Convite à cumplicidade

Crítica da peça Negrinha, com Sara Antunes, dirigida por Luiz Fernando Marques

10 de março de 2009 Críticas
Atriz: Sara Antunes foto: Adalberto Lima

Está de volta ao Rio o monólogo Negrinha, que fez curta temporada na sala Multiuso do SESC em 2008. Agora em cartaz no Casarão Austregésilo de Athayde, a peça se encaixa numa outra realidade da produção teatral carioca: os espaços pouco convencionais demoram um pouco pra formar público. O SESC é uma oportunidade segura para a visita de produções de fora da cidade, tendo em vista que o espaço já tem o seu público cativo. No entanto, nem sempre o público do SESC é o público certo para a peça que vem de fora, e nem sempre o espaço é o ideal. No caso de Negrinha, o Casarão pode ser uma opção mais interessante para o espetáculo, especialmente se levarmos em conta as opções de espaço cênico que o grupo tem feito para o seu repertório. Espetáculos como Hygiene e Hysteria, do Grupo XIX de Teatro, dirigido por Luiz Fernando Marques, diretor de Negrinha, foram concebidos para se apresentarem fora das salas de espetáculo, em locações com características específicas. Mesmo que Negrinha possa ser apresentada em qualquer sala, a arquitetura do Casarão contribui de maneira determinante para a ambientação da peça e para a relação de proximidade e descontração que esse trabalho parece propor.

Negrinha é a menina que foi criada e abandonada num casarão – ou numa Casa Grande. O texto, escrito por Sara Antunes, atriz que faz o monólogo, não é simplesmente uma adaptação do conto homônimo de Monteiro Lobato; mas parece ser mais uma apropriação do personagem e da situação, que servem como ponto de partida para a criação de um texto que é ao mesmo tempo autônomo e fiel ao conto de origem. Embora seja menos cruel no tratamento da personagem. A peça não imprime um peso sobre o tema da escravidão ou do abandono, mas nem por isso anula a sua gravidade.

A cena acontece num espaço pequeno, que acomoda o público em cadeiras antigas ou em esteiras, formando uma espécie de arena que, apesar da circularidade, sugere uma organização bipartida do espaço – não entre a cena e o público, mas entre o público sentado nas cadeiras antigas e o público sentado nas esteiras que estão no chão. Não se trata de uma denúncia explícita da segregação, mas de uma presença da memória da segregação: é uma sutileza da direção de arte de Renato Bolelli Rebouças e da direção de Luiz Fernando Marques, que dão à cena um apuro visual sem espetacularidade.

À luz de velas, o espaço ganha ares fantasmagóricos, formando imagens imprecisas. O foco fica sempre instável: a movimentação das velas nas mãos da atriz, o acender e apagar delas em diferentes pontos do espaço e a aparência mesma da chama, inconstante por natureza – tudo isso reflete o vaivém da dramaturgia. O texto conta uma parte da história da Negrinha, mas seguindo os estímulos associativos da memória, que pode ter uma cronologia própria. Além disso, essa opção de iluminação homogeniza um pouco as cores, o que contribui para a discussão que está em jogo. A atriz, branca, faz uma personagem negra. Os espectadores, cujas cores ficam parecidas na penumbra, recebem nomes de cores que não são de pele: cor de leite, cor de banana, esverdeado – no entanto, vale frisar que, por mais improváveis que sejam, estas cores determinam a individualidade de cada um no imaginário da Negrinha.

Do lado de fora da sala que abriga o espaço cênico, na ampla varanda do casarão, está uma pequena coleção do material de pesquisa, das referências visuais mais variadas, desde gravuras de crianças escravas até algumas texturas que remetem à plasticidade doméstica da cenografia. Essa espécie de memorabilia do processo criativo, ao revelar algumas pistas dos procedimentos da montagem, acaba por tornar o público mais comprometido, mais próximo. O convite à cumplicidade, que orienta a atuação de Sara Antunes, se consolida nesse gesto final da montagem.

Site do Grupo XIX de Teatro, do qual os artistas criadores deste espetáculo fazem parte: http://www.grupoxixdeteatro.ato.br/

Vol. II, nº 13, março de 2009

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