Crime no hospício

Tradução da peça de André de Lorde e Alfred Binet, por Raphael Cassou

28 de dezembro de 2012 Traduções

INTRODUÇÃO

O Théâtre du Grand Guignol foi fundado em Paris em 1897 e esteve em atividade por mais de meio século, encerrando suas atividades em 1963. O Grand Guignol ficou conhecido mundialmente por celebrizar peças de terror, que contribuíram para a fixação de um gênero próprio que tomou o nome do próprio teatro. “Guignol” era o nome original de uma personagem de fantoche, de comportamento violento e satírico, que se assumia como o protagonista de espetáculos de fantoches na França do século XVIII. O Grand Guignol substituiu os bonecos por atores de carne e osso e manteve os temas, especializando-se cada vez mais na representação de enredos violentos, macabros e repletos de crimes horrendos. As primeiras peças inspiravam-se em autores com Edgar Allan Poe, entre outros e enquadravam-se bem no espírito decadentista que dominou a literatura francesa do final do século XIX. O gênero parisiense influenciou cineastas da escola expressionista alemã como Friedrich Wilhelm Murnau (Nosferatu, uma sinfonia de horrores, 1922) e Fritz Lang (M, O vampiro de Düsseldorf de 1931) entre outros.

O texto aqui traduzido, é representante da segunda fase do Grand Guignol. Crime no hospício (Un crime dans une maison de fous), peça escrita por André de Lorde contando com a colaboração do psicólogo e pedagogo Alfred Binet, em 1925. De Lorde nasceu na França em 1871 e foi um dos principais dramaturgos do Grand-Guignol. Escreveu ao longo de sua carreira mais de uma centena de peças curtas entre 1901 e 1926, explorando, principalmente, temas ligados à loucura e à demência.

CRIME NO HOSPÍCIO

Escrito por André de Lorde e Alfred Binet (1925). Tradução de Raphael Cassou

PERSONAGENS

Doutor Caldwell

Fordham, um médico interno

Louise

Srª Hablin

Srª Cruickshank

Srª Cornish

Freira

1º ATO

Um pequeno quarto em um manicômio. As paredes são brancas. Três camas, cada com uma mesinha ao lado. Uma porta à direita do palco e outra à esquerda do palco. Uma janela à esquerda do palco. Um fogão de ferro fundido, entre a segunda e a terceira cama. Uma prateleira encostada na parede e, acima dela, um grande crucifixo negro.

A ação ocorre no Manicômio St. Perran em Cornwall, Inglaterra.

Louise, uma bela menina de dezoito anos, está sentada em sua cama penteando o cabelo com o auxílio de um pequeno espelho. Assim que a FREIRA entra, ela esconde o pente e o espelho sob seu travesseiro.

FREIRA (entrando à esquerda e olhando Louise): Oh, é você. Eu ouvi que o doutor em breve vai permitir que você nos deixe.

LOUISE: Sim, irmã, eu acho que sim.

FREIRA: Você deve se certificar de deixar os seus pertences arrumados.

LOUISE: Sim, irmã.

FREIRA (para Louise): Ontem foi domingo, mas não conseguimos vê-la na capela. Por que isso? (Pausa.) Não havia nenhuma razão para isso, não é? Eu falei com o capelão, e ele me disse: “Irmã, há apenas uma interna neste asilo inteiro cuja confissão não tomei, e ela está sob sua responsabilidade!” Você acha que eu fico feliz ao ouvir tais acusações?

LOUISE: Não, irmã.

FREIRA: Você esteve muito doente. Em duas ocasiões você escapou por pouco da morte.

LOUISE: Sim.

FREIRA: Se você sofrer uma recaída, você pode não ter a mesma sorte novamente. E quando a morte chega, e se a morte bater à sua porta pronta para levá-la embora, você vai ter medo. Você vai querer fazer uma confissão, mas será tarde demais, pobre criatura.

Ouve-se barulhos de sinos.

LOUISE (arrepia-se ao ouvir os sinos): Ah, esses sinos! Eles são tão sombrios!

Entram a esquerda do palco o DOUTOR, Caldwell, e Fordham, um MÉDICO INTERNO.

DOUTOR (entrando): Que diabos de sino foi esse? Alguém morreu?

FREIRA: Sim, Doutor… Irmã Sulpice. Esta manhã às onze horas durante a santa missa. A irmandade inteira estava reunida ao lado de sua cama.

DOUTOR (ironicamente): E quem ficou tomando conta dos pacientes enquanto isso estava acontecendo?

FREIRA: Nós não nos demoramos.

