‘performance’

Acidentes poéticos na topografia carioca

Crítica da performance O Confete da Índia, de André Masseno

Vol. VII, nº 62, junho de 2014

Resumo: Este artigo analisa a performance O Confete da Índia, de André Masseno, focalizando seus deslocamentos de tempo e espaço, que reconfiguram a percepção de uma topografia poética no Rio de Janeiro. Atravessada pelo contexto social e cultural do desbunde, nos anos 1970, pela atuação de ícones das linguagens musical, teatral e fotográfica, a performance relê tais referências, trazendo à cena contemporânea uma proposição singular: o desbunde num mundo sem desbunde.

Palavras-chave: êxtase, corpo, desbunde

Abstract: This article analyzes the performance O Confete da Índia, by André Masseno, focusing their time and space dislocations, which refigure the perception of a poetic topography in Rio de Janeiro. Crossed by the social and cultural context of the desbunde era, in the years 1970, by acting icons of musical, theatrical and photographic languages, the performance reread such references, bringing to contemporary scene a singular proposition: the desbunde era in a world without desbunde.

Keywords: extasis, body, desbunde

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O Ritual-Exposição como recurso performativo autobiográfico

Texto sobre a performance Ascendência-Imanência-Transcendência

Autor: Marcelo Asth

Ritualização de si. Foto: Tania Alice.

O Ritual-Exposição: Ascendência-Imanência-Transcendência foi uma ação ritualística em homenagem aos antepassados, aos ancestrais. A ação foi realizada no dia 11 de março de 2014, exatamente no aniversário de um ano de falecimento do meu avô materno. O ritual foi iniciado em uma aula da pós-graduação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), na disciplina intitulada Arte Relacional como Revolução dos Afetos – ministrada pela professora e performer Tania Alice. Esta disciplina propõe discutir e experimentar, de forma teórico-prática, a performance como potencializadora de afetos, numa dimensão espiritual da existência, através de uma abordagem ativa e crítica do conceito de Estética Relacional (BOURRIAUD, 2009) e da discussão de projetos de ASE (Socially Engaged Art – Arte Socialmente Engajada) (1). A disciplina também propõe discutir o conceito de ecosofia – proposta do livro As Três Ecologias (GUATTARI, 1990). Continuação »


Homem Piano – uma instalação para a memória

Texto sobre o processo de criação da montagem da CiaSenhas de Teatro, de Curitiba

Autor: Sueli Araujo

Foto: Elenize Dezgeniski

Para relatar o processo de criação do espetáculo Homem Piano – uma instalação para a memória é necessário esclarecer (mesmo que rapidamente) os meandros deste longo processo iniciado em 2008 com o Projeto de Pesquisa em Linguagem Cênica Narrativas Urbanas – interferências e contaminações. Na pesquisa inicial os intérpretes da CiaSenhas desenvolveram propostas de criação cênica a partir de um fato real veiculado pela mídia. Minha função era conduzir a pesquisa dos atores e desenvolver a dramaturgia dos projetos individuais. Sem a pretensão de montarmos um espetáculo, o objetivo desta fase era justamente a pesquisa de linguagem – treinos e procedimentos artísticos. Isso quer dizer, determo-nos em um processo de criação compartilhado e colaborativo e nele aprofundar o estudo prático sobre aspectos da narrativa em cena, tendo o ator criador como propositor. Continuação »


A imagem permanece transitória

Estudo sobre o estatuto da imagem na performance Site Specific for Love e outras obras

Autor: Flavio Graff

O que torna possível uma imagem conjugar simultaneamente em sua natureza transitoriedade e permanência? O que faz esta imagem desejar este paradoxo? Para a geografia, cada paisagem é singular, e dar conta da imensa gama de detalhes que ela comporta estabelece experiências imagéticas igualmente singulares. Em busca destas qualidades de estado a arte contemporânea incorpora a cada nova experiência estética propostas da ordem da especificidade, da experiência, do acontecimento, do processual, do variável, da flutuação, da impermanência, da efemeridade e da desmaterialização da matéria e corpos, ao mesmo tempo em que investe na particular qualidade de presença capaz de re-configurar o corpo em sua dimensão de sujeito. Mas o que torna uma imagem presente? Quanto mais a obra de arte contemporânea potencializa sua singularização através da sensorialidade experimentada no tempo e no espaço, com maior intensidade consegue estabelecer relações também singulares, múltiplas, entre sua estrutura e os receptores. Nesta elaboração a dimensão de acontecimento torna-se fundamental, colocando em foco as evidentes estratégias de brevidade do ato onde a finitude de sua construção, ou seja, a sua morte, coloca os espectadores diante do paradoxo. A imagem quer permanecer, mas já anuncia a sua partida. O acontecimento em sua maior força de permanência absorve os sujeitos que interagem com ele e, mesmo após a sua morte, continua ecoando indelével na experiência vivida. Continuação »


Avessamentos

Crítica da performance O outro beijo no asfalto da Companhia Excessos, de Portugal

Autor: Dinah Cesare

A performance passou a ser considerada uma expressão artística independentemente de definições na década de 1970, época em que o conceito se impunha mais do que o produto propriamente dito. Quando pensamos em performance, pode surgir a idéia de que ela tem como um de seus objetivos ou conseqüências provocar o choque. Os artistas elaboravam manifestações em espaços urbanos, avaliando de certa forma o fazer artístico em meio ao cotidiano das pessoas. O choque podia ser compreendido tanto pelo lado de quem fazia, quanto pelo lado da recepção, pois não era possível prever as reações. Uma das idéias de performance está associada mesmo à sua característica de acontecer uma vez e nem sempre deixar registro. O caso feliz da Companhia Excessos de Portugal é que ela realiza uma gravação do seu trabalho e veicula na internet, como no caso da performance O outro beijo no asfalto. O que acontece é que mais pessoas podem se envolver e os sentidos se alastram. Esse texto, portanto, é um exercício crítico mediado pelas imagens capturadas por outro, já nasce de uma operação de olhar conjunto e se constrói mais obviamente por uma alteridade. Continuação »


Resta pouco a dizer, mas o resto é essencial

Crítica do Programa II do Festival Resta Pouco a Dizer

Performance: Respiração +. Foto: divulgação.

Assisti no Oi Futuro ao segundo programa do conjunto de peças curtas de Samuel Beckett, apresentadas sob o nome Resta pouco a dizer, dirigidas por Adriano e Fernando Guimarães. O programa se inicia pela apresentação da performance Respiração +. Esta consiste em: duas caixas de vidro, suspensas por uma armação de ferro, contendo água. Dois performers, por meio de escadas, entram nas caixas. Um terceiro performer porta uma campainha e um relógio. A cada ressoar da campainha, um dos performers emerge da água e instantaneamente diz um texto que alude ao ato de respirar (necessidade, capacidade, etc.). Continuação »