. Pelas dúvidas. Nunca se sabe.

10:44 am. Quarto de Lis.

MANUEL e SOFÍA preparam Lis.

MANUEL.  Você lembra de “Os fantasmas se divertem”?

SOFÍA. O filme de Tim Burton?

MANUEL. Aquele que se você chamasse três vezes aparecia.

SOFÍA. Sim.

MANUEL. Alguma vez pensei que se você dissesse três vezes seguidas “América Latina” Bolívar aparecia.

SOFÍA. E?

MANUEL. Não, nunca apareceu. Uma vez fiz e apareceu Chávez[36] na TV. Mas acho que não é o mesmo.

10:44 am. Quarto de Manuel e Sofía.

MATEO e ÉRICA preparam Gus.

ÉRICA. Aos outros. Mateo pensa que os Reis Magos são o Artigas.

MATEO. Tenho argumentos.

ÉRICA. E todo seis de janeiro fica esperando por ele acordado.

MATEO. Um dia vai aparecer.

ÉRICA. Montado em uma rena?

MATEO. Esse é Papai Noel.

ÉRICA. Quem?

MATEO. O da rena.

ÉRICA. Ahn?

MATEO. Me deixa em paz.

10:45 am. Sala.

Voltam os quatro com Lis e Gus em seus carrinhos.

Olham os bebês em silêncio.

ÉRICA. São muito adoráveis.

Silêncio.

MATEO. Apontando um revólver pra Gus. Passa todo seus dinhero, bolsa de caca.

ÉRICA. Mateo, deixa isso!

MATEO. É seu filho? É seu filho, caralho? Não, não é seu filho. Então me deixa ameaçá-lo de morte em paz. MATEO pega uma granada. É uma merda de jogo, caralho. Tira a trava de segurança e a arremessa dentro do carrinho de Gus. Pro chão!

ÉRICA. Mateo!

MATEO. Rindo. É de brinquedo, idiotas. A Gus. Como ele se diverte com o pai, ahn, bolsa de caca?

MANUEL. Mateo, sai daqui.

MATEO. Brincando. Bum! Ah, tripas de bebê por todas as partes! Ah, tirem de mim, tirem de mim!

Ninguém ri.

SOFÍA. Sério.

ÉRICA. Olhando dentro do carrinho de Gus. Olha, bateu no olhinho dele.

MATEO. A MANUEL. Você tem álcool?

MANUEL. Pro Gus?

MATEO. Pra mim.

MANUEL. Na cozinha.

10:46 am. Cozinha.

MATEO encontra uma garrafa de álcool e toma.

10:46 am. Sala.

SOFÍA. Olhando os carrinhos de bebê. A MATEO. Você fala com eles?

MANUEL. Quer falar você?

ÉRICA. São bebês, mesmo assim não entendem nada.

MANUEL e SOFÍA a olham.

MANUEL. Aos bebês. Fazemos por vocês, sabem? As revoluções não começam matando gente estúpida, mas aos outros, que nem sequer são muitos. Convencer aos demais é fácil, basta oferecer menos impostos e pronto. Não é um argumento forte? Não. Tá bem. Mas pelo menos vai chamar a atenção de alguém. E se não serve pra mudar o mundo, vai servir pra que depois disso tenha que ser mudado. Um país onde acontece algo assim é um país estúpido. E quando aparecer a primeira manchete do estilo “essa sociedade está doente” as pessoas vão dizer, “ei, sim, até hoje pensei que a felicidade era comprar um plasma, demônios, se sigo assim vou acabar fudido como esses moleques de merda que acabam de balear a uma faculdade inteira!” Não é isso o que queremos? Um bom argumento contra a existência de vida inteligente no Uruguai? E mais além também, merda. Em todo o cone sul, pra não dizer no mundo. Depois disso vai chegar o novo homem. A revolução. Coça os genitais. No fundo tudo é pela revolução. Coça os genitais um pouco mais.