DOUTOR: Eu espero que seja verdade. Houve alguma alteração por aqui?

FREIRA: Não Doutor estava tudo muito calmo, como de costume.

DOUTOR: Sem febres, sem desmaios, sem convulsões?

FREIRA: Nada.

DOUTOR: Esplêndido. (para o MÉDICO INTERNO) você está acompanhando, Fordham?

Ele se vira para sair.

LOUISE: Irmã!

FREIRA: O que você quer?

LOUISE: Eu gostaria de falar com o Doutor.

FREIRA: O Doutor está muito ocupado…

DOUTOR (volta-se): De modo algum, irmã, de modo algum. Há alguma coisa que você queira me perguntar, minha querida?

LOUISE: Oh! Sim, Doutor, sim.

MÉDICO INTERNO (em voz baixa para o DOUTOR): Que coisinha mais linda.

DOUTOR (aparte para o MÉDICO INTERNO): Não é mesmo? (Fala alto): Bem, minha querida, o que você quer? Irmã, você poderia nos trazer umas cadeiras? Aqui, sente-se. Eu aposto que você quer falar sobre sua alta novamente.

LOUISE: Sim, Doutor.

DOUTOR (sorrindo): Quanta ingratidão! Então, me diga, por que você quer nos deixar?

LOUISE: Porque eu já estou curada. O senhor me curou.

DOUTOR: Possivelmente, sim. Você está muito melhor do que quando chegou aqui. Seus olhos aparentam estar muito mais perspicazes agora, você não concorda?

Ele se vira para o MÉDICO INTERNO.

MÉDICO INTERNO: Ela certamente parece me muito mais alerta.

DOUTOR: Veja você! Eu disse que o que ela tinha, é o que Kraepelin caracterizou como psicose maníaco-depressiva, enquanto você…

MÉDICO INTERNO: Eu diagnostiquei como sendo um caso de demência precoce.

DOUTOR: Mas se fosse isso ela não estaria no estado em que se encontra hoje.

MÉDICO INTERNO: Remissões não são incomuns.

DOUTOR: Mas tão abrangente quanto esta? Pouco provável.

FREIRA: E isso é tudo, Doutor? Eu creio que pode ter deixado o corpo.

DOUTOR: Sim, sim. (A FREIRA sai a esquerda assim que os sinos ressoam ao longe). (para LOUISE) Então, você não está sentindo mais nenhum tipo de ansiedade? Ou alucinações?

LOUISE: Eu?

DOUTOR: Você nem mesmo se lembra? Bom, de fato isso é muito melhor.

LOUISE: Não Doutor, eu estou bem, eu consigo sentir isso. Eu me sinto como – como posso explicar isto – como se tivesse voltado à vida. Eu quero ir para casa.

DOUTOR: Eu compreendo isso, mas devemos ser realistas. (para o MÉDICO INTERNO) De onde ela vem?

MÉDICO INTERNO: De Pentire, eu acho.

LOUISE: Sim, meus pais vivem lá.

DOUTOR: E quando você passou mal, você estava vivendo com eles?

LOUISE: Oh! Não, eu estava trabalhando. Eu trabalho desde os dez anos. Eu tenho um emprego.

DOUTOR: Então seu patrões estavam cientes de que você tinha um distúrbio?

LOUISE: Sim.

DOUTOR: E você realmente acredita que eles vão te aceitar de volta depois disso?

LOUISE: Eu não sei.

DOUTOR: Todos daquela localidade saberão que você esteve em St. Perran. Será difícil encontrar outro emprego. Veja, a vida pode ser bastante complicada quando se deixa um hospício.

LOUISE: Isso é verdade, é realmente terrível. (Sem rodeios) Mas mesmo assim, você não pode me manter aqui para sempre, ainda mais agora que estou curada. Que tipo de vida é essa?

DOUTOR: Não, não, de fato, mas espere mais um pouquinho.

LOUISE: Esperar?

DOUTOR: Sim. Fique por aqui mais um tempo. Pode não ser muito divertido, mas só lhe fará bem.

LOUISE: Não, o senhor não vê que eu tenho que sair?

DOUTOR: E para onde irá, se sair?

LOUISE: Vou para Londres.

DOUTOR: Para Londres!

LOUISE: É uma cidade grande. Lá sempre tem trabalho.

DOUTOR: E você conhece alguém por lá?

LOUISE: Não, mas não tem problema, eu resolverei isso.

DOUTOR: Você não sabe o que está dizendo. Londres! Londres! Minha querida…. especialmente para alguém tão bonita como você… você pode se destruir por lá. E com todos os revezes e desapontamentos que você pode vir a sofrer, você rapidamente cairá novamente. Isso não será possível.

