Permanência, deslocamento, experiência

Crítica das palestras-intervenções de Vera Mantero e Eszter Salamon no festival Atos de Fala

22 de dezembro de 2014 Críticas

Vol. VII, nº 63, dezembro de 2014

Resumo: Análise crítica de dois trabalhos apresentados no festival Atos de Fala: Os Serrenhos do Caldeirão: exercícios em antropologia ficcional, da coreógrafa portuguesa Vera Mantero, e Melodrama, da performer húngara Eszter Salamon. O texto apresenta uma reflexão sobre a relação que estes trabalhos estabelecem com o espectador e sobre a potencial dimensão de experiência proposta por eles.

Palavras-chave: performance, experiência, festivais, recepção, Jorge Larrosa

Abstract: Critical analysis of two performances in festival Atos de fala: Os Serrenhos do Caldeirão: exercícios em antropologia ficcional, by portuguese choreografer Vera Mantero, and Melodrama, by hungarian performer Eszter Salamon. It presents an investigation into the relationship that these works establish with the viewer and the potential aspect of experience proposed by them.

Keywords: performance, experience, festivals, reception, Jorge Larrosa

Permanência, deslocamento, experiência

A proposta deste texto é lançar um olhar para o festival de performance Atos de Fala, dos curadores e diretores artísticos Felipe Ribeiro e Cristina Becker, que realizaram sua segunda edição em novembro de 2014 no Oi Futuro Flamengo. Composto por três vídeos-ensaios, quatro esculturas-arquivo, cinco palestras-intervenções e um painel colaborativo, o festival ofereceu uma programação de encontros que geravam acúmulos. Aqui escolhemos duas palestras-intervenções para empreendermos uma breve reflexão sobre a natureza da relação proposta pelas artistas-propositoras aos espectadores. Os dois trabalhos escolhidos lançam mão de estratégias diferentes nesta relação.

Na terça-feira, dia 11 de novembro, a coreógrafa portuguesa Vera Mantero apresentou Os Serrenhos do Caldeirão: exercícios em antropologia ficcional, no Mezanino do Espaço Sesc. No sábado, dia 15 do mesmo mês, Eszter Salamon apresentou Melodrama na Galeria 3 do Oi Futuro. As duas obras fazem referência sutil à proposta da curadoria do festival de investigar o que os diretores chamaram de Geografias da Diáspora. Como dizem no programa: “Um entendimento expandido da percepção da migração que por vezes acontece sem sairmos do lugar, mas do lugar que sai de nós.”

Vera Mantero. Foto: Luiz da Cruz.

Os Serrenhos do Caldeirão é fruto de uma proposta do Festival Encontros do Devir, sobre a desertificação/desumanização da Serra do Caldeirão, no Algarve. O trabalho apresenta uma espécie de rememoração ficcionalizada e performatizada sobre a vida desta população, os “serrenhos”. Vera Mantero recorre a registros em vídeo de um trabalho documental do etnomusicólogo Michel Giacometti realizado nos anos 1960 e 1970 e registra ela mesma algumas imagens da atualidade da região. Ela trata do quase desaparecimento da população da serra, do seu desaparecimento, ou da sua diáspora sem destino. Ela constrói a narrativa misturando ao material de arquivo algumas “mentiras” como ela mesma disse na conversa realizada no dia seguinte: mentiras viáveis, aproximações possíveis que conferem uma dimensão “ficcional” ao caráter antropológico da obra, dados artísticos acrescidos a um material possivelmente científico.

A artista traz diversas figuras para o seu discurso, entre elas o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro e o artista norte-americano John Cage, além do já mencionado Giacometti. Em um momento, ela lê em voz alta uma carta de Antonin Artaud, escrita para Pierre Loeb, intitulada O homem-árvore. Trata-se, então, de um trabalho solo em que várias vozes e pensamentos são convocados a participar nesta operação de resgate/apresentação/encenação de uma tradição em extinção e sua relação com a música.

Ela também traz interage, com humor e engenhosidade, com um grande e oco tronco de cortiça, que ela recolheu enquanto fazia a sua pesquisa. Este é um dos poucos elementos da cena, que conta apenas com um banco alto, um telão, uma estante de partitura, um pedestal com microfone e um ou outro instrumento musical.

Vera Mantero. Foto: Luiz da Cruz.

Em Melodrama, Eszter Salamon reencena entrevista realizadas durante seis anos (2006 a 2012) com uma outra mulher que também se chama Eszter Salamon e vive na Hungria. Nestas entrevistas, a segunda Eszter (assim chamamos aqui a Eszter entrevistada) conta a história da sua vida, desde os antepassados recentes, com sua origem de uma mistura judaico-católica produzida pela guerra, passando por sua infância, casamentos, separações, filhos, dificuldades da maturidade do corpo, e sua vida cotidiana. A segunda Eszter parece ter vivido um conflito de identidade religiosa, o que fez com que ela, filha de mãe católica e pai judeu, se convertesse ao judaísmo já na vida adulta. Eszter migra de um relacionamento a outro, de uma profissão a outra, mas não parece estar buscando nenhuma terra prometida. É como se ela fosse expulsa de uma situação a outra, sem controle sobre o seu destino.

