criticas

Sobre beleza e juventude – O retrato de Dorian Gray

Crítica da peça Dorian, da Companhia de Teatro Íntimo

Foto: Carol Beiriz.

A Companhia de Teatro Íntimo, após realizar o interessante trabalho Oito solos acompanhados na programação da Ocupação Complexo Duplo no Teatro Gláucio Gill, em 2011, retorna ao palco principal do teatro com sua versão do famoso romance O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Dentro da perspectiva de encenação de um clássico da literatura para o palco, sua atualização a partir das singularidades e escolhas de um coletivo teatral, a Companhia de Teatro Íntimo traça um colorido panorama sobre a história do belo aristocrata inglês, Dorian Gray, que em troca de juventude e beleza eternas vê o ônus de suas ações transferidas à sua imagem, retratada pelo artista Basil Hallward. O mergulho da companhia e de seu diretor nessa montagem mostra um coletivo empenhado em traçar uma trajetória de pesquisa continuada, que procura a cada trabalho imprimir sua linguagem artística bem como uma perspectiva apropriada sobre a fonte literária.

A moral, a beleza, a questão do tempo e seus efeitos sobre a juventude, a arte, o fazer do artista e sua recepção crítica são temas centrais no romance de Oscar Wilde. Essas problematizações postas pelo autor irlandês geram infinitas leituras e discussões, que podem ainda ser potencializadas dentro da experiência artística teatral. Falar que o personagem-título do romance chega aos extremos mais vis e hediondos para imortalizar sua juventude e beleza é, mais do que nunca, falar do humano na atualidade. Vivemos um tempo em que a caça pela eterna juventude e pela beleza (como se essa condição fosse somente possível na outra) passa a ser o foco primordial de uma sociedade de aparências. Na nossa Mahagony, bem como na Mahagony de Dorian Gray, parece que o fim último da existência é poder experimentar todos os prazeres do mundo e ser capaz de realizar qualquer ato na ânsia por juventude e beleza. Assim, me parece que juventude e beleza são os dois importantes vetores que, postos em xeque, ligam essa intrincada teia de sentimentos e atos humanos externados na temática de O retrato de Dorian Gray. A questão estética discutida na obra de Wilde se insere também no âmbito da arte. Questões como a arte pela arte, o prazer estético, a inspiração do artista, o modelo de beleza, por exemplo, são temas amplamente discutidos na obra, e dados a priori pelo autor desde o prólogo.

A vontade de ser belo e “apagar” a decrepitude material do corpo, desejo do personagem central, parece instigar a encenação da companhia capitaneada por Renato Farias, cuja forma de contar a história perpassa os principais acontecimentos da fábula e situa o espectador na narrativa. Há uma preocupação em dar conta dos acontecimentos no tempo comum de duração de uma peça. Desse modo, os saltos temporais em Dorian sobrepõem-se à linha contínua do romance que é carregada de tempos “estagnados” de contemplação e pensamentos estéticos.

O trabalho de adaptação estabelece de antemão a criação de um espaço cênico em que o público é recebido e convidado a inebriar-se. É uma característica do grupo essa aproximação entre atores e espectadores, a relação que estabelecem em seus espetáculos é de cumplicidade entre cena e plateia, sobre o acontecimento teatral que se realiza no aqui e agora. A forma de interação com o espectador em Dorian se estabelece como verbo central na ação da peça como um todo.

Toda a plasticidade do espetáculo está carregada do sentido e das sensações do mundo descrito nas linhas de Oscar Wilde. Há uma intenção de criar o clima para contar a história. Dessa forma o espectador é inserido no universo da peça e, a partir desse encontro, que se estabelece desde o princípio, a ação é desencadeada. Em quase todo o decorrer da encenação, os atores se dirigem ao espectador, oferecem bebidas e emitem comentários sobre o que se passa em cena, compartilhando impressões e sentimentos sobre o presente da ação. Encontram-se no limiar entre a figura do personagem e a figura do ator. Também a música, executada ao vivo por Damu Shiva é outro elemento dessa aproximação e da criação daquela atmosfera. O som do contrabaixo propicia uma musicalidade às cenas, cria um fundo musical que estabelece conexão com a atmosfera proposta e um jogo vivo com o registro de atuação.