LOUISE: Doutor! Doutor!

DOUTOR: Não, não, nós temos que ser racionais.

LOUISE: Então você não quer me deixar sair!

DOUTOR: Eu quero, mas não ainda. Escute, de agora em diante eu tomarei conta de você particularmente, começando hoje mesmo. (para o MÉDICO INTERNO) Certifique-se para que eu não me esqueça. (para LOUISE) E assim nós procuraremos um local apropriado para você…

LOUISE: Quando?

DOUTOR: Quando? Eu não sei. Talvez daqui a quinze dias, talvez em uma semana.

LOUISE (vigorosamente): Eu não quero!

DOUTOR: O quê?

LOUISE: Ficar outra semana aqui? Não! Eu não quero!

DOUTOR: Ora, vamos….

LOUISE: Eu estou dizendo que não quero ficar mais aqui, nem mais um minuto. Eu quero sair. (abaixando a voz) Eu não quero ficar neste quarto…

DOUTOR (estranhando a mudança em seu tom de voz) O que é isso? Há alguma coisa, algo que você ainda não me disse. (olhando para LOUISE que observa o quarto ao seu redor).

LOUISE: Quero me certificar de que a Irmã não esteja escutando.

DOUTOR: Ela está lhe causando algum problema? (LOUISE abaixa a sua cabeça e não responde). Eu não posso dizer que estou surpreso com isso. O que ela está fazendo com você? Te tratando com crueldade? Porque você não vai à missa?

LOUISE: Sim, talvez, mas não é isso…

DOUTOR: Bem então, o que é? Você pode nos dizer. É algo que está acontecendo durante o plantão?

LOUISE: Sim, neste quarto.

DOUTOR: Quando foi isso?

LOUISE: À noite, quando não havia mais ninguém aqui…

DOUTOR: O que você quer dizer com mais ninguém aqui? E as outras pacientes?

LOUISE: Sim, mas as irmãs saíram, e então…

DOUTOR: Prossiga. Meu Deus, você está tremendo. Não precisa se assustar. ( Ele pega a sua mão paternalmente). Pronto, vá em frente.

LOUISE: Eu não sei como dizer isso… Até mesmo pensar sobre isso me aborrece.

DOUTOR: Calma, acalme-se.

LOUISE: Bem… Quando as irmãs se vão, e as luzes se apagam… Se o senhor simplesmente soubesse como as coisas aqui mudam…

DOUTOR: Como assim mudam?

LOUISE: Coisas acontecem, coisas que você não pode compreender… Aquela porta ali, o senhor a vê?

Ela indica a porta à esquerda do palco.

DOUTOR: Sim?

LOUISE: A irmã a tranca quando ela sai. Na noite passada, no meio da noite, ela estava aberta.

DOUTOR: Você viu alguém abrir aquela porta?

LOUISE: Ela se abriu sozinha. E então… foi como um sinal. As duas velhas que dormem aqui – o senhor as conhece?

DOUTOR: Sim, prossiga.

LOUISE: Elas se levantaram.

DOUTOR: Como assim, elas se levantaram?

LOUISE: Não havia ninguém lá para impedi-las.

DOUTOR: Me desculpe, mas na noite anterior à noite passada eu coloquei uma daquelas mulheres, a Sra. Cornish, em uma camisa-de-força.

LOUISE: Que diferença isso faz? A outra tirou.

DOUTOR: Ela precisaria ter uma chave.

LOUISE: Ela tinha uma chave. Ela tinha tudo o que era necessário para…

DOUTOR: Para o quê?

LOUISE: Por que você está me olhando deste jeito? Os dois!

DOUTOR: (para MÉDICO INTERNO): Eu temo que isso possa deixá-la ainda mais agitada.

MÉDICO INTERNO: Certamente, parece ir por esse caminho.

LOUISE: Meu Deus! Vocês estão achando que estou mentindo? Ou que eu ainda estou louca?

DOUTOR: Não, não, minha querida. Então, elas se levantaram, e o que elas fizeram?

LOUISE: Elas vieram até a minha cama, sem fazer barulho. Elas se inclinaram sobre mim…Elas me olhavam… olhavam fixamente… como se elas quisessem me machucar.

MÉDICO INTERNO: Machucar você?

LOUISE: Mas elas não ousaram… elas ficaram prestando atenção à porta; então elas chacoalharam a cabeça, como se temessem algo. Elas pareciam estar esperando por alguém. E de fato havia alguém.

DOUTOR: Quem?