Toda a sua história é falada na primeira pessoa pela primeira Eszter, a performer, que imita sem histrionismos os seus trejeitos e modos de falar. Ela o faz sentada em uma cadeira, usando uma peruca, de frente para os espectadores que a escutam em uma galeria. Nenhum cenário, nenhum efeito de luz, nada que remeta a uma peça de teatro – embora ela esteja atuando. O relato de Eszter é extenso. Mas, quando começamos a ficar cansados é também quando já estamos envolvidos com a trama. Ao final, quando a conversa chega a tratar do trabalho que a primeira Eszter estaria criando, fecha-se um círculo no qual fomos circunscritos: a curiosa sensação de que agora conhecemos uma Eszter Salamon que vende Amway no sul da Hungria, que diz não ter nenhum sonho porque não teria para quem dar esse sonho, e que gostaria de morar na Transilvânia com seu amante.

Eszter Salamon. Foto: Divulgação.

Temos então – recorrendo à nomenclatura proposta pelas criadoras – uma ficção antropológica, Os Serrenhos, e uma performance documental, Melodrama: dois experimentos que se dispõem a olhar a realidade com procedimentos bastante diversos. Enquanto Vera Mantero convoca diversas vozes, Eszter Salamon recorre apenas à sua homônima. Por outro lado, a segunda Eszter convoca os coadjuvantes mais significativos de sua vida. Enquanto as vozes no trabalho de Vera são, por assim dizer, autoridades, as vozes e presenças no trabalho de Eszter são de homens e mulheres, por assim dizer, comuns, ouvimos suas vozes em falas cotidianas.

Enquanto Os Serrenhos traz à tona uma cultura específica que migrou (ou está migrando ainda) para o desaparecimento a partir de um tratamento de certo modo nobre, Melodrama apresenta as pequenas histórias banais de pessoas comuns, às vezes mesquinhas, sem nenhum enfeite.

Em ambos os trabalhos, vemos o desejo de olhar para o outro e de entender ou simplesmente experimentar – cada um a seu modo – uma forma de vida alheia. Vera olha de outro tempo, do presente ao passado, de uma região para outra do seu país, com uma perspectiva panorâmica. Eszter procura escutar um recorte específico a partir de uma contemporaneidade (apesar da diferença de idade entre as duas Eszter), há um compartilhamento do presente através dos relatos de uma vivência mais longeva. Enquanto Vera cria uma espetacularidade suave, envolvente no grau da iluminação, na beleza visual que se apresenta, na originalidade das imagens performadas e projetadas; Eszter parece propor um certo distanciamento, apresentando-se sem usar grandes recursos de teatralidade, com uma espécie de não-espetacularidade austera. Eszter parece apostar todas as fichas na capacidade de ação do texto. Vera parece já estar com as palavras atravessadas no corpo.

Mas nenhuma delas parece querer fazer uma defesa de alguma coisa ou chegar a uma conclusão. As duas se colocaram em situação de deslocamento para falar de deslocamento. E, a meu ver, a proposta para o espectador é da mesma ordem: algum deslocamento, uma experiência através de uma migração temporária da imaginação. Mas deslocamento nenhum se faz sem esforço e isso é uma questão.

Recentemente, li um texto do pesquisador espanhol Jorge Larrosa, intitulado Notas sobre a experiência e o saber da experiência que trata de algumas questões pertinentes para pensarmos hoje a relação das artes cênicas com os espectadores, embora não seja esse o foco do artigo, que se propõe a pensar a educação a partir do par experiência/sentido. Apresento um curto recorte:

“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamim, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.” (LARROSA, 2002, p. 21)

Muitas coisas nos são oferecidas todos os dias como “produtos culturais”, peças, filmes, livros, exposições. Muita embalagem pra pouco presente, poderíamos dizer. Como produtores, realizadores, “proponentes” como nos nomeiam os editais públicos, batemos cabeça para encontrar o nosso lugar ao sol. Mas não seria o caso de ampliar o espaço de alcance desse sol em vez de disputar o pequeno espaço que nos é oferecido? Valorizar justamente ao que as artes cênicas têm de particular não seria uma estratégia mais eficaz?

Me parece que apostar na natureza das artes da cena pode ser mais produtivo, em vários sentidos e a curto, médio e longo prazo, do que tentar encaixar os trabalhos artísticos na lógica do consumo. Dentre as especificidades, atento para o convívio, o encontro, a dimensão presencial, a situação em que um determinado grupo de pessoas está no mesmo lugar ao mesmo tempo com o mesmo propósito – não que isso não faça desse grupo uma comunidade unívoca. Outro aspecto relevante, que é uma especificidade da arte, não apenas do teatro, é a lida com o tempo. A lida com o tempo, o tempo interno, em situações de arte, não é a mesma que numa situação cotidiana em que cumprimos tarefas para podermos cumprir outras tarefas. Nenhum espectador tem que cumprir a tarefa de ir ao teatro.

