Edição: abril, 2012
Vol. V, nº 43, abril de 2012
A edição de abril de 2012 da Questão de Crítica traz textos de espetáculos teatrais do Rio de Janeiro, de São Paulo, e de uma performance realizada na cidade do Porto, em Portugal.
Na seção de críticas, Daniel Schenker escreve sobre a montagem de Equus, de Peter Shaffer, dirigida por Alexandre Reinecke, produção paulista apresentada recentemente no Festival de Curitiba.
Dinah Cesare escreve sobre Cartas de amor Electropoprockoperamusical, que teve sua estreia em 2010, dirigida por Flávio Graff e co-dirigida por Emílio de Mello e agora retorna na Caixa Cultural; sobre Ô Lili, da Cia Marginal, com direção de Isabel Penoni, que está em cartaz na sede da Companhia dos Atores; e sobre Cowboy, peça de Daniela Pereira de Carvalho dirigida por Henrique Tavares, com Saulo Rodrigues e Susana Ribeiro, em cartaz no Oi Futuro Flamengo.
João Cícero Bezerra escreve sobre Sinfonia Sonho, peça do Teatro Inominável, dirigida por Diogo Liberano, criada no curso de Direção Teatral da UFRJ em curta tmeporada no Espaço Cultural Sérgio Porto. Juliana Pinho escreve sobre a performance Espasmos caninos, de Tales Frey, que foi apresentada no Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos – em âmbito do evento Tômbola Show – na cidade do Porto em março deste ano.
A quatro mãos, Mariana Barcelos e Dinah Cesare escrevem sobre a peça A primeira vista, de Daniel MacIvor, com Mariana Lima e Drica Moraes, direção de Enrique Diaz. A peça está em cartaz no Teatro Poeria.
Na seção de conversas, Dinah Cesare conversa com Adriana Schneider sobre a formação do Grupo Pedras de Teatro, na ocasião da comemoração de 10 anos do grupo, que está apresentando seu repertório no Rio, no Teatro Gláucio Gill e em diversas Lonas Culturais, e em São Paulo.
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Colaboraram nesta edição:
Daniel Schenker, Dinah Cesare, João Cícero Bezerra, Juliana Pinho, Mariana Barcelos, Tales Frey.
Editora:
Daniele Avila Small.
Questão de Crítica – revista eletrônica de críticas e estudos teatrais
ISSN 1983-0300
Vol. V, nº 43, abril de 2012
Morrer de urso ou Inovação do momento original

A peça À primeira vista, dirigida por Enrique Diaz e em cartaz no Teatro Poeira, é uma poética ordenada pelo conteúdo contemporâneo do mundo calcado no visual. O que aparece, o que pode ser visto é, mais ainda que o mote, o lugar das origens. Lugar que se desterritorializa por que abre sempre novas linhas de fuga, porque pela sua simples presença já aponta para algum outro lugar de fora. A relação das duas mulheres vividas por Drica Moraes e Mariana Lima é uma reimpressão constante de momentos em que uma vê a outra, desdobramento de um primeiro momento em que se viram em uma loja de material de camping. Ato de ver investido de afeto. A encenação é a segunda experiência de Enrique Diaz com a dramaturgia de Daniel MacIvor. A primeira tratou-se de In On It que estreou em 2009.
O que nos livra do esquecimento

O espetáculo Cowboy, com dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho e dirigido por Henrique Tavares, apresenta um pensamento sobre os estados de loucura e seus limiares colocando em confronto duas perspectivas: uma é a daquele que passa por um estado de sofrimento mental, e outra, é a do que sofre sua repercussão. Neste atrito, mostram-se duas solidões em sofrimento e se dá a ver a inelutável restrição edificada pela afirmação de um único ponto de vista. A questão da loucura não é tratada por tentativa de sublimação ou mesmo de criação de um lugar de valor, o que demonstra uma visão sensível e constrói uma poética transgressora das nossas referências mais comuns.
Ambiguidades sutis

A Cia Marginal está em cartaz com Ô Lili na sede da Cia dos Atores no bairro da Lapa. O espetáculo estreou em maio de 2011 no Teatro Maria Clara Machado. Ô Lili é o segundo trabalho da Cia (o primeiro foi Qual é a nossa cara?), que é integrada por jovens moradores do Complexo de Comunidades da Maré e que vem se desenvolvendo ao longo dos últimos seis anos em formas diferenciadas de oficinas e de apresentação de trabalhos. A pesquisa deste segundo espetáculo partiu de uma série de conversas realizadas com detentos do sistema prisional da cidade e que o grupo materializou por meio de uma criação coletiva, sob a direção de Isabel Penoni.
A tragédia do olhar

