Otro [ou] Weknowitsallornothing [ou] Ready To

Tradução de Daniele Avila Small da crítica do espetáculo do Coletivo Improviso

17 de junho de 2010 Traduções
Foto: divulgação

O trabalho experimental do Coletivo Improviso é tão profusamente multifacetado que desafia sua própria definição, até mesmo num mundo de performances interdisciplinares. Fundado por Enrique Diaz em 1998, o coletivo de nove dançarinos, atores, músicos e um videoartist, existe para facilitar encontros criativos entre artistas de tão variadas disciplinas e formações, para providenciar um espaço comum de oficinas, aprender uns com os outros, pesquisar potenciais novas formas de codificar material e engajar os espectadores. O resultado é uma cornucópia vibrante de movimento, imagem, som e texto, cintilante de sensualidade, riso, ironia e compaixão. Confesso que eu fiquei tão encantada, que fui ver duas vezes. O espetáculo acolhe o espectador com calor e generosidade, faz com que ele vá de encontro a uma exposição enérgica e ricamente texturada da fragmentação e da confusão humanas, para deixar a todos com uma profunda sensação de que tudo está conectado. Cada indivíduo também é uma molécula numa entidade vasta, orgânica e cósmica.

Otro [ou] Weknowitsallornothing [ou] Ready To é o fruto de uma série de residências com artistas de fora do coletivo e projetos de pesquisa que culminaram num longo período de improvisação e discussão. O espetáculo é sobre os indivíduos que vivem na ampla conurbação que é a sua cidade, o Rio de Janeiro. Da mesma maneira, o espetáculo é sobre a própria pesquisa, o fascínio deles pelos estranhos que viram de longe, seguiram, ou com os quais conversaram nas suas viagens pelas ruas da cidade, em passeios de ônibus e de táxi, de barca, em bares e outros espaços públicos. Em larga medida, é sobre a dificuldade de encenar tal diversidade, sobre transformações, acontecimentos imaginados, o mágico “e se”e as perguntas, algumas desconfortáveis, que surgem através de uma tentativa de incorporar o outro. Em uma de suas muitas camadas, Otro é uma performance sobre performance e o próprio processo criativo.

O título da produção é bem escolhido. O Coletivo Improviso embarcou neste projeto através de um desejo consciente de descobrir alguma coisa sobre a nossa noção contemporânea de identidade. A definição da nossa própria singularidade é dada pela alteridade, mas o que realmente sabemos sobre todos aqueles outros que se misturam à nossa volta todos os dias, aqueles que passam apressados e desapercebidos, ou que permanecem, por uma razão ou por outra, invisíveis ao nosso radar pessoal? Nos últimos sessenta e poucos anos tem acontecido um movimento migratório sem precedentes pelo planeta, de povos que vão de um continente para outro, de indivíduos e famílias que vão de ambientes rurais para ambientes urbanos. A maior parte da humanidade vive agora em uma ou outra megalópole que se esparrama; sejam elas caldeirões agregadores ou enclaves culturais excludentes, ambientes civilizantes ou hospitais psiquiátricos improvisados, nossa cidades cresceram quase além da nossa capacidade de compreensão. E as nossas identidades agora se definem tanto pelas nossas paisagens urbanas quanto pela nossa própria noção de eu, por como nos definimos e somos definidos pelo “outro”.

O coletivo se pôs a investigar este fenômeno dentro da paisagem urbana tendo uma série de estruturas teóricas como ferramentas de busca para agregar material: eles se movimentaram pela cidade como flâneurs, com o aleatório e o inesperado se amalgamando numa espécie de lógica por meio de sistemas randômicos de organização – uma cor, por exemplo; eles seguiram a metodologia de criação de Sophie Calle para engendrar encontros; criaram microdocumentários ou biografias imaginários, e induziram uma dramaturgia que mistura realidade e imaginação para alcançar questões seminares.

O resultado deste extenso comprometimento transcende a mera cartografia humana do Rio; é um microcosmo da metrópole global do século XXI, uma multidão matizada de vidas diversas, uma babel de linguagens e de vozes, e uma caos que mal se contém. Procurando fazer justiça a essa multitude, eles transcenderam as inadequações do teatro ao ilustrar seu poder, sua habilidade para abrir as portas da percepção. Shakespeare disse, “O mundo inteiro é um palco”, mas somos capazes de encenar o mundo da humanidade do século XXI em todos os seus aspectos? Somos capazes de encenar tão vasta coleção de realidades individuais interiores? Ou, até mesmo as exteriores, com todas as suas aparências e mutações sociais? Podemos encenar todas as contingências aleatórias e viradas da fortuna? Tal recompensa só se conquista se o espetáculo tiver o poder de desatrelar a imaginação. O Coletivo Improviso tem tudo isso numa casca de noz ou, como diria William Blake, “Ver um mundo em um grão de areia, e um céu numa flor selvagem, é ter o infinito na palma da mão, e a eternidade em uma hora”. Ou, neste caso, em uma hora e vinte minutos.

