A incomunicabilidade entre pai e filho

Crítica da peça infantil O Homem que amava caixas

26 de abril de 2011 Críticas
Foto: Jackeline Nigri.

O Homem que amava caixas (The Man Who Loved Boxes), texto do autor australiano Stephen Michael King – em cartaz no Teatro OI FUTURO Ipanema-, é a concretização de um desejo artístico do bonequeiro e ator Márcio Nascimento (integrante da criativa Cia Pequod, que encontrou na inquieta Cia. de Teatro Artesanal a parceria ideal para a realização deste sonho delicado e singular). A Artesanal, que já vinha pesquisando e dialogando nestes últimos três anos sobre as diversas formas de expressão do fazer teatral para a infância e juventude, sendo a mais recorrente o uso de bonecos em cena, na técnica de manipulação direta (dois exemplos disso são as encenações de A lenda do príncipe que tinha rosto, 2009, e O teatro da grande marionete, 2010), procura aliar o universo mágico dos títeres com a tradição mais original do teatro feito por atores de carne e osso. Integrando esses dois mundos em diversos formatos da técnica de manipulação direta entre bonecos e atores, atores e máscaras, atores que assumem o estado de boneco, eles não deixam também de dialogar com o cinema, uma das maiores características da Cia, que tem um admirador e estudioso da sétima arte à frente da direção dos espetáculos.

Gustavo Bicalho, diretor e criador da Cia, junto com Henrique Gonçalves, já flerta com os bastidores do cinema há pelo menos uma década. A criação de planos, a simultaneidade de ações, os quadros enquadrados, a música ambientando e pontuando as ações, e o claro e escuro denunciam também a predileção de Bicalho pela estética do cinema expressionista alemão do pioneiro austríaco Fritz Lang (imortalizado pelo contundente Metropolis, que aborda o sentimento de humanidade perdido no processo de automação através da relação entre as máquinas e os trabalhadores, que tanto influenciou Luis Buñuel, Orson Welles, Alfred Hitchcock, entre muitos outros cineastas modernos e contemporâneos). Entretanto, é muito curioso o processo de trabalho da Artesanal, conforme o seu próprio nome diz: ao mesmo tempo que é empregada sofisticação tecnológica, vemos também um trabalho de artesãos muito forte e autoral, no qual quase tudo é construído “manualmente” por Gonçalves, que cria com minúcias, e materiais diferenciados e criativos, cenografias, adereços e figurinos para todos os espetáculos da Cia.

O Homem que amava caixas é a adaptação teatral de um livro de muitas imagens, e com pouco texto, que conta a história de um pai apaixonado por caixas, de todos os tipos e tamanhos, e de sua difícil relação com o seu único filho. No livro, como no espetáculo, não temos a figura materna, mas apenas as do pai, filho e cachorro; e de algumas poucas personagens. Toda uma linhagem masculina. Todos vivem na mesma casa, mas parecem habitar mundos distantes: o pai na sala e em seu “gabinete” criativo – uma boa referência também ao filme mudo e expressionista (com deformações visuais e ambiente gótico) O gabinete do Doutor Caligari, dirigido pelo alemão Robert Wiene; o filho no quarto e o cachorro no quintal. Todos os espaços são claros e delimitados. O menino, com as suas coisas de menino, brinca de vez em quando com o seu cachorro e adora soltar pipas. O pai vive uma vida rotineira, repetindo sempre o seu ritual cotidiano, enquanto coleciona a cada dia mais caixas em seus mais diferentes formatos e estilos. Caixas que se transformam em múltiplas funções. Na verdade, o pai está sempre comprando brinquedos, que sempre devolve aos vendedores, porque o que lhe interessa é apenas ficar com as caixas. Outro traço do caráter do pai é que ele não se relaciona bem com animais. E, assim, os dias vão e vem, e nada parece se modificar neste painel, até que, de repente, algo acontece ao menino que faz com que a percepção de seu pai seja colocada à prova. As diferenças entre eles começam então a ficar transparentes e interagem com qualidades díspares.

A parceria da Artesanal com Nascimento foi certamente fundamental para o entrosamento e o amadurecimento da Cia. nesta união entre o teatro de animação e o teatro de atores. Nascimento é também o responsável por imprimir todas as qualidades relativas ao bom uso da linguagem cênica no teatro de títeres. Ele tem enorme bagagem nessa área de atuação – em que realiza muitos trabalhos diferenciados com a Cia Pequod, referência mundial no assunto -, assinando assim com propriedade toda a direção de movimento dos bonecos e a preparação dos atores. Desta maneira, os atores se revezam com inteligência cênica na atuação e manipulação direta, onde são, em momentos intercalados, personagens e os próprios títeres, também em formas variadas. A direção de Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves é de extrema fidelidade ao livro e se guia em reproduzir com organicidade as personagens, caracterizações, ambientação e ações apresentadas no original.

Outros parceiros da Cia. colaboram também com a construção deste instigante mundo imagético e sensorial: Daniel Belquer na música original e na sua pesquisa de desenho de som com intervenções e repetições melódicas, e Jorginho de Carvalho, no ambiente emocionalmente frio no desenho de luz verde. Todo o espetáculo é realizado com pouquíssimo texto e alguns expedientes são utilizados para que conexões sejam feitas entre o público e o universo minimalista da cena: contribuições de um rádio, sons ininteligíveis e onomatopeicos dos atores e pequenas canções; sendo que uma delas – cantada pelo pai – revela em profundidade o devir de todas as coisas, conceito filosófico que quer dizer: tudo está sempre em movimento. Diz a letra: – “vento vem…vento vai…vento vem…vento vai…” E, assim, pai e filho seguem aparentemente os mesmos, mas as emoções que correm em seus corpos e cérebros e que escorrem em suas veias também vão e vem…vem e vão… nada nunca permanece igual para sempre…

Referências bibliográficas:

SCHÖPKE, Regina. Matéria e Movimento – A ilusão do tempo e o eterno retorno. Editora Martins Martins Fontes – 2010.

ROBINSON, David. O Gabinete do Dr. Caligari. Editora Rocco

LANG, Fritz. Metropolis. Editora: Faber and Faber uk.

Ricardo Schöpke é crítico de teatro infantil e juvenil do Jornal do Brasil, encenador da Cia Boto-Vermelho, cineasta, presidente da RENATIN Rio de Janeiro (Rede Nacional de Teatro Infantil) e curador internacional da FITA.

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