LOUISE: A Caolha! Ela estava fazendo sinais para as outras duas.

DOUTOR: O quê?

LOUISE: Eu sei que era ela! Ela tinha aquele tapa-olho preto por sobre o olho. Ela estava fazendo sinais.

DOUTOR: Impossível!

LOUISE: Doutor, eu a vi.

DOUTOR: Estou dizendo que isso é completamente impossível. As outras duas…talvez. Elas pelo menos podem andar. Mas a Sra. Hablin – você realmente não deveria chamá-la de Caolha, você sabe, isso é muito cruel – ela tem as pernas paralisadas desde que tinha a sua idade, ela está inteiramente confinada a uma cama. Mal consegue tirar a cabeça do travesseiro, o que dirá levantar-se.

LOUISE: Mas eu a vi, Doutor. Ela estava lá, na porta, de pé!

DOUTOR: Você vê, minha querida, você não está ainda inteiramente curada.

LOUISE: Eu estou curada! Eu sei o que eu vi!

DOUTOR: Não. Porque o que você está dizendo é impossível.

LOUISE: Eu não sei como vou convencê-lo, mas eu a vi. Eu não estava dormindo, meu olhos estavam bem abertos. Eu a vi. Os sinais que ela estava fazendo para as outras… Elas não queriam…Elas estavam com medo… Eu vi.

MÉDICO INTERNO (para o DOUTOR): Ela sofreu alucinações no passado.

DOUTOR: Estava pensando justamente nisto.

MÉDICO INTERNO: É possível que o que ela esteja descrevendo…

DOUTOR: É um sintoma prévio para outro ataque. Pobre criança!

LOUISE (assustada). Não, Doutor… (para o MÉDICO INTERNO) Sr. Fordham, não… eu estou dizendo que que eu vi…

DOUTOR: Sim, claro, você viu… eu acredito que você tenha visto… Mas… (em voz baixa, para o MÉDICO INTERNO) Eu estou convencido.

MÉDICO INTERNO: Eu também.

DOUTOR: As alucinações dela voltaram.

MÉDICO INTERNO: O procedimento de lobotomia do Dr. Moniz para separar os lobos frontais alcançou resultados notáveis em tais situações….

DOUTOR: Sim, eu sei. Me parece um tanto quanto radical, mas pode ser que nós… (eles olham fixamente para LOUISE).

LOUISE: Não me olhem deste jeito! Doutor, eu não estou mais louca! Seguramente o senhor pode perceber que eu estou certa de minhas faculdades mentais?

DOUTOR: Por favor não se aborreça!

LOUISE: Eu estou chateada, mas eu não sou louca. Não estou inventando coisas. (para o MÉDICO INTERNO) você não acha que eu estou inventando coisa, não é, Sr. Fordham? Acredite em mim, eu te imploro…

DOUTOR (calmamente): Está certo, eu acredito em você. Mas eu preciso mantê-la aqui sob observação por mais uns dias.

LOUISE: Mais uns dias? E se acontecer novamente?

DOUTOR: Então você vai me avisar.

LOUISE: Mas você não vai me deixar aqui, vai? Se você não me deixa sair de uma vez, pelo menos me transfira para um outro quarto.

DOUTOR: Todos os leitos estão ocupados.

LOUISE: Eu te imploro…

DOUTOR: Está certo. Amanhã, nós iremos mudar você de quarto, eu prometo.

LOUISE: Sim, mas esta noite… eu estou tão assustada, tão assustada!

MÉDICO INTERNO: Ela está muito alterada!

DOUTOR: Esta noite, a irmã não vai deixá-la sozinha.

LOUISE: Ela nunca vai ficar.

DOUTOR: Ela vai ficar. Vou mandar ela ficar.

LOUISE: Ela vai sair.

DOUTOR: Eu gostaria de vê-la tentar.

LOUISE: Ela sairá daqui tão logo o senhor parta.

DOUTOR (bruscamente): Chega! Se você continuar se comportando desta maneira histérica, vai ser prova o suficiente de que você não está curada e eu serei forçado a manter você aqui no hospício por um bom período de tempo.

LOUISE: Meu Deus!

Entra pela esquerda do palco a FREIRA.

DOUTOR (chamando): Ah, irmã.

FREIRA: Doutor.

DOUTOR: Essa menina está agora sob os meus cuidados: e ela não está sendo razoável. Ela ainda está muito perturbada, tendo medos irracionais. Dito isso, ela está claramente sofrendo e sofrimento desnecessário deve ser evitado. Esta noite, você vai cuidar dela.

