Grand Guignol, cinema e quadrinhos

Crítica da peça Nervo Craniano Zero, da Cia Vigor Mortis de Curitiba

25 de abril de 2010 Críticas
Foto: divulgação.

A peça Nervo Craniano Zero, que esteve em cartaz no mês de março dentro da Mostra Fringe do Festival de Curitiba, foi escrita e dirigida por Paulo Biscaia Filho e encenada pela companhia curitibana Vigor Mortis, que desde 1997 pesquisa e trabalha a linguagem do Grand Guignol. O gênero se baseia nas estéticas do Teatro de Horror de Paris e surgiu no final do século XIX na França. Teve como inspiração inicial as obras de escritores como Edgar Alan Poe e André de Lorde (le prince de terreur) e encaixou-se perfeitamente no espírito decadentista que dominou a literatura francesa do período. O traço marcante do Grand Guignol é a exploração do terror e da violência em cena. É a partir deste contexto que vem à cena Nervo Craniano Zero, trazendo para a contemporaneidade esta linguagem, com uma roupagem que rende ainda homenagens aos mestres dos quadrinhos noir como Will Eisner, Frank Miller e Garth Ennis e ao cinema do diretor canadense David Cronenberg, um dos mestres do cinema de terror e violência.

A trama discute, através da linguagem do Grand Guignol, os impasses da inventividade e da criação artística ou da ausência da criatividade. O espectador é convidado a conhecer a história de um médico (Leandro Daniel Colombo), uma escritora (Michelle Pucci) e uma simplória garota do interior (Rafaella Marques). Os destinos dessas três personagens se cruzam quando, depois de perder a esposa durante a criação de sua invenção – um chip indutor de dopamina, que uma vez instalado no nervo craniano zero, supostamente, daria a seu usuário surtos ilimitados de criatividade – o doutor é contratado pela escritora que, após alcançar a notoriedade com seu último trabalho, morre de medo de não conseguir mais escrever nenhum livro de sucesso. Cautelosa, ela coloca um anúncio no jornal para que uma cobaia humana teste o chip. A única a responder é uma garota que tinha a pretensão de ser uma grande cantora e é humilhada em cadeia nacional em um programa de calouros na televisão. Sem nada a perder, a moça aceita implantar a engenhoca em seu cérebro. Para que essas transformações aconteçam em cena, Biscaia não poupou sangue, pois o público vê no palco uma operação no crânio (ao som de Total Eclipse of the Heart de Bonnie Tyler), corações arrancados, tesouradas na nuca, entre outros recursos típicos das histórias de terror que, apesar de criarem situações extremamente cômicas, são levados a sério pela companhia curitibana.

A encenação da Vigor Mortis envereda pela fusão entre a linguagem teatral e a linguagem ágil do cinema no momento em que há uma espécie de simbiose na interação entre os atores no palco e o vídeo. Este inclusive é um dos motes da companhia paranaense, que procura explorar as possibilidades do horror e da violência como forma de linguagem artística, aliadas ao uso de recursos multimídias de forma orgânica com a dramaturgia e a interpretação. O objetivo é levar cena, texto e interpretação ao limite entre a linguagem teatral e audiovisual. O recurso visual aqui não surge como elemento meramente ilustrativo, atua como se fosse um quarto ou quinto personagem, que trabalha como um elo de ligação entre os quadros. Este expediente acaba nos envolvendo em um estado no qual os territórios das sensações e as relações humanas do cotidiano se confundem com a atuação. Por mais inverossímeis e inusitadas que sejam, em dado momento, somos abarcados por aquelas personagens e as situações apresentadas. A experiência teatral se dá não somente no campo visual, mas também no campo sensorial. Por mais que haja uma “quarta-parede” que separe palco e platéia somos conduzidos pelo clima nonsense, o kitsch, o suspense, o terror e a comédia.

Foto: divulgação.

Em Nervo Craniano Zero fica evidente a fusão de três linguagens em especial: a teatral, a cinematográfica e a estética das histórias em quadrinhos. Difícil é não associar a encenação a esta última linguagem. Paulo Biscaia se nutre do melhor que o mundo das graphic novels pode nos oferecer e põe em cena quadros que somente encontraríamos nas histórias públicadas por Will Eisner e seu célebre Spirit. Essa forma se apresenta não somente como uma proposta estilística de materialização da originalidade da arte sequencial, mas também em uma via, senão metodológica, ao menos propositiva, de trabalhar o gesto, a fala, a respiração, o movimento, a expressão, a configuração e a simbolização cênica, e de exacerbar os clichês. As personagens são propositalmente estereotipadas. Patrice Pavis afirma que ações estereotipadas e a utilização de tais estereótipos no teatro oferecem pouco interesse do ponto de vista da originalidade dramatúrgica ou da análise psicológica (PAVIS, 2005:144). Entretanto, em Nervo Craniano Zero, o diretor e dramaturgo explorou em seu benefício essa pobreza congênita dos estereótipos e dos clichês. Remetendo o espectador a tipos de personagens já conhecidos, ele ganha tempo para melhor manipular a intriga, concentrar-se nos saltos da ação e trabalhar a teatralidade da atuação/jogo dos atores. Os estereótipos dramatúrgicos resolvem de imediato a questão da caracterização e do jogo psicológico: eles convidam o encenador a um jogo muito teatral, imaginativo e muitas vezes paródico. Nós espectadores, em um primeiro instante, nos sentimos de certa maneira frustrados pela ausência de uma maior catarse psicológica e de identificação, mas encontramos em seguida, na correspondência dramatúrgica do jogo cênico, um grande prazer nesta experiência teatral.

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