Este é um feito digno de nota e que foi conquistado pelo espírito de grupo que está por trás de todas as práticas colaborativas. E a participação do espectador também é essencial. O espetáculo começa com uma atriz imaginado um lugar: há uma montanha ali, ela nos diz, olhando para cima como se visse a montanha com os olhos da mente. Ela continua relatando a sua visada de uma paisagem com a lua, um interior, duas pessoas apaixonadas, imaginando uma a outra, sentindo falta uma da outra, perdendo uma a outra, ou, será? Será que eles realmente se conhecem? Eles imaginam “o outro”, o desejado? Ela direciona a nossa imaginação somente até determinado ponto e deixa o resto conosco. Como deve ser.

O que se segue nos introduz a personagens que foram criados e ao processo de criação, ao diálogo, ao solilóquio, ao movimento, enquanto os dançarinos procuram a forma mais apropriada de expressar emoções, atores experimentam chapéus engraçados, e histórias são contadas por perspectivas múltiplas. Assistimos a ação em vídeo, que parece objetivar, mas que no entanto abre aos espectadores sua própria janela subjetiva na ação e, enquanto isso, os personagens no vídeo estão falando no palco, pessoalmente, sobre o que estava acontecendo no vídeo, outros atores fazem comentários, um deles explica para o público o que estava acontecendo em francês, enquanto os outros estão falando português. Em muitos aspectos, Otro é sobre perspectivas, a inviabilidade da objetividade, de conhecer o “outro”, sobre as formas com as quais nos olhamos uns aos outros de um ponto de vista subjetivo.

A dança era linda, absurda, desafiadora, muitas vezes engraçada. A coreógrafa Cristina Moura (que trabalhou com o Les Ballets C de la B de Alain Platel) entrou para o Coletivo em 2004 e carrega o movimento de um ecletismo rico. Os dançarinos se debatem lutando com o sofrimento de paixões fortes, às vezes cômicas, cambaleiam como bêbados e paraplégicos, projetam imagens corpóreas com movimentos ritualizados. Um homem nu está de pé no centro do palco: outros atores dão sugestões. Talvez ele esteja bêbado e murmurando alguma coisa por sobre o vômito; talvez ele esteja apaixonado, ele tem uma tatuagem com o nome Katia no braço. O ator anda até o homem nu e escreve Katia no seu braço com uma esferográfica. “Você tá bem? Quer que eu chame um táxi?” Outra atriz vai até ele para dar continuidade à improvisação. Eles discutem a situação em que o homem se encontra e o que pode ter acontecido com ele. Em determinado momento, o homem nu começa a dançar, uma dança bizarra, que parece butoh, uma dança báquica, como um sátiro ou um fauno.

O diretor e ator Enrique Diaz co-fundou sua primeira companhia de teatro quando tinha apenas 18 anos de idade. No último quarto de século, ele dirigiu obras clássicas e contemporâneas, colocando a presença física do ator no primeiro plano da sua prática. Improvisação e multidisciplinaridade são igualmente centrais para o processo criativo. Compartilhar o processo criativo também é uma forma de construir novas relações com o público. Sua adaptação de Shakespeare Répétition.Hamlet [Rehearsal.Hamlet] [Ensaio.Hamlet] ganhou o Prêmio da crítica Francesa de Melhor Espetáculo Estrangeiro de 2005-2006. Sua Seagull-Play [Gaivota] também foi aclamada na Europa.

Otro se passa num espaço de ensaio; pedaços de vinil colorido desenham uma área de jogo, cadeiras, adereços e instrumentos musicais delineiam as laterais, um refrigerador de água e um quadro-negro de anotações indicam a realidade cotidiana do local de trabalho de um ator, um telão para os vídeos preenche a parede de fundo. Enquanto os atores atravessam o espaço em diversas configurações e estados de absorção em seu material, ignorando uns aos outros, experimentando alguma coisa, unindo-se para improvisar uma cena juntos, ou ensaiando uma sequência de movimentos, eles nos transportam por fronteiras entre o real e o ilusório, por camadas de mundos imaginários que estão sendo ensaiados, no Rio, nos personagens, nos atores. Um carrinho de controle remoto pode ser uma metáfora para uma consciência pesada; uma sequência de dança com uma cadeira pode se tornar uma metáfora para um condicionamento social, que depois se torna uma brincadeira, enquanto o resto do elenco parece aderir vacilante com objetos espúrios, adereços bobos e movimentos desengonçados. A música e o som compõem a atmosfera. E o vídeo criado por Felipe Ribeiro segue a trajetória do espetáculo com material de pesquisa e de ensaio, indo do estilo de documentário às artes visuais, como em determinado momento, quando Enrique Diaz lê um longo texto, com notas e observações, acompanhado pelas imagens de Ribeiro. Todo o espetáculo é levado de súbito para um outro plano de profundidade filosófica e tudo se encaixa em seu lugar.

Otro [ou] Weknowitsallornothing [ou] Ready To é “poesia em movimento”.

Informações sobre futuras temporadas no site do Coletivo Improviso http://impromptucoletivo.wordpress.com/

Leia o texto original de Jackie Fletcher no The British Theatre Guide: http://www.britishtheatreguide.info/articles/300510a.htm

Leia também a crítica de Daniele Avila das peças Otro e Vida:  http://www.questaodecritica.com.br/2010/05/nome-danca-espaco-alteridade-autoria/

Vol. III, nº 22, junho de 2010

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