FREIRA: Mas Doutor…

DOUTOR: Eu insisto para que você cuide dela. Ela não terá pesadelos se você estiver aqui.

FREIRA: Que diferença vai fazer se ela tiver pesadelos?

DOUTOR: O suficiente para nós podermos tomar nota.

FREIRA: Se ela está tão agitada, nós podemos dar-lhe duas colheres de hidrato de cloral.

DOUTOR: Não, eu preferiria que você ficasse com ela.

FREIRA: Isso vai ser difícil, especialmente esta noite.

DOUTOR: Por quê?

FREIRA: Haverá uma cerimônia.

DOUTOR: Que cerimônia?

FREIRA: Para a Irmã Sulpice.

DOUTOR: Ah, sim.

FREIRA: Haverá uma vigília sobre o corpo durante a noite. Hinos serão cantados. Todas as irmãs estarão presentes.

DOUTOR: Você vai ter que encontrar alguém para te substituir.

FREIRA (sem graça). Isso não será possível.

DOUTOR: Seria perfeitamente possível se demonstrasse um pouco de boa vontade.

FREIRA: A Madre Superiora não permite que a gente falte a uma cerimônia na capela.

DOUTOR: Preciso lembrá-la, irmã, que há questões de decência humana em jogo aqui, que são mais importantes que uma cerimônia na capela.

FREIRA: Eu não sei. Isto dependeria do seu ponto de vista.

DOUTOR: Me surpreende a sua hesitação quando eu digo que a sua obrigação é permanecer aqui.

FREIRA: Minha obrigação é obedecer a Madre Superiora.

DOUTOR: Uma vigília por um morto é muito correta, mas não pode prevalecer sobre os cuidados adequados para com os vivos.

FREIRA (insiste): Minha obrigação é com a Madre Superiora.

DOUTOR: Sua obrigação é me obedecer. A Madre Superiora não está no comando deste hospício, o médico é quem está. E eu sou esse médico. Você compreende?

FREIRA (sem expressão): Sim, Doutor.

DOUTOR: Eu estou ordenando que você passe a noite, a noite inteira neste quarto. Você vai me obedecer ou não?

FREIRA: Eu sou uma mera empregada. Minha obrigação é obedecer.

Ela resmunga algumas palavras em voz baixa.

DOUTOR: O que foi isso?

FREIRA: Nada, Doutor, nada. Eu não tenho nada a dizer.

DOUTOR. (severamente): Bom. (para LOUISE, com afeição) Eu espero que você se sinta melhor agora? (LOUISE não responde). Boa noite, minha querida, boa noite. ( Para o MÉDICO INTERNO) Oh, meu caro, essas freiras! Essas freiras! (Saindo) Elas possuem muitas qualidades – elas são discretas, elas são sérias, elas são dedicadas… Mas, por Deus, elas são muito teimosas quando se trata de algum procedimento religioso.

Eles saem à direita. A FREIRA os segue, deixando LOUISE sozinha no palco. Ela se senta na cama.

LOUISE: Eles não acreditaram em mim. (Choramingando) Oh Deus! Oh Deus!

CORNISH e CRUICKSHANK entram pela esquerda, o público mal percebe quando elas fazem isso, a noite está caindo. Suavemente, elas rastejam até LOUISE que, ao ouvi-las, vira-se e grita de medo.

CORNISH: Não precisa se assustar, queridinha.

CRUICKSHANK: Fazendo tanto barullho e nós nem ao mesmo tocamos em você.

CORNISH: Espere um pouquinho.

CRUICKSHANK: Um pouco mais.

CORNISH: É uma noite longa.

CRUICKSHANK: Eu amo a noite.

LOUISE: Porque vocês estão me olhando assim?

CORNISH: Porque não deveríamos olhar pra você?

CRUICKSHANK: Você é muito bonita.

CORNISH: Você tem uns olhos tão bonitos.

CRUICKSHANK: Eles não seu seus.

CORNISH: É claro que não.

CRUICKSHANK: A velha disse que há uma coruja aí.

CORNISH: E um dia, ela vai voar.

CRUICKSHANK (imitando vôo): Pffftttt! Pftttt!

LOUISE: Saiam daqui! Se afaste de mim! (Chamando) Irmã!

CORNISH: E nós não vamos conseguir alcançá-la.

Elas riem e se aproximam de LOUISE. A FREIRA reaparece na porta à direita do palco, e as velhas silenciosamente retornam à suas camas.

FREIRA: O que está acontecendo? Alguém me chamou? Oh, é você de novo.

LOUISE (ainda muito agitada): Sim, irmã.