Através de um personagem como o atormentado Alan Strung, o dramaturgo Peter Shaffer destaca, em Equus, a dificuldade de ser ou se sentir visto. Vítima de uma educação repressora, Alan, jovem de 20 anos, tem fascínio e horror pelos olhos dos cavalos porque se reconhece neles. É o que argumenta no instante em que o psiquiatra Martin Dysart pergunta sobre o motivo que o levou a cometer a atrocidade de cegar seis animais com um estilete de metal. Depois de iniciar tratamento com o Dysart, Alan passa a entregar fitas com os seus “depoimentos” devido, provavelmente, ao caráter de desvendamento íntimo que o vínculo entre médico e paciente adquire. O impacto desse contato também reverbera em Dysart, que, mergulhado num casamento burocrático, revela incômodo crescente com a intensidade da vibração de Alan.
Nós precisamos sonhar com uma frágil sinfonia?

O espetáculo Sinfonia Sonho do Teatro Inominável, dirigido e escrito por Diogo Liberano, busca pensar o absurdo dos massacres infantis em espaços escolares, partindo de dois motes: a ficção presente no livro We Need to Talk About Kevin de Lionel Shriver e o caso real ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo. Nesse sentido, a obra reflete sobre o espanto que nos atingiu ao assistirmos no Brasil um incidente semelhante ao de Columbine.
BarkingDogs

No princípio não era o Verbo. No princípio era o ecrã de televisão parado, com um conjunto de riscos coloridos em contagem para a abertura da emissão. No nosso princípio, no princípio de uma sociedade sem grandes princípios, a televisão marca o ritmo dos acontecimentos. Mas não nos fiquemos por aqui pois também no princípio o autor e ator se apresenta: ele é Tales Frey a interpretar Tales Frey. Mas não é por habitar essa personagem, como numa consubstanciação, que se torna mais fácil para Tales interpretar Tales. O autor principia com os avisos iniciais – 5 avisos, bem explicados, como bem aberta está a sua mão – tal como numa liturgia. Aqui, este Te Deum é para glória de Tales Frey, que durante a sua performance alcança o estado quase virginal (como podemos ver quando se despe, qual Adão antes do pecado).
Imagens em repercussão poética

Em cartaz no espaço da Caixa Cultural, a peça Cartas de amor – Electropoprockoperamusical, que teve sua estreia em 2010, dirigida por Flávio Graff e co-dirigida por Emílio de Mello é um potente roteiro para o imaginário acerca do amor. A palavra roteiro traz o movimento de percurso com ideias em desenvolvimento. O que surge é a desconstrução do ideal romantizado, deslocamento do lugar da fixação amorosa. Estão em jogo descobertas do amor como um pertencimento variacional: é daquele que ama, ou melhor, é potência que se inventa no amor que existe e que, em alguns momentos, encontra repercussão. Questão teórica que aparece: a repercussão das imagens poéticas. Termo que inclui significados de nova direção, de afastamento, de diferenças direcionais dos fluxos, de reprodução e de transmissão que não se afirmam pela causalidade. Cartas de amor é uma obra que coloca as dobras do amor em sua estrutura. Uma das inspirações para o roteiro foram textos de cartões postais adquiridos pelo ato do colecionador, o que em alguma medida gerou uma miríade de escritos poéticos como letras de músicas. Plataforma em constelação.
A radicalidade do processo coletivo

DINAH CESARE: Quais são as particularidades que envolveram a formação do Pedras?
ADRIANA SCHNEIDER: O Pedras se formou em 2001 a partir de um encontro de atores. Boa parte deles era da Companhia Atores de Laura, eu, o Luiz André, a Georgiana, a Ana Paula e a Helena. A Marina e o Diogo Magalhães trabalhavam com a Christiane Jatahy no Grupo Tal. Nossa intenção era a de dar conta da pesquisa do trabalho do ator, investigar perspectivas distintas. Nós tínhamos muito interesse em oficinas de técnicas do ator. Então, desde sempre, o grupo fez muitas oficinas com outros grupos, como o Moitará para estudar máscaras, com o Enrico Bonavera do Piccolo Teatro de Milão, com o Sotigui Kouyaté, com o Anônimo e as técnicas de palhaçaria, com a Juliana Jardim que tinha uma oficina excelente sobre o bufão e várias oficinas com o Lume. Nós sempre fomos inquietos e queríamos ter estes trabalhos nos Atores de Laura, mas não conseguíamos fazer isto lá por que éramos muito jovens e a criação se pautava por uma estética mais determinada. Mas existia cada vez mais o desejo de, ao invés de estar sempre envolvidos com montagem de espetáculos, poder ir para a sala de ensaio e investigar, experimentar as técnicas e desenvolver alguma coisa a partir destes materiais