Porque a vida não é bonita o bastante

Crítica do espetáculo É Só uma Formalidade, do grupo mineiro Quatroloscinco

25 de setembro de 2010 Críticas
Foto: Glenio Campregher

Em É Só Uma Formalidade, seu espetáculo de estreia, o grupo mineiro Quatroloscinco Teatro do Comum escolheu tratar da ilusão, tema dos mais pertinentes à arte teatral. Se a vida não é bonita o bastante, como diz um dos quatro atores em cena, resta criar.

Interessados nos fracassos da trajetória humana e nas esperanças que se esvaem, os atores-criadores armam o espetáculo, porém, sem sucumbir simplesmente ao retrato do feio ou do sombrio. Se questionam a ficcionalização ilusória da realidade, há neles sobretudo uma crença na criação artística, que se expressa em uma dramaturgia irônica e pessimista, mas, ao mesmo tempo, em relações afetuosas entre os atuantes e destes com a plateia. Sinal de que, diante da falta de entendimento entre os personagens, o grupo não desistiu da comunicação com o público. O pessimismo, então, aparece como tema, não como fim.

A ilusão fica contida na esfera das relações duais entre os personagens, inspiradas livremente na obra do diretor argentino César Brie: Sólo los Giles Mueren de Amor. Correm em paralelo duas histórias vinculadas a formalidades sociais, revelando o quanto são ineficientes como embalagens para os sentimentos. Uma se refere ao casamento: um casal está em crise, a união fracassou, mas a mulher se recusa a enxergar. “Aliança a gente perde na rua”, diz ele. “Coragem também”, ela replica, num lampejo de clareza. A outra, de contornos menos claros, mostra um homem que cogita retornar para casa anos depois de ter se afastado da família, para ir ao enterro do pai, enfrentando o fracasso de seus projetos de carreira e amoroso. Ele dialoga com um duplo que, mais do que amigo, exerce a função de sua consciência.

Essa consciência acentuada e crítica sobrepõe uma camada de comentário hierarquicamente superior ao drama. Com ironia, marido e amigo deixam momentaneamente o universo ficcional para conduzir o olhar dos espectadores aos auto-enganos derivados de uma expectativa de felicidade presa aos padrões sociais (como o enlace matrimonial) ou resultante da ingenuidade (a aspiração juvenil de mudar o mundo). Os objetos cenográficos, como uma mala e um piano, fazem a ponte entre as duas realidades, expondo a transição de uma para a outra e, com isso, abrindo brechas para o julgamento do público.

A construção das cenas, aliás, se favorece de um processo de criação coletiva que buscava explorar as expressões do jogo cênico, investindo no esmaecimento da fronteira entre a representação de personagens e a presença imediata sobre o palco. O trabalho incluiu contribuições particulares de cada um do elenco, provavelmente determinantes para a subjetividade que se alcança na montagem. O registro das falas se pauta pela coloquialidade e a confidência. Permite o diálogo direto com o público – “percebido” do palco – e a expansão do desvelamento das ilusões até o espaço da plateia: espectadores são incorporados ao drama dos personagens em duas cenas exemplares da condição de insconsciência da mulher e do filho órfão.

O Quatroloscinco retoma uma zona sensível de afeto e cumplicidade que outra companhia mineira, a Cia Luna Lunera, estabeleceu em um espetáculo como Aqueles Dois. Em comum com os procedimentos do grupo veterano está também o recurso ao prólogo, como momento em que as relações se definem num jogo físico de improvisação. Em Aqueles Dois, improvisava-se um contato corporal próximo, gerador de intimidade. É Só uma Formalidade recorre ao treinamento de boxe como metáfora (e preparação) para o combate (ataque, defesa, vencer e perder) e para a noção de suporte ou amparo ao outro: dois dos princípios que nortearão a narrativa.

Vê-se em É Só uma Formalidade, aliás, ecos da poética não só da Luna Lunera, mas de outros grupos de Belo Horizonte, como a Cia. Clara e o Espanca!. As metáforas caras ao Espanca!, como a chuva de abacates que cai sobre o palco de Por Elise conferindo materialidade à ideia de que é preciso ser responsável pelo que se planta no mundo, ressurgem na montagem do Quatroloscinco reinterpretadas, atendendo às questões próprias do grupo.

Quedas súbitas e sopros de alívio igualmente inesperados interrompem a naturalidade do drama, abrindo o espaço poetizado de comentário sobre os sentimentos experimentados no contexto ficional. São também metafóricas (silenciando os diálogos) as cenas elaboradas para “solucionar” cada um dos conflitos, e é por meio delas e da música que os pequenos dramas encenados conseguem transcender. Propõem-se, assim, a uma arte autorreflexiva e consciente da ilusão como alternativa à vida que, em sua forma bruta, decepciona.

Ao receber o público no teatro com cumprimentos e conversa amistosa, de início, e ao diluir o fim desconstruindo o momento dos aplausos com a imediata retomada do diálogo com a plateia e a arrumação do palco, o Quatroloscinco desformaliza convenções teatrais, reafirmando com coerência as ideias da encenação.

O espetáculo foi apresentado nos festivais Verão Arte Contemporânea, Fringe (Festival de Curitiba) e FIT BH

Informações sobre temporadas e o trabalho do grupo: http://quatroloscinco.blogspot.com/

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