FREIRA: Eu não ligo para os pacientes que estão sempre reclamando. O que foi agora?

LOUISE (indicando as velhas): Elas estão aqui.

FREIRA: É claro que elas estão aqui, elas dormem aqui. Vão dormir, vocês três. Rápido. (Ela risca um fósforo e acende uma lamparina. O quarto se ilumina. Ela olha o ambiente ao redor. Vozes podem ser ouvidas nos quartos vizinhos). E agora isso. (Ela pega a lamparina, abre a porta à esquerda e olha através.) Silencio! Sem barulho agora! Já está na hora de dormir, vocês me ouviram?

O sons gradualmente vão morrendo até o silêncio total. Ela se aproxima da porta e a tranca. As duas velhas, ao lado de suas camas, e se preparam para dormir. LOUISE permanece sentada em sua cama, em silêncio. A FREIRA coloca a lamparina na mesinha, então ajoelha-se diante do cruxifixo e sussura uma prece.

CORNISH e CRUICKSHANK (murmurando orações indistintas nas quais ocasionalmente palavras são ditas): Ave Maria…. até a hora de nossa morte…. amém…

FREIRA: Amém. (Ela se levanta, permanece parada. Os sinos soam à distância, cada vez mais alto. Ela escuta, hesita por um momento, e então, tomando sua decisão, e lentamente se movimenta e se aproxima da cama de LOUISE, que ainda permanece sentada, congelada. Suavemente) Louise?

LOUISE: Irmã.

FREIRA: Bem? Você não vai dormir, minha criança?

LOUISE (com alguma hesitação): Sim, irmã.

FREIRA: Você não está mais assustada, eu espero? Está tudo em paz, como você pode ver. Você vai ter uma boa noite de sono, não vai?

LOUISE: Sim, irmã.

O sino soa novamente.

FREIRA: Você ouve o sino me chamando? Eu tenho que ir cumprir com minha obrigação para com os mortos.

LOUISE: Mas, irmã…

FREIRA: Você sabe muito bem que eu não posso ficar aqui. Você não é uma garota egoísta, você é uma pessoa de bem. Você sabe que os mortos precisam de nossas preces. Os mortos devem vir antes dos vivos.

LOUISE: Mas o Doutor…

FREIRA: O Doutor não vai ficar sabendo se você não contar nada a ele. Se você contar a ele, você poderá me causar grandes problemas. E pense em toda a confusão e chateação! Você sabe do que ele gosta. Ele sempre está fazendo barulho por nada. Ele pode reclamar à administração, ele poderia me notificar. A Madre Superiora não vai gostar disto. Não mesmo. E não devemos desapontar a Madre Superiora. Quando menos esperarmos, ela estará no comando aqui. Você compreende?

LOUISE (resignada): Sim, irmã.

FREIRA: Muito bem, minha criança, seja razoável. Nós duas podemos ser boas amigas. É para o seu bem, acredite em mim. Eu posso lhe assegurar que você terá alta o mais rápido possível. Então, seja razoável. Boa noite.

Ela cruza a porta à direita do palco e as cortinas caem, o sino continua soando à distância.


2º ATO

Mesmo cenário.

A escuridão engrossa. A lua emite uma luz esverdeada através das vidraças, enquanto a lamparina serpenteia em seu vidro na prateleira. Um longo silêncio. O relógio, ao longe, soa dez horas. Música de órgão e orações cantadas são ouvidas intermitentemente durante o ato, vindo da capela. De repente, Cornish e Cruickshank se agitam silenciosamente em suas camas.

CORNISH (a meia voz, depois uma pausa): Psst!

CRUICKSHANK (da mesma forma, em resposta): O quê?

CORNISH (sentando-se na cama): Ela já dormiu?

CRUICKSHANK (fazendo o mesmo): Parece que sim.

CORNISH: Best be sure. Melhor se certificar.

CRUICKSHANK: Eu vou ver.

CORNISH: Espere! Eu acho que ouvi passos no corredor.

CRUICKSHANK: A irmã voltou?

CORNISH: Pode ser. (Elas se deitam novamente. O silêncio volta assim que os sons se distanciam. Elas se sentam novamente). Elas não estão vindo aqui.

CRUICKSHANK: Não, desceram as escadas.

CORNISH: Certo.

Uma pausa.

CRUICKSHANK: Esta noite, então.

CORNISH: É isso o que ela quer.

CRUICKSHANK: Melhor fazer o que ela diz, porque senão…

CORNISH: Ela pode nos machucar.

CRUICKSHANK: Como a pequenina.

CORNISH: Você não se esqueceu do que ela pediu?

