Quando o teatro encontra o circo

Crítica da peça Dar corda para se enforcar, do projeto Baú de Arethuzza do grupo Os fofos encenam

30 de agosto de 2013 Críticas
Foto: Ligia Jardim.

O que não é ligeiramente disforme parece insensível – donde decorre que a irregularidade, isto é, o inesperado, a surpresa, o espanto sejam uma parte essencial da característica da beleza. O Belo sempre é estranho.

Baudelaire

A inquietação de Fernando Neves em trazer à cena espetáculos apresentados em arenas circenses revela uma tentativa em investigar práticas teatrais que ao longo do tempo foram se transformando e, vai além, ao abordar uma história do teatro brasileiro muitas vezes renegada e cheia de lacunas. O grupo se propôs a uma pesquisa da teatralidade circense de 1910 a 1950, período em que o circo já se articulava com a produção teatral da época, apresentando um teatro que se confundia com a prática circense, para desenvolver uma linguagem bem particular e que foi modelo para as décadas seguintes.

O circo-teatro surgiu no Brasil na primeira década do século XX, com a introdução de peças na parte final das apresentações. Com repertório formado em geral por melodramas, comédias, burletas, os espetáculos resultavam de adaptações de romances folhetinescos com assuntos diversos: mitologia, religião, fatos do cotidiano. O circo-teatro foi durante muitos anos um dos mais importantes veículos de difusão da arte teatral em lugares não alcançados pelas companhias convencionais de teatro das grandes cidades. Foi também nesse período que o teatro teve os melhores resultados nos espetáculos que se propuseram a um misto de simbolismo e da velha comédia de costumes.

A pesquisa do grupo Os Fofos Encenam tem íntima ligação com o universo do circo. Fernando Neves, o diretor de alguns espetáculos da companhia, é descendente direto da família do Circo-Teatro Pavilhão Arethuzza, de quem herdou as referências artísticas. O circo familiar foi fundando no final do século XIX e encerrou suas atividades no final dos anos 1960. Passou por todas as fases do circo: variedades, pantomimas, circo-teatro e pavilhão. Arethuzza Neves foi uma das figuras mais emblemáticas do circo brasileiro. Seu pai, Antônio Neves foi o fundador do Circo Colombo, e, como era esperado, ela estreou nos picadeiros aos oito anos de idade em números de equilibrismo. Fundou seu próprio circo e atuou no circo-teatro viajando pelo Brasil até o formato se fixar no que ficou conhecido como pavilhão, tornando-se uma das atrizes mais respeitadas da época. Montou e escreveu diversos textos e foi nesse baú que Os Fofos buscaram as referências para a criação do projeto, quatro textos do repertório do Circo Teatro Arethuzza e uma pantomima criada por eles.

Dar corda para se enforcar encerra o projeto Baú de Arethuzza, que foi indicado na categoria Inovação do Prêmio Shell, e que teve início com a pantomima Antes do enterro do Anão, a burleta caipira Vancê não viu minha fia?, o melodrama policial A ré misteriosa e o melodrama religioso A canção de Bernadete. Em cena estavam Carlos Ataide, Cris Rocha, Eduardo Reyes, Erica Montanheiro, Katia Daher, Marcelo Andrade, Paulo de Pontes, Stella Tobar e Zé Valdir.

O espetáculo foi baseado na chanchada, invenção brasileira, que fazia uso de qualquer recurso para obter o riso da plateia. Dizia o que o público queria ouvir, era de fácil aceitação e alcançou grande sucesso de público tanto no teatro como no cinema. Outro desafio do grupo que por razões óbvias abusa de clichês, alcançado notas quase pueris.

Com personagens que carregam na expressão verbal, a comédia apresenta os tipos que caracterizam o gênero: o empregado em busca de ascensão social é o herói lacrimejante que, lutando contra imposições sociais, faz um pacto com o diabo para conseguir se casar com a mocinha ingênua e prometida a um rico comerciante; vai ao patrão, o pai da noiva, pedir conselhos para conseguir o dote e assim casar com a amada, mas sem revelar que o conselheiro da história não passa de uma vítima do astuto funcionário.

O texto foi escrito em 1937, por José Joaquim da Silva e, como na época, apresenta uma variação de títulos: Rapto de Fernanda, A cara do burro do pai e A fuga da melindrosa. O autor do texto condena os procedimentos da sociedade, satirizando os hábitos característicos da organização social e política vigente, ao lado de um diálogo de eficaz comicidade. Uma dramaturgia que propicia o desempenho dos atores, dando a este elemento uma hegemonia. O grupo trabalhou aos moldes de uma montagem tradicional, mesclando elementos difíceis de pensar para a década de 1930: uma sala de visitas é o cenário fixo onde toda a peça é apresentada, com efeitos de luz que marcam a cena e uma trilha sonora impecável. Cada espetáculo tinha que ser feito no prazo máximo de duas semanas, exatamente como era feito no circo-teatro, o que impôs aos atores novas abordagens em seus trabalhos. Com referências explícitas a situações que permeiam o cotidiano de quem vive nas grandes cidades e está acostumado com a rapidez da informação, a peça apresentada pelos Fofos adquire uma sintonia no que diz respeito às inserções de situações cotidianas da prática do teatro de grupo, quando uma das atrizes “sai” do ato representativo e transfigura suas inquietações do fazer artístico, num jogo entre o real e o ficcional.

Seria fácil para Fernando cair na tentação de apresentar um espetáculo exatamente como era feito no circo-teatro, principalmente pelo fato de ter crescido ouvindo histórias do circo, mas ele não o faz. A espera do momento certo para retomar memórias da infância veio alinhada com a maturidade profissional do diretor, que já havia experimentado os caminhos circenses com a premiada peça A mulher do trem, ponto de partida da pesquisa do grupo sobre o universo do circo-teatro e com reestreia marcada para setembro.

Dar corda para se enforcar fecha um projeto que apresentou um panorama do teatro brasileiro do fim do século 19 e começo do século 20.

Ana Cristina Pinho é jornalista e produtora editorial nas Edições Sesc SP.

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