Pouco tempo atrás, numa conversa rápida, ouvi uma artista de teatro dizer que suas peças nunca têm mais de uma hora de duração porque ela se preocupa com o espectador. Com isso, ela parecia dizer que fazer o público ficar mais de uma hora no teatro era abusar da sua boa vontade. Como se o espectador fizesse, aos artistas, o favor de ir ao teatro, mas só tolerasse um pouco de teatro. Percebi com isso a gravidade da situação: será possível que os próprios artistas estão sucumbindo a essa pressa fútil que segue o fluxo de uma vida de coisas que passam, mas com a qual nada se passa?

Desde então, a questão me ocupa o pensamento. Tive oportunidade de conversar sobre isso em duas ocasiões recentes, em outubro deste ano. A primeira, uma mesa-redonda no II Encontro Artes Cênicas e Negócios, no Tempo Festival, da qual participei com Sergi Penedes, do Transit Projects, e Marcus Vinicius Faustini, do Festival Home Theater. A segunda, uma mesa-redonda sobre crítica de teatro, da qual participei com Edelcio Mostaço e Valmir Santos, que aconteceu no 21º Festival Isnard Azevedo, em Florianópolis. Chamo a atenção para estas duas ocasiões para enfatizar o óbvio: a importância dos festivais como lugar de encontro e troca de experiências, não apenas de apresentação de espetáculos, o investimento nestes encontros como aposta dos curadores. Afinal, as proximidades entre nossos pares não são necessariamente geográficas e os festivais também acabam por nos dar a ver que o que fazemos faz sentido em diferentes partes do mundo.

E eis que, nestes dois trabalhos do Atos de Fala dos quais tratamos aqui, e na proposta mesma do festival, no seu formato, aparece a questão da experiência, de proporcionar ao espectador que algo se passe com ele, pelo menos potencialmente. As duas ações propõem uma experiência particular do tempo, posicionando-se na contramão do ritmo ansioso do qual falávamos acima. Sem pressa, nenhuma das duas artistas está preocupada em oferecer um novo truque a cada cinco minutos para atender o que se acredita ser hoje uma demanda de agilidade por parte do espectador.

As ações propõem permanência e escuta. E é aí que acontece o deslocamento, o percurso, enfim, a experiência.

A intuição sobre isso se confirmou quando li um texto de Vera Mantero, enviado para mim por Dinah Cesare, publicado na Elipse Gazeta Improvável, publicação dirigida por Vera, intitulado A desfazer-se. Recorto um trecho que faz a liga com o Larrosa, (mantendo a grafia da publicação):

“o ser humano precisa de não estar sempre no quotidiano, precisa sair do quotidiano e entrar noutros níveis, noutra sensação de mundo. precisa de fazer coisas não produtivas, sair da lógica da produção, ter objectivos diferentes desses, precisa de volta a saber que não há um só caminho entorpecedor e mecânico, que a vida é mais subtil do que isso, mais rica de redes e nós de sentidos e sensações, de linhas que se cruzam e que baralham e iluminam. é preciso reconhecer essas coisas, assiná-las, sublinhá-las, não só através do discurso mas também com o corpo, em acções, associando sentidos e elementos, virando de vez em quando as coisas ao contrário, desorganizando e reorganizando (…) nós precisamos muito disto, precisamos muito disto tudo, e estamos a ter muito pouco disto e é por isso que, como disse no início, o espírito está em erosão, a cultura está em erosão e nós às vezes estamos muito tristes ou temos a sensação de que a vida desapareceu cá de dentro.” (1)

O fato de que se trata em ambos os casos de uma apresentação única – em um festival de apresentações únicas – torna a situação bastante especial. Se por um lado há uma cultura geral de que uma coisa é considerada boa ou importante porque todo mundo ouviu falar, porque vendeu não sei quantos exemplares, porque não sei quantas pessoas já assistiram, há ainda um público que não participa do entretenimento generalizante e da infantilização do espectador. A experiência não se massifica. O festival Atos de Fala – com sua atividade continuada – é mais um gesto de resistência da produção artística carioca a essa ideia falsa de sucesso como badalação. O sucesso do festival está em convidar o espectador a colocar-se ele mesmo em situação de diáspora, deixando-se ser expulso do cotidiano ou do entretenimento e fazendo um percurso na direção da alteridade.

Nota:

(1)Como só tive acesso ao texto em pdf, recortado sem informações sobre a publicação, não tenho a referência bibliografia.

Referência bibliográfica:

LARROSA, Jorge. “Notas sobre a experiência e o saber da experiência”. In Revista Brasileira de Educação. Jan/Fev/Mar/Abr 2002 nº 19. p. 20-28.

Daniele Avila Small é tradutora e crítica de teatro; Mestra em história Social da Cultura pela PUC-Rio e Bacharel em Teoria do Teatro pela UNRIO.

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