CRUICKSHANK: O quê?

CORNISH: Um pano.

CRUICKSHANK: Eu não tenho um pano.

CORNISH: Rasgue um pedaço do lençol com seus dentes.

CRUICKSHANK: Boa ideia.

Ouvimos o barulho de tecido rasgando.

LOUISE (sentando-se ainda meio sonolenta) O quê?

CRUICKSHANK: Ela está acordando.

CORNISH: Calma.

Elas permanecem imóveis. Silêncio.

LOUISE: Eu ouvi…. Eu sei que vem daqui…

Ela olha ao redor do quarto.

CRUICKSHANK (que esconde um pedaço de pano sob seu travesseiro): Aqui vamos nós.

CORNISH: Espere pelo sinal.

CRUICKSHANK: Espero.

Silêncio.

LOUISE: Alguém estava conversando. São elas… Elas não estavam dormindo!

Ela se ajeita para tentar ouvir melhor.

CRUICKSHANK: Ela está acordada!

CORNISH: Ela pode nos ouvir…

Elas se sentam em suas camas.

LOUISE: Por que elas estão sentadas ali daquele jeito? (Fala alto) O que está acontecendo? O que vocês querem?

CORNISH: Não precisa se assustar, queridinha.

CRUICKSHANK: Claro que não.

CORNISH: Aquela coruja acordou você com seu piado?

CRUICKSHANK: Isso é sinal de morte.

Elas riem.

LOUISE: Parem! Fiquem quietas! É horrível estar presa aqui, com essas lunáticas.

CORNISH: Você não está mais doidinha então?

CRUICKSHANK (rindo): Ela acha que não é mais doidinha!

CORNISH: Ela pensa que vai sair em breve!

CRUICKSHANK: Você nunca vai sair.

CORNISH: E caso isso aconteça, os primeiros a sair serão os seus pés.

Elas riem.

LOUISE: Eu estou assustada. Eu não quero mais ficar aqui nem um minuto a mais, sozinha, eu não quero!

CORNISH: Você não está sozinha.

CRUICKSHANK: Você está aqui conosco.

Elas saem de suas camas.

LOUISE: Se afastem de mim ou eu vou chamar… Se afastem… Se…

Neste momento, uma espécie de assobio prolongado é ouvido vindo do quarto à esquerda. LOUISE, aterrorizada, pára. As duas velhas também ouvem e também ficam paradas.

CORNISH: Fique quieta! É ela!

CRUICKSHANK: Sem barulho! Ela vai ouvir você.

CORNISH: E se ela ouvir você, ela pode se zangar.

CRUICKSHANK: E se ela se zangar, é melhor ter cuidado!

CORNISH: Melhor ter cuidado!

CRUICKSHANK (como se recitasse uma prece): Tende piedade…

CORNISH: Tende piedade de nós…

CRUICKSHANK: Quando você sair…

CORNISH: Seus pés vão ser os primeiros.

CRUICKSHANK (gesticulando para a porta à esquerda): Ela está vindo. Olhe!

LOUISE (que agora está de pé, se encostando contra a janela): A porta está se abrindo! Socorro! Socorro!

Ela corre para a porta à direita para tentar escapar, mas uma das velhas bloqueia seu caminho e a empurra de volta. Ela circula pelo quarto, enlouquecida, como um animal preso em uma armadilha. Repentinamente, uma forma sombria se levanta diante dela. É HABLIN, que entrou pela porta à esquerda do palco. Ela se aproxima silenciosamente, e então avança sobre LOUISE e força a menina a deitar em sua cama, sufocando os gritos dela.

HABLIN (segurando LOUISE, que se debate, em sua cama): Me traga a lamparina. (CRUICKSHANK vai pegar a lamparina que está na mesinha). Segure-a para que eu possa ver.

Ela aperta uma das mãos sobre a boca de LOUISE, para prevenir os gritos da garota.

CRUICKSHANK (trazendo a lamparina e segurando-a): Aqui!

CORNISH se aproxima. Elas se inclinam sobre LOUISE.

CORNISH (para CRUICKSHANK): Ela está bem fixada.

CRUICKSHANK: É isso o que ela faz.

CORNISH: O que ela vai fazer com a garota?

CRUICKSHANK: Eu não sei… Ela tem alguma coisa em mente.

HABLIN: Trouxe o pano?

CORNISH: Aqui.

Ela traz o pedaço rasgado de lençol.

HABLIN (para CORNISH): Matenha as mãos dela abaixadas. Eu preciso de um grampo de cabelo ou de uma agulha, uma bem grande.

