No Rio, o Teatro da Vertigem leva o espectador de barco | Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais

No Rio, o Teatro da Vertigem leva o espectador de barco

Tradução de Felipe Vidal da crítica de Jean-Pierre Thibaudat sobre o espetáculo BR-3

10 de junho de 2008 Traduções

Blog Balagan, do site Rue 89.

Tradução de Felipe Vidal

Jean-Pierre Thibaudat é escritor e jornalista. Publicou recentemente uma biografia do dramaturgo Jean-Luc Lagarce, Le Roman de Jean-Luc Lagarce, pela editora Les Solitaires Intempestifs, e um ensaio sobre a sua obra intitulado Jean-Luc Lagarce, pela editora Cultures France. É conselheiro artístico do festival Passages à Nancy e escreve regularmente para o blog Balagan, no site Rue 89, onde a crítica do espetáculo BR-3 foi publcada originalmente.

(Do Rio de Janeiro) A noite cai sobre o Rio quando os dois ônibus cheios de espectadores adentram os portões bem vigiados do porto da cidade, célebre por suas praias de Copacabana e seu Carnaval. Mas nós estamos longe dessas belezas quando a barca sobre a qual os espectadores tomam seus lugares deixa a costa e se enfurna nas águas cinzentas e fétidas da Baía de Guanabara.

Na proa da embarcação, uma mulher, Jovelina, conhecida como Vanda, vai nos conduzir para dentro da movimentada história de sua vida e de seus filhos (um deles chamado Jonas, por exemplo). Uma viagem através do Brasil e de sua história recente, ancorada em três lugares: Brasília, no centro do país, Brasilândia, um bairro da periferia de São Paulo, e Brasiléia, uma cidade do extremo Acre, lá em cima, na fronteira do Brasil com a Bolívia.

Daí vem o título deste espetáculo, “BR-3″, interpretado pelo “Teatro da Vertigem” e encenado com mãos de mestre por seu diretor artístico Antônio Araújo.

A embarcação passa perto das enormes carcaças de navios no cais e logo zarpa em direção à gigantesca ponte Rio-Niterói, enquanto Vanda navega em um pequeno barco. Lá, debaixo de um arco de cimento, um andaime sobre o qual se movimentam os operários: estamos em 1959, construindo Brasília. Teme-se por um instante que o espetáculo seja vítima da espantosa parafernália que ele apresenta e se torne uma espécie de excursão turístico-teatral.  Não é o caso.

Por um lado porque a dramaturgia do espetáculo é assinada por Bernardo Carvalho, jornalista e escritor, cujos livros – muitos deles traduzidos para o francês (“Mongólia” ou “Nove Noites” foram publicados pela Métailié por exemplo) – mostram a força do encantamento e a arte de embutir as histórias. Por outro, porque o diretor, Antonio Araujo (41 anos) mantém seu mecanismo narrativo navegando, alternando cenas na costa com outras sobre a água, com os bons atores evoluindo por diversas embarcações, tudo elegantemente iluminado por Guiherme Bonfanti.

Dessa maneira, essas cenas soberbas, ou este ou aquele personagem de pé sobre um barco que navega por dentro da noite, falam de suas dores de vida, cenas que são observadas a partir da barca (os espectadores estão sentados sobre assentos giratórios), que segue paralela ao barquinho… de certo modo, eles  assistem, provavelmente, aos primeiros travellings aquáticos da história do teatro.

Nossa viagem noturna por dentro da baía calca-se nessa viagem ao interior do Brasil e de seu esgoto, de deriva em deriva, de paragem em paragem, até o coração de uma identidade brasileira maltratada, onde o teatro não se esquece de fazer uso de suas máscaras e de seus faróis.

A história tem seu fim, depois de algumas peripécias (tráfico de drogas, evangélicos, traição, mortes, etc.) e outros tantos dramas dentro de um velho hospício para pessoas idosas, hoje desativado, onde os espectadores sentam-se depois de terem deixado a barca e antes de verem, na sacada, um político discursar para a massa numa linguagem populista cheia de oportunismo, sob o olhar de um pedalinho em forma de cisne onde acontece uma das últimas cenas.

A trupe, bem numerosa, despede-se; os espectadores retomam os dois ônibus que os levarão de volta ao Centro Cultural Ação da Cidadania, após esta longa viagem teatral sem precedentes.

Criado no início dos anos 90 em São Paulo, o Teatro da Vertigem trabalha mais freqüentemente fora das salas de teatro habituais. Sua primeira produção, “Paraíso Perdido”, baseada na obra de John Milton, se passava em uma igreja, “O Livro de Jó” em um hospital desativado, “Apocalipse 1,11″ em uma prisão desativada (estes três espetáculos constituem uma “trilogia bíblica”).  

A preparação de “BR-3″ durou mais de um ano: pesquisas nas localidades, construção teatral das “células de criação”, escrita final por Carvalho. A criação foi feita em São Paulo sobre o rio Tietê. Os espetáculos do Teatro da Vertigem (freqüentemente premiados no Brasil) são evidentemente difíceis de se exportar, entretanto, a trupe já foi convidada para se apresentar na Polônia e na Alemanha, o diretor Antônio Araújo já participou de uma residência na Inglaterra e foi bolsista do Kennedy Center de em Washington. É provável que esta exigente aventura desembarque um dia em alguma parte da França.

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