O tema juventude e beleza é visivelmente materializado pelos elementos cenográficos. O espaço da cena é composto por seis nichos cenográficos (concebidos por Melissa Paro) que desenham a área de atuação central como uma arena. Móveis antigos e sóbrios, sombrios, cristais e espelhos trabalhados e um uso intenso do vermelho pintam a atmosfera lasciva e ébria da narrativa. Há uma riqueza de detalhes que demonstra uma intensa pesquisa da época em que se passa a história, há um preciosismo da direção de arte de Thiago Mendonça com cada adereço. Os figurinos, também de Thiago Mendonça, são composições minuciosas que remetem à época de forma singular: fraques, anáguas, cartolas, bengalas e rendas. Eles compõem esse conjunto visual com a cenografia, integrando-se ao registro de atuação empenhado com naturalidade pelos atores, especialmente a meia calça com desenho de esqueleto usado pela atriz Fernanda Boechat, que confere uma morbidez ao quadro da cena, sugerindo um duplo sentido: enquanto sua personagem aristocrática se apresenta em trajes pomposos, a imagem esquelética desenhada nas meias mostra o lado obscuro que a aristocracia pode vir a esconder. Destaco também os figurinos da personagem Sybil Vane (Letícia Cannavale), entre eles um vestido estampado com figuras renascentistas de ninfas, deusas, “Monalisas”, padrões de beleza clássicos que imprimem a questão do belo e sua atemporalidade.

A decrepitude que acomete todos os personagens do romance, tanto quanto a resolução escolhida pelo diretor para materializar o salto temporal provindo da fonte literária, é concretizada a partir de um movimento em que os atores vão, eles próprios, se caracterizando com linhas de expressão, talco nos cabelos, cabelos desgrenhados, lentes que distorcem o olhar (característica marcada no retratista) e corpos que vão se esfacelando ao chão. A decrepitude chega a todos, como proferem em coro, menos a Dorian Gray, que permanece inalterado e apolíneo, porém envenenado por suas próprias ações torpes que se dão a ver no retrato. A encenação de Renato Farias usou de um jogo de quadros dispostos num cavalete para mostrar o processo de distorção do “retrato da alma” do belo Adônis.

As atuações de Thiago Mendonça e Rafael Sieg, respectivamente o retratista Basil Hallward e Lord Henry Wotton, propõem uma fala em que as palavras de Oscar Wilde sejam valorizadas. Há nelas uma impostação que procura acionar o espectador a verificar o que há para além da história de Dorian Gray, e que repousa nos longos diálogos entre os dois personagens. Vemos muito do autor ali exposto quando os atores dirigem as falas ao espectador. Mas não há momentos em que o personagem central estabeleça um diálogo com a plateia, ou que esteja em momentos de digressões – o que vemos na narrativa de Wilde. A atuação de Augusto Garcia, que faz o personagem principal, não mostra um mergulho mais vertical na subjetividade de Dorian Gray.

Acredito que essas particularidades envolvam uma preocupação legítima, tanto do diretor como do ator, em dar conta de contar a história, mas que acarreta na falta de uma representação mais radiográfica, mais incisiva do personagem. Senti falta dessa energia quase narcísica – vale lembrar que Dorian se apaixona não por seu reflexo, mas por seu retrato, que vem a ser uma obra de arte, antes de ser seu reflexo – desse centro metafísico do qual emanam todas as questões da peça e que me parecem mais intensas e preponderantes para a questão que o autor apresenta. A construção do ator sugere mais uma superficialidade do personagem, ao dotá-lo de uma beleza e placidez aliadas a uma perversidade fria somente, que em nenhum momento mostra um Dorian carregado de pensamentos, dúvidas, inquietações, sofrimentos e, principalmente, temor.

Dâmaris Grün é atriz formada em Teoria do Teatro pela Unirio.

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