ÉRICA. Você tá coçando o saco?

MANUEL. Quê? Não.

ÉRICA. Você tá coçando o saco na frente dos bebês?

MANUEL. Não tô coçando nada, Eri.

ÉRICA. Eu tô te vendo, você tá coçando o saco.

MANUEL.  Pinica. O que você quer que eu faça?

ÉRICA. Aguenta. Ou toma banho com mais frequência. Não coça o saco na frente dos bebês. As pessoas vão presas por isso.

SOFÍA. Vocês odem não gritar?

ÉRICA. Os bebês não escutam.

SOFÍA. Achei que eles estavam se mexendo.

MANUEL. Não, não estavam. À ÉRICA. Eles não reparam que eu tô coçando.

ÉRICA. Mas eu reparo.

MANUEL. E?

ÉRICA. E, o quê?

MANUEL. Ahn?

10:48 am. Sala.

MATEO volta da cozinha.

MATEO. O suicídio coletivo não é uma alternativa, né?

MANUEL. De que caralho você tá falando?

MATEO. Pensava na filosofia estoica.

SOFÍA. E?

MATEO. E tá, não muito mais. Cheguei até aqui com o raciocínio.

ÉRICA. Eu não quero morrer.

MANUEL. Ninguém quer morrer.

Silêncio.

SOFÍA. Mas ninguém quer viver assim.

Silêncio.

SOFÍA. Vocês têm que ir.

MATEO. E vocês?

MANUEL. Em uns minutos.

ÉRICA. Eu quero ir morar no campo.

SOFÍA. Eu também.

ÉRICA. Amo vocês.

MATEO. E as armas?

MANUEL. Vocês levam algumas.

MATEO. Você tem onde colocar?

MANUEL. Tem bolsas de náilon na cozinha.

MATEO. Você quer que eu leve as armas em bolsas de náilon?

10:49 am. Cozinha.

MANUEL pega algumas bolsas de náilon.

MANUEL. É perfeito. Vão pensar que tá vindo do supermercado.

10:49 am. Sala.

MANUEL volta. Entre eles todos colocam algumas armas dentro das bolsas.

SOFÍA. Vão no Fusca?

ÉRICA. No El Granma?

SOFÍA. Esse.

MATEO. Sim.

ÉRICA. Os bebês?

SOFÍA. Ficam aqui.

MATEO. Coloca música pra eles.

MANUEL. Calle 13?

MATEO. O que mais.

Terminam de colocar as armas nas bolsas de náilon.

ÉRICA. Levando alguma bolsa na mão. Isso não é elegante.

MANUEL. O mundo não é. E a gente é o mundo.

Se olham. Se despedem. MATEO e MANUEL se abraçam.

MANUEL. A MATEO. Você é um doente mas eu gosto de você do mesmo jeito.

MATEO. A MANUEL. E eu de você, mas gosto mais da sua mulher.

MANUEL. Sai daqui antes que eu meta uma bicuda nessa sua bunda.

MATEO. Nos vemos no outro mundo.

ÉRICA. Os bebês ficam sozinhos?

SOFÍA. Daqui a pouco vão vir buscá-los.

ÉRICA. Tá bem.

MATEO. À ÉRICA. Vamos?

10:51 am. Sala.

MATEO e ÉRICA saem com as bolsas carregadas de armas. MANUEL e SOFÍA ficam sozinhos. Silêncio.

SOFÍA. Nunca quis ficar velhinha. Primeiro deixa de usar rodinhas na bicicleta e depois já tá tendo filhos.

MANUEL. Posso te dizer uma coisa?

SOFÍA. O quê?

MANUEL. Nunca aprendi a andar de bicicleta.

SOFÍA. Tá de sacanagem.

MANUEL. Não. Nunca.

SOFÍA. Seus pais não te ensinaram?

