Marcha a ré

6 de outubro de 2020 Críticas

Cortejo-Teatro da Vertigem. Guiar de marcha a ré da Paulista até o cemitério da Consolação. O que as centenas de carros estacionados em fila dupla na contramão teriam conseguido perfazer exatamente?

Cumpriram um programa, bem devagar, com muitas paradas inesperadas, que evocavam às vezes habituais congestionamentos, mas também com alguns momentos alucinantes, em que guiar na ré extensivamente disparava uma atenção radical, um foco excedente na própria presença e no presente em torno.

Não raspar no meio fio, ou no carro ao lado, e seguir o de trás sempre se afastando, ainda cuidando de não se aproximar demais e bater, ou ser batido por quem está na frente, mas anda pra trás e vem pra cima.

Os participantes/convidados protagonizaram compulsoriamente uma cena de rua, coadjuvados pelos guardas reais da engenharia de tráfego e pelos operadores da performance que com eles se confundiam, ambos os principais espectadores da ação daqueles atores incidentais.

O motorista precisou segurar a direção com o olho no retrovisor muito além do que costuma fazer quando estaciona ou manobra de ré. Guiou olhando pelas costas por três horas e viu-se em um estado alterado de consciência, fixado no seu melhor desempenho para não errar a mão e acabar saindo do jogo.

A dificultar esse objetivo havia uma sonoridade ecoando em cada carro e por suas janelas afora, que parecia uma chave de ignição falhando, com bipes pontuais e uma buzina fina e constante ao fundo. Soube-se depois ser o ruído de um respirador artificial em repetição minimalista.

Os atores/performers, como um coro de enfermeiros, zanzavam entre os carros e rejubilavam-se com apitos, numa contrafação de guardas  de trânsito, mais atuada que eficaz, ou, mais exatamente, como chefes de harmonia de escola de samba, pragmáticos cuidando para que não se deixassem espaços entre os carros no desfile, mesmo que às vezes isto fosse impossível.

Não foi uma situação prazerosa para o espectador-fruidor-condutor, nem propriamente divertida. Mas, por certo, não se tratava de oferecer diversão e é provável que o desconforto fosse um dos pressupostos dos artistas que propuseram o trabalho. Claramente, na sintética dramaturgia espacial e temporal de uma anti-carreata, ou marcha automobilística ao invés como um coletivo na contramão, há uma óbvia e incontornável referência, remetendo à atual tragédia brasileira e ao momento crítico do país, que exige contundência.

No epílogo-ápice, muito bem-vindo com todos participantes já a pé, fora dos carros, um pistonista solitário, encarapitado no pórtico do cemitério, executou o hino nacional ao contrário e produziu uma inédita e sofisticada versão irreconhecível da nossa melodia mais familiar. No que foi um anti-hasteamento do mais desgastado símbolo nacional, desceu como um pano de cena a imagem excruciante da mãe do pintor Flavio de Carvalho (1899-1972) à morte, captada pelo filho em carvão.

O prodígio pretendido foi sem dúvida realizado – a mobilização institucional para uma licença poética audaciosa permitiu a instalação performativa e massiva de um contrassenso urbano, ao mesmo tempo que propiciou ato político à margem da linguagem da política, e com um jogo cênico de invenção e corrosividade pra desnortear qualquer senso comum.

Mas não foi tão simples assim. Aqui havia um tema e uma recordação explícitos.

Era a mítica performance n.2 de Carvalho, realizada em São Paulo em 1931, há quase oitenta anos, como ato solitário e experimental de um jovem artista.

Ali ele enfrentou uma procissão de Corpus Christi, andando no contrafluxo da marcha dos fiéis e fazendo questão de provocá-los ostensivamente, e acabou perseguido pela turba, escapando por pouco de ser linchado pela ousadia.

Ali havia um interesse quase científico e uma curiosidade psicológica do artista, testando no limite o comportamento de uma massa de crença firme contrariada. Havia um gesto inaugural, de inspiração quiçá dadaísta, em que a ação pública se tornava obra.

A transposição proposta pelo Vertigem, se foi cristalina e oportuna na inspiração, ficou distante dos riscos envolvidos no imenso desafio individual que aquela ação de fato significou. Nas circunstâncias do que foi apresentado na avenida Paulista, com todos os aparatos de segurança e higiene garantidos, e um compartilhamento fundamental dos ônus com os convidados participantes, não havia um indivíduo incauto brincando com fogo e experimentando provocar até as últimas consequências os seus espectadores incidentais, mas um coletivo de colaboradores disponíveis e devotados a executar um programa conceitualmente radical e poeticamente belo. São outros tempos, mas também é uma outra arte, relacional, pós-estética ou o que se preferir. É menos vital e menos arriscada, mas tem a graça de ser mais coletiva e mais lúdica.

“Com tanta gente morrendo e vocês aí fazendo festa! Maravilha”. Esta fala de um passante a caminho do metrô expressava, provavelmente, uma parcela do que a população habitual da avenida Paulista durante a noite – funcionários, ciclistas, mendigos e esportistas – pode ter pensado a respeito do cortejo. Ela trai um olhar bolsominion, que não quer ver a barbaridade de se incentivar a propagação do vírus e aponta o dedo para quem ousa vir à rua se colocar contra aquela atitude.

É, pois, uma postura contraditória, mas que reflete, quem sabe, o que o público eventual daquela noite de lua cheia pensou. Mas isso não importaria, porque a coisa toda afinal acabou sendo um grande aporte conceitual e crítico para ser vivido e sofrido pelos participantes e não para ser visto como um espetáculo pela massa ignara. Ou importaria? Talvez sim, na perspectiva de se encarar as próprias contradições que o cortejo, em sua pompa e em sua fragilidade, carreou.

Luiz Fernando Ramos (USP): Professor associado do Departamento de Artes Cênicas da USP, lecionando História e Teoria do Teatro desde 1998. É pesquisador do CNPq e coordena o GIDE – Grupo de Investigação do Desempenho Espetacular. Foi crítico de teatro da Folha de São Paulo entre 2008 e 2013 e atua como dramaturgo, encenador e documentarista.

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