CRUICKSHANK (procurando): Um grampo?

CORNISH: Bem, a irmã… a agulha de tricô dela.

CRUICKSHANK (movendo-se naquela direção): Claro, na mesinha.

CORNISH: Pela Virgem.

CRUICKSHANK: Aqui.

Ela pega a agulha e passa para HABLIN.

HABLIN: Eu não consigo trabalhar sem enxergar.

CORNISH: De fato, fica difícil.

HABLIN: Traga a luz para mais perto.

CRUICKSHANK: Assim.

HABLIN: Mais perto.

CRUICKSHANK obedece.

CORNISH (olhando para LOUISE): Eu poderia dizer que ela está morta, se eu não a conhecesse muito bem.

HABLIN: Só preciso apertar seu pescocinho um pouco. E ela aparecerá.

LOUISE (se debatendo): Ah!

HABLIN: Veja.

LOUISE: Onde eu estou?

HABLIN: Pare de se contorcer.

LOUISE (olhando elas): Ah! O que vocês vão fazer comigo?

HABLIN: Não grite. Nós não vamos fazer nada com você, somente a estes dois olhos aí.

LOUISE: Meu olhos!

HABLIN: Eles não são seus olhos.

CORNISH: Ela acha que esses olhos não são seus.

Ela e CRUICKSHANK riem.

HABLIN (comandando): Quieta! Entenda isso, garota. Nós estamos fazendo um favor a você. Você estava louca, não estava? Você se lembra?

CORNISH: Claro.

CRUICKSHANK: Ela não se lembra.

HABLIN: Enquanto você esteve louca, uma criatura se apossou de você… uma coruja… Ela se escondeu dentro da sua cabeça, em seus olhos.

LOUISE (se debatendo): Ah!

HABLIN: Se você não parar de gritar eu vou ter que te apertar… Escute o que eu estou dizendo: eu vou tirá-la de dentro de você. Você vai ver. Essa criatura tomou os seus olhos – e ela vai ser tirada através deles. Ela colocou os olhos dela no lugar dos seus. Eu não quero vê-los nunca mais. Eles me queimam. E eu vou tirá-los de você.

LOUISE (enlouquecida e em pânico) Não! Por favor… por favor…

HABLIN: Você entendeu?

LOUISE: Eu imploro a você…

HABLIN: Isso é para o seu próprio bem.

LOUISE: Por favor! Eu não quero morrer…

HABLIN: Isso não vai te matar.

LOUISE (se debatendo): Socorro! Me ajudem!

HABLIN (colocando sua mão sobre a boca de LOUISE): Você vai ficar quieta! (para as outras) Melhor nos apressarmos antes que ela faça mais barulho!

Ela sufoca a garota com o pano, que é grande o suficiente para cobrir seus olhos e sua boca ao mesmo tempo.

LOUISE (sufocando): Ha!

HABLIN: Segura. Vai ser rápido. Só precisamos sentir sair. Eu sei onde estão os olhos, mas é mais complicado com o pano ali.

Ela apalpa os olhos com uma mão, então direciona a agulha ao local com a outra.

LOUISE (gritando em agonia): Ah!

HABLIN: Isso. Está feito. O sangue escorrendo pelas minhas mãos. Tão quente. Tão bom. Como o sangue de outras crianças, tempos atrás.

Um barulho é ouvido à direita do palco.

CRUICKSHANK: Shush!!

CORNISH: Escute!

CRUICKSHANK: Está vindo alguém.

HABLIN se esconde atrás da cama. O quarto fica no mais absoluto escuro. Somente a luz da lua pela janela ilumina o ambiente.

CORNISH: Lá estão eles, lá estão eles!

Elas correm para suas camas e deitam. Uma pausa. Ouve-se passos.

MÉDICO INTERNO (da coxia): Eu estou dizendo a você irmã, eu ouvi barulhos.

FREIRA (entrando, com uma lanterna em sua mão): O que está acontecendo? Alguém chamou?

Ela para na porta de entrada. Silêncio.

MÉDICO INTERNO (entrando atrás dela): Mas… Eu tinha certeza absoluta.

FREIRA (olhando ao redor, iluminando as camas nas quais estão CORNISH e CRUICKSHANK deitadas): Tudo parece em ordem.

MÉDICO INTERNO: Eu acho que não era nada.

Saem. Um coro de vozes femininas é ouvido a distância cantando aleluias.

FREIRA: Nada de mais. Eu tenho que ir. A Madre Superiora não vai gostar da minha ausência. Nós devemos rezar.

Ela sai e as cortinas caem lentamente.

FIM

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A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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