MANUEL. Estavam ocupados fazendo a revolução.

SOFÍA. Sério?

MANUEL. Não.

Silêncio.

MANUEL. Nunca pensou que foi por você? Que se você nunca tivesse nascido eles poderiam ter mudado o mundo?

SOFÍA. Você acha que a gente tirou o tempo deles?

MANUEL. Algo assim.

SOFÍA. Não.

MANUEL. É estúpido, não?

SOFÍA. Pensar isso?

MANUEL. Sim.

SOFÍA. Sim, é estúpido.

MANUEL. Sim, imaginei. E ainda assim…

SOFÍA. O quê?

MANUEL. Nada. Isso.

Silêncio.

SOFÍA. Que merda a gente tá fazendo?

MANUEL. Não tenho a menor ideia. Você tem medo?

SOFÍA. Sempre tenho medo.

MANUEL. Tá bem ter medo.

SOFÍA. Não tem sentido.

MANUEL. O quê?

SOFÍA. Tudo. Nada.

MANUEL. Não. E?

SOFÍA. O mundo é estúpido e nós somos o mundo.

MANUEL. Agora cabe a eles mudarem tudo. Depois disso deixamos tudo mais fácil.

Silêncio. Olham os carrinhos.

SOFÍA. Coloca música pra eles. Eu ligo a TV.

MANUEL. Mefistófeles?

SOFÍA. O urso?

MANUEL consente com a cabeça.

SOFÍA. No carrinho.

SOFÍA liga a televisão. MANUEL coloca o tema “Vamo’ a portarnos mal” de Calle 13.

MANUEL. As armas.

Guardam algumas armas na roupa.

MANUEL. Me dá um beijo.

SOFÍA. E o que você me dá em troca?

MANUEL. Em troca te dou um beijo.

SOFÍA sorri. Se beijam. Olham os bebês.

SOFÍA. Tão dormindo. Com o que devem estar sonhando?

MANUEL levanta os ombros.

SOFÍA. Vamos?

MANUEL sobe o volume da música.

10:53 am. Sala.

MANUEL e SOFÍA saem.

Os bebês ficam sozinhos, escutando a canção, uns minutos. Então algo muda na tela da televisão. A transmissão é interrompida por um flash informativo ao vivo desde a Faculdade de Humanas. ÉRICA e MATEO aparecem na imagem. Estão disparando. Os estudantes correm. Gritam. O jornalista que cobre a notícia fala sem entender. A imagens se tornam desalinhadas, difusas. Caem alguns feridos. Alguns corpos. Sangue. O jornalista segue falando. O cinegrafista segue mostrando tudo.

10:56 am. Sala.

O cano de uma escopeta começa a surgir de dentro do carrinho de Lis. Aponta ao carrinho de Gus. Um braço de bebê segura a arma. Aperta o gatilho. Uma cartela de “BANG” sai do cano. Segue tocando “Vamo’ a portarnos mal” de Calle 13.

10:57 am. Apagão.

Montevidéu, maio de 2012.

 

Santiago Sanguinetti (1985). Ator, diretor, dramaturgo e professor uruguaio. Formado na Escuela Multidisciplinaria de Arte Dramático de Montevideo e no Instituto de Profesores Artigas com especialidade em Literatura. Recebeu o Premio Nacional de Literatura, o Premio Onetti de la Intendencia de Montevideo, o Premio Florencio de melhor Texto de Autor Nacional e o Premio Molière da Embaixada da França. Suas obras foram encenadas no Uruguai, Argentina, Brasil, Colômbia, México, Estados Unidos, Espanha, Inglaterra e França. Recentemente escreveu e dirigiu o projeto “Trilogia da Revolução”, composto pelas obras Argumento contra a existência de vida inteligente no Cone Sul (2013), Sobre a teoria do eterno retorno aplicada à revolução no Caribe (2014) e Breve apologia do caos por excesso de testosterona nas ruas de Manhattan (2014).

