Poesia e literalidade no espaço cênico

Crítica da peça A mecânica das borboletas, de Walter Daguerre

25 de janeiro de 2012 Críticas
Foto: Divulgação.

A mecânica das borboletas é um espetáculo revestido de camadas referenciais e metafóricas. Enquanto o dramaturgo Walter Daguerre brinca com possibilidades de criar, no âmbito textual, situações cênicas sustentadas pela poesia e pela literalidade no conflito entre duplos (dois irmãos, duas formas de encarar o mundo, duas maneiras possíveis de leitura dos símbolos), a direção de Paulo de Moraes opera, no desvelamento gradativo dos signos visuais, a estabilização de uma assinatura estética, possibilitando ao espectador que acompanha a trajetória do diretor em seus últimos trabalhos, o reconhecimento estilístico dos efeitos produzidos por suas escolhas junto aos demais elementos materiais da representação.

Fazendo uma primeira sondagem do texto, começando pela provocação que dá nome ao espetáculo, e recorrendo aos manuais automotivos para tentar organizar o raciocínio, visto que o meu instrumental teórico para discorrer sobre motores é deficiente, podemos entender que a borboleta em questão é uma peça que regula a velocidade de um veículo. Logo, esse elemento pode impedir sua aceleração ou simplesmente o deslocamento do mesmo, caso seja detectado um problema de funcionamento. Seu mecanismo é de controle, ou seja, dependendo da maneira como é acionado, libera certa quantidade de ar para ser misturado ao combustível. Ela é uma peça de engrenagem metalizada. Fora do automóvel, possui um aspecto frio. A borboleta possui nesse sentido uma acepção bruta, nada poética, como se pudéssemos visualizar o substantivo escrito à graxa, com um peso que difere totalmente da leveza com que imaginamos, assim que ouvimos falar, o nome do voador que se alimenta do néctar das flores.

Nessa cadeia, o jogo entre peso e leveza, frustrações e alegrias, prisão e liberdade, significante e significado são elementos que possibilitam o desencadeamento do conflito dramático, provocado pelo retorno de um “morto”. Rômulo, interpretado por Eriberto Leão, indivíduo que “botou o pé na estrada” e que regressa ao lar depois de uma ausência de vinte anos sem dar notícias de vida, reencontra a casa sob a liderança de seu irmão gêmeo, Remo, interpretado por Otto Jr, mecânico casado com Liza, vivida por Ana Kutner, veterinária e antiga namorada do irmão fugitivo. O trauma causado pela fuga trouxe como consequência a morte do pai e aciona em Rosália, a mãe dos gêmeos interpretada por Susana Faini, problemas de cunho psicológico. O autor prioriza a forma convencional de exposição das ações para retratar, no espaço cênico, as angústias de seus protagonistas, que vivenciam situações limites, expondo a brutalidade das relações como consequência de escolhas pessoais (não) tomadas, onde a fuga, a insatisfação, o medo, a loucura e a ousadia criam densa atmosfera no palco e abalam os alicerces de uma convivência tranquila e pacífica.

O cenário do espetáculo, elaborados por Carla Berri e Paulo de Moraes é cindido entre o jardim, o interior da casa e a oficina mecânica onde Remo passa a maior parte do tempo consertando carros e montando, peça por peça, sua Harley Davidson. Nessa conjugação de espaços, a convivência entre eles é pouco favorável à expressão de emoções mais ternas e acolhedoras, como seria de praxe no interior de um ambiente familiar. Essa sensação é provocada na medida em que os próprios personagens verbalizam desejos pessoais insatisfeitos, como é o caso de Liza e Remo, casal cuja sintonia é fragilizada sempre que discutem projetos em comum, ora de montar um negócio próprio, ora de ter filhos. É como se o sentimento de nítida infelicidade do casal pulverizasse, na atmosfera do lugar, doses nada homeopáticas de amargura. Com o agaravante do desequilíbrio da mãe, o retorno repentino do irmão gêmeo e a presentificação de uma memória afetiva do passado que não o pertence, quando Lisa e Rômulo foram namorados na juventude, as angústias de Remo tomam outra dimensão e as frustrações que carrega consigo explodem em violência.

Rômulo e Remo representam, nesse sentido, a fragmentação de instintos humanos em seu estado puro. A princípio, as dramaturgias produzidas para o gênero televisivo esgotaram, o quanto puderam, temáticas que evidenciam diferenças de caráter entre irmãos, provocando todo conflito familiar. Não é esse o aspecto primordial de discussão que o texto de Daguerre procura levantar. O que fica claro e mais do que legível é que, sem apelar para um maniqueísmo que estrutura e identifica a superficialidade das circunstâncias dadas, ele deixa entrever, inclusive no próprio programa do espetáculo, que aqueles dois irmãos habitam ao mesmo tempo um mesmo espaço psíquico, e que só foram separados por mero pragmatismo: Enquanto o primeiro dos gêmeos materializa o estado inquieto do indivíduo, ávido pela aventura, que alimenta no espírito o anseio pelo desconhecido e toma como meta de vida desbravar caminhos mais extensos, o segundo representa o repouso, a segurança e a estabilidade, porém, carrega consigo o ônus das decisões tomadas e que foram se desgastando com o passar do tempo. A chegada de Rômulo traz para o primeiro plano das figuras em cena algo como um ponto zero, como se fosse possível, a partir de sua repentina presença, rever toda uma vida e operar novas escolhas.

A borboleta expressa, nesse contexto de transformação, metamorfoses de sentido. A falta do objeto produz ansiedade por parte de Remo e medo por parte de Lisa. A personagem sabe que a borboleta é o último estágio que falta para a moto cumprir com sua função de “voar”, de sair do “casulo” da oficina mecânica. Por esse motivo, ela teme pelo pior, teme pela concretização do desejo do marido, repetindo as ações de seu irmão e deixando-a sozinha. Ela, que, assim como o Remo, deixou-se estagnar no lugar onde mora e trabalha.

A direção de Paulo de Moraes maneja, no espaço de atuação, o desvendar dos signos escondidos na atmosfera escura do palco, forjando efeitos de luz e som para conseguir alcançar graus variados de impacto e de profundidade emocional, evidenciados pelo texto. O espectador que está acostumado à gramática cênica do diretor vai se identificar com o resultado plástico elaborado por sua equipe de criação, que privilegia um tempo lento na modificação de climas. Contribuem para tal os feixes de luz, pensados por Maneco Quinderé, que vão desvendando, aos poucos, os signos dispostos no palco, e a trilha sonora, de autoria de Ricco Viana, que atua no instante silencioso das falas, reiterando um adensamento poético do espaço auditivo.

A mecânica das borboletas incide sobre o conflito humano diante de escolhas e prioridades às vezes contraditórias. É na insatisfação dos sentimentos que habitam o interior do indivíduo que reside a necessidade de rever ações, criar deduções e harmonizar os desejos que se contrapõem.

Pedro Allonso é ator e bacharel em Teoria do Teatro pela UNIRIO.

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