Teatro de grupo em primeiro plano

Panorama do Festival de Curitiba e crítica do espetáculo Os bem-intencionados

9 de abril de 2013 Críticas
Os bem-intencionados. Foto: Divulgação.

FESTIVAL DE CURITIBA

A programação do Festival de Curitiba vem passando por uma bem-vinda transição que ficou mais evidente nessa edição devido, principalmente, à consistente seleção de espetáculos para a Mostra Oficial, que privilegiou o teatro de grupo. Celso Curi, Lúcia Camargo e Tania Brandão, responsáveis pela curadoria, selecionaram trabalhos das companhias Armazém (A marca da água), Atores de Laura (Absurdo), Teatro da Queda (Breve), Brasileira (Esta criança), Hiato (Ficção), Club Noir (Haikai), Clowns de Shakespeare (Hamlet), Opovoempé (O espelho), Esplendor (O homem travesseiro), Espanca! (O líquido tátil), Lume (Os bem-intencionados), Parlapatões (Parlapatões revisitam Angeli), Luna Lunera (Prazer) e Balagan (Recusa).

A preocupação com a qualidade tinha despontado, nos últimos tempos, no Fringe, que começou a receber pequenas curadorias que passaram a servir de guia para o público, atordoado em meio à grande quantidade de espetáculos oferecidos. Este ano, os espectadores contam com uma seleção de montagens realizadas em Curitiba (Coletivo de Pequenos Conteúdos e Mostra Novos Repertórios), um recorte das cenas da Bahia (Mostra Baiana, com curadoria do ator Wagner Moura) e de Belo Horizonte (Mostra Teatro para Ver de Perto, reunindo encenações pinçadas pelo Galpão Cine Horto) e trabalhos voltados para o universo clownesco (Mostra seu Nariz).

A seleção de espetáculos internacionais foi avolumada numa edição em que Ukchuk-ga, montagem da Coreia do Sul no qual a atriz JaRam Lee interpreta todos os personagens de Mãe Coragem e seus filhos, de Bertolt Brecht, despontou como destaque. Não foi um caso isolado. Curitiba também recebeu Homem vertente, montagem brasileira do espetáculo da companhia argentina Ojalá, In the dust, da Escócia, Kiss & cry, da Bélgica, e 1325, de Portugal. Parcerias foram evidenciadas, como entre os diretores Enrique Diaz e Marcio Abreu no projeto de Monstro (apresentado no formato de processo sob o título de Cine monstro versão 1.0) e entre Grace Passô e o Grupo Teatro Invertido (Os ancestrais) e o Lume (Os bem-intencionados, trabalho esmiuçado a seguir).

Miséria afetiva em montagem esgarçada

A encenação de Os bem-intencionados celebra a parceria entre o Lume, grupo sediado em Campinas e norteado por rigoroso trabalho de pesquisa, e Grace Passô, atriz e diretora da companhia Espanca!, de Belo Horizonte. Acumulando a autoria do texto com a condução do espetáculo, Grace constrói a encenação a partir de uma proposta de ambientação cênica. A ação se passa num misto de bar e gafieira, onde os espectadores são incluídos desde a entrada, convidados a ocuparem mesas dispostas pelo espaço.

Talvez a montagem tenha sido em parte prejudicada pela necessidade de adaptação a uma nova configuração, problema frequente em festivais de teatro impossibilitados de acomodar os trabalhos em espaços próximos para os quais foram originalmente planejados. A amplidão do Centro de Eventos Sistema FIEP parece ter dispersado o espetáculo (como também prejudicou a encenação de Recusa, de Maria Thaís). Os dramas individuais dos personagens pouco chegam ao público. A conexão entre atores e espectadores se estabelece de maneira tímida.

Tudo resulta um tanto esgarçado em Os bem-intencionados, problema, porém, que deve ser atribuído, sobretudo, ao texto, que anuncia, desde o início, as estratégias empregadas por cada um (como a criação de personagens um tanto postiços) para driblar o assombro da solidão. Este quadro emocional é destacado ao final, quando os personagens se desmascaram e se expõem sem subterfúgios, como se já não estivesse evidente ao longo da apresentação. O desfecho, contudo, evidencia a expressividade dos atores do Lume (Ana Cristina Colla, Carlos Simioni, Jesser de Souza, Naomi Silman, Raquel Scotti Hirson, Renato Ferracini e Ricardo Puccetti).

Apesar das restrições, o espetáculo não é destituído de qualidades. Há soluções criativas na cenografia (de Elias Abrahan) e na iluminação (de Nadja Naira), a exemplo da utilização de garrafas coloridas sem fundo para abrigar lâmpadas e da reconstituição de uma atmosfera boêmia e nostálgica, com as mesas cobertas por toalhas verdes, os engradados de cerveja nas laterais e um mobiliário personalizado. Os figurinos (de Warner Reis) são adequadamente exuberantes. A música (a cargo de Marcelo Onofri, diretor musical presente em cena ao lado de Leandro Barsalini e Eduardo Guimarães) é especialmente expressiva quando realça sons exasperantes que dimensionam a miséria afetiva dos personagens.

O crítico viajou a convite da organização do festival.

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