Diego de Angeli é formado em cinema pela PUC-Rio e em teatro pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), integrante da Pangeia cia.deteatro, atua também como roteirista, dramaturgo, tradutor e diretor. Foi curador da programação do teatro da Sede das Cias entre 2013 e 2014. Atualmente é curador do #1MOL — Sede de Portas Abertas. Reside em Buenos Aires, onde é mestrando em dramaturgia na Universidad Nacional de las Artes (UNA).

 

Notas:

[1] Mariano Rajoy (1955). Presidente da Espanha desde 2011.

[2] Angela Dorothea Merkel (1954). Chanceler da Alemanha desde 2005.

[3] Nome do Auditório da Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación (Universidad de la República). Homenagem ao filósofo uruguaio Carlos Vaz Ferreira (1872 – 1958).

[4] Os assassinatos na Escola Secundária de Columbine (Colorado, Estados Unidos) foram realizados por Eric Harris e Dylan Klebold, ambos estudantes da instituição, em abril de 1999.

[5] Instituto Politécnico e Universidade Estatal de Virginia, Estados Unidos (conhecido como Virginia Tech). Foi o lugar do massacre realizado pelo estudante Seung-Hui Cho, em 2007, que provocou a morte de trinta e três pessoas.

[6] Em 19 de março de 2012, Mohamed Merah matou quatro pessoas na escola judia Ozar Hatorah de Toulouse.

[7] Em março de 2011, três supostos militares encapuzados filmaram um vídeo em que, segundo alguns meios de comunicação que tiveram acesso à transcrição do áudio, se anunciavam “operações militares” para assegurar a liberação dos que eles consideravam “presos políticos” (em referência aos militares recentemente condenados por violações aos direitos humanos durante a ditadura). O vídeo nunca se tornou público e as ameaças não se concretizaram.

[8] José Pedro Varela (1845 – 1879). Escritor, jornalista e político uruguaio, responsável pela reforma educativa de 1876 que estabeleceu as bases da escola pública.

[9] “Si nos organizamos cogemos todos”, The party band (Uruguay).

[10] A única imagem publicada do vídeo antes mencionado apareceu na capa do jornal El Observador em 4 de maio de 2011. Nela se via os três supostos militares encapuzados em frente a uma mesa coberta com a bandeira do Uruguai.

[11] O Microfone Echo Mike foi um brinquedo para crianças vendido nos anos noventa com grande êxito no Uruguai. O microfone produzia eco ao cantar com ele. O jingle da publicidade anunciava “Cantar con Echo Mike es de profesional, sional, sional”.

[12] A bandeira do herói nacional José Gervasio Artigas é um dos símbolos pátrios do Uruguai. Composta por três faixas horizontais da mesma largura, a superior e a inferior são azuis, e a do centro, branca; as três estão atravessadas por uma de cor vermelha.

[13] Mateo confunde a Bandeira de Artigas com a Bandeira dos Trinta e Três Orientais, que é outro dos símbolos nacionais do Uruguai. Esta bandeira consta de três faixas horizontais da misma largura, a primeira de cor azul, a segunda branca e a terceira vermelha. Na segunda faixa se lê a inscrição “Libertad o Muerte”.

[14] A camiseta do Club Atlético Bella Vista tem as cores amarela e branca.

[15] Jean-Marie Le Pen (1928). Político francês, fundador do partido de extrema direita Front National.

[16] José Carlos Mariátegui (1894 – 1930), ensaísta peruano e destacado ativista político, fundador do Partido Socialista em seu país e criador da Revista Amauta. Carlos Quijano (1900 – 1984), jornalista e político uruguaio, fundador do Semanário Marcha.

[17] Banda porto-riquenha de rap alternativo formada por René Pérez e Eduardo Cabra.

[18] Sandino Núñez (1961). Licenciado em Filosofia, ensaísta e docente uruguaio. Roteirizou e conduziu o ciclo televisivo Prohibido Pensar, transmitido pela TNU — Televisión Nacional del Uruguay, entre 2009 e 2010.

[19] É conhecido como Estalinho o pequeno e inofensivo elemento pirotécnico para crianças que produz um som mínimo ao ser lançado contra o chão. No Uruguai é chamado de Chaski Boom e começou a ser utilizado nos anos 80.

[20] O dueto argentino de rock Sui Generis era formado por Charly García e Nito Mestre.

[21] Silvio Rodríguez (1946). Cantor-compositor (Cantautor) cubano, expoente da Nueva Trova.

[22] Cabo Polonio, pequeno balneário dentro do parque nacional de mesmo nome no departamento de Rocha, Uruguai.

[23] Em 9 e 10 de fevereiro de 1973, o Exército e a Força Aérea divulgam por cadeia de rádio e televisão os comunicados 4 e 7 em que repudiam a nomeação do general Antonio Francese como Ministro de Defesa, e emitem uma opinião política sobre a situação do país. Este ato de insurgência é entendido por muitos como o começo da carreira até o golpe de Estado, que vai se concretizar em 27 de junho do mesmo ano, quando as Forças Armadas, em conivência com o então presidente Juan María Bordaberry, dissolvem as câmaras.

[24] Jorge Pacheco Areco (1920-1998). Presidente da República entre 1967 e 1972. Seu período se caracterizou por um forte autoritarismo e pela repressão, além do uso permanente das Medidas Prontas de Segurança (recurso constitucional de exceção por meio do qual se suspendem determinadas garantias dos cidadãos).

[25] Armin Schlaefrig foi um docente de filologia clássica, grego e latim nascido na Áustria. Chegou à Montevidéu escapando do regime nazista. Uma sala da Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación leva seu nome.

[26] TNU — Televisión Nacional de Uruguay é o canal estatal do país que iniciou sua transmissão em 1963.

[27] Bairro de Montevidéu localizado ao noroeste da cidade.

[28] Equipes de futebol do Chile e do Peru, respectivamente.

[29] Víctor Lidio Jara (1932 – 1973). Cantautor chileno, membro do Partido Comunista. Assassinado no Estádio Nacional de Santiago, que hoje leva seu nome, poucos dias depois do golpe militar de Augusto Pinochet.

[30] Héctor Amodio Pérez foi dirigente do Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros, acusado de colaborar com os militares que asseguraram sua liberação e considerado como um traidor dentro da organização. Seu destino foi desconhecido até metade de 2013, momento em que reaparece por meio de cartas enviadas supostamente da Espanha a distintos meios de comunicação.

[31] Mascote da seleção uruguaia de futebol.

[32] Ban Ki-moon (1944). Secretário Geral da Organização das Nações Unidas desde 2007.

[33] A Lei de Caducidade da Pretensão Punitiva do Estado foi aprovada em 1986, um ano depois de concluído o governo de fato, e assegurou a impunidade para os responsáveis dos abusos cometidos durante o regime militar. A lei se mantém vigente até a data.

[34] A cidade de Rosario, Argentina, que foi o lugar de nascimento de Ernesto “Che” Guevara, conta com dois times de futebol: Rosario Central e Newell’s Old Boys. O primeiro, com o qual Che simpatizava, perde a categoria em 2010 se mantendo na Segunda Divisão (Divisional Primera B Nacional) até 2013, ano em que garante novamente a ascensão.

[35] Maria da Graça “Xuxa” Meneghel (1963) é uma cantora, atriz e apresentadora de televisão brasileira. Conduziu vários programas de televisão para crianças nos anos 80 e 90.

[36] Hugo Rafael Chávez Frías (1954 – 2013). Presidente da Venezuela de 1999 até o ano de sua morte.

Notes

Newsletter

Edições Anteriores

